A mais pequena unidade das legiões romanas era designada contubérnio, composta por 8 a 10 legionários; a centúria era composta por 10 contubérnios, com 80 a 100 legionários, comandados pelo centurião; a cohorte tinha 6 centúrias, que totalizavam 480 a 600 legionários, comandada pelo pretor; finalmente, a legião tinha 6 cohortes, que totalizavam o total de efetivos, entre 4 800 a 6000 homens, e era comandada por um general. Para além destas unidades, ainda existia a vexillatio de 500 e 1000 homens.
A classe mais baixa das legiões era o miles gregaris (soldado raso) ou munifex (). De seguida vinham os isentos do serviço militar (immunis), descritos no Digesto, livro de jurisprudência, ao tempo do imperador Justiniano (séc. VI d.C.), que nos interessa conhecer, pois menciona os técnicos e os especialistas do exército romano: mensores (medidores),
optiones ualetudinarii (ajudantes de enfermaria), medici (médicos), capsarii (carpinteiros), et artífices qui fossam faciunt (artífices que escavam fossos), ueterinarii (veterinários), architectus (arquiteto), gubernatores (timoneiros), naupegi (construtor de barcos), ballistrarii
(balísticos), specularii (vidreiros), fabri (mestre de obras), sagittarii (flecheiros), aerarii (caldeireiros), bucularum structores (construtores de currais), carpentarii (construtores de carros), scandularii (os que fazem telhados de tábuas), gladiatores (fabricantes de espadas),
aquilices (vedores da água), tubarii (fabricantes de trompetas), cornuarii (fabricantes de
cornetas), arcuarii (construtor de arcos), plumbarii (os que trabalham o chumbo), ferrarii (os que trabalham o ferro), lapidarii (os que trabalham a pedra), et qui calcem cocunt (os que cosem calçado), et qui siluam infindunt (os que abrem caminhos na floresta), qui carbonem
caedunt ac torrente (os que fazem carvão). In eodem numero baberi solent lani (talhantes), uenatores (caçadores), uictimarii (ministro dos sacríficios), et optio fabricae (ajudante de
obra), et qui aegris praesto sunt (os que cuidam dos doentes), librarii quoque qui docere
possint (escribas que também podem ensinar), et horreorum librarii depositorum (escribas
dos víveres existentes), et librarii caducorum (escribas dos que morreram) et audiutores
corniculariorum (ajudantes dos oficiais subalternos), et stratores (palafreneiros), et polliones
(proclamador). (Palao Vicente, 2006: 137).
Outras profissões legionárias especializadas, encontram-se na lista de B. Dobson, entre as quais se destacam o architectus, já identificado mais acima, o armamentarius (cuidador das armas), o caelator (cinzelador), o canalicularius (construtor de canais), o
fabricienses (construtor), o hidraularius (hidráulico), o librator (medidor do nível da água), o mensor agrarius (agrimensor) e o structor (pedreiro) (Le Roux, 1989: 180).
No caso de Hispania, por causa da importância das minas, e da presença de um considerável contigente de tropas, foi criada a categoria dos beneficiarii procuratoris Augusti, cuja principal função seria o abastecimento das tropas, e a administração e o controle das minas, especialmente naquelas em que o exército ocupou um lugar importante, no seu controlo e organização, como é o caso das explorações mineiras de Valduerna e outras explorações do noroeste da Península Ibérica (Palao Vicente, 2006: 152-154). As legiões também poderiam ter a função de vigilância e transporte, para as explorações mineiras, dos
damnati a metalla (condenados às minas), referidos nas fontes clássicas.
Durante o séc. I d.C., a Cohors I Gallica foi uma unidade de infantaria quingenaria (500 soldados), recrutada como unidade de voluntários, entre cidadãos romanos de Itália, dirigida por um tribunus militum cohortis, de categoria equestre, e dirigia 6 centuriões que, por sua vez, comandavam 6 centúrias de 80 homens, no total de 480 homens, constituindo-se como uma unidade auxiliar do exército romano.
