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en quoi elles touchent au ministère de guérison

N E DONNEZ PAS À UNE MÉTHODE OU À UNE EXPÉRIENCE UNE PORTÉE UNIVERSELLE

Com Trubetzkoy e Jakobson, Pëtr Bogatyrëv está entre os representantes de relevância do Círculo de Praga. Em 1929, Jakobson e Bogatyrëv escreve- ram um ensaio intitulado “Il Folklore, Forma di Creazione Autonoma” (“Die Folklore als eine besondere Form des Schaffens”)16 (1967), onde a diferença

saussuriana entre langue e parole é comparada à de folclore e literatura. A arte e a literatura popular só ganham raízes quando são aceites dentro do próprio grupo. O folclore é uma criação coletiva, não no sentido de ter mais do que uma voz, mas no sentido de assumir a sua legitimidade apenas quando o grupo se apropria dele como um processo contínuo e constante de escolha e de eliminação. Tal processo não é mecânico, mas o resultado da atividade criativa de indivíduos talentosos. Não existe uma demarcação nítida entre o produtor de cultura popular e o consumidor; a fronteira é flutuante, porque entre as classes populares qualquer indivíduo pode ser “um contador de histórias, um cantor de musiquinhas, um bailarino de ‘saltarello’ e, ao mesmo tempo, pode ser um espectador de performances alheias.17 (Bogatyrëv, Jakobson, 1967: 67). Neste sentido, explicam os au-

16. Em português: “O Folclore, Forma de Criação Autónoma”.

17. (...) un narratore di favole, un cantore di stornelli, un ballerino di saltarello e contemporaneamente può essere uno spettatore delle performances altrui.

tores, o Folclore é semelhante à Langue, realidade coletiva, facto social e modelizante, enquanto a literatura culta é análoga à Parole, realidade indivi- dual, modelizada num singular irreproduzível.

Partindo da ideia de que langue e parole foram já acostadas à moda e ao traje, este ensaio descreve de maneira geral o tema do folclore, enquadrando uma contextualização de cada vez que aborda um aspeto diferente. Por exemplo, segundo esta pesquisa, o conceito de censura preventiva da comunidade é particularmente interessante para os estudos de moda e traje:

A existência de uma obra de folclore não pode deixar de presumir um grupo social em que irá ser acolhida e sancionada. Nas pesquisas folcló- ricas nunca se deve perder de vista o princípio fundamental da censura preventiva da comunidade. (...) No folclore, a relação entre a obra de arte e a sua objetivização, ou seja, as chamadas variantes da obra introduzi- das pelas diferentes pessoas que nela atuam, corresponde exatamente à relação entre langue e parole. A obra de folclore é extra-pessoal, como a langue, e vive uma vida puramente potencial, é um conjunto de determi- nadas normas e impulsos, um esboço de tradição atual que os atuantes animam com as próprias contribuições pessoais, como os criadores da parole em relação à langue. Na medida em que estas novidades indivi- duais da língua (ou do folclore) respondem às exigências da comunidade e antecipam a evolução regular da langue (ou do folclore), também socia- lizam e tornam-se factos da langue (ou elementos da obra folclórica)18. (Bogatyrëv, Jakobson, 1967: 61-62).

Daqui extraindo o conceito de censura preventiva da comunidade, compreende-se melhor como, passados oito anos, Bogatyrëv escreveu outro 18. L’esistenza di un’opera di folclore non può non presupporre un gruppo sociale che l’accolga e la sanzioni. Nelle ricerche folcloriche non bisogna mai perdere di vista il principio fondamentale della censura preventiva della comunitá. (…) Nel folclore il rapporto tra l’opera d’arte e la sua oggettivazione, ossia le cosiddette varianti dell’opera introdotte dalle diverse persone che la recitano, corrisponde esattamente al rapporto tra langue e parole. L’opera del folclore è extra-personale, come la langue, e vive di una vita puramente potenziale, non è insomma che un insieme di determinate norme e impulsi, un canovaccio di tradizione attuale che i recitanti animano con i loro apporti individuali, come fanno i creatori della parole rispetto alla langue. Nella misura in cui queste innovazioni individuali della lingua (o del folclore) rispondono alle esigenze della comunità e anticipano l’evoluzione regolare della langue (o del folclore), esse vengono socializzate e diventano fatti della langue (o elementi dell’opera folclórica).

