Chapitre VII -SocLab
2.3 Architecture du simulateur
De acordo com Turner (2012, p. 6), num esforço de conceptualização que pretende superar a clivagem agência-estrutura, adoptando em alternativa a análise do que a realidade social tem em comum nos diversos patamares, os encontros, seja focados seja não focados, e respectivas dinâmicas, “as forças dos domínios micro e macro (...) compelem os actores que criam unidades corporativas e categóricas, e neste sentido, os encontros são os blocos de construção destas unidades de nível meso (…) que constituem as condutas através das quais as forças de nível macro atingem o micro.”
De acordo com o mesmo autor, as unidades corporativas de nível meso, definindo divisões de trabalho na prossecução de dados objectivos podem ser de três tipos, em sentido tendencialmente crescente de abrangência: grupos, organizações e comunidades.
Já as unidades categóricas constituem-se transversalmente, através de parâmetros que demarcam os indivíduos identificando-os como membros de populações que têm em comum uma condição definida pelos papéis desempenhados ou por dados interesses.
O nível meso está, por conseguinte, sujeito a dois tipos de forças que articula. De um lado forças estruturantes emanando do ambiente social tais como a economia, as políticas públicas, a religião, a educação, a ciência, a medicina, o desporto, as artes e a percepção relativamente à forma como as relações de parentesco se articulam (e.g., se a sociedade é matriarcal ou patriarcal, quais são as “obrigações” dos novos relativamente aos mais velhos; qual a expectativa relativamente à sua autonomização, se esta se faz por constituição de um núcleo familiar autónomo ou por extensão dentro de uma família alargada base, como por exemplo na cultura de muitos países árabes etc….) e do outro lado forças individualizantes que se manifestam como necessidades transaccionais na dinâmica dos encontros, designadamente a necessidade de verificação da identidade (ou mais apropriadamente “identidades” que o indivíduo encerra seja em função do núcleo de sentimentos que individualmente lhe conferem um sentido de autonomia e projecto de vida, seja sociais, em função da pertença a distintas unidades categóricas, grupais e em função dos diversos papéis sociais que encarna); a necessidade de inclusão num grupo (sociabilidade), de confiança (previsibilidade), de facticidade (a definição da situação em que cada encontro decorre presume tipicamente que os participantes crêem ter algo em
comum, consistindo essa convicção na condição que define uma intersubjectividade que potencia a troca e o diálogo) e finalmente a necessidade de obter um lucro (não forçosamente material mas alguma forma de recompensa e satisfação).
Pese embora a conceptualização das relações sociais como encontros em Turner ser eminentemente territorial e espacial em sentido estrito (continuando baseada no paradigma da “sociedade nacional” ao aduzir que existe um sentido hierárquico na forma como as cadeias de encontros se integram em unidades corporativas e categóricas que por sua vez incorporam domínios institucionais e sistemas de estratificação próprios de cada sociedade, colocando-se, finalmente, acima dela os “sistemas inter-societais”, de vocação inter-nacional), e por conseguinte não directamente vocacionada para os encontros do tipo mediado possibilitados pelas tecnologias de comunicação, a sua “arrumação” é útil e pode ser facilmente estendida a eles e à dinâmica das comunidades virtuais56.
Relativamente aos ambientes de comunicação virtual, a adaptação consiste sobretudo em admitir que o domínio institucional e o sistema de estratificação não tem forçosamente que ser territorial, ele pode consistir simplesmente nas condições possibilitadas pelo ambiente socio-tecnológico, marcado pelo seu carácter inter-societal e pelo enquadramento em espaços comunicativos de abrangência global geridos não por estados mas por empresas multinacionais de comunicação e de fornecimento de plataformas e serviços tecnológicos. Neste quadro a distinção entre “unidades corporativas” e “categóricas” é menos clara mas igualmente observável sobretudo se atendida em função da origem dos espaços, seja corporativa (imagine-se por exemplo um fórum de discussão destinado a apoiar os clientes de uma dada empresa, uma plataforma de e-learning criada e mantida para apoiar a administração de um curso superior ou mesmo uma página criada no Facebook pelo pelouro do turismo de um dado município) seja categórica, como no caso típico das incontáveis comunidades de interesses, prática e hobbies cujo impulso partiu espontaneamente dos próprios utilizadores.
