Chapitre VI -Modélisation du cas Bolet
4.5 Modélisation des fonctions d'effet pour les relations simples
A generalizada adopção das tecnologias da comunicação incorporando informação espacial tem implicações no comportamento e decisões individuais, é certo. Porém, conforme se tem vindo a sugerir, o seu impacto não se fica por aí: é igualmente necessário situá-las no conspecto alargado das geopolítica e geoestratégia da informação à escala mundial.
Quanto à palavra “geopolítica”, esta tornou-se hoje em dia num chapéu de abas largas, conhecendo uma aplicação bastante elástica que é preciso minimamente aprofundar. Numa primeira aproximação, podemos assim começar por distinguir dois eminentes sentidos de uso: um mais restritivo, chamemos-lhe ortodoxo e um mais abrangente, chamemos-lhe heterodoxo.
O primeiro, sugerirmos, corresponde a uma área disciplinar que encara o conhecimento do espaço do ponto de vista estratégico e mormente do posicionamento dos estados, como instrumento passível de orientar a respectiva política externa. Como tal e como marca da água da sua génese, no final do século XIX, consoante o baptismo de Rudolph Kjellen, na sua forma “ortodoxa”, ela tende a ser cultivada e alvo de interesse no quadro dos Estudos Militares e subsidiariamente no das Relações Internacionais36.
Classicamente, os estados são aí encarados como agentes em competição pelo espaço e pela
36 De outra forma, para uma reflexão sobre a posição do conhecimento geopolítico no quadro das
modernas ciências sociais veja-se a reflexão de Peter Taylor no volume editado por Dodds e Atkinson (2000, p. 375 e seg.s). De uma forma geral a geopolítica adquiriu uma conotação negativa de que nunca se libertou em função da germinal associação à visão darwinista social das relações internacionais como luta pela sobrevivência dos mais aptos, que teve como corolário infeliz a política agressiva e racista de luta pelo “espaço vital” (lebensraum) empreendida pelo Terceiro Reich.
sobrevivência, conferindo-se especial atenção ao posicionamento geográfico como factor crucial, como forma de “política geográfica” ou “geografia política aplicada” (Klinghoffer, 2006, p. 102) em que se admite que a história é ao mesmo tempo uma luta pelo espaço e um fruto dos condicionamentos que ele impõe, mormente em matéria de recursos materiais e de controlo de pontos estratégicos e militares em que nem todos os actores estão igualmente dotados, concorrendo em conformidade por melhorar a sua posição. Neste quadro, são seus arautos notórios o almirante Alfred Mahan, grande teórico do poder marítimo britânico, Halford Mackinder, conceptualizador do poder terrestre e da eurásia como “pivot geográfico da história”, Giulio Douhet, teorizador do poder aéreo e da forma como este veio alterar radicalmente o exercício da guerra, o norte-americano Nicholas Spykman, geoestratega do Rimland e da política da contenção da URSS durante a Guerra Fria, o mal-afamado Karl Hausoffer, inspirador da acção das potências do eixo durante a II Guerra Mundial, para mencionar apenas alguns dos seus nomes mais grados37.
Na acepção geopolítica ortodoxa, em suma, o mapa mundial constitui um tabuleiro de xadrez em que as potências posicionam as suas peças e investem a sua força, disputando dadas “casas”/regiões como pontos estratégicos que permitam a um tempo conter os adversários e favorecer os seus interesses. A geografia é aí o objecto de análise e o instrumento dispositor da acção, do equacionamento dos melhores meios para atingir os fins do estado e para seleccionar onde actuar.
Num segundo sentido, conjugada com o interesse pelos estudos mediáticos, as expressões “geopolítica” e “geoestratégica” têm mais recentemente vindo a ser aplicadas compondo expressões como “Geopolítica da Informação”(Smith, 1980), “Geopolítica do Caos” (Ramonet, 1998) ou “Geopolítica da Cultura” (Mattelart, 2002a; Wallerstein, 1991).
Nesta acepção heterodoxa, a informação e a luta cultural, os valores e o trabalho das consciências são os objectos de análise e os Média constituem os instrumentos de acção e contra-acção, assumindo-se que na verdade eles instituem modernamente uma certa “irrelevância do espaço”, transversalmente ao qual surgem formas de competição geoeconómica em que o protagonista estado- nação sai menorizado e passa por seu turno a ser instrumentalizado pelas corporações multinacionais, traduzindo-se as lógicas de conflito de antanho numa gramática comum de comércio (Toal, Dalby, & Routledge, 1998, p. 125 e seg.s).