ensaio ligado ao vestuário. Através deste conceito, o autor russo relança o seu desafio, partindo de Jacobson, entre langue e parole, desta vez aplicando- -o diretamente ao traje popular. A grande inovação aqui é que o traje popular é analisado através das suas funções, ou seja, tratando-se agora não tanto de especificar a sua proveniência, ato coletivo ou ato individual ligados à referida censura preventiva, mas de esboçar uma vida própria, partindo do reconhecimento de que é a comunidade que cria as suas próprias funções através da censura preventiva. Basta citar o início do ensaio de 1937 “Le fun- zioni del costume popolare nella Slovacchia morava”19 para compreender a

extrema atualidade da sua posição:

Muitos dos aspetos que observamos ao longo da análise das funções do traje popular equivalem para qualquer outro tipo de vestuário, mas, ao mesmo tempo, o traje possui muitas características não atribuíveis ao vestuário da cidade, sujeito à moda. Em muitos aspetos, o traje situa-se nos antípodas do vestuário sujeito à moda. Uma das tendências funda- mentais do vestuário da moda é modificar-se rapidamente e, além disso, o vestuário novo da moda não se pode parecer com o que o precedeu. Pelo contrário, o traje tem a tendência de não mudar: os netos têm que vestir o mesmo traje que os avós20. (Bogatyrëv, 1986: 93).

O que torna a análise de Bogatyrëv interessante é a sua construção segundo um sistema funcionalista, que individualiza no traje folclórico uma hierar- quia de funções. Durante o estudo, ao colocar em contraposição a moda e o traje, o autor encontra fortes contrastes entre os dois fenómenos: enquanto o primeiro adquire um sentido só em função da mudança e da rutura com o passado, o segundo vive de continuidade e tradição. A maneira de vestir do traje popular, tão estável e previsível, é a que mais capta a atenção de Bogatyrëv, que chegará à definição das cinco funções do traje: a estética, a 19. “The Functions of Folk Costume in Moravian Slovakia”, “As Funções do Traje Popular na Eslováq- uia Morava”.

20. Molto di ciò che osserveremo nel corso dell’analisi delle funzioni del costume popolare vale per qualunque altro tipo di abbigliamento, ma, d’altra parte, il costume ha molte caratteristiche non attri- buibili all’abito cittadino, che è soggetto alla moda. Per molti aspetti il costume è agli antipodi dell’abbi- gliamento soggetto alla moda. Una delle tendenze fondamentali dell’abito alla moda è quella di modifi- carsi rapidamente e inoltre l’abito nuovo alla moda non deve somigliare a quello che l’ha preceduto. Il costume tende invece a non cambiare: i nipoti devono portare lo stesso costume dei nonni.

erótica, a prática, a mágica e a regional. Segundo o linguista russo, o traje possui um certo número de funções, algumas das quais são dominantes, enquanto que as outras têm um papel subordinado. A primeira divisão a ser individuada é entre o traje do dia a dia, o traje da festa e o traje ritual. O traje do dia a dia tem em conta as seguintes funções (enunciadas por or- dem de predominância): 1) função prática: o traje tem de proteger do frio e do calor, adaptar-se às condições do trabalho do campo, etc..; 2) função de classe; 3) função estética; e 4) função regional. No traje da festa e no traje so- lene, as funções são reunidas na seguinte ordem: 1) função festiva ou solene; 2) função estética; 3) função ritual ou mágica; 4) função de pertença nacional ou regional; 5) função de classe; e 6) função prática. No traje ritual: 1) função ritual ou mágica; 2) função festiva; 3) função estética; 4) função de pertença nacional ou regional; 5) função de classe, que em geral tem um papel pouco relevante; e 6) função prática, ainda que, em alguns casos, as partes indivi- duais do traje não tenham de facto nenhum papel prático.

