Conforme discutimos no capítulo 3, a descaracterização e a perda da identidade do Ginásio Pernambucano, tal como criado, não foi um problema isolado, pois o fenômeno ocorreu, guardadas as devidas diferenças, em todos os centros de referência do país. Acrescente-se a isso a questão da problemática do ensino médio no país, a qual podemos resumir à perda de identidade e ao consequente esvaziamento de função: nem ensino propedêutico, nem ensino profissionalizante. A dualidade do fazer (característico da escola profissional) e do pensar (característico da escola propedêutica) que tem marcado a organização curricular do ensino médio necessita ser apreendida no contexto contemporâneo das mudanças.
Diante do exposto, no momento atual, com o processo de globalização em curso, a sociedade brasileira passa por profundas transformações nos diferentes setores – econômico, política, social e cultural. A marca dessas mudanças é a crise que se vem manifestando, nas últimas décadas, no desemprego estrutural e no crescente índice de exclusão social. O conjunto de políticas adotada pelo governo brasileiro de inspiração neoliberal tem agravado ainda mais a crise, impondo novos desafios à sociedade e afetando o sistema educacional, especificamente o ensino médio. Ao mesmo tempo, a mudança do papel do Estado (projeto neoliberal) proporcionou grande corrida para as privatizações, considerando, de modo específico, a questão das parcerias do público (escola) com o privado (empresas). Mas a estrutura e a organização escolar não contemplam as especificidades que requerem uma escola para jovens, a qual, geralmente funciona à noite. Permanece, assim, a dicotomia: formação geral para a elite e formação profissional para as classes populares.
Vale lembrar aqui a situação atual do ensino médio. Políticas e recursos financeiros, para melhor adequar suas instalações físicas, salas, laboratório, espaços de lazer e de cultura escolar, não existem na maioria das escolas; ademais, condições de trabalho (ambiente) precárias, salários péssimos dos professores, escolas do ensino fundamental adaptadas para o
ensino médio e salas de aulas superlotadas completam o cenário desolador que não se vê nos centros de ensino experimental.
As propostas curriculares, na maioria das escolas, se organizam, rigidamente, em áreas de conteúdo, quanto à seleção e ao seu sequenciamento intra e extradisciplinas. Os conteúdos se repetem ano após ano, de forma linear e fragmentada. A habilidade cognitiva mais valorizada é a memorização. As experiências dos alunos, as referências locais da cultura e da história da comunidade não são consideradas como elementos constituintes do conhecimento. Já no Ginásio Pernambucano, as propostas pedagógicas fincam raízes na cultura dos jovens. Trabalham-se os conteúdos baseados em temas e ou projetos culturais de forma interdisciplinar. As experiências dos alunos são valorizadas por meio da pedagogia de projetos. Professores e alunos sugerem temas que serão trabalhados em todos os espaços pedagógicos e formativos da instituição. Nesse sentido, parece que predomina a concepção racional.
Quanto à concepção de conhecimento, concordamos com Santos (2003, p. 35) quando afirma que “nenhuma forma de conhecimento é, em si mesma, racional, só a configuração de todas elas é racional”. Assim, estamos vivendo uma fase de transição paradigmática da ciência moderna, marcada pela hegemonia da razão, para o conhecimento pós-moderno, que “significa o conhecimento sobre as condições de possibilidade da ação humana projetada no mundo a partir do espaço- tempo local” (SANTOS, 2003, p. 77). Logo, a autêntica sociedade de conhecimento valoriza melhor os conhecimentos existentes. Tal enfoque induz admitir que a criatividade e a inovação assumam papel importante diante dos problemas sociais e, especificamente, da educação, porque implica reconhecer que o conhecimento não é neutro nem estável e que se caracteriza pela capacidade de aprender, duvidar e saber questionar. Tais mudanças mais amplas vêm determinando as reestruturações no sistema educacional e, sobretudo, na formação dos jovens.
