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CHAPITRE 1 : GLOBALISATION ET RÉGIONALISATION: DEU

1.3 Les considérations institutionnelles autour de la régionalisation

1.3.4 Les mésorégions ou le passage de la verticalité à l’horizontalité

O conceito de gênero é entendido aqui dentro da abordagem feita pela Análise Crítica do Discurso (ACD) representada, entre outros autores, por Gunther Kress (1985, Hodge & Kress 1988, Kress & van Leeuwen, 1996). Esta abordagem leva em conta as relações institucionais e ideológicas que são consideradas como fatores subjacentes à análise das relações de poder e solidariedade presentes no discurso.

Estes autores têm em comum uma abordagem que considera texto, discurso e gênero como integrantes de uma mesma manifestação social, na qual os gêneros são considerados como usos de linguagem determinados por tipos de atividades específicas da sociedade e de grupos sociais, expressos por discursos originados nas instituições que se realizam lingüisticamente através dos textos. Cabe aqui ampliar essa noção e incluir a realização de significados em outras modalidades de linguagem e outros suportes e construções como os que acontecem no ambiente digital.

Bakhtin foi um dos primeiros teóricos a resgatar o conceito de gênero, já desenvolvido anteriormente na retórica clássica, ao pensar na linguagem. Para ele, os gêneros são “tipos relativamente estáveis de enunciados determinados” (Bakhtin, 1988). Considera que cada enunciado é único e limitado pelo enunciado do outro, pela alternância dos sujeitos discursivos (uma réplica de um diálogo, um outro texto, um romance), mas cada esfera de uso da língua (oral ou escrita) elabora enunciados que se cristalizam em tipos estáveis no conteúdo, no estilo e na composição.

Os gêneros são, para Bakhtin, caracterizados pelo seu conteúdo temático, seu estilo individual e composição formal e sua escolha depende de

fatores contextuais que determinam as características temáticas, a relação entre os participantes e a intenção do locutor. A diversidade dos gêneros é diretamente relacionada às atividades humanas e às relações sociais e seu desenvolvimento e transformação se estabelece dentro da praxis de cada esfera social em que um gênero específico tem origem. Bakhtin sugere uma tipologia dos diversos gêneros feita a partir das instituições sociais, com um recorte que partiria da macro articulação da sociedade e chegaria às marcas lingüísticas micro estruturais presentes nos enunciados.

Kress (1985) define gênero a partir desta conceituação de Bakhtin. O autor considera que os gêneros têm formas e significados específicos, que são derivados de funções, propósitos e significados das situações sociais. Os diversos gêneros são um índice preciso das situações sociais mais relevantes para uma comunidade numa época determinada. Kress acrescenta à noção de gênero a de discurso, seguindo a conceituação desenvolvida na obra de Michel Foucault. Para o autor, discurso é definido como:

Conjuntos de enunciados sistematicamente-organizados que dão expressão aos significados e valores de uma instituição. Um discurso provê um conjunto de enunciados possíveis sobre uma dada área, organiza e dá estrutura à maneira na qual um tópico particular, objeto, processo deve ser falado. Sendo assim, o discurso provê descrições, regras, permissões e proibições sobre ações individuais e sociais. (1985:7)

Esclarece que ambos, discurso e gênero, são formados nas estruturas e processos sociais - discurso deriva das instituições e gênero das ocasiões sociais convencionais em que a vida social acontece. Os textos são, portanto, duplamente determinados: pelos sentidos do discurso que aparecem no texto e pelas formas, significados e construções de um gênero específico.

A definição de Kress, assim como a de Bakhtin, não se detém apenas na busca de convenções genéricas a partir de regularidades textuais, mas na exploração das formas como os participantes se posicionam nos textos e no funcionamento dos textos como práticas discursivas, o que reforça a função

social da linguagem e contribui para a compreensão das relações de poder envolvidas num evento comunicativo.

Machado (2002) faz uma reflexão acerca dos gêneros digitais, também se baseando no conceito bakhtiniano, mas recuperando o conceito a partir de Todorov para abordar o aspecto da transformação dos gêneros, o que é fundamental para que se possa entender os gêneros no ambiente digital. A autora nos mostra que também para esse autor os gêneros são regras surgidas nas formas de interação que se fixaram à medida que seus usos foram se consolidando. Acrescenta que, para Todorov, para que uma mensagem seja inusitada deve transgredir o gênero, o que, embora pareça paradoxal, não o anula, pelo contrário, a própria transgressão, quando bem aceita pela comunidade, também se transforma em regra. Um novo gênero é sempre a transformação de gêneros antigos.

