Le féminisme tunströmien
III. La quête de l’Autre
2. Les moyens pour atteindre l’Autre
Observando o espaço enunciativo que compõe as cartas analisadas, temos a presença do espaço enunciativo escravocrata, onde o branco, ou seja, a elite, enuncia, ordena, sugere, afirma, silencia, segrega, concorda e discorda neste espaço constitutivamente político, e por se tratar de um espaço enunciativo escravocrata as cartas não são de cunho amoroso, não abordam romances, mas sim, são de cunho administrativo, informativo, como podemos ver nesse recorte da carta 1, “Hoje tive o prazer de receber a tua carta de 16 do corrente mês. Muito, muito estimei saber que o José esta melhor, pois ardentemente desejo vê-lo bom quando lá chegar. Sinto que tenhas sofrido em sua saúde. É preciso não se descuidar no tratamento do Felicio assim como dos demais doentes, pois quanto menos atenção houver no tratamento deles maior será a demora deles em casar, e por isso mais prejuízo teremos em seus serviços.” Esse recorte é um exemplo dos enunciados administrativos e informativos que compõem as vinte e oito cartas analisadas em nosso trabalho. Diante disso, as cartas abordam os fatos referentes à fazenda, as viagens, aos trabalhos, aos moradores, as questões dos escravos, etc. Já que o Locutor/autor Antonio Carlos através das cartas procura manter um contato linguístico com sua esposa enunciando o que se passou com ele e o que ele deseja que ela faça para manter as coisas em ordem na fazenda.
Temos dessa forma, um espaço enunciativo político da língua que mobiliza a palavra escravo e o sentido de escravo de forma diferente. Em algumas cartas a palavra escravo aparece, mas em poucas ocorrências, devido às várias intervenções do governo por meio de algumas leis que produziram um sentido de apreensão nos escravocratas. No espaço enunciativo dessas cartas a palavra escravo é enunciada, seu sentido é projetado pelas análises funcionando no presente do acontecimento, como é o que acontece, por exemplo, na carta 14, “Amanhã passarei aqui até a tarde, quando sairei para Santo Antonio e depois para o Palmital. Tudo se acha ainda em sossego em relação aos escravos porém a vista do sítio em que estou me parece que não poderei deixar de fazer alguma coisa mais em favor deles.”
Já em outras cartas a palavra escravo é silenciada, aparecendo em seu lugar outras palavras que funcionam de modo a fazer com que o sentido de escravo também circule, mas de forma reescriturada, ou seja, nessas cartas é pertinente não enunciar a palavra escravo, pois essas cartas foram escritas e circularam na abolição, diante disso, oficialmente de acordo com a lei, a escravidão acabou, mas o que percebemos no espaço enunciativo dessas cartas é que a abolição não está presente, já que mesmo que a palavra escravo não apareça o seu sentido funciona e se faz presente no presente do acontecimento dessas cartas. Como é o que acontece, por exemplo, na carta 19, “É sensibilíssima a minha ausência desta fazenda no corrente mês por isso se não houver inconveniente adiaremos a viagem porém voltaremos imediatamente para aqui. As criadas eu deixo elas pela dúvida em que vou e de lá poderemos ordenar a ida delas.” Pela linguagem então podemos analisar a pertinência do silenciamento da palavra escravo posta pelo Estado por meio das leis.
Assim, por meio dessas cartas, de seus cabeçalhos e seus funcionamentos, observamos o espaço da escravidão, espaço político da divisão; já que nesse espaço o domínio da palavra é admitido somente aos afirmados pela normatividade, ou seja, os considerados aptos, os brancos, escravocratas, administradores, fazendeiros, membros da elite, afirmados pela ideologia da cor como seres superiores, como podemos ver na carta 4, onde o escravo funciona como mercadoria e diante disso não é afirmado como sujeito “Aqui chegamos ontem e hoje sigo para o Rio de Janeiro de onde pretendo voltar logo, visto como vou certo de não comprar escravos.”
