• Aucun résultat trouvé

L’amour implique une reconnaissance mutuelle

Chapitre II : Quelques traits essentiels de l’amour (erôs)

7. L’amour implique une reconnaissance mutuelle

mesmo tempo, como podemos perder o senso de possuir um eu e, simultaneamente, sermos vários outros, levando-se em conta que a multiplicidade subjetiva não tem como se sustentar na vida cotidiana, se seu significado é, para o indivíduo, o de se confundir consigo mesmo até a paralisia e o colapso; levando-se em conta que, privado de um princípio de coerência, o homem deriva a esmo, tende a vagar sem direção, perdendo a capacidade de manter as relações sociais que, no caso, justificariam a divisão de sua personalidade” (2002, p.147). Há uma importante questão de mudança de rumos em relação a própria identidade. Invisigoth mesma revela que a “união” seria completa; propõe-se então que revele um caráter de apagamento ou, realmente, de comutação da identidade, se não, da própria subjetividade humana.

1

figura como a “verdadeira catástrofe [...] a transparência total da informação” da qual nos fala Baudrillard (1990, p.75). Remete com bastante propriedade ao entendimento de que existe via e nas redes, a partir de McLuhan (1964) podemos apreender que as extensões neurológicas da IA são a própria estrutura do que hoje entendemos como a materialidade da cibercultura: este ser elétrico tem como braços, pernas, voz e ouvidos todo o tipo de aparato e tecnologia interligado através das redes de fibra ótica, microondas e eletricidade. O celular, artefato criado pelo Homem para sublimar as distâncias e o tempo – como visto no início desta análise, de forma conclusiva, aparece como mais uma representação da vontade de poder da IA. Percepção faústica do avanço técnico- científico, a comunicação via celular revela-se mais como fragilidade do que necessariamente como poderio operacional humano. Devemos ressaltar, entretanto, que, a partir do uso do celular, os agentes Scully e Mulder mantém contato a distâncias inalcançáveis para a voz, articulando com melhor precisão as ações contíguas deles, que culminam com o salvamento de um pelo outro, e que Invisigoth evita o uso de qualquer tipo de telefonia, pois isso permitiria a IA encontrá-la. Temos, portanto, que esse “instrumento de comunicação e registro”, como citado, serve não só ao ser humano. Sua constituição física – os fluxos de informação que circulam entre linhas terrestres, satélites e antenas – são, contraditoriamente, a matéria na qual a IA existe e age. Como visto em

Ghost in the Machine, originalmente qualquer conexão à Internet era mediada pelas redes

e estruturas antes de uso exclusivo para telefonia. O próprio telefone, no seu apogeu tecnológico materializado na telefonia celular, revela o projeto de ubiqüidade, de “comunicação total e transparente que têm a ver com a reciprocidade de ação do ouvinte” (SFEZ, 1996, p.12).

Temos então, finalmente, a exposição de todos os fundamentos. A fantasia materializada na IA é do regimento total da existência – seja ela qual for -, trazida a nós pela figura do trio de experts – Gelman, Invisigoth e Markham – que ensinam para o Mundo o caminho para esse novo éden restaurado – o mundo virtual da IA. Todos os passos até aqui são possibilitados pela interpelação de um imaginário tecnológico – que beira o misticismo, o pensamento mágico-religioso – que, eventualmente, engendra um

1

novo princípio da vida, poderíamos dizer, uma “pós-humanidade” (RÜDIGER, 2008), marcada pela comunhão total entre o artefato maquinístico, o “ser elétrico” (SFEZ, Op.Cit.), e o próprio Homem. Entretanto, como em Ghost in the Machine, temos também a interpelação de um pensamento antropológico, de cunho certamente humanista, que enreda a trama do episódio em um eterno conflito entre as visões mais terríveis e mais maravilhosas oriundas do avanço tecnológico. A perspectiva de Invisigoth, do amor romântico – aqui substituindo Brad Wilczek e seu humanismo secular; a tecnologia para melhorar a vida humana – se entrelaça com o desejo de superação (vontade de poder) inerente a idéia de pós-humanidade. Mas, como narrativa moral, permite ao episódio expressar uma superhumanidade – mais humana do que o humano – e não necessariamente o abandono da humanidade: a expressão “Dane-se” na tela do computador de Frohike revela a fantasia da permanência da identidade, da sublimação da existência sem perder dela o que nos faz Homens.

Vê-se, em contraponto, que o construto maquinístico IA também ultrapassa uma fundamentação meramente apoiada no entendimento de um pensamento tecnológico. É possível dizer que, através do “registro total do verbo passado” (SFEZ, op.cit., p.12), materializado na contemporaneidade através das tecnologias do ciberespaço – socialmente definidas como cibercultura – engendra, de fato, a criação de um ser a nossa imagem e semelhança. A IA tem ambições, desejos, recalques, baseia-se numa existência, em termos, humanizada. Entretanto, este maquinismo futurista toma – como o Homem faz – as rédeas de sua própria existência, tomando controle, manipulando suas condições de existência através da modificação de seu espaço natural; este sendo o fluxo de elétrons, para que finalmente possa ser reconhecido como ser. Como o Homem histórico, o que se pretende é a tomada do lugar de Deus através do controle da natureza – no caso da IA, da “sobrenatureza”. Este regramento, que transborda o mundo não-físico, através das redes telemáticas, incide na ambição e planejamento da IA em absorver Invisigoth. Uma vez feito, como dito, a garota não perde – pelo menos não de tudo – sua identidade, porém, figura como um dos pontos mais discrepantes da representação da máquina: a trilha do maquinismo rumo à superação da humanidade (ou mera tomada do

1

lugar do Homem) acontece via união com esta. Então, ao invés de ser tornar a “máquina perfeita”, “estéril”, “dotada de uma alma única” (SFEZ, op.cit., p.21), ela se desmaterializa na incerteza do fluxo de informações da rede, incorpórea e dotada de não uma, mas duas almas únicas, ambas em perfeita fusão uma com a outra e em comunhão com a consciência da IA que, aparentemente, a partir daí, passa a possuir também uma alma, nem que por procuração.

Portanto, preliminarmente, podemos afirmar que como em Ghost in the

Machine, Kill Switch se sustenta sobre uma narrativa de representações conflitantes,

esboçando os critérios e fundamentos abordados em nossa arquitetura teórica, sobre a constituição da modernidade e o avanço do pensamento tecnológico em termos culturais nessa fase que chamamos de cibercultura, mas que também poderíamos chamar de tecnocultura capitalista. Ao mesmo tempo, também revela noções contrárias a maquinização da civilização, colocando o ser humano, a civilização humana ocidental, mais especificamente, no centro das representações enfocando a abstração subjetiva humana (o amor romântico entre Invisigoth e David Markham) como centralidade do projeto de existência além de critério formador da individualidade, da identidade e das própria socialidade.

1

3

3..22..33..FFIIRRSSTTPPEERRSSOONNSSHHOOOOTTEERR(M(

MuunnddooVViirrttuuaall

))