transport sur la ségrégation sociale de l’espace urbain du Grand Agadir
Section 1. L’espace du Grand Agadir comme champ d’étude
II- La croissance démographique
2. L’accroissement, la densité et la structure par âge de la population
Iremos neste momento apresentar nossa forma de apreensão de todo conhecimento produzido por meio dos procedimentos metodológicos empregados nesta pesquisa: observação participante nas reuniões do FECTIPA e grupos de discussão com representantes das instituições e com jovens que participam dos programas desenvolvidos por estas. Também faremos uso das informações coletadas na fichas de identificação das instituições. Vale ressaltar que não estamos lidando, simplesmente, com informações, mas com
conhecimentos produzidos em uma perspectiva de interação entre sujeitos na realização da pesquisa de campo ao longo de todo este trabalho. Produzir conhecimentos significou, portanto, a recusa das pretensas neutralidade e imparcialidade por parte do pesquisador e a necessidade de se estabelecer novos parâmetros para a objetividade. É, neste sentido, que não iremos lidar com descrição de dados ou de informações, mas com o esforço de fazer conexões entre os diversos conhecimentos que temos disponíveis. Eles são parciais e contextualizados dentro de uma dinâmica social que envolve a sociedade, o Estado, as instituições de aprendizagem profissional e os jovens. Os capítulos teóricos apresentados tentaram cumprir esse objetivo de contextualizar os atores de pesquisa em um quadro mais amplo de problematizações e questionamentos. Este é o momento, portanto, de fazer conexões entre os conhecimentos e, para isso, utilizamos de alguns princípios da Análise de Conteúdo, proposta por Bardin (1979), para leitura do material das fichas de identificação das instituições e dos grupos de discussão, e para o estabelecimento de categorias de análise. Para fazer conexões entre os conhecimentos produzidos partiremos da compreensão desses como produções discursivas (Fairclough, 2001), socialmente construídas e que constituem sujeitos, relações sociais e sistemas sociais. Contudo, não estamos propondo uma Análise do Discurso com todas as suas especificidades, mas tomamos dessa área de estudos a premissa de que não estamos lidando apenas com textos, entrevistas ou sujeitos isolados, mas com relações sociais historicamente construídas.
Para a construção das categorias de análise todo o material coletado foi lido exaustivamente por meio de uma leitura flutuante (Bardin, 1979), parcialmente orientada pelas referências teóricas que contextualizam o problema de pesquisa. Esta leitura exaustiva e flutuante teve como objetivo encontrar os primeiros registros de unidade no corpus de conhecimentos sobre o qual nos debruçávamos. As leituras seguintes foram realizadas já com o foco em estabelecer as categorias de análise, que representam para nós unidades que dão sentido ao diálogo entre a produção de lugares sociais, o compartilhamento de noções socialmente construídas e os posicionamentos subjetivos dos atores envolvidos na pesquisa. Cada categoria não representa, deste modo, a voz de um único ator, mas o diálogo entre o que os atores de pesquisa refletem sobre juventude pobre e políticas de trabalho e emprego. As categorias indicam a conexão entre os conhecimentos produzidos em relação a uma temática específica, sendo orientadas pela reflexão teórica sobre o assunto. Elas trazem respostas ao problema de pesquisa e permitem a produção de novas teorizações. Neste sentido, a relação das categorias de análise com a teoria não é linear, no sentido dos questionamentos teóricos
determinarem as categorias analíticas, mas sim uma relação que acreditamos ser cíclica, entre teoria – conhecimento produzido – categorias de análise – novas teorizações.
Rocha e Deusdará (2005, 2006) apresentam algumas críticas à análise de conteúdo diante da sua forte influência positivista. Segundos os autores, novos paradigmas científicos a partir da década de 1960 passaram a questionar o “modelo duro, rígido, de corte positivista, herdeiro, como dissemos, de um ideal preconizado pelo Iluminismo” (2005, p. 309). Este modelo tem como pressuposto atingir a significação profunda dos textos por parte do analista, que representa uma espécie de detetive neutro e objetivo que busca descobrir o verdadeiro significado por detrás da aparência do texto. Para os autores, a eliminação da subjetividade do pesquisador na Análise de Conteúdo pressupõe a descoberta de algo que é anterior à elaboração do problema de pesquisa. O sentido, deste modo, está encoberto no texto e precisa ser desvendado pelo analista através do ato de colocar ordem na desordem do texto. Prevalece, neste processo, uma relação de distanciamento entre o pesquisador e objeto de análise, uma vez que o pesquisador é considerado um observador imparcial. A interpretação dos textos em busca da verdade oculta é, portanto, mediada por procedimentos metodológicos que visam garantir neutralidade e precisão na descoberta do que há por detrás do que foi dito. Em relação à psicologia, os autores apontam como a Análise de Conteúdo se constitui nos Estados Unidos no início do século XX, no contexto de desenvolvimento do behaviorismo, contribuindo para uma individualização da psicologia social. Neste sentido, a Análise de Conteúdo contribuiu para produção do hiato entre indivíduo e sociedade no interior da psicologia social psicológica (Farr, 2008), onde o social é achatado ao individual e há a produção de uma concepção essencializada de indivíduo. Foi neste processo de americanização das ciências sociais e psicologização da psicologia social, segundo os autores, que os trabalhados em Análise de Conteúdo foram atualizados.