Na passagem do traje do dia a dia ao traje festivo e do festivo ao ritual, na mesma medida em que vão desaparecendo algumas funções, outras adqui- rem força, ou então, manifestam-se novas funções. Na passagem do traje do dia a dia ao traje da festa e também na passagem do traje da festa, ou de suas partes, ao traje ritual, e na mutação aceite das suas funções, “o grau de obrigatoriedade do traje pode crescer ou diminuir”.21 (1986: 96).

Voltando às cinco funções principais enunciadas pelo autor, começando pela estética, que, entre as outras, apesar de aparecer mais vezes, não consta de uma análise própria, pois o autor irá agregá-la à função erótica: segundo o autor, na maioria das vezes, a função estética só serve para embelezar, sendo raro encontrá-la no traje do dia a dia, porque, segundo a sua listagem, os aspetos práticos terão sempre um lugar determinante. Porém, é de subli- nhar que, se esta função, por um lado, se releva de forma evidente e plena no traje da festa, por outro, é também verdade que se pode colocar no traje do dia a dia sob a forma de um pequeno enfeite ou detalhe de consolidação 21. Il grado di obbligatorietà del costume può crescere o diminuire.

da sexualidade. Pode tratar-se de uma flor entre os cabelos, de um pentea- do, ou de uma particular maquilhagem para marcar a feminilidade, assim como, para a masculinidade, elementos vestidos de uma maneira específica, como, por exemplo, uma camisa aberta no peito, com o colarinho levantado. À função estética alia-se a erótica. Esta importante função, afirma o autor, encontra-se tanto no vestuário moderno como no traje, desenvolvendo um papel tão importante quanto saliente. A função estética constitui um todo único com a função erótica e, muitas vezes, quase a esconde: esta fusão das funções é compreensível, explica Bogatyrëv, porque ambas apontam o dedo para uma forte chamada de atenção. “Na avaliação do sexo oposto, por exemplo, cita-se apenas o valor estético do traje, eliminando a sua função erótica.”22 (1986: 105).

No que toca à função prática, pelo contrário, a questão que Bogatyrëv pro- põe é se esta não estará ligada com o arcaísmo ou com a confiança atribuída à velha peça, pela adequação do traje às condições climatéricas locais ou às condições de trabalho de uma determinada zona. A mesma coisa poderia notar-se no calçado, ou na sua ausência, segundo se trate de uma comuni- dade transmontana ou de uma comunidade do mar. Muitas vezes, a função prática também engloba em si signos das diferenças económicas, entre agricultores ricos e pobres, e signos de pertença a classes sociais diferen- tes, entre aristocratas e agricultores. Assim, chega-se à função de classe, que, de facto, se manifesta dentro da função prática. Dentro das diferenças entre ricos e pobres e entre ricos e menos ricos, elencadas por Bogatyrëv, evidencia-se um fator ligado ao passar do tempo e à consequente mudan- ça dos hábitos. O autor explica que a exibição da diferença de classe é tão importante que “a tendência em distinguir as várias classes sociais através do traje conserva-se também quando os trajes ficam nivelados, ou seja, na passagem dos trajes rurais locais ao vestuário de cidade, internacional. A tendência das várias classes em deixar sobressair as próprias diferenças

22. Nella valutazione dell’altro sesso per esempio si cita solo il pregio estetico del costume e se ne tace la funzione erótica.

recíprocas é a única forma que, ao longo do tempo, se enche de conteúdos diferentes23”. (1986: 98).

Existem ainda umas toucas que se colocam debaixo de um lenço, ves- tidas com roupa azul. As velhas e grandes toucas desapareceram. Diferentes eram as toucas das mulheres dos artesãos. Agora, também as camponesas põem entre os cabelos uns pentes altos, diferentes dos pentes das mulheres dos artesãos.24 (J. Húsek, 1932, I confini fra il terri- torio della Slesia morava e la Slovacchia, citação em Bogatyrëv, 1986: 98).

