en quoi elles touchent au ministère de guérison
D E QUELLE SORTE DE FOI AVONS - NOUS BESOIN ?
4. La guérison survient toujours quand la foi est présente
O binómio social e individual que se encontra na origem do texto faz de Simmel um dos precursores da visão da moda como um sistema de sig- nificados. Ao longo do texto, cada expressão ou cada afirmação é sempre suportada por um novo binómio, intrínseco ao principal, social/individual, que destaca e clarifica a evolução da questão da moda. Por exemplo, o uso do binómio homem/mulher parece ser uma ajuda fundamental para Simmel, a fim de explicar a causa principal da diferença externa na maneira de se ves- tir de cada género: se o homem pode prescindir da maioria das mudanças exteriores, é porque está na sua natureza não ser fiel a nenhum sentimento
estabelecido, sentimento ao qual a mulher se entrega com confiança e entu- siasmo de mudança.
Retomando o binómio inicial indivíduo/sociedade, onde Simmel insere a moda a partir da diferenciação das atitudes entre homem e mulher a seu respeito, surge outra importante afirmação, segundo a qual existe uma ligação entre moda e identidade. Considerando a roupa uma componente fundamental na construção social de um indivíduo, a identidade não deriva apenas da tradição, mas é qualquer coisa que se escolhe enquanto consumi- dor. Estas não são só expressões da classe social de pertença, mas também expressões do indivíduo, de uma parte deste, ou, nas palavras da escritora e filósofa Cixous, “a roupa não é uma proteção do corpo, é o seu prolongamen- to” (Cixous, 1994). A moda, portanto, tem em si dois elementos de contraste, porque, se por um lado, deixa o indivíduo mostrar-se como um ser único, por outro, classifica-o como pertencente a um grupo.
O texto de Simmel é também particularmente interessante ao referir o uso do luto, da roupa preta, em especial no feminino, que, afirma o autor, pertence àqueles fenómenos de negação da moda ou simplesmente ao fecha- mento e coesão de um grupo. Para quem está de luto, o símbolo da roupa preta permite uma aproximação ao defunto, permite imaginar a pertença a um mundo não-vivo, porque é não-colorido. Uma espécie de comunidade ideal dentro da comunidade que, através da posição da mulher, introduz o conceito de fraqueza, segundo o qual Simmel reconhece nas mulheres um impulso maior para a moda, relativamente aos homens. Nesta perspetiva, esta posição social débil fez com que, durante séculos, a mulher tivesse sido condenada a uma relação vinculante com tudo o que é traje.
Ao manter-se no terreno sólido do vestuário, da média, do nível geral, as mulheres aspiram intensamente a uma individualização e a uma distin- ção da personalidade que ainda são relativamente possíveis.5 (Simmel, 1998: 40).
5. Mantenendosi sul terreno solido del costume, della media, del livello generale, le donne aspirano intensamente all’individualizzazione e alla distinzione della personalità che sono ancora relativamen- te possibili.
Mas, de que maneira a moda consegue materializar esta ação contrastante sobre o homem?
Deixando, por momentos, a funcionalidade da moda, conceito que interessa em Simmel, outro binómio importante é o de moda/vestuário. O filósofo e sociólogo alemão diz que a grande distinção entre os dois conceitos reside no facto de que a moda deve considerar-se “como um fenómeno difuso apli- cável a todos os campos sociais” (Svendsen, 2006: 11), porque, como depois Lipovetsky (1989) irá desenvolver, esta representa uma forma peculiar de mudança social, independentemente do seu objeto específico.