Tomando como importantes os procedimentos metodológicos da Análise de Conteúdo envolvidos na preparação dos textos e no estabelecimento de unidades de análise, mas contrários às idéias de desvendamento de significados verdadeiros e absolutos, e do distanciamento absoluto do pesquisador em relação ao seu objeto de estudo, é que compreendemos os conhecimentos produzidos pelos atores de pesquisa enquanto discurso, ou seja, o discurso como um “revelador das negociações entre sujeitos (individuais e coletivos) em um determinado contexto de relações sociais” (Torres, 2005, p.28). Este contexto de relações sociais está estabelecido na nossa pesquisa pela juventude como um campo de intervenção social e o desenvolvimento de políticas públicas de trabalho e emprego dentro desse campo.
Como contraponto à interpretação na Análise de Conteúdo, Rocha e Deusdará (2005, 2006) apresentam o aporte teórico-conceitual da Análise do Discurso, do qual elegemos algumas proposições que julgamos pertinente discuti-las nesse momento. A primeira delas refere-se às implicações do pesquisador no desenvolvimento de suas atividades, ou seja, a pesquisa científica é entendida como um ato de interferência do pesquisador em uma dada realidade, o que marca o pesquisador como um co-produtor dos conhecimentos e sentidos produzidos. Uma segunda proposição importante é a de recusar na concepção do social que a realidade existe em si mesma e de que existe uma forma privilegiada de acesso a essa realidade, especialmente, através da objetividade. O discurso, neste sentido, pode ser tomado como um palco de embates entre ideologias, concepções individuais e relações de poder, que conforma a vida das pessoas em um dado momento histórico. Não há realidade escondida, verdade oculta ou sentido a ser desvelado, mas vozes a serem descritas, imagens a serem anunciadas, lugares de poder a serem identificados, formas de interação que constituem novas racionalidades e inteligibilidades a serem mostradas, e novos modos de expressão subjetiva a serem apresentados. O pesquisador, portanto, não é o espião dessa dinâmica de produção de discursos que condensam significados partilhados socialmente, e que pode contribuir tanto para a reprodução quanto para a transformação das sociedades (Fairclough, 2001). Nós, pesquisadores, somos partícipes do contexto social que pretendemos conectar, identificando suas relações de poder, a construção de hierarquias e o estabelecimento de resistências e trajetórias de fuga por parte dos atores envolvidos.
Este referencial menos rígido em relação a uma determinada perspectiva de análise nos permite, assim, focar nos atores e no problema de pesquisa, e não apagá-los ou impor sobre eles um referencial teórico totalizador. Como apontamos anteriormente, nossa relação é de circularidade: teoria – conhecimento produzido – teoria, e não de uso do conhecimento produzido para a aplicação de teorias. Essas, para nós, não são verdades absolutas e incontestáveis.
Antes de apresentarmos nossas categorias de análise, apontamos que durante o processo de transcrição e revisão das gravações optamos por retirar o excesso de cacoetes verbais da fala dos sujeitos (“né”, “assim”, “tá”, “pra”, “humm”, “aham”, “daí”, “é”, “então”, “ok”, “tipo assim”, “entendeu”, etc.), aproximando a pronúncia das palavras da sua ortografia correta. Acreditamos que isso permite uma leitura mais fluente das falas, mas sem alterações em seu conteúdo e sentido. Conteúdos não identificados na fala dos atores de pesquisa serão expressos pelo símbolo (XXXX). Para a supressão de informações, usaremos o símbolo (...). Os nomes verdadeiros dos sujeitos foram substituídos por nomes fictícios, bem como o nome
das 11 instituições que enviaram seus representantes para os grupos de discussão. Apenas os nomes do mestrando e de sua ajudante na pesquisa (Marilza) não foram substituídos. Vale ressaltar que serão utilizados nas análises que se seguem apenas os dados das fichas de identificação e das apresentações no FECTIPA dessas 11 instituições.
4. ANÁLISES (OU PARA FAZER CONEXÕES)
O nosso trabalho de fazer conexões deu origem a três categorias de análises que iremos discutir a seguir: Hierarquias na construção dos lugares sociais dos jovens pobres, O
trabalho para a juventude pobre como um campo de intervenção social e Das contribuições do programa de aprendizagem profissional para a juventude pobre. Nas três categorias,
iremos apresentar como as diversas experiências compartilhadas ao longo desta pesquisa constroem lugares sociais, perspectivas de vida e leituras sobre a nossa sociedade.