Poderíamos, assim, entender a Internet, conforme sugere Cavanagh (2007), simultaneamente como um meio, um espaço social e uma tecnologia arvorando um ambiente com processos de produção, distribuição e regulação com características próprias. Este ambiente, colocado à disposição dos
56 De facto a específica reflexão de Turner (2010c, p. 71) sobre os efeitos da mediação tecnológica nos
encontros focados enfatiza como condição uma plena mobilização dos sentidos tendente a formas de coordenação rítmica, difíceis de lograr à distância. Admite, no entanto, que a ausência de pistas visuais pode ser paliada na medida em que os encontros se processem no quadro de unidades corporativas que providenciem um enquadramento cultural e estrutural firme, em que os indivíduos tenham uma ideia clara da posição ocupada pelos participantes e dos papéis que é suposto desempenharem bem como das normas, tipos de discurso e emoções aceitáveis. Do muito que se tem estudado sobre a presença social nas comunidades virtuais é, no entanto, evidente que a generalidade destes elementos estão de facto presentes. Seja, por exemplo, nas linhas de orientação para a participação, cuja disponibilização tipicamente acompanha o ingresso num fórum, seja no uso dos emoticons, seja mesmo na definição dos papéis por atribuição de categorias de estatuto aos participantes individuais (“moderador”, “perito”, “iniciante”…), normalmente em função da experiência medida pela antiguidade (data de registo) e número de participações. Turner insiste, porém, que a comunicação mediada mantém uma diferença substancial, com que somos obrigados a concordar: pese embora exemplos tais o Skype e formas de VOIP e videochamada, no geral, mais do que simultânea ela tende a ser sequencial, em particular na forma típica (e mais comum) do discurso escrito. O corolário é que enquanto os encontros focados se processam na boca de cena (front stage) de forma instantânea os encontros mediados tendem a decorrer nos bastidores (back stage), admitindo simultaneamente um sentimento de salvaguarda e relax que permite que os indivíduos ventilem sentimentos, estilos e propensões que normalmente refreiam e ao mesmo tempo uma orquestração mais elaborada das formas de auto-apresentação.
indivíduos, é subsequentemente habitado e apropriado gerando fenómenos de associação e a constituição de espaços de encontro meso – tipicamente feitos equivaler a “comunidades virtuais” - em que cada um se posiciona em função das suas necessidades transaccionais, no plano da gratificação emocional, da prossecução do seu estatuto, da sua identidade e dos seus papéis sociais e em função da sua bagagem cultural em que pesam factores como a demografia (sexo, idade…) e a ecologia (ambiente em que habita, o qual condiciona a disponibilidade ou não de recursos materiais e humanos que podem ou não gerar necessidades passíveis de ser supridas pela participação no ambiente virtual).
Numa primeira repartição aproximativa e ideal-típica, a Internet seria assim um espaço de mediação simbólica, com possibilidades nos domínios afectivo (da manutenção de laços com os próximos até, em última análise, ao domínio amoroso, para a busca de pares – e.g. o fenómeno das noivas por catálogo ou sítios de encontros tais o Tinder ou o SecondLove); monetário-pecuniário (e.g. os inúmeros sítios de vendas, na forma do comércio virtual institucionalizado e de forma crescente em espaços de troca informal, com o eBay ou o OLX); de influência e poder (seja na prossecução do capital social mediante o cultivo de uma dada imagem, no plano do marketing pessoal, seja em termos políticos, como plataforma para a organização de movimentos sociais); de sacralidade e misticismo (através do carácter imanente atribuído à própria tecnologia, mas também para a religião, como local de prossecução das mais diversas crenças esotéricas e mais ou menos sobrenaturais – por exemplo, teorias da conspiração e fenómeno OVNI); de aprendizagem (mormente informal, mas também formal através de formas de ensino à distância institucionalizadas como o e-Learning); de conhecimento científico (por exemplo através do exercício que aqui se pretende empreender); de saúde (desde as inúmeras farmácias em linha até aos fóruns de discussão sobre assuntos como a maternidade, o bem-estar psíquico e auto-ajuda etc.); de competição (através dos inúmeros jogos e do consumo posicional) e finalmente de estética (equiparando o web design e suportes ricos com o shockwave a formas de arte digital bem como os e-portefólios digitais de cada um e os processos de inclusão, exclusão e manipulação dos artefactos digitais neles incluídos a formas de exercício do sentido do gosto).