O aplicação heterodoxa pode caber em boa parte dentro da ortodoxa na medida em que a geopolítica tradicional se interessa igualmente pela cultura enquanto instrumento passível de projectar externamente a capacidade e agremiar internamente a vontade de um estado – cf. Almeida (1990). De outra forma a utilização nela do sufixo “geo” é algo licenciosa e dissolve o conceito pois efectivamente os ângulos assumidos têm muito pouco ou nada de preocupação “espacial” à parte uma ideia vaga de que no mundo actual a audiência tornou-se global, as opiniões públicas deixaram de estar isoladas, e, portanto, constituem vasos comunicantes em obediência designadamente à uniformidade dos valores de consumo. Constitui na verdade o exacto inverso de uma “geopolítica”: um pensamento em que a importância do factor território surge desvalorizada como categoria obsoleta ao arrepio da qual circula
o que é apresentado como efectivamente determinante: os fluxos intangíveis de informação e capital, nas suas formas electrónicas; algo igualmente contemplado dentro do chapéu da “Economia Política da Comunicação” (Mosco, 2009; Wasko, Murdock, & Sousa, 2011).
Dodds (2005), por exemplo, equivale sistematicamente a discussão dos Média à formulação “geopolítica popular” (grosso modo, ao emprego dos média para a formação e condicionamento da opinião pública) remetendo para a resposta a questões como “porque é que os média importam em termos da formulação da política internacional?” ou “como é que diferentes tipos de média produzem diferentes tipos de geopolítica popular?” No fundo trata-se de uma glosa do tema do imperialismo cultural e do equacionamento das indústrias de produtos mediáticos como engendradoras de “armas de manipulação massiva” (Fraser, 2014), de amaciamento da vontade, de acordo com uma formulação que nada confere de “autónomo” a um campo “geopolítico” e constitui de outra forma uma discussão elaborada das vicissitudes dos Média como forma de “propaganda”.
Assim, do nosso ponto de vista, num movimento de reaproximação às raízes ortodoxas, o pensamento especificamente geopolítico dos Média (e sobretudo dos “Novos Média”) implica uma circunscrição de objecto que remete preferencialmente para os tema da geovigilância38 (vigilância de movimentos e actividades alheias, para o conhecimento do próprio espaço através das deslocações nele empreendidas e para o conhecimento dos agentes através dos seus movimentos) e para a recolha de informação georreferenciada, para os tipos de usos dados por agências como a NSA norte-americana (Post, 2013) e cada vez mais para a problemática da introdução nos dispositivos de comunicação massificados de “alçapões” (backdoors) que permitam a sua exploração – mais recentemente alvo de acalorada discussão, mormente no Reino Unido e nos EUA, sobre como deve ser contemplado o acesso dos poderes públicos a mecanismos que assumidamente e por desenho permitam quebrar a privacidade e sob certas condições desfazer a encriptação dos dados.
A geoestratégia da informação geoespacial corresponde à forma aplicada deste conhecimento e destes instrumentos, à possibilidade de os usar para fins de segurança, para os quais o GPS, como sequência do LORAN, nasceu, orientando acções no terreno, mas igualmente como grande e informal manancial de inteligência que permite vigiar actividades terroristas, aferir barómetros de opinião e antecipar tendências por exemplo eleitorais em regimes adversos e assim sucessivamente.
À luz da análise foucaultiana da acção do poder através do panóptico (cf. acima, p.27) as tecnologias de comunicação e localização em particular podem ser assim vistas como uma forma de tecnologia política cujo efeito ultima ratio é a possibilidade da extensão da lógica organizacional paradigmática do presídio-ideal de Bentham, convertendo-se numa questão de distribuir os indivíduos num espaço no qual podem ser isolados e mapeados (Falzon, O'Leary, & Sawicki, 2013, p. 393; Foucault, 1975, p. 104 e seg.s; Leatherman, 2008, p. 14), instituindo formas rizomáticas e omniabrangentes de disciplina individual e biopolítica em que a monitorização das actividades
38 Em sentido análogo para uma extensa resenha da literatura e aprofundamento teórico do tema da
vigilância no capitalismo informacional veja-se o excelente trabalho de Allmer (2012). Monmonier (2002), por seu lado, oferece um panorama da história, modus operandi e aplicações da geovigilância com recurso às diversas técnicas de recolha de imagens, começando pela fotografia por satélite.
geográficas oferece um vasto espectro de possibilidades, incluindo lentes sobre a migração, a viagem e a distribuição de pessoas e coisas nos territórios e espaços, num processo em que a “vigilância governamental incluindo os sistemas de mapeamento e os sistemas de informação geográfica que ao longo do tempo sempre constituíram tecnologias de controlo governamental (…) operam estabelecendo normas e procedimentos estatísticos que permitem obter avaliações quanto à ameaça e aos riscos” (Crampton, 2003)39.