Nesse contexto, é que se reformulou, em 2004, o Ginásio Pernambucano, que recebeu a denominação Centro de Ensino Experimental Ginásio Pernambucano (CEEGP). Sua finalidade principal (como primeiro centro experimental) “foi oferecer um modelo alternativo de rede de ensino” (PROCENTRO, 2006 p. 16), tornar o ponto de partida para a rede de escolas de excelência do ensino médio de Pernambuco, que somam 160 nas principais cidades da zona da mata, agreste e sertão.
Atualmente, tal conjunto de escolas de referência, antes conhecidas como centros de ensino experimental, funciona em regime integral e parcial. Sessenta escolas funcionam em horário integral e 100, semi-integral. A diferença entre as integrais e semi-integrais refere-se
aos valores das gratificações. As integrais oferecem aulas de 2ª a 6ª feira, das 07h30min às 17h, com dois lanches e almoço; a gestão, a coordenação e os professores percebem 199% de gratificações. Já as semi-integrais oferecem apenas dois dias por semana em horário integral; a equipe recebe 159%. Vale ressaltar que, nos dois casos, a remuneração é muito maior do que a do restante dos trabalhadores em educação da rede pública estadual. Esse foi um dos conflitos vivenciado pelo Sindicato dos Professores de Pernambuco no ato da implantação do referido modelo.
O ponto de partida para o redimensionamento do Ginásio Pernambucano foi uma parceria da iniciativa privada com a Secretaria de Educação de Pernambuco. Quais as características do novo modelo de ensino médio? Em que bases e princípios se fundamentou a nova proposta?
Reestruturado com base em três pilares – a reforma das instalações físicas e gestão pedagógica, a administrativa e a organização curricular –, o Ginásio Pernambucano teve incorporado no novo modelo a estrutura de gestão da iniciativa privada por intermédio da Associação dos Parceiros do Ginásio Pernambucano. Nessa nova estrutura organizacional integraram-se diversos agentes – governo do Estado, empresariado e comunidade educacional – aos quais competeria planejar, propor, decidir e avaliar as propostas e ações da referida entidade de ensino.
Em ralação à clientela, seu perfil mudou: “apenas 8,6% dos pais dos alunos têm nível superior” (PROCENTRO, 2006 p. 5). Os alunos submeteram-se a uma prova de seleção. Quanto ao corpo docente, um dos aspectos mais polêmicos é o recebimento de bônus com base no desempenho profissional. Outro aspecto relevante que o diferencia das demais escolas tradicionais do ensino médio é o fato de o aluno permanecer nos dois turnos (jornada ampliada), acompanhado pelo corpo docente sob regime de dedicação exclusiva.
O eixo norteador do modelo pedagógico é o “protagonismo do jovem” – protagonismo entendido como a capacidade de discernir e tomar decisões (PROCENTRO, 2006, p. 28). A ênfase nessa abordagem considera a interdisciplinaridade como eixo estruturador do currículo e a pedagogia de projetos. Aqui, podemos fazer uma pausa a fim de refletir sobre a percepção de Marcos Magalhães – ex-aluno do GP e atualmente empresário da Philips do Brasil S/A, empresa parceira na causa do ensino médio, em particular, do Ginásio Pernambucano.
O que Marcos Magalhães viu foi o desencanto de um processo educativo em crise. O desalento ali pode ser caracterizado em nível pessoal dele, em nível estadual pela queda de materialidade da educação pública e, em nível
nacional, pelo descaso com sua própria história, com uma evidente queda de qualidade de ensino.11
Então, diante da história desse educandário, das marcas do abandono nas instalações, das péssimas condições e do ensino deficitário na educação dos jovens, a lógica interveniente, no primeiro olhar, foi estabelecer ampla discussão sobre um novo momento para a educação em Pernambuco, tendo como protagonista o Ginásio Pernambucano. Isso reuniu um contingente (alunos, professores, pais, empresários e governo), permitindo maior envolvimento de pensar novo modelo de gestão, pedagógico e curricular.
Assim, na busca de caminhos, em 2000, iniciaram-se os estudos e reflexões e criou-se a Associação dos Parceiros do Novo Ginásio Pernambucano. Começava nova fase em beneficio dos jovens, pois estabeleceu-se como eixo central o “protagonismo juvenil”: tudo se voltaria para a cultura dos jovens, atitudes, postura e visão sobre a vida. Inovava-se o modelo pedagógico e curricular na seleção dos conteúdos e atividades escolares desenvolvidas no ano letivo.