4.1.1 DISTÂNCIA E (DES)CONTINUIDADE NAS REDES
Em tese, as transformações que as tecnologias de comunicação admitem nas relações sociais, permitindo que se mobilizam interlocutores e se aceda à informação, são sobretudo função da sua acção sobre os contínuos distância-proximidade, presença-ausência e da gestão destas; das pausas e retomas na comunicação; da fluidez e do ruído; da constância e da interrupção como condições determinantes do compromisso e da reciprocidade entre actores.
Todavia, num estudo pioneiro em que comparam os usos do telefone, do correio electrónico e da comunicação face-a-face numa mesma comunidade antes e depois do avento da Internet, em 1978 e 2005, respectivamente, através de entrevistas a um conjunto de 84 indivíduos, atendendo aos interlocutores serem relações intimas ou não intimas, Mok, Wellman & Carrasco (2010) chegaram à conclusão de que embora como seria de esperar fosse possível observar alguma especialização nos diferentes modos de contacto consoante a proximidade geográfica, tendo o correio electrónico sido
adoptado a todos os níveis, para a comunicação com relações tanto distantes como próximas, tal tendência não foi porém acompanhada da mudança na frequência dos contactos através dos outros modos de comunicação. Ou seja, a Internet funcionou como um acréscimo que não substituiu nem aumentou significativamente os contactos nem face-a-face (predominantes com indivíduos habitando até oito quilómetros) nem telefónicos com as relações regionais (num raio de 160 quilómetros).
Assim, ainda que o mundo se tenha tornado crescentemente mais plano (Friedman, 2007), tal como a dinâmica da memória é inextirpável e incompreensível sem o esquecimento, a dinâmica das redes continua a definir-se tanto pela passibilidade de colocar as pessoas ao alcance de uns tantos cliques necessários para enviar um e-mail ou iniciar uma conversação no Skype como pela distância constituída pelas inúmeras descontinuidades com que a comunicação – eminentemente assíncrona - se processa. Sendo líquido que a comunicação em rede admite acrescida conectividade, não é, porém, líquido que esta facilidade tecnológica gere necessariamente dividendos. Consoante formulado por Kolb (2007): “É bom ter um espectro de contactos sociais mais alargado, porém obter algo como um compromisso de almoço com alguém ou um emprego torna-se muito difícil uma vez que se passe de uma separação em primeiro ou segundo grau dentro de uma rede social ”.
Um equívoco comum consiste, por conseguinte, em presumir que a “conectividade”, uma característica própria aos dispositivos computacionais, se traduz necessariamente em “conectividade social”, admitindo como efeito lógico que o simples facto de as pessoas se encontrarem declarativamente associadas no espaço comunicativo “não pode deixar” de ter reflexos no espaço social sendo certo que a eficiência da comunicação é tanto função do canal como do ruído e sobretudo da estabilidade da ligação, o que em si, na formulação do “individualismo em rede”, em Wellman (ver adiante), se torna problemático pois as “comunidades pessoais de comunicação” obedecem a uma lógica instrumental de alternância e descontinuidade difíceis de conciliar com um compromisso fluído que permita a sua mobilização estratégica.
Ainda na sugestão de Kolb, a “distância” nas redes sociais tecnologicamente mediadas deve ser definida, de forma abrangente, como “extensão ou prevalência dos lapsos/descontinuidades nos elos sociotécnicos”. Produto das interrupções na conectividade entre actores sociais resultantes de um conjunto de factores, incluindo:
• Descontinuidades espaciais strictu sensu (distância euclidiana);
• Descontinuidades temporais (e.g. diferentes zonas horárias entre interlocutores);
• Descontinuidades técnicas (e.g. inacessibilidades em função dos condicionalismos da cobertura das redes sem fios);
• Descontinuidades de segurança (e.g. filtros de spam)
• Descontinuidades na conectividade social, incluindo as emergentes das dinâmicas: o Interpessoais (e.g. diferentes valores e interesses, conflitos de personalidade)
o Grupais (e.g. falta de confiança, conflitos de liderança e ou insuficiente sentido de propósito). o Organizacionais (diferenças de cultura organizacional)
o Económicas (enquadramento nas políticas regionais, locais e internacionais) o Políticas (conflitos de poder, instabilidade do ambiente internacional) o Filosóficas (individualismo, isolacionismo, fundamentalismo)
Em linha com a especial importância da facticidade como necessidade transaccional nos encontros em Turner (2010c, p. 213 e 225 e seg.s), Kolb, em suma, alerta-nos para o facto de os factores que determinam a separação social não serem subsumíveis à pura distância quilométrica, sendo
inúmeras as razões para o conflito e a interrupção, residindo, como tal, o desafio da comunicação em rede naquilo que Coyne (2010), cooptando analogamente a sociologia fenomenológica de Schütz, define como manter a “afinação” entre elos tendencialmente divergentes. Nas redes sociais os processos de sociabilidade e interacção dependem sobretudo da partilha da experiência vivida, da possibilidade de fomentar uma percepção partilhada da realidade. Efectivamente, menos da possibilidade de retirar partido da soltura do espaço do que do sentido do seu domínio pelo movimento de informação intersubjectivamente empreendido sobre ele.
