I.1 Description quantique d’un mode du champ électromagnétique
I.1.5. c Reconstruction par Maximum de vraisemblance
Bazerman (2006a, 2006b) propõe que os gêneros estão intrinsecamente relacionados ao contexto social e às atividades realizadas pelos indivíduos. Trata-se, como salienta, de considerar os gêneros não apenas como formas, uma vez que são também
modos de ser. São frames para a ação social. São ambientes para a aprendizagem. São os lugares onde o sentido é construído. Os gêneros moldam os pensamentos que formamos e as comunicações através das quais interagimos. Gêneros são os lugares familiares para onde nos dirigimos para criar ações comunicativas inteligíveis uns com os outros e são os modelos que utilizamos para explorar o não-familiar (Bazerman, 2006b: 23).
Para o autor, os textos criam fatos sociais, uma vez que os indivíduos, por estarem juntos, em um modo de vida organizado, “vivem naquilo que eles explicitamente afirmam e nas estruturas de relações e atividades que implicitamente estabelecem” (Bazerman, 2006a: 21). Os gêneros estruturam as atividades e as relações, por isso “constituem um recurso rico e multidimensional que nos ajuda a localizar nossa ação discursiva em relação a situações altamente estruturadas. O gênero é a [...] realização visível de um complexo de dinâmicas sociais e psicológicas” com as quais nossos enunciados precisam dialogar para sermos mais eficazes do ponto de vista comunicativo (Bazerman, 2006b: 29).
Um texto bem-sucedido cria um fato social, o qual consiste em uma ação social significativa realizada por meio da linguagem, mais especificamente por meio de formas textuais tipificadas. Essas formas tipificadas, denominadas gêneros, estabelecem relação com outros gêneros que acontecem em circunstâncias similares e afetam a maneira como as pessoas definem uma situação, como são empregadas as palavras e qual é a força dos enunciados.
41 Como esclarece Bazerman (2006a), os gêneros têm o poder de dar forma e significado às situações, além de direcionar as ações que ocorrerão bem como de até predizê-las. Se sabemos de antemão, em razão de sua tipicidade, como funciona o gênero missa, por exemplo, adotaremos comportamentos condizentes com a situação e poderemos atuar com êxito nesse ato. De acordo com o autor, um ato comunicativo bem-sucedido cria um fato social, uma ação social significativa realizada por meio da linguagem.
Voltando essa abordagem à introdução de dissertação de mestrado, gênero textual que compõe o corpus de nossa pesquisa, se o autor do texto tiver conhecimento suficiente do propósito comunicativo que seu texto deve satisfazer, das expectativas da banca examinadora, da composição e do estilo a serem adotados, que informações apresentar e como fazê-lo, esse ato comunicativo será bem-sucedido.
Considerando a perspectiva sociocultural, é possível entender os gêneros como mediadores de atividades sociais. Trata-se, como observa Bazerman (2007: 167), de um “artefato mediador que dá forma à atividade e permite relações e realizações particulares”. Esse artefato torna-se “parte do modo como as pessoas pensam em situações e em atividades na medida em que começam a usar e a entender o artefato de maneiras particulares e na medida em que vêem o artefato mediador como uma extensão de sua própria ação”.
A noção de gêneros como mediadores de ações sociais foi tratada por Miller (2009 [1984]), porém em uma perspectiva que envolve o espaço público e o privado. Ao afirmar que gênero é um “artefato cultural” (p. 43), ou seja, representa o modo de pensar e os propósitos de cada cultura, além de ser mediador entre as exigências da sociedade e as intenções do locutor, a autora expande o conceito – gênero como um padrão de forma e um meio para alcançar objetivos – do nível linguístico para os níveis social e psicológico, do espaço privado para o espaço social comum.