Várias reuniões, estudos e debates dos aludidos parceiros acerca da problemática conduziram ações para implantar nos centros de resultados e dos clubes um ensino alternativo pertinente aos interesses da juventude, à vontade de saber, de caminhar, de descobrir e de se aventurar. Avaliados os centros de resultados nessa primeira aproximação, alguns indícios apontavam que o modelo alternativo de educação parecia demonstrar situações valorizativas em relação aos indicadores de qualidade:
• participação com assiduidade dos jovens nas aulas;
• redução de ausência e da impontualidade dos alunos nas atividades escolares; • escassez de atendimentos psicossociais;
• aumento do nível de aprimoramento dos professores; • indícios de melhoria da qualidade de ensino.
Diante de tais resultados animadores, a intenção e a grande missão dos parceiros foram transformar o Ginásio Pernambucano em referência na educação no Estado e servir de modelo para as demais escolas públicas que ofereciam o ensino médio. Daí, estabeleceu-se como meta revitalizar o tradicional patrimônio escolar em decadência, o que se tornou possível por meio de cooperação técnica e financeira com a Secretaria de Educação do Estado.
Analisado o relatório do Ginásio Pernambucano, compreendemos que o modelo inovador proposto incluiu uma releitura das diretrizes do Ministério da Educação aplicada pela Secretaria de Educação do Estado quanto às atividades extraclasses, porque os alunos
11 O salário do professor com 200 horas-aula que trabalha em escolas não transformadas em referência oscila entre R$
participariam de conversas com educadores especializados, declinariam temas articulados com o contexto social, contribuindo, assim, para o planejamento de suas vidas e para o exercício pleno de sua cidadania. Incluiu também a capacitação da gestão, da equipe pedagógica e administrativa e da comunidade de pais e estudantes.
Encerradas as mudanças, em 2003 oficializou-se a criação do Centro de Ensino Experimental Ginásio Pernambucano (CEEGP), o qual atenderia exclusivamente aos jovens alunos concluintes da 8ª série do ensino fundamental da rede pública estadual, para ingressar na 1ª série do ensino médio. Daí partiu-se para a constituição dos recursos humanos: de agosto a dezembro de 2003, uma banca formada por docentes dos principais universidades públicas fez a análise curricular de 240 candidatos inscritos, dos quais foram selecionados 50 profissionais. Todos eles se beneficiaram da capacitação desenvolvida 240 horas de palestras e workshops com mestres de universidades e consultores empresariais, que abordaram temas, como desenvolvimento de potenciais humanos, jornada de plenivivência pedagógica, a linguagem como elemento constitutivo da construção e interpretação do conhecimento, tecnologia empresarial social, dentre outros assuntos ligados à cultura e à cultura juvenil.
Para selecionar os estudantes, uma banca composta por gestores do CEEGP, professores das principais universidades públicas e técnicos da Secretaria de Educação efetivou análise do histórico escolar de 900 candidatos. Desses, 840 foram selecionados e 320 classificados pelas médias decrescentes em língua portuguesa e matemática.
Vale destacar que, ao passar dos dias, foram criando-se momentos de reflexões que faziam surgirem vários eventos – encontro cultural, Carnaval, São João, Semana Internacional do Voluntariado, oficina sobre o meio ambiente, palestra sobre direito e cidadania, colóquio, a arte e a educação, Dia Mundial da Água, o direito do consumidor, Semana do Índio – e visitas institucionais à superintendência de planejamento da Secretaria de Educação, ao Conservatório de Música, ao Centro Cultural Brasil-Alemanha. A propósito, o CEEFP vem participando de outros eventos, como da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, do Congresso Nacional do Meio Ambiente, do Concurso de Redação Mauricio de Nassau e, principalmente, da X Ciência Jovem do Estado de Pernambuco e do Prêmio TOP 10-Excelência em Educação, na qual obteve o reconhecimento de seus trabalhos e a satisfação da vitória. (RELATÓRIO DE GESTÃO, 2004/2005).