Recebeu as suas insígnias no dia 22 de abril, mas não se sabe o ano, provavelmente sob o reinado de Augusto, como parece indicar a ara de Oneum (Omis, Croácia). Aí, aparece nomeada como [COH(ors) I GA]LLICA VOL(untariorum), pois havia sido recrutada à pressa, entre os cidadãos romanos de Itália, para reforçar o exército do rio Rhin (Alemanha), depois da clades variana de 9 d.C, ou seja, a batalha da Floresta de Teutoburgo, e enviada rapidamente a esta fronteira, pelo que as suas insígnias podem ter-lhes sido entregues em 22 de abril de 10 d.C. O apelido Gallica indica que combateu na Gália. Como testemunho da sua passagem pela Gália, a unidade manteve durante toda a sua história, como símbolo, o javali, animal totémico de tradição gaulesa. Pelo valor dos seus homens, recebeu o epípeto de
Civium Romanorum, possivelmente durante a campanha postvariana. A unidade permaneceu
de guarnição no Ilirico, desde finais do reinado de Augusto.
Ibérica), num momento indeterminado, entre o reinado de Tibério e o de Cláudio, e aí permaneceu até ao desaparecimento do exército romano na Hispania, em princípios do séc. V d.C. (Jiménez de Furundrena, 2007: 77).
Tavez no final da dinastia Flávia, foi transformada numa unidade mista de infantaria e cavalaria. Quando foi transformada em Cohors I Gallica Equitata Civium Romanorum, passou a ser comandada por um praefectus cohortis, também de categoria equestre, que dava ordens a 4 decuriões que comandavam 4 turmae de 30 jinetes, e 6 centuriões que comandavam 6 centúrias de 80 homens, no total de 600 homens. Teria a sua base em Baños de Bande, Orense (Galiza, Espanha), ocupando o local, desde a dinastia Flávia até Adriano, mas sem provas concludentes, ou em Herrera de Pisuerga, Palencia (Castela e Leão, Espanha), ambos locais com acampamentos romanos.
Durante o séc. II, a unidade colaborou na exploração das minas de ouro do Teleno, perto de Asturica Augusta e em Tresminas (Jiménez de Furundrena, 2007: 81), mantendo regularmente vexillationes (companhias) encarregadas de supervisionar a extração do minério e garantir a sua segurança quando era transportado. Entre os anos 144 e 152, fez parte dos destacamentos de tropas da guarnição de Hispania, que lutaram contra os Mauri, no Norte de África. Durante as invasões da Bética, pelos Mauri, em 171, 175-177, no reinado de Marco Aurélio, deve ter acompanhado a Legio VII Gemina Felix, à zona para repelir os invasores. No final do séc. IV, ou princípios do V d.C., a unidade havia perdido a sua cavalaria e continuava de guarnição à Hispania, com acampamento em Veleia (Iruña, Álava, Espanha).
A legião que parece ter desempenhado um maior papel, foi sem dúvida, a Legião VII Gémea. A Legio VII Gemina (Pia) Felix, nasce no “ano dos quatro imperadores” (68 d.C.) e formou-se a partir da Legio VI Victrix, e algumas tropas auxiliares que se encontravam na Península Ibérica. Os primeiros legionários eram originários da Citerior, embora houvesse alguns lusitanos. Parece ter-se formado em Clúnia, quando Galba foi eleito imperador (Palao Vicente, 2006: 47-51). Galba necessitava de legiões para se opôr a Nero, tendo formado a
Legio VII Galbiana ou Hispana, nomes não oficiais, depois Legio VII Gemina. O apelido Gemina deve-se ao facto de ter existido uma outra, a Legio VII Claudia. Em 69 d.C.
encontrava-se na província da Pannonia, atual Bulgária, sob o nome de VII Galbiana ou VII
Hispana. Após as guerras civis, e algo desfalcada, poderá ter recebido efetivos da Legio I Germanica, tomando, com Vespasiano (69 a 96 d.C.), o nome de VII Gemina Felix. Em 73-74
Legio (León, Espanha), onde a VI Victrix estivera estacionada, com funções, entre outras, a de
controlar e organizar as explorações mineiras, bem como a saída e transporte dos metais, o que fez desde a época de Augusto até à instalação da VII Gemina (Palao Vicente, 2006: 268).
