Rio-Bacanga). No que tange aos topônimos surgidos no primeiro século da Cidade (1612-1712), podemos evidenciar, no diagrama abaixo, que, no universo de 81, foram encontrados 10 que se localizam nas três áreas citadas e também na antiga via conhecida como Caminho Grande, ou seja, na área Centro-Caminho Grande.
DIAGRAMA 01: Distribuição dos topônimos do período de 1612-1712.
Dessa forma, podemos perceber que os nomes dos bairros do período sincrônico, que vai da fundação de São Luís à primeira década do século XVIII, é composto de 10 topônimos caracterizados da seguinte forma: 01 Cardinotopônimo (Centro); 01 Geomorfotopônimo (Ponta d’Areia); 04 Etnotopônimos (Cutim Anil, Vila Bacanga, Turu, Camboa); 01 Cronotopônimo (Vinhais Velho); 02 Hagiotopônimos (Desterro, São Francisco) e 01 Dirrematopônimo de natureza mista (Outeiro da Cruz).
CENTRO CENTRO-RIO BACANGA Vila Bacanga CENTRO- CAMINHO GRANDE Outeiro da Cruz Cutim Anil Vinhais Velho Turu CENTRO-RIO ANIL São Francisco Ponta d'Areia Centro Desterro Camboa
O Cardinotopônimo Centro (cf. p. 214-215)
Quando os franceses, primeiros colonizadores, aportaram na capital do Maranhão, eles encontraram por aqui os verdadeiros donos destas terras, os índios. Em virtude de a terra já ser habitada, adotaram a denominação toponímica que era vigente, Upaon Açu, ou seja, Ilha Grande em Tupinambá. Com o domínio político da Capitania e, consequentemente, de seus habitantes, o nome original foi substituído para homenagear o Rei da França e de Navarra, Luís XIII. Destarte, o Cardinotopônimo Centro representa não só o local onde foi implantada e permaneceu a sede de São Luís, mas também a localidade que desempenhou importante papel econômico por caracterizar-se como porto fluvial e marítimo que desempenhou importante papel na produção e exportação de algodão e arroz do Brasil-Colônia do século XVII ao XIX.
O Centro, nesse caso, não foi habitado de forma aleatória, mas planejada, já que ficava entre dois rios e à beira da Baia de São Marcos. São Luís, então, era literalmente uma ilha servida de água doce e salgada. Dessa forma, depois de construído o Fort Saint Louis, como proteger a terra recém-conquistada de prováveis corsários? Expandindo o processo habitacional e protegendo a Capitania militarmente com a construção de fortalezas equipadas por fortes na entrada ou pontas da Grande Ilha.
No que se refere ao povoamento planejado de São Luís a partir do seu Centro, este começou, como já frisamos anteriormente, em duas frentes: pelo Largo do Carmo (atual Praça João Lisboa) seguindo pela Praia Grande para bairro do Desterro e também, a partir das pontas marítimas de terras ao atravessarmos o Rio Anil, ou seja, pelo atual bairro do São Francisco e, deste, pela praia da Ponta d’Areia.
Os Hagiotopônimos Desterro (cf. p. 216-218) e São Francisco (cf. p. 186-188) Quando Upaon Açu foi conquistada e incorporada definitivamente ao domínio lusitano em 1615, depois de apossarem-se das terras, esses desbravadores, além de manter as melhorias já efetivadas pelos franceses, tiveram que adotar medidas administrativas para a organização de sua estadia e exploração da terra recém-possuída. Dentre as providências tomadas pelos portugueses, temos a vinda de missionários para evangelizar os nativos, o que culminou na implantação de freguesias e na construção de ermidas para manter os cultos e tradições religiosas dos colonizadores, culminando na
disseminação da religião Católica em São Luís, nesse momento representada pelos Hagiotopônimos Desterro, São Francisco e, principalmente, pelos bispos, que, a partir de suas freguesias, auxiliavam na administração político-religiosa da Colônia.