Duas importantes iniciativas foram implantadas: o Centro de Resultados Aprender a Ser e Viver e Fazer, cuja base central é o protagonismo juvenil. A primeira iniciativa visava à formação educacional do aluno por meio de oficinas interdisciplinares, grupos de estudos e avaliação formativa; já a segunda se dedicaria ao desenvolvimento psicológico, pedagógico e
social dos alunos. Por conseguinte, várias ações foram desenvolvidas no sentido de apoiar os alunos, seus pais e professores no desenvolvimento dos conselhos de classe e no acompanhamento e orientação aos pais. Daí surgiram os clubes dos jovens, que começaram a promover atividades de capoeira, cursos de inglês, atividades de jornalismo e de teatro a 233 alunos.
À primeira vista, esse modelo careceria de análise mais apurada, porque pôs em evidência alguns aspectos contraditórios. Em primeiro lugar, tratava-se de modelo excludente à luz do direito dos alunos, que não poderiam escolher onde estudar; em segundo, o acesso dos estudantes ocorreria mediante um critério de seleção do currículo escolar de caráter classificatório e eliminatório, nos componentes de português e matemática; em terceiro, emergiu a questão da localização de moradia nas proximidades da escola. A verdade é que, ao ser implantado em 2004, houve grande insatisfação por parte dos alunos, professores, pais e funcionários e significativa mobilização dos vários setores da sociedade civil contra a forma imposta pelos parceiros (governo e empresários) ao Ginásio Pernambucano: transferiram todos que ali estudavam e trabalhavam para outro prédio da cidade de Recife em nome de proposta experimental que se dizia inovadora em gestão, método e ensino. Não ficou claro que, para se inovar, teríamos de sonegar direitos constitucionais e excluir pessoas. O conceito de inovação que defendemos é aquele em que o aprendiz constrói seu conhecimento na apreensão de significados utilizáveis ao longo da vida, enquanto estiver aprendendo.
Outro aspecto contraditório do modelo em tela refere-se à seleção e à classificação dos professores. Depois de selecionados, recebem formação continuada de qualidade, maiores salários, garantias e condições de trabalho de boa qualidade; participam da distribuição de um indicador de produtividade promovido pelo governo do Estado e pelos parceiros empresários; recebem um bônus correspondente ao 14º salário. Tais iniciativas ferem o direito da maioria dos trabalhadores de educação, que é regido, dentro do próprio Estado, por outra política de recessão e desvalorização dos profissionais do mesmo segmento.
Quanto à parceria governo-empresários, observamos, no acompanhamento e controle da gestão da escola, inversão de papéis na execução. Os empresários não só fazem investimentos financeiros, como também adentram nas questões gerenciais, institucionais e pedagógicas, fazem exigências circunstanciais e pontuais. Em outras palavras, desenvolvem a gestão empresarial com ação empreendedora do mundo dos negócios atrelada aos interesses do capital – obviamente os princípios intrínsecos estão ligados à pedagogia empresarial: quem não produz não permanece no contexto, conforme já mostramos anteriormente. Explica- se: o avanço tecnológico e científico proporcionou o aumento da velocidade das informações,
demandando por parte dos indivíduos domínio das novas tecnologias e constante atualização. Ao mesmo tempo, a economia globalizada impôs ritmo diferente aos negócios nos quais se exige foco na competitividade e na inovação. Nesse contexto, as pessoas deixaram de ser problema e se transformaram em solução e vantagem competitiva. Peter Senge alerta que conceber o homem como mais um recurso de produção constitui um obstáculo ao desenvolvimento da organização, razão por que, segundo o mesmo autor, a aprendizagem se tornou mais importante que o controle dos processos. Para se atender às novas exigências impostas nas últimas décadas e se trazer um olhar diferenciado sobre os saberes que permeavam as estruturas organizacionais, surgiu a pedagogia empresarial, um ramo da pedagogia o qual tem como foco o desenvolvimento dos profissionais e a melhoria dos processos produtivos mediante a aprendizagem empresarial em suas várias dimensões.