Essa transformação pode ser por inversão de algumas estruturas, deslocamento de outras ou por combinação de elementos de outros gêneros ou de estruturas internas. As transformações podem acontecer por ontogênese, isto é, quando a evolução se dá dentro de um único sistema de codificação; ou por filogênese, quando a evolução acontece com migração para diferentes sistemas de codificação (mídia). Machado aponta a narrativa como o exemplo de gênero com maiores transformações ontogênicas: conto, novela, romance, etc; e filogênicas: dos mitos e lendas orais e escritas passou aos filmes, às histórias em quadrinho, às novelas de rádio e TV, aos videogames, aos hipertextos digitais, à hipermídia, etc.

Os gêneros no ambiente digital derivam, portanto, de formações genéricas já existentes na linguagem visual e verbal, oral ou escrita. A diferença de suporte, porém, como nos mostra Machado, implica uma diferença de codificação, que implica, por sua vez, uma diferença de linguagem e de compreensão. Segundo Watters & Shepherd (1997) os gêneros presenciais, orais ou escritos, foram transpostos para o ambiente digital e adaptados às possibilidades do meio. Para estes autores os gêneros digitais funcionam como

uma metáfora de ambientes familiares que permite aos usuários reconhecer estruturas convencionais e navegar no ambiente digital sem a sensação de estranhamento:

O conceito de gênero para documentos digitais disponíveis na Internet estende a noção de gênero literário ou retórico pela adição da interação e do processamento do usuário. Nós vemos que inicialmente um gênero digital pode mimetizar sua contraparte impressa e evoluir num novo gênero pela exploração do novo meio. Cada um dos gêneros digitais progrediu de uma reprodução eletrônica do original, através de uma adaptação inicial para o meio, para um gênero que explora integralmente o novo meio e pode ser reconhecido apenas marginalmente como o gênero original. Em cada uma dessas evoluções, os requisitos de transição e aprendizagem do usuário foram ampliados em bases necessárias... Os gêneros digitais trazem um quadro de familiaridade para usuários de sistemas muito diferentes. Por exemplo, se os jornais digitais trabalhassem como jornais impressos, os leitores compreenderiam o tipo de conteúdo esperado e como manipulá-lo, com pequeno ou nenhum treinamento. (Watters & Shepherd, 1997:12)

Para Machado, isso se dá porque as mídias digitais criaram formas discursivas que são a interpretação de formas culturais que têm uma história. Recodificam os gêneros já existentes com suas novas ferramentas e suportes, criando formas modelizantes, encadeadas por uma longa tradição de gêneros (Machado, 2002):

Os Gêneros Digitais são, antes de mais nada, processos comunicativos processados digitalmente ou pela via on-line, isto é, pela conexão e estrutura da rede de computadores. Trata-se de formas arquitetônicas cujas estruturas são modelizadas por linguagens artificiais, criadas pela engenharia digital, para combinação e reprocessamento de sistemas de escrita e gêneros literários, discursivos; de gêneros informativos da mídia impressa; da linguagem visual e do design gráfico; dos gêneros audiovisuais do cinema, do rádio e da televisão. É todo um sistema de troca e da engenharia que o viabiliza que passa a ser objeto de estudo dos gêneros. (2002:76)

As transformações pelas quais passam os gêneros para se adaptar ao ambiente digital não são apenas de interatividade e de navegação. A autora ressalta que, diferentemente do texto impresso e oral em que o sentido é inerente ao discurso, no contexto digital o sentido é processado por algoritmos e mediado por ferramentas, que chegam a impor uma nova retórica e uma nova forma de interação entre as modalidades de linguagem. Aprender a produzir hipertextos é aprender a produzir outros gêneros, a reprocessar os usos da língua, da imagem, do som. É aprender a integrar modalidades de linguagem e adequá-las a suportes e ferramentas específicos.

Nesta pesquisa, essas noções tiveram um lugar focal no processo de planejamento e preparação das aulas e materiais empregados no curso. Também foram subsídio direto tanto para o professor quanto para os alunos durante todo o processo de ensino-aprendizagem. Para perceber como os vários gêneros se entrecruzam e se reconfiguram no ambiente digital, foi fundamental para os alunos, partir de conhecimentos prévios compartilhados, trazidos dos gêneros presenciais, escritos, orais ou multimodais, já familiares. Vimos que as produções iniciais, aqui analisadas, também têm como ponto de partida os gêneros presenciais que os alunos já dominavam, como apontam Watters & Shepherd (1997). Como veremos na discussão dos resultados, à medida que foram se familiarizando com os gêneros digitais e ampliando seu repertório é que deixaram de apenas reproduzir eletronicamente gêneros presenciais.

A seguir, expomos as bases que nortearam a proposta de ensino- aprendizagem planejada e implementada no curso.