As freguesias (paróquias) agregavam não só a função de aculturar os índios, mas também a disseminação e implantação da Igreja Católica na terra conquistada. Dessa forma, além de manter os cultos e tradições religiosas dos colonizadores, o bispo diocesano, e abaixo dele os párocos (padres), tinham o poder de administrar as terras compreendidas pelas suas freguesias, poder esse agregado ao do Presidente da Província.
Grande tem sido, desde muitos anos, a luta e a confusão, já para se criarem freguesias e já para se traçarem e discriminarem os seus limites (...). Já vem de muito longe essa confusão, a pesar de, em 21. Jul.1772, Joaquim de Melo é Póvoas pedir a S.M. que determinasse que os distritos das vilas (...) fossem também os das freguesias, não só para evitar contestações, como também para melhor serviço da Igreja (MARQUES, 2008, p. 488).
Na Divisão da Província do Maranhão, além de figurarem 08 cidades e 20 vilas, havia também as 53 freguesias representadas na Divisão Eclesiástica do Estado. Dentre essas, as da Capital eram a de Nossa Senhora da Vitória (Centro); da Sé (Centro); de Nossa Senhora da Conceição (Caminho Grande); de São João Batista (Matriz do Centro); de São João Batista de Vinhais (Vinhais); de São Joaquim do Bacanga (Bacanga) e a de Santa Filomena (Cutim/Maiobinha).
É perceptível que o Centro agrupava um grande número das freguesias, mas onde começava e terminava o limite territorial de cada uma? E onde figuram os Hagiotopônimos Desterro e São Francisco? Para responder a esses questionamentos nos reportamos à Lei Provincial nº 402, de 27/08/1856, promulgada pelo Presidente da Assembleia Provincial do Maranhão, Barão do Coroatá, que estabelecia a divisão do território de São Luís em cinco Freguesias: (i) de Nossa Senhora da Vitória, que compreendia a parte leste do Centro, delimitada pela Rua do Ribeirão e a Rua do Sol; (ii) da Sé, também leste, que compreendia a Rua do Sol, do canto do Teatro Artur Azevedo até a Rua da Manga; (iii) de Nossa Senhora da Conceição, que compreendia a parte sul da Cidade, iniciando-se na Rua da Paz e percorrendo toda a extensão do
Caminho Grande até o rio Cutim; (iv) de São João Batista, ao norte, sendo a freguesia matriz do Centro e englobando as outras áreas da Cidade assim como seu subúrbio até o rio Cutim e (v) a Santa Filomena, que, na Lei Provincial nº 402, localizava-se na Maiobinha, mas na Lei Provincial nº 460, de 06/11/1857, sediava-se no Cutim.
Logo, pela descrição feita do território das cinco freguesias, o Bairro onde foi construída a primeira igreja de São Luís, a de Nossa Senhora do Desterro, protetora e padroeira dos imigrantes, pertencia ao domínio da Matriz, ou seja, da Freguesia da Sé. Já o bairro do São Francisco, além de pertencer à Sé, por estar, do outro lado da Ilha, separada desta pelo Anil, pertencia prioritariamente ao território da Freguesia de São João Batista de Vinhais (Vinhais).
Versa na história do Hagiotopônimo Desterro que este originou-se da construção de uma ermida dedicada a Nossa Senhora do Desterro, edificação que ainda hoje resiste ao tempo. A Praia do Desterro ou simplesmente Desterro, como é conhecido o bairro, faz parte do núcleo inicial da Cidade que é composto pela Praia Grande, que representava o centro comercial de São Luís e o Desterro, que abrigava as residências e o porto, por isso é permeado de becos, ladeiras, sobrados e solares de azulejaria portuguesa. Nesse caso, a ermida serviu não só para abrigar a imagem da santa dos católicos portugueses, mas também representava os sentimentos de esperança e desolação dos imigrantes diante de um novo chão.