No plano das empresas multi e transnacionais, o aproveitamento remete ainda para a informação espacial como trunfo comercial e para a compreensão das relações entre as grandes corporações privadas e as entidades públicas, da forma como estas correspondem ou se furtam às suas solicitações. É neste caso tema grado a questão do geobloqueio (seja, a possibilidade de quartar acesso à informação, isolando e negando o acesso a partes da rede global – seja para fins políticos, evitando a dissidência, seja para fins comerciais, salvaguardando por exemplo direitos de autor), da possibilidade que os estados têm de quartar a circulação da informação e porventura dos quartados em reagirem através de mecanismos com o TOR40.
Trata-se por um lado de evidenciar as relações nem sempre claras entre interesses corporativos e interesses nacionais e por outro de avaliar as reacções de contrapoder que as affordances da tecnologia permitem.
As representações espaciais de uma dada sociedade são espelhos de cultura e civilização e os seus mapas “reflectem as qualidades espirituais dos costumes das pessoas e servem como um olho sobre a ordem social de um dado período e local” (Klinghoffer, 2006, p. 17). A associação desta representação espacial à forma visual é porém um apanágio eminente da modernidade, da generalização da Galáxia Gutenberg (McLuhan, 1964) que facilitou o seu caracter instrumental e o advento da “razão cartográfica” (Pickles, 2004, p. 6), a mesma modernidade que a promoveu ao sentido privilegiado na constituição do self, contemporaneamente aprofundadas através da “Galáxia Internet” (Castells, 2007), de que as plataformas colaborativas de produção e disseminação de informação geoespacial são o instrumento.
Embora para um observador contemporâneo tal possa parecer inconcebível, historicamente, porém, nem sempre a o conhecimento espacial foi veiculado na forma escrita (seja, como “mapas” mais ou menos interactivos) 41. Muito antes disso ele foi transmitido através do folclore, da dança e da cultura
39 De facto, o poder político sempre demonstrou ao longo do tempo especial apetência pelo controlo da
informação espacial, podendo um paralelo ser por exemplo estabelecido entre a degradação selectiva do sinal GPS que durante anos vigorou com a prática de D. Manuel I que, no auge do poder militar português, interditou a representação da costa de África para além do Castelo da Mina, reservando o seu conhecimento, ao mesmo tempo que vigorava a penalização com a morte para os pilotos que partilhassem informação com estrangeiros, mormente genoveses e florentinos. Para uma escalpelização histórica da relação entre conhecimento, poder e mapas veja-se Harley, Laxton, Andrews, et al. (2001) e em particular, sobre as políticas de silêncio, segredo e deliberada mistificação/desinformação ibérias na produção cartográfica ao tempo da expansão ultramarina, as p. 90 e seg.s.
40 Rede e infra-estrutura tecnológica que depende da participação e disponibilização voluntárias de meios
de forma a instituir um sistema de anonimato que permite iludir os mecanismos de análise, controlo e restrição de tráfego. Cf. https://www.torproject.org
41 Todas as generalizações são obviamente falaciosas. Assim, é necessário reconhecer que na antiguidade
europeia e nas civilizações romana e grega existia já uma notável preocupação com a geografia e com a representação pictográfica do mundo conhecido, mormente da bacia mediterrânica que na sua margem sul e na
oral, instituindo-se ritos, como os da cultura Viking, em que o conhecimento espacial era alvo de performance envolvendo o corpo ou da cultura inuíte que memorizava os seus itinerários nómadas através de canções.
A necessidade de traduzir o conhecimento espacial em mapas reforça-se assim como preocupação do estado-nação, como instrumento burocrático, à imagem da repartição napoleónica da França em departamentos, e como forma deste representar as suas pretensões territoriais e notavelmente coloniais. Quando, por exemplo, o rei Leopoldo da Bélgica se apresentou na conferência de Berlim de 1885 reclamando soberania sobre o “Estado Livre do Congo” fez-se acompanhar de uma mapa em que convertida em forma geométrica o processo de outra forma fantasioso de que tinha incumbindo o célebre explorador africano Stanley: levar contra a oferta de missangas um conjunto de caciques e chefes tribais a assinar de cruz um documento com vaga consciência de que se submetiam ao poder do rei belga (Hochschild, 1998).
Assim, em suma: os mapas instituem-se como representações de poder e o GPS (cuja história traçamos brevemente na parte Breve história, lugar, funcionamento e momentum dos sistemas de posicionamento global por satélite no ecossistema mediático, p. VI e seg.s) ele próprio nasce como tecnologia militar e veículo passível de facilitar a deslocação das tropas seja em terra seja no mar bem como de conferir “inteligência” às bombas teleguiadas.