4.1.2 DA RECIPROCIDADE COMO ACTO AUTO-INTERESSADO
Necessidade transaccional igualmente determinante, a verificação da identidade, na comunicação pessoal de massas, é sobremaneira um mecanismo de auto-reflexão e um exercício de persuasão própria (construção da autoconfiança, num processo direccionado para dentro, intracção) e alheia (forma de marketing pessoal ou personal branding, num processo direccionado para fora, pela interacção). É reflexivo na medida em que o indivíduo se avalia eminentemente comparando a imagem que tem de si próprio com o entendimento que faz da imagem projectada pelos outros. Pela integração da segunda na primeira através da assimilação, ao tentar integrar-se nos grupos particulares, dos valores dominantes neles, sem o que não há comunhão de sentido/significado e logo não há diálogo nem facticidade.
O desejo de integração num grupo, perseguindo a socialidade, é, no entanto, um impulso variável em função do perfil individual e secundário à verificação da identidade. Para muitos é admissível que a auto-publicação seja eminentemente um processo de auto-publicitação, em última análise um exercício de narcisismo (Aboujaoude, 2011; Lasch, 1978; Twenge & Campbell, 2009) e de reflexão auto-complacente, em cujo caso “grupo” é meramente sinónimo de “audiência”. Porém, uma mobilização das possibilidades da comunicação mediada, mesmo egoísta, para os próprios fins, impõe naturalmente a sociabilidade e nesta não há reciprocidade sem gratificação, nem troca sem confiança. Excepto, porventura, quando se desenvolvem laços de um tipo forte, ou por a interacção mediada surgir apensa à comunicação face-a-face ou quando o contacto mediado é intenso ou projectivo quanto baste para desenvolver laços e compromissos emocionais suficientes para admitirem a “generosidade” como “gratificação” - seja, a contrapartida de se sentir uma melhor pessoa.
A problemática da “reciprocidade” é, por conseguinte, central à comunicação em rede na medida em que conquanto na comunicação focada face-a-face ela esteja normalmente garantida (dificilmente um indivíduo interpelado directamente não devolve uma resposta), na forma mediada ela nunca o está (é por comparação muito mais comum não obter por exemplo reposta a um e-mail ou a uma mensagem deixada no voice mail).
Se “a força de um laço corresponde à combinação (provavelmente linear) entre o volume de tempo, a intensidade emocional e a intimidade (confiança mútua), e os serviços recíprocos que o caracterizam” (Granovetter, 1973, p. 1361), num ambiente em que os laços fracos pontificam, como na comunicação suportada pelas plataformas online, força e fraqueza confundem-se pois, as vantagens de
poder estabelecer pontes entre redes e comunidades, diversificando contactos de forma instrumental e transiente de forma a aceder a tipos de informação para além do círculo de proximidade, têm como fraqueza o facto de o contexto invocar menos simpatia e por conseguinte se traduzirem num recurso passível de mobilização menos fiável em momentos de necessidade.
Na ausência de garantias, a reciprocidade nas redes sociais é assim função eminentemente da coincidência entre verificação da identidade e auto-estima (as pessoas respondem porque isso as faz sentir melhor consigo próprias) e da expectativa de obter como gratificação um incremento no status (as pessoas respondem porque esperam que ao revelar dado conhecimento pericial isso as engradeça aos olhos dos outros).
Esta dinâmica chega a engendrar formas sociativas no espaço virtual também porque a organização nestas é a opção “economicamente” mais viável. Porque, num regime de laços fracos, ao “colectivizar” os processos de troca de informação, os indivíduos esperam maximizar as hipóteses de reciprocidade, vendo o seu investimento correspondido em momentos de necessidade se não por a ou b, por qualquer outro participante motivado, com acesso ao espaço comum.