Vale ressaltar que, no Brasil, a devoção à referida Santa deve-se principalmente ao período Colonial, “talvez pelo sentimento dos portugueses de encontrar na Virgem exilada o consolo que necessitavam para o seu próprio desterro” (ZANON, 2008, p. 101). Esse apego aos santos do hagiológico romano também está presente na devoção a São Francisco, Hagiotopônimo que serviu para nomear a Fortaleza, construída na Ponta de São Francisco em 1615, para auxiliar na defesa da Capitania juntamente com outras fortalezas, como é o caso da Fortaleza e do Farol da Barra de Santo Antônio, o atual Geomorfotopônimo Ponta d’Areia.
No que diz respeito às sucessivas alterações toponímicas dos Hagiotopônimos Desterro e São Francisco, frisamos que a atual denominação de ambos ainda conserva a motivação religiosa. Desterro, por exemplo, nasceu como Praia das Mercês (Praia onde se situava a Igreja e o Convento de Nossa Senhora das Mercês), depois, por causa do
nome de santo, passou a chamar-se Praia da Igreja São José do Desterro, suprimindo-se o qualificativo de santo e a denominação de igreja, já que deixava de sê-lo para obter o
status de bairro, passa, então, a denominar-se Praia do Desterro ou simplesmente
Desterro. Processo semelhante ocorreu com o São Francisco que foi Forte do Sardinha, para homenagear o diretor responsável pelas obras da guarnição, denominação alterada para Forte/Fortaleza de São Francisco em virtude da devoção do Capitão-Geral da Província, Bernardo Pereira de Berredo, a esse santo. Tendo sido desativado o Forte e a Fortaleza, permaneceu somente a homenagem a São Francisco. Portanto, as ATs tanto do Desterro quanto do São Francisco não mudaram em nada a motivação toponímica dos nomeadores originais: continuar cultuando os santos da Pátria Natal, Portugal.
Em síntese, os dois Hagiotopônimos, Desterro e São Francisco simbolizam e homenageiam não só a religião Católica, mas o sentimento de consolação dos imigrantes desterrados diante da nova morada que também deveria ser protegida. Essas funções de auxílio e defesa caberiam à santa para a qual oravam os europeus no Centro da Capitania (Nossa Senhora do Desterro) e ao santo que protegia uma das entradas da Grande Ilha, São Francisco.
O Geomorfotopônimo Ponta d’Areia (cf. p. 184-185)
Já dissemos anteriormente que o povoamento marítimo de São Luís começou nas primeiras décadas do século XVII (08/09/1612) como propósito expansionista dos franceses em fundar a França Equinocial no Meio-Norte brasileiro. Dessa forma, o processo habitacional maranhense iniciou-se a partir da Baía de São Marcos, local composto pelas embocaduras dos Rios Bacanga e Anil e que era propício à instalação de fortes e fortalezas para a orientação marítima e defesa militar da Capitania. Os fortes e fortalezas da recém-conquistada São Luís vão ser memorizados pelo Hagiotopônimo São Francisco, do qual já nos ocupamos acima, pelo Hagiotopônimo São Marcos e pelo Dirrematopônimo Ponta do Farol, pertencentes ao período sincrônico compreendido entre 1713 e 1812 e, principalmente, pelo Geomorfotopônimo Ponta d’Areia.
A Praia da Ponta d’Areia começou a ser habitada no século XVII, 1689, e tem sua história atrelada à constução da Fortaleza e do Farol da Barra de Santo Antônio, edificações estratégicas de defesa e proteção da Província de São Luís. A fortaleza, em si, não prosperou por vários motivos: construção em lugar inadequado,
bombardeamento de sua estrutura e precário estado de conservação; mesmo assim, o farol serviu de orientação a marinheiros e pescadores que se acercavam de São Luís. Mas o grande mérito do Geomorfotopônimo Ponta d’Areia, assim como do Hagiotopônimo São Francisco, foi ter possibilitado moradia a militares e a habitantes de São Luís que necessitavam de banho salgado por medidas profiláticas.