Participou na construção da ponte de Aquae Flaviae em 79 d.C.. Uma ou várias
vexillationes desta legião, participaram, com Trajano, nas guerras da Dácia e na Britannia, e
sob Adriano, em 122. Estiveram também a combater as revoltas dos Mauri, em África, possivelmente durante o reinado de Antonino Pio. Durante o reinado de Marco Aurélio, houve em Hispania uma invasão de Mauri, em 171-172 d. C., onde possivelmente participou esta legião. Esta foi a única que esteve acantonada na Península Ibérica, durante quase toda a sua existência, pois apenas esteve fora, pelo período de 6 a 7 anos, no início da sua formação e em guerras pontuais, com algumas cohortes, no início e finais do séc. II d.C.. O nome completo desta unidade, Legio VII Gemina Pia Felix, deverá datar do reinado de Septímio Severo (193 a 211 d.C.), após a vitória sobre Clódio Albino na batalha de Lugdunum (Lyon, França), travada em 197. Terá desaparecido em finais do séc. IV, princípios do V.
Em apenas duas explorações mineiras peninsulares existem concentrações de inscrições de efetivos da legião. Nos arredores de Astorga (Valduerna e Las Médulas), e em Tresminas. Estes dados reforçam a conhecida vinculação que existiu entre a Legio VII
Gemina e as explorações mineiras. A cronologia da maior parte destas epígrafes situa-se entre
130 e 191 d.C., o que serviu para considerar este período, como o de maior atividade mineira na zona, coincidindo com a permanência das tropas. Fora da área do noroeste peninsular, regista-se uma inscrição votiva a Júpiter Ótimo Máximo, dedicada por um soldado da Legio
VII Gemina Pia Felix, em Jorumenha (Alentejo, Portugal) que, pela fórmula, se poderá datar
de finais do séc. II/inícios do III d.C (Encarnação, 1984: 521, nº 439). Não muito longe, a cerca de 15 km, foi encontrada uma base de pilões (cf. 6.2.6), e mais uma vez, se verifica a forte ligação desta legião com as explorações mineiras, desta vez, muito longe do seu teatro de operações habitual.
Segundo Patrick Le Roux, a presença destes efetivos, nos distritos mineiros, não era obrigatória nem permanente, pelo que devia circunscrever-se a necessidades muito concretas, em que a sua presença era requerida pelos funcionários imperiais, encarregados da gestão das minas. A inscrição (EPI Nº 09) datada de finais do séc. I/inícios do II d.C., indicia que a relação das minas com a legião começou pouco tempo depois do seu assentamento em
La inclusión de las minas y las canteras en el fiscus a partir del período imperial llevó aparejada su administración por los servicios financieros del Estado. Desde esse mismo momento se pusieron a disposición de los agentes imperiales todos los médios disponibles para una explotación más racional de unos recursos que, en muchos de los casos, eran esenciales para el buen funcionamiento del sistema imperial. Uno de esos médios fue el ejército, una institución que, debido a su versatilidad y a su integración en las províncias, podia ser empleada en las diversas tareas asociadas a la administración y explotación de los territórios. (Palao Vicente, 2006: 329).
Dentro da riqueza mineira da Península Ibérica, foram as minas auríferas do noroeste peninsular, que concentraram a atenção dos imperadores, devido em grande parte, às próprias necessidades da política monetária imperial. De facto, uma boa parte da investigação atual considera as minas como um dos principais motivos, se não o principal, do assentamento das legiões em solo peninsular. O assentamento de exércitos nessa zona, por parte de Augusto e dos seus sucessores, bem como o traçado da via XVII do Itinerário de Antonino, que dava acesso ao vale do Duerna, encontram-se em estreita relação com a exploração dessas jazidas.