Também é um espaço para silenciar; e isso ocorre pois os não afirmados não são ouvidos, não têm direito a palavra e muito menos um lugar de fala, porém, eles lutam e vão contra a normatividade por meio de revoltas, fugas (temos o embate, luta pelo pertencimento dos não afirmados) o que projeta um espaço enunciativo de conflito, de resistência, espaço de contradição, onde não são todos que têm acesso a palavra, diante disso, temos um espaço da ressignificação, pois trata-se de uma contradição da normatividade, ou seja, o político. Tem-se os que falam e ordenam em contra partida com os que escutam e executam, e aqueles que lutam pelo direito a palavra. Também é um espaço da política do silêncio já que certas palavras não são enunciadas, e/ou onde uma palavra apaga outra, no caso das cartas, a palava escravo muitas vezes é silenciada.
Diante disso, o espaço enunciativo escravocrata é um espaço de segregação, da política do silêncio, em que há a ausência da fala do negro, há ausência da autonomía, ou melhor, é caracterizado pela ausência e é nessa ausência que nos intalamos como mostra Rancière (1994, p. 71), “O estatuto da história depende do tratamento desta dupla ausência da
‘própria coisa’ que não está mais lá – que é o que passou e que jamais foi – porque ela jamais foi tal como o que foi dito. O afeto histórico está ligado à ausência em pessoa do que os nomes nomeiam”. Ou seja, no espaço enunciativo da escravidão, o escravo não é reconhecido e nem legitimado pela sociedade. E isso se projeta ao longo das análises quando a palavra escravo deixa de ser enunciada e outras palavras passam a ser enunciadas com o sentido de escravo, como por exemplo a carta 19 com a palavra criada e a carta 24 com a palavra mulato. Observando o espaço escravocrata das cartas que circularam após a abolição pelo viés da enunciação, somos agenciados a associar o memorável de suposta liberdade. Porém, ao analisar esse espaço, vemos que a suposta liberdade que deveria funcionar e caracterizar tal espaço também contraria a norma vigente. Já que nesse espaço um jogo simbólico entra em vigor, os escravos agora são os cativos, os colonos, os mulatos, que estão libertos diante da lei, porém, não têm lugar na sociedade que ideologicamente os significam como escoria e mazela e por isso, aqui o silêncio constitutivo funciona, enuncia-se cativo, colono, mulatos, criados para não se enunciar a palavra escravo, pois supostamente a escravidão está abolida, então a palavra escravo é silenciada, porém seu sentido continua presente.
Assim, mesmo pós-abolição os negros, mulatos, colonos, cativos, criados, não estão totalmente livres já que o sentido de escravo continua a circular e a se fazer presente como vemos em nossas análises. Ou seja, nas cartas mesmo com a abolição o sentido de escravo continua a funcionar, a significar.
Diante disso, Pereira (2012, p.5) mostra que “o período pós-escravocrata no Brasil passou a representar uma falsa relação amistosa entre brancos e negros e em nada neutralizou a supremacia de uma ideologia9 que persistia em destratá-los e gerar novas formas de
violências físicas, morais e psicológicas.” Ou seja, o negro mesmo livre, mesmo gozando do tão sonhado direito de ir e vir se encontra agora, com a abolição, diante a um muro que o separa dos brancos, não são iguais, pois cada um tem um passado e um histórico diferente e diante dessa visão, não podem se misturar ou conviverem de igual para igual.
Portanto, a abolição não garantiu ao negro sua liberdade, porque este não era reconhecido e nem tinha lugar para significar e falar, foi silenciado como nossas análises projetarão e é nessa medida que Rancière (1994, p.70) nos diz que “é necessário compreender as palavras que jamais foram ditas (...) é necessário fazer falar os silêncios da história.” E é isso que pretendemos com nossa pesquisa, apresentar o lugar do escravo, o silenciamento do escravo, mostrar sua existência e presença na história de São Carlos, na história do Conde e
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A acepção do termo ideologia abordada na citação é o desenvolvido pela sociologia que apresenta a ideologia como conjunto de ideias, pensamentos, doutrinas ou visões de mundo.
de sua família. Vamos fazer falar os silenciados pela escravidão. Seguimos agora com as análises das cartas.