Segundo Marques (1870, p. 283), a primeira notícia que temos da Ponta d’Areia data de 18/02/1689, momento em que o lugar era nomeado pelo topônimo Fortaleza da Ponta de João Dias, alterado em 1755 para Fortaleza da Barra de Santo Antônio, e em 1822, com a construção do farol, para Farol da Barra ou da Ponta da Areia, topônimo atual que corresponde, literalmente, a uma ponta de areia à beira do mar da Baía de São Marcos.
Mesmo que as sucessivas alterações toponímicas tenham se perdido nos 401 anos de história de São Luís, mesmo que não haja mais a Fortaleza protegendo o Forte, o bairro da Praia da Ponta d’Areia justifica seu nome atualmente e é um dos mais privilegiados locais de especulação imobiliária para a construção de condomínios de luxo, de alto padrão social, distanciando-se completamente da original povoação de pescadores ou das aldeias dos silvícolas que habitavam este litoral, aqui representados pelos Etnotopônimos Camboa, Vila Bacanga, Cutim Anil e Turu.
Os Etnotopônimos Cutim Anil (cf. p. 290-291), Turu (cf. p. 203-206), Camboa (cf. p. 221-225) e Vila Bacanga (cf. p. 313-317)
Os Etnotopônimos encontrados no período de 1612 a 1712 representam as etnias que já habitavam estas terras, assim, os topônimos Cutim Anil, Turu, Camboa e Vila Bacanga vão regatar não só a lembrança dos índios que aqui viveram, mas seus hábitos de pesca, ainda vigentes, (Camboa), a hidrografia, presente nas denominações de rios importantes para a sobrevivência dos habitantes da Grande Ilha (Bacanga, Cutim e Anil), a fauna, representada por um tipo de inseto encontrado em determinadas regiões da Ilha (Turu).
A herança toponímica de origem indígena em 05 Topônimos, 04 Etnotopônimos e 01 Cronotopônimo (Vinhais Velho) se justifica porque, quando São Luís começou a ser povoada, os desbravadores franceses travaram contato com os indígenas
principalmente para obter mão-de-obra e aculturá-los. Desse contato nada amistoso é que conhecemos os nomes de algumas aldeias que deram origem a alguns bairros ludovicenses. Segundo Marques (2008, p. 104), no inicio da colonização, os franceses encontraram, no território de São Luís, 27 aldeias Tupinambás situadas em lugares ainda hoje conhecidos com topônimos indígenas originais ou com formas afrancesadas, aportuguesadas ou alteradas toponimicamente.
Dentre as aldeias elencadas por Marques (2008, 104) e acrescentadas por Meireles (1980, p. 49-50), destacaremos somente aquelas cujos topônimos47 são reconhecidamente pertencentes ao território de São Luís e que podemos resgatar neste trabalho: Coeup (Cutim), Eussaouap/Uçaguaba (Vinhais), Gapara48 (Gapara),
Ianouarem (Jaguarema), Itapary (Forte/Fortaleza de Itapari ou do município de São
José de Ribamar), Iuniparan (Jeniparana), Maecan (Bacanga), Oury-Ouüsson-
Eupê/Mayoüe (Maioba) e Toroeupe/Torooup (Turu). Desses étimos temos a presença do
nome original da Praia do Olho d’água no topônimo Jaguarema, do nome de um rio da área da Maioba em Jeniparana e do nome de um bairro da área Itaqui Bacanga, Gapara.
No que se refere ao Etnotopônimo Turu, vale a ressalva de que na região em que os bairros herdaram essa denominação (Turu, Residencial Primavera Turu, Conjunto Habitacional Turu, Vivendas do Turu, Planalto Turu II, e Ipem Turu) não encontramos os tipos de moluscos descritos por Bordoni (s/d, p. 690) e Cunha (1989, p. 300) que elencam turu como um étimo Tupi correspondente a um molusco típico de mangues, mas a apresentada por Marques (2009, p. 104): Toroeupe ou Torooup, que designa lagartas com abundantes, longos e finíssimos pelos urticantes que queimam a pele ao menor contato por causa da toxina que expelem para se defenderem de seus predadores, nesse caso, turu corresponde às lagartas conhecidas como taturanas, lagarta-cabeluda, lagarta-de-fogo, lagarta-urticante ou suçuarana.