No caso da Legio VII Gemina, num primeiro momento, considerou-se que ela executava funções técnicas, a que se juntaram mais tarde as funções de supervisão e controle. Porém, essa participação do exército, como vimos em alguns textos clássicos, supõe a intervenção direta dos efetivos na extração do mineral, mas também na supervisão da abertura de galerias. Os trabalhos mais duros teriam sido realizados por civis, fundamentalmente população indígena, que contariam com a participação direta de legionários com grandes conhecimentos de engenharia hidráulica, muito necessária nos sistemas de exploração usados.
As minas faziam parte do fiscus romano, e como tal, eram administradas por procuradores imperiais, que dispunham de libertii imperiais como adjuntos, e que, com o passar do tempo, acabariam supervisionando a gestão das minas. É provável que, tanto uns como os outros, tivessem de, não só organizar e executar o trabalho de extração e saída do minério, como organizar os metalla em todos os seus aspetos. Esta diversidade de tarefas pode ser confirmada pela heterogeneidade das tropas presentes, na região mineira do Noroeste, onde, ao lado dos destacamentos da Sétima Legião, aparecem unidades auxiliares como a Cohors I Celtiberorum, a Cohors I Gallica e a Ala II Flauia, cada uma exercendo funções diversas, mas complementares.
A abundância de aras votivas realizadas, conjuntamente, por tropas auxiliares e legionárias, e no caso de Tresminas, separadas mas presentes, pode ser a prova da permanência na região de um contingente considerável de efetivos. Esta presença pode parecer excessiva, se se considerar que as suas funções eram apenas supervisionar e vigiar as explorações e dissuasão dos latrones; é por esse motivo que pensamos que esses destacamentos levaram a cabo trabalhos muito diversificados, relacionados com as próprias explorações, participando de forma direta nos trabalhos de extração do mineral, pelo menos numa primeira fase, e a preparação e consolidação de galerias, reparação e construção de infraestruturas.
Considera-se que as legiões foram as responsáveis pela difusão de muitos cultos orientais. A Legio VII, apesar de não ter estado no Oriente, recebeu essa influência na zona do Danúbio. Na região em estudo, Chaves apresenta diversos testemunhos epigráficos de religiões orientais, ligados à permanência de legionários durante a construção da ponte romana, como o culto a Isis, Cibele, Mitrhas e Ataecina (Russel Cortez, 1947: 21).
Em Panóias regista-se o culto a Serapis, que tendo tido origem no Egito, foi levado para a Ásia Menor e Grécia, pelos soldados romanos, sendo daí assimilado pelos soldados da Legião VII, quando estava estacionada na Pannonia. O templum do santuário terá sido construído no último quartel do séc. I, ou no séc. II d.C (Russel Cortez, 1947: 28).
Em Astorga, que foi acampamento de legiões, capital e centro administrativo das minas da região, também foram encontradas três inscrições dedicadas a várias divindades, entre elas Serapis, dedicadas por [C(aius)] Iulius Silvanus Meranio, que fora procurator
argentariarum numa província danubiana, e era procurator augustorum da Provinciae Hispaniae Citerioris, provavelmente no primeiro quarto do séc. III d.C.. Uma delas foi escrita
em grego (García y Bellido, 1968: 196-202), tal como em Panóias, onde o dedicante era um
vir clarissimus, que também mandou gravar inscrições em grego. Poderia ter existido aqui
uma procuratela, ou seja, a casa de um procurador de minas, a avaliar pela grande quantidade de vestígios estruturais e inscrições, que existem no lugar de Assento, como nos dá conta Contador de Argote e Russel Cortez. Com efeito, no séc. XVIII, ainda existiam várias paredes em pé, sendo tradição que a pedra foi levada para se construir a muralha de Vila Real, e que quando os lavradores lavram as terras, arrancam pedra com os arados e acham telhas, tijolos, telhões, sigilatas e moedas; nas paredes da Igreja e das casas encontram-se incorporados
capitéis, bases, pedaços de colunas redondas, frisos e canos. Nas paredes da residência paroquial de Panóias identificou o autor 3 inscrições, havendo notícia de duas outras que não conseguiu localizar (Russel Cortez, 1947: 11 e 24-27).