Os vários textos que produzimos nas mais diversas situações sociais constituem o que Bazerman (2006a) denomina conjunto de gêneros, o quaI está inserido em um sistema de gêneros que faz parte de um sistema de atividades humanas. Um conjunto de gêneros refere-se aos tipos de textos que um indivíduo produz em uma dada situação social conforme o papel que assume, como os textos que um aluno de pós-graduação precisa elaborar – projeto de pesquisa, relatório de leitura, resumo, artigo, seminário e comunicação, por exemplo – e que, interligados, constituem um “retrato” das atividades que desempenha no contexto acadêmico. Como Bazerman (2006a: 32) esclarece, ao elencarmos os gêneros
42 que um indivíduo, exercendo determinado papel social, é levado a escrever e a falar, podemos identificar e compreender grande parte da atividade relacionada à produção desses gêneros.
O sistema de gêneros envolve os vários conjuntos de gêneros utilizados por indivíduos que trabalham juntos de modo organizado e as relações padronizadas que são estabelecidas na produção, circulação e uso desses gêneros, em um “fluxo comunicativo típico de um grupo de pessoas” (Bazerman, 2006a: 32). Consideremos o conjunto de gêneros utilizados por um aluno de pós-graduação constituído de projeto de pesquisa, relatório de leitura, resumo, artigo, seminário e comunicação, entre outros, e o conjunto de gêneros utilizados por um professor, parecer, comentários sobre textos produzidos pelos alunos, registro de notas etc.
Ainda que esses dois conjuntos tenham gêneros diferentes, estão intimamente relacionados e circulam em uma sequência previsível de ações, grosso modo, o aluno produz um texto, para o qual o professor apresenta comentários e concede uma nota que, por sua vez, será registrada no prontuário do aluno. Tais ações têm significado nesse contexto e estruturam o sistema de atividades nas quais ocorrem, organizando-o, não apenas em relação ao conteúdo documental, mas também no que se refere às relações estabelecidas entre os indivíduos, ao modo como realizam seu trabalho e como alcançam suas realizações. A importância de se considerar o sistema de atividades e o sistema de gêneros, explica Bazerman (2006a: 34), está em “focalizar o que as pessoas fazem e como os textos ajudam as pessoas a fazê-lo, em vez de focalizar os textos como fins em si mesmos”.
Bazerman (2007) lembra que os gêneros têm sido estudados mais intensamente ao longo de décadas recentes. As perspectivas adotadas nesses estudos consideram o gênero como texto, como retórica e como prática. Em uma abordagem mais tradicional, o gênero considerado em seu aspecto textual tem como foco a linguagem ou o estilo (sintaxe e léxico) e a organização do texto. Nesse âmbito, esclarece o autor, “as questões centrais se baseiam não no que um gênero é (gêneros são tomados como ponto de partida), mas em como os gêneros são textualmente realizados, especialmente através de meios linguísticos e organizacionais” (Bazerman, 2007: 157).
A abordagem de gênero como retórica também considera aspectos textuais, mas com base em uma situação sociorretórica, ou seja, o texto é visto em seu contexto, o que dá ao gênero um caráter mais social. Nesse caso, “os tópicos, arranjos e outros traços sequencialmente ordenados podem ser vistos como fornecendo caminhos psicológicos para
43 guiar o pensamento e as emoções da audiência [...] essa visão psicológica situada de gêneros [...] presta séria atenção à relação daqueles textos com seus contextos” (Bazerman, 2007: 157-158). Assim, essa abordagem considera, por exemplo, como um texto fornece pistas de quem o escreveu e como reflete e reage a ideologias de época.
Por fim, a terceira perspectiva de gênero como prática considera os gêneros “dinâmicos, fluidos, heterogêneos e situados, uma vez que estão intrinsecamente ligados a condições socio-históricas que direcionam a produção e a recepção dos textos, os quais são parcialmente constituídos, entre outras coisas, pelas identidades, pelas situações e pelos atos daqueles que participam na sua leitura ou escrita, enquanto, ao mesmo tempo, essas identidades, situações e atos estão sendo parcialmente constituídos pela presença e força do texto e pelas práticas textuais que ele indexa” (Bazerman, 2007: 158). Essa abordagem, ressalta o autor, enfatiza os gêneros não como tipos isolados, mas com partes que constituem sistemas multidimensionais de atividades.