A tese que defendemos é a de que o Etnotopônimo Turu resgata não o molusco de mangues, mas a lagarta-de-fogo, conhecida pelos maranhenses, pelos ludovicenses e pelos moradores do Turu como sendo um inseto típico da mata fechada que originou os bairros do Turu, informação confirmada por RMJ (19/07/2013), uma das primeiras
47 Figuram entre parênteses os topônimos atuais e fora deles os afrancesados, ou seja, os de uso corrente. 48 Gapara, Jaguarema e Jeniparana não figuram como objeto de nosso estudo, os citamos aqui e nas fichas dos bairros do Bacanga, Maioba e Olho d’água porque figuram na Microtoponímia ludovicense como nomes de aldeias com forte ligação com os referidos bairros.
moradoras do Conjunto habitacional Turu, ao se referir à flora e fauna na localidade da década de 1970, momento em que o Conjunto Habitacional Turu foi entregue.
Aqui em frente da minha casa era só mato alto. Quando eu me mudei prá cá, São Luís se resumia até o Anil, de lá prá cá era tudo mato alto. Creio que, por ser esse tipo de vegetação ai existia muita espécie de bichos (...). Meus parentes de Brasília me perguntam por que turu, turu eu conheço como um inseto, aquela lagarta que queima a pele da gente quando pegamos nela, um inseto, né? Devia ter muita aqui prá ter dado nome a todos esses bairros! (RMJ, 19/07/2013).
Além dos esclarecimentos sobre a etimologia do topônimo turu, devemos frisar que não encontramos mais nenhum resquício literário, além do de Marques (2008, 104) e do de Meireles (1980, p. 49-50), das condições de aldeia tanto do Turu quanto do Cutim Anil e da Vila Bacanga. No que se refere ao Cutim e ao Turu, por exemplo, essas aldeias foram visitadas pelo Comandante francês François de Razilly em 1612 na oportunidade em que este e sua comitiva estavam reconhecendo o território e travando contato com seus habitantes, conforme evidenciamos no capítulo Processo habitacional ludovicense de 1612 a 2012.
O Etnotopônimo Cutim Anil foi importante no cenário São Luís do século XVII por vários motivos, dentre os quais, destacamos que: o lugar tanto pertenceu aos domínios da Freguesia de Santa Filomena quanto a sediou; foi considerado importante via de acesso do Caminho Grande ao Anil e deste ao Vinhais e outros lugares vizinhos como o Outeiro da Cruz; foi sede de uma escola de agricultura da Capital e um dos mais importantes afluentes do Rio Anil. O Cutim Anil só perde sua hegemonia quando o Governador da Província, Pedro César de Meneses, manda instalar nas margens desse rio uma fábrica de anil em 1893, o que possibilitou ao Anil adquirir status de Vila e distrito, nesse caso, segundo o Decreto Municipal n° 57 (DIÁRIO OFICIAL DO MARANHÃO, 02/01/1933), os lugares Grande Cutim e Alto do Cutim vão figurar como terras sob a jurisdição do Anil, 1ª Zona de Fiscalização do Interior da Ilha.
Mesmo o Cutim Anil tendo perdido espaço socioeconômico para o Anil ele manteve sua motivação toponímica original. Das cinco ATs que sofreu à atual (Aldeia
Coeup, Regato do Cutim, Rio Cutim, Lugar do Cutim e Freguesia de Santa Filomena do
interessante ressaltarmos que isso só foi possível através do viés topográfico (hidrografia) e não social (aldeamento), pois houve uma ressignificação semântica para o Etnotopônimo; logo, a partir da etimologia, Cutim Anil significa literalmente o rio do
rio Anil, isto é, o rio que desagua no Anil e não uma aldeia do Anil. Nesse caso, houve a
alteração da motivação toponímica antropocultural para a física.