Ainda outro binómio vem ajudar Simmel: o que existe entre as classes so- ciais elevadas e as subalternas, onde a adesão ou não a uma moda faz com que ela própria se desenvolva numa determinada direção. Relativamente a isso, Simmel desenvolve o conceito de difusão da moda chamado trickle- -down, literalmente “gotejar de cima para baixo”, das classes sociais ricas para as massas, e que se estende depois de maneira horizontal através do mecanismo da imitação. Através da introdução deste conceito, Simmel che- ga à conclusão que a nova moda só pertence às classes superiores e que tais dinâmicas, que atuam mediante imitação, só têm um andamento, de cima para baixo. Ainda que não reduza as dinâmicas da moda a uma mera lógi- ca de posicionamento social, Simmel afirma que, uma vez que esta chega às mãos das classes inferiores para se diferenciar delas, as classes originá- rias viram-se de imediato para um novo estilo. O fenómeno da imitação é substituído imediatamente, num novo ciclo, pelo da distinção. Desta forma, os grupos sociais menos favorecidos não conseguem impor/propor modas próprias, limitando-se a imitar os mais favorecidos através de um efeito de gotejamento. A teoria trickle-down de Simmel, sem dúvida, nasceu da ob- servação do ciclo da moda em diferentes períodos históricos. Porém, pode supor-se que as grandes mutações na sociedade, acarretadas pela revolução industrial, foram determinantes e tiveram lugar poucos decénios antes da formulação deste modelo conceptual.
Considerando estes acontecimentos históricos, consegue entender-se em todo o seu valor, como também nos seus limites, a hipótese que Simmel desenvolve em relação aos conceitos de imitação e de diferenciação. Sobre a questão da imitação e do trickle-down, quem irá antecipar e prever o futu- ro será o sociólogo Tarde (2012) quando, em 1890, afirma que a sociedade moderna se abre de tal forma a uma flexibilidade imitativa que também as classes sociais superiores podem tomar as inferiores como modelo.
Ambos os conceitos começam a assumir um valor diferente, considerando o quanto a sociedade se havia tornado industrializada em comparação ao pas- sado. O mundo da produção em massa criara uma interação e um contacto entre as classes sociais impensável até então: o impulso para a imitação de modelos específicos orientava a produção industrial, mas era também determinado por esta; e a mesma coisa se verificava quanto à necessidade oposta, a de diferenciação.
O ponto onde Simmel acerta no alvo é que, durante o século XIX, a di- ferença na maneira de vestir dos diferentes estratos sociais tornou-se invisível em relação ao passado. Isto parece constituir uma explicação válida do facto de que, na mesma altura, tornou-se ainda mais frequente os uniformes e as fardas específicas de um determinado ofício substi- tuírem a roupa normal, de maneira a que a pertença social do indivíduo ficasse claramente marcada na sua roupa. Sem dúvida que esta pode ser interpretada como uma estratégia da classe superior para evidenciar a posição de cada indivíduo, para combater a homogeneização que come- çava a assumir o controle entre os estilos de vestuário das diferentes classes sociais.6 (Svendsen, 2006: 51).
6. Il punto su cui Simmel colpisce nel segno è che nel corso dell’Ottocento diventò in certa misura meno visibile la differenza nel modo di abbigliarsi dei diversi strati sociali rispetto a prima. Ciò sembra costituire una spiegazione valida del fatto che nello stesso periodo divenne sempre più abituale che uniformi e divise specifiche di una determinata mansione sostituissero gli abiti normali in modo che l’appartenenza sociale del singolo fosse chiaramente marcata dai suoi vestiti. Questa può senza dubbio interpretarsi come una strategia della classe superiore per evidenziare quale posto toccasse a ciascun indivíduo, ai fini di combattere l’omogeneizzazione che aveva cominciato a prendere il sopravvento tra gli stili di vestiario dei diversi ceti.
Imitação e diferenciação tornaram-se necessidades sociais, sobretudo dentro do novo contexto da sociedade industrial. Nas sociedades pré-industriais, de facto, a distância entre as classes sociais revelava ser muito maior, enquanto que, por seu turno, a imitação e a diferenciação davam-se a um ritmo extre- mamente lento, também porque a moda não exigia mudanças repentinas. Não é por acaso, de resto, que durante os anos em que Simmel elabora- va a sua hipótese, outro elemento começava a ser considerado em relação à moda no contexto da nova sociedade industrial: tratava-se do aspeto co- municativo. De facto, na sociedade industrial, a distância entre as classes sociais parecia diferente em relação ao passado, pois os instrumentos co- municativos à disposição dos atores sociais eram outros. Através da moda podia efetivar-se uma comunicação entre as diferentes classes sociais e, de forma geral, entre o indivíduo e a sociedade.
