Jean-Philippe Antoni Gilles Vuidel
1. H ISTORIQUE ET OBJECTIFS DU MODÈLE
A. I. Richards (1936) ocupa um lugar destacado nos estudos sobre metáfora, ao propor uma descrição do mecanismo de funcionamento da metáfora que se estende além dos limites lexicais, e cristalizar uma terminologia amplamente utilizada para os termos que a constituem.
A metáfora toma os capítulos V e VI de sua obra The Philosophy of Rhetoric, mas a discussão ali encontrada vincula-se muito mais a uma nova definição de retórica do que a uma semântica da metáfora no seio da frase. De acordo com Ricoeur (2000), o projeto retórico da obra, relacionado à metáfora, compõe-se de severas críticas à herança taxionômica da Retórica clássica de classificação de figuras e à distinção entre um sentido próprio ou literal e um sentido figurado.
Richards assume que as palavras não possuem significação própria, pois não encerram nenhum sentido em si mesmas; o discurso, tomado como um todo, seria o responsável pela produção do sentido e por sua percepção de maneira indivisa. Por meio desse argumento, o autor rejeita qualquer recurso taxionômico para as figuras e ataca a noção de sentido literal. Segundo ele, não há nenhuma associação fixa entre nome e idéia, pois o discurso constitui-se pelo contexto, uma espécie de feixe de acontecimentos aos quais as palavras devem seu sentido. Por isso, nada impede que uma palavra signifique mais que uma coisa.
O autor rompe, assim, com uma teoria que concebe a palavra como o elemento fundador de uma metáfora, uma vez que a palavra funciona somente como o “veículo” do sentido, e não como um empréstimo ou substituição de uma palavra por outra, como sustentava a retórica clássica. Ricoeur resume bem o argumento de Richards:
A metáfora mantém dois pensamentos de coisas diferentes simultaneamente ativas no seio de uma palavra ou de uma expressão simples, cuja significação é resultante de sua interação. Não se trata de um simples deslocamento de palavras, mas de um comércio entre pensamentos, isto é,
de uma transação entre contextos. Se a metáfora é uma habilidade, um talento, é um talento do pensamento (RICOEUR, 2000, p.129).
Portanto, na compreensão de Richards, a tensão geradora do sentido metafórico resulta da interação entre duas idéias, dentro de uma palavra ou expressão. Apoiando-se nesse raciocínio, o autor define os termos constituintes de uma metáfora.
Uma metáfora, para Richards, compõe-se de três elementos: teor, veículo e ground. O teor é o conteúdo, a idéia em questão, que pode ou não estar presente na superfície textual – constitui o termo metaforizado. Já o veículo consiste na idéia sob cujo signo a primeira é apreendida – constitui o termo metaforizante. O traço ou traços de significação que estes dois termos apresentam em comum constituem o fundamento da figura, o ground. No exemplo João é um palito, João seria o teor, palito seria o veículo e a idéia de magreza seria o ground.
Vale lembrar que a metáfora não se resume ao veículo, mas consiste no conjunto dos dois termos; engendra-se a partir da percepção simultânea dessa interação. Ou seja, surge uma tensão, não entre dois termos, mas entre duas interpretações diferentes de uma mesma sentença. Aliás, este é um ponto importante que distancia as idéias de Richards das teorias precedentes, construídas sob a égide da palavra, em que o efeito de sentido proporcionado pela metáfora não incide sobre a estrutura predicativa.
De acordo com Ricoeur (2000), este seria também um dos motivos pelos quais o efeito metafórico revela o absurdo da tentativa de uma interpretação literal, pois o conteúdo ou teor não pode ser concebido fora da própria figura e o veículo também não pode ser tratado como um ornamento sobreposto, um termo substituto. São a ocorrência simultânea e a interação entre os dois elementos presentes na estrutura sentencial que impedem uma interpretação literal precisa e fazem surgir a metáfora.
Se tomarmos, por exemplo, a metáfora esse homem é um lobo, a interação proporcionada pelo veículo lobo e pelo teor homem, releva efeitos concernentes a um sistema de idéias resultante da interação, e não ao conteúdo semântico de cada termo da metáfora. Desse modo, as interpretações possíveis vão desde a consideração de que homens são ágeis, pouco confiáveis e vorazes, como o são os lobos, até a interpretação de que homens são sexualmente insaciáveis, resultante da interação das idéias que temos sobre o comportamento de homens e de lobos.
No entanto, uma observação importante merece ser destacada. O surgimento da metáfora através da interação entre duas idéias carece de uma explicação detalhada sobre quais seriam as propriedades semânticas implicadas em uma determinada interpretação, e sobre o modo como ocorreria essa interação. Ademais, embora Richards fale de “discurso” ou “transação entre contextos”, mediada pelo teor e pelo veículo, ele parece restringir a aplicação desses conceitos ao âmbito da sentença. Ou seja, a interação de idéias veiculadas pela relação teor/veículo resulta de propriedades semânticas já codificadas nos dois termos, e, por conta disso, não atinge o mundo extralinguístico. Daí, compreendermos que o trabalho de Richards não aprofunda a discussão sobre a metáfora, a ponto de lançá-la ao discurso. Ilustremos com a seguinte piada:
Exemplo 1: Na apresentação do circo, era o show do homem e do crocodilo.
Lá pelas tantas, chegou o número onde o crocodilo abre a boca bem grande e o homem, como prova máxima de coragem, coloca seu membro dentro. Então, ele encara o público e diz:
- Há alguém que se anime a fazer o mesmo? Se levanta uma bichinha e diz:
- Sim, eu me animo... só não sei se vou poder abrir a boca tão grande assim...
Queremos demonstrar, com esse exemplo, o fato de que, em um texto socialmente partilhado, nem sempre podemos identificar explicitamente a relação teor / veículo na superfície textual. Nem sempre há uma metáfora atributiva A é B à espera de ser interpretada. Em muitos casos, ela precisa ser construída pela interação entre leitor, texto e conhecimento socialmente partilhado. É a isto que chamamos metaforização. Neste tipo de interpretação, só podemos apostar na palavra “membro” como veículo metafórico, se ativarmos o nosso conhecimento cultural a fim de selecionarmos uma propriedade semântica na qual membro assemelhe-se a pênis, órgão sexual masculino. Ainda assim, essa relação não é imediata, pois vai se configurando a partir do contato, na leitura, das expressões linguísticas (pistas textuais) bichinha e o último trecho do texto sim, eu me animo... só não sei se vou poder abrir a boca tão grande assim. Consequentemente, não temos a explicitude de um teor para realizar a interação de idéias, como apregoa Richards.
Evidentemente, não podemos negar que as idéias de Richards possuem um caráter pioneiro, pois possibilitaram aos estudiosos que o seguiram entenderem a metáfora como uma figura que diz respeito à semântica de toda a frase, e não somente à
denominação por meio de operações de substituição de elementos linguísticos. Ademais, a terminologia por ele adotada (teor, veículo e ground) revela, de modo sutil, o potencial da metáfora como veículo de conteúdo cognitivo e mecanismo de apreensão da realidade, fato que será aproveitado na teoria interacional de Black, descrita a seguir.