Na esfera acadêmica, em particular, no âmbito da pós-graduação, os produtores de textos, para serem bem-sucedidos do ponto de vista comunicacional, precisam deter os conhecimentos necessários para elaborar textos variados: artigos, resenhas, resumos, dissertação, tese, entre outros, os quais são frequentemente utilizados para divulgar pesquisas e comunicar os avanços em determinada disciplina que compõe o contexto acadêmico.
Motta-Roth e Hendges (2010: 22) observam que redigir textos no ambiente da universidade “é produzir textos acadêmicos com objetivos muito específicos. Um artigo acadêmico, um abstract, uma monografia, uma dissertação, uma resenha ou um livro têm funções diferentes”. É possível reconhecer um gênero acadêmico observando-se o modo particular como está construído, por exemplo, em relação a tema e objetivo (o que desejamos alcançar ao publicar um texto), público-alvo (para quem escrevemos, alunos de graduação,
48 de pós-graduação, pesquisadores experientes, leigos) e natureza e organização das informações que compõem o texto.
Consideramos, juntamente com Swales (1990) e Bhatia (1993), gênero como um evento comunicativo que tem um ou mais propósitos comunicativos. Como Bhatia (1993) salienta, embora outros fatores, como conteúdo, forma e intenção, influenciem na constituição de um gênero, ele também é caracterizado pelo propósito comunicativo que se pretende alcançar.
No caso da seção de introdução de artigos de pesquisa e de dissertações de mestrado, por exemplo, seus propósitos comunicativos – explicitar a relevância da pesquisa no campo de estudos e relacioná-la a trabalhos anteriores (Bhatia, 1993) – são alcançados por meio de três movimentos retóricos recorrentes: Estabelece o território, Estabelece o nicho e Ocupa o nicho (Swales, 1990). Tais movimentos, realizados por meio de estratégias retóricas, os passos, conferem à introdução uma estrutura cognitiva típica.
Assim como cada gênero tem um propósito comunicativo, ou propósitos, ao qual deve satisfazer, cada movimento serve a determinada intenção comunicativa, subserviente ao propósito geral do gênero. De modo a conferir certa intenção comunicativa a determinado movimento, o produtor do texto deve se valer de estratégias retóricas diferentes, dependendo da intenção. Na introdução de dissertação de mestrado, por exemplo, é preciso decidir se o território de pesquisa será estabelecido a) reivindicando a centralidade da pesquisa ou b) fazendo generalizações sobre o tópico e/ou c) revisando pesquisas anteriores.
Os gêneros introdutórios seriam o que Bezerra (2006: 80-81) define como aqueles que introduzem outros gêneros. Em um sentido amplo, trata-se de gêneros textuais que, no corpo de uma obra acadêmica, agregam-se “ao gênero ou gêneros principais como uma proposta de leitura prévia, em termos de orientação, sínteses ou convite à leitura global da obra”. Bhatia (1997) esclarece que, em um nível mais elevado de generalização, podemos pensar em “introduções acadêmicas” ou colônia de gêneros12, que envolve gêneros
12 Bhatia (1997) defende a ideia de que as introduções acadêmicas formam uma colônia de gêneros
relacionados, os quais podem ser identificados em termos de propósito comunicativo comum, qual seja, introduzir um trabalho acadêmico, quer ele seja um livro, um artigo científico, um ensaio, uma aula, uma dissertação ou uma tese. Em todas essas manifestações comunicativas, destaca o autor, a introdução tem uma função dominante: introduzir um evento acadêmico oral ou escrito. No caso de livros acadêmicos, por exemplo, os gêneros introdutórios englobam prefácio do autor, prefácio do editor, prólogo, introdução e agradecimentos. Embora, de modo geral, todos eles compartilhem o mesmo propósito comunicativo de introduzir a obra, alguns deles, eventualmente, podem incorporar também propósitos comunicativos mais específicos, como o de promover a obra a potenciais leitores, no caso do prefácio, que pode ser escrito pelo autor ou por outra pessoa, como o editor.
49 variados, por exemplo, introdução de artigo, introdução de livro, introdução de ensaio, introdução de dissertação e introdução de tese.
Especificamente acerca de introduções de dissertação de mestrado, podemos considerá-las um gênero textual, pois, como observa Bhatia (1997, 2009), assim como ocorre com os demais gêneros introdutórios, seu propósito é introduzir/ apresentar uma obra acadêmica, no caso, a dissertação de mestrado propriamente dita. A introdução oferece, assim, uma visão ampla ao leitor acerca do que será abordado no conteúdo interno, o que lhe permite, de antemão, construir sentidos direcionados ao objeto da pesquisa. Em outras palavras, ao proceder à leitura da introdução de uma dissertação, por exemplo, o leitor aciona vários conhecimentos que tem internalizados e identifica aqueles que não possui, com vistas a construir um conjunto de conhecimentos compartilhados com o autor, o que favorecerá a compreensão do texto.
Neste capítulo, apresentamos o aporte teórico relacionado à teoria de gêneros (Miller, 2009 [1994]; Bazerman, 2006a, 2006b, 2007; Swales, 1981, 1990, 2004), buscando compreender aspectos importantes relacionados à teoria de gêneros e à organização retórica.
Em conjunto com a abordagem sociointeracional da língua (Koch, 2006; Koch e Cunha- Lima, 2009), com os princípios de textualidade (Beaugrande, 1997) e com as operações de retextualização, a teoria de gêneros, como a concebemos neste trabalho, reforça a ideia de que qualquer evento comunicativo que produzimos ou do qual participamos envolve o elemento social, ou seja, nenhum enunciado pode ser apartado do contexto socio-histórico, perspectiva que define, em grande medida, o modo como organizamos nossos textos tendo em vista os efeitos de sentido que desejamos produzir, o propósito comunicativo que desejamos alcançar e a comunidade discursiva à qual nos dirigimos.
Assim, a copidescagem, que também se configura como um evento comunicativo, da perspectiva que adotamos neste estudo, pode ser norteada por subsídios teóricos como operações de retextualização, teoria de gêneros, notadamente a organização retórica, e princípios de textualidade, estes, que passamos a abordar no próximo capítulo, de modo que o profissional do texto seja capaz de propor alterações textuais pertinentes e que produzam os sentidos adequados ao contexto.
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