No que diz respeito ao nome da aldeia Maecan, mesmo que o topônimo só exista explicitamente na denominação de um bairro, Vila Bacanga, o étimo Bacanga figura no cenário maranhense como nome: de um dos Rios que desagua na Baía de São Marcos; da Freguesia de São Joaquim do Bacanga; da área onde está situado o Polo industrial de São Luís; do Parque Estadual do Bacanga e do Parque Ambiental e Recreativo do Itaqui/Bacanga.
Como já dissemos anteriormente, o Etnotopônimo Vila Bacanga nasceu como a denominação de aldeia de Maecan, mas, a partir da catequização do indígena, foram implantadas, na Capitania, as Freguesias, nesse caso, cai em desuso o qualificativo de aldeia em detrimento da adoção da denominação Freguesia de São Joaquim do Bacanga. Mas não podemos esquecer que este último topônimo também sofrerá alteração para Vila Bacanga, em virtude do Ato Régio de 07/06/1755 que libertava temporariamente os índios do domínio dos jesuítas.
Dessa forma, em seu surgimento, o Etnotopônimo Vila Bacanga, originalmente e literalmente, vai significar uma povoação de categoria inferior a uma cidade, mas superior a uma aldeia, fato que não acontece com os topônimos mais modernos que surgiram a partir do século XIX, que se referem a povoações que ficam fora do centro da cidade e que surgiram de forma espontânea ou de posse irregular, pejorativamente,
invasão. Na área Itaqui-Bacanga, onde se situa a Vila Bacanga, por exemplo, há 09
bairros que adotaram o qualificativo moderno de vila: Vila Ariri, Vila Bacanga, Vila Conceição, Vila Dom Luís, Vila Embratel, Vila Isabel, Vila Maranhão, Vila Nova e Vila São Luís.
Mesmo tendo havido duas ATs (Aldeia de Maecan e Freguesia de São Joaquim do Bacanga), no caso de Vila Bacanga, não houve alteração da motivação toponímica nem física e nem antropocultural, mas o acréscimo de um termo genérico que reforçou ainda mais o caráter social do Etnotopônimo que nasceu como aldeia, passou a freguesia
e, depois, emprestou seu nome ao rio. É importante destacar também que tanto Maecan quanto Ibacanga/ybácanga foram termos aportuguesados que originaram o topônimo atual Bacanga. Será que com o Etnotopônimo Camboa aconteceu o mesmo processo toponímico?
Ao contrário do que acontececeu com o Cutim Anil, Turu e Vila Bacanga, a Camboa não figurou como uma das 27 aldeias listadas por Marques (2008, 104), Meireles (1980, p. 49-50) e tampouco é evidente a sua característica etnotoponímica na história de São Luís por razões conhecidas após dissolvermos o equívoco de que o topônimo originou-se do nome da Fábrica de Fiação e Tecidos Camboa S.A. O lugar foi que nomeou a fábrica e não o contrário. Quando o estabelecimento foi implantado, a localidade já existia, não mais com o qualificativo de aldeia ou comunidade de pescadores, mas como Vila Proletariada.
Por ser um dos 11 bairros que integram o Centro Histórico da Capital, a Camboa não foi aldeada quando os desbravadores aportaram em São Luís porque eles desembarcaram na localidade onde já havia índios morando. O que aconteceu foi que, de imediato, os franceses tiveram contato com os indígenas, que inclusive trabalharam
cortesmente na construção do Fort Saint Louis e da cidade em si, como atesta D’Evreux
(2002, p. 73-74), quando afirma que “apenas chegavam estes selvagens, entregavam-se ao trabalho com incompatível dedicação acompanhados das mulheres e filhinhos (...)”.
Etimologicamente, camboa/cambôa, gamboa/gambôa, significa cercado de