É também graças ao contexto histórico em contínua mudança que Simmel primeiro desenvolve uma consciência sobre o fenómeno da moda, deslocan- do o seu ponto de vista e a atenção da substância para a função. Para o filósofo, o que é a moda não é tão importante quanto o para que serve na organização da sociedade e na formação do binómio, relativamente às necessidades do indivíduo. O que conta é a sua função: contribuir num processo de recipro- cidade na articulação da sociedade em classes, círculos e profissões, onde é, ao mesmo tempo, uma consequência (Perucchi, 1998: 82).
Seguindo a cronologia proposta por Calefato, poucos anos depois da apari- ção do ensaio de Simmel em 1899, nascem as reflexões de Thorstein Veblen. O economista e sociólogo norte-americano, de maneira não muito diferen- te de Simmel e no mesmo ano, na sua obra de maior sucesso, The Theory of the Leisure Class, intentou teorizar a maneira como a classe dominante encontrou na moda um instrumento com o qual demonstrar aos outros a sua própria riqueza. A origem da moda, segundo Thorstein Veblen, não es- tava especificamente relacionada com uma necessidade natural, como, por exemplo, a necessidade de se proteger do frio ou do calor, ou com um impe- rativo moral ou estético, mas vinha de uma necessidade social que abrangia
todos os outros elementos naturais, de ostentação do próprio status, de diferenciação dos outros, e ao mesmo tempo de coesão dentro do próprio grupo. Neste aspeto, Simmel e Veblen parecem expressar as mesmas con- vicções em relação à moda como elemento de classe. O primeiro chega a afirmar que não existe moda em nenhuma sociedade onde o impulso de socializar seja mais forte do que o de diferenciar e onde não existam classes sociais formadas. Sociedades deste tipo são por ele chamadas de primitivas e caracterizam-se por uma notável estabilidade dos estilos, os quais podem perdurar durante muito tempo e que não se podem definir enquanto moda, pois esta pressupõe mudança. Perante este modelo, tanto Simmel quanto Veblen tentaram, por um lado, determinar a própria natureza da moda e, por outro, explicar a consolidação e o declínio de uma moda específica, a sua relação com um determinado contexto histórico, geográfico e económi- co através das tendências sociais que determinam o seu aparecimento. A essência íntima da moda residia na sua capacidade de se propagar à quase totalidade das pessoas até o seu interesse se esgotar.
Primeiro Simmel e depois Veblen elaboraram teorias úteis para esta pes- quisa, pois, é graças aos seus estudos focados na função da moda e do vestuário em geral que se explicam alguns fenómenos presentes nos filmes analisados. Nazaré, Praia de Pescadores (1927) e Ala Arriba! (1942) de Leitão de Barros, por exemplo, apresentam-se como o seguimento deste binómio sociedade/indivíduo teorizado por Simmel, enquanto que, entre os dois, o filme de 1942 é um claro exemplo de como a roupa pode ser usada dentro da comunidade como expressão da classe social e sua consequente ameaça na reversão de tal hierarquia.
Simbolicamente, Walter Benjamin, Georg Simmel e Roland Barthes podem ser indicados como as três figuras de relevo nos estudos da moda entendida como fenómeno social que, na sua apreensão moderna e na sua dimensão de massa, envolve motivações filosóficas fundamentais, como a temática do tempo (Calefato, 2007). Conscientemente, coloca-se de lado a ideia de uma análise detalhada do trabalho de Walter Benjamin quanto aos fenómenos
da moda, relatando-se apenas algumas partes que parecem adequar-se ao contexto desta análise.
Foi Walter Benjamin que usou a expressão Tigersprung para a defini- ção da moda enquanto “salto tigrino no passado”. Em geral, o conceito de Tigersprung refere-se aos traços do passado na relação com o presente. Em particular, Benjamin define-o como o conjunto daqueles instrumentos ou traços que produzem mudanças na estrutura das experiências da vida mo- derna, caracterizada por saltos violentos, alienação e deslocação, chegando à conclusão de que a moda é também uma narração social e o lugar de ne- gociação da lembrança.