Em relação ao traje festivo e ritual, a função prática permanece no fundo da lista e a parte estética destaca-se.

Existe ainda a função mágica, em primeiro lugar de importância na função do traje ritual. Além da importância da cor vermelha, a que se atribui efi- cácia contra bruxarias e que é sobretudo usada no vestuário para crianças, Bogatyrëv analisa em profundidade o papel da camisa interior feminina como motivo de boa sorte:

Faziam-se atos mágicos interessantes com a camisa interior. Trata-se de uma parte tão íntima do vestuário feminino, que alguns maridos nunca a viam ao longo de toda a vida. As mulheres escondiam-na com muito cuidado e, depois de a lavar, estendiam-na de maneira a que ninguém a visse. (...) Talvez esta cuidadosa ocultação da camisa interior tenha originado a atribuição de capacidades terapêuticas a esta vestimenta, por exemplo, se o marido ou o gado tinham sido alvo de mau olhado25. (1986: 98).

23. La tendenza a distinguere le varie classi mediante il costume si conserva anche quando i costumi si livellano, cioè nel trapasso dai costumi rurali locali a quello cittadino, internazionale. La tendenza dei vari ceti a far risaltare le proprie reciproche differenze rimane come una forma unica, che nei vari periodi si riempie di contenuti diversi.

24. Esistono ancora delle cuffiette che si portano sotto il fazzoletto con gli abiti azzurri. Le vecchie e grandi cuffie sono già scomparse. Diverse erano le cuffie delle mogli di artigiani. Ora, invece, anche le contadine portano fra i capelli pettini alti, che però sono di colori diversi da quelli delle mogli degli artigiani.

25. Interessanti atti magici si svolgevano con la camicia. Si tratta di una parte così intima dell’abbiglia- mento femminile che alcuni mariti non la vedevano nel corso di tutta una vita. Le donne la nascondeva- no accuratamente e dopo il bucato l’appendevano in modo che nessuno la vedesse. (…) È verosimile che proprio da questo accurato occultamento della camicia sia derivata l’attribuzione a questi indumenti di capacità terapeutiche, ad esempio, se il marito o il bestiame erano colpiti dal malocchio.

O autor continua o seu discurso citando o antropólogo escocês Frazer e a sua lei homónima, segundo a qual através da law of contact ou law of con- tagion26, a camisa interior, aderindo ao corpo, é o meio do poder mágico no corpo nu. A lei do contacto, através da qual Frazer expõe a sua teoria sobre a magia, inserida no texto The Golden Bough: A Study in Magic and Religion (1915), afirma que, através dessa lei, duas coisas em contacto recíproco con- tinuam a ter influência uma na outra, mesmo após terem sido separadas. No ensaio, começado em 1890 e ampliado até à sua última elaboração em 1915, Frazer analisa as origens de cada uso, hábito e rito, pondo em consideração as práticas religiosas e mágicas, as superstições e os mitos atuais e antigos de todo o mundo.

Por fim, a última função, regional ou nacional, na qual pode englobar-se o conceito de pertença a uma etnia em particular. A função nacional torna- -se interessante, sugere o autor, quando se cruza com a função de classe, sobretudo no caso específico da existência de uma nação dominadora e de uma nação dominada. Esta última revela-se sempre defensiva do próprio traje nacional enquanto signo revelador da nacionalidade. Bogatyrëv explica ainda que o traje popular rural raramente é mais barato do que o traje de ci- dade: muitos agricultores vestem-no exatamente porque é um signo de uma certa posição social, às vezes percecionada como mais elevada em relação à dos seus concidadãos.

A análise empreendida por Patrizia Calefato também parece interessante no que toca às funções do traje popular, que “estão todas postas em cau- sa, desde a origem, relativamente à sua função estética, a mais imotivada e superficial, mas também a que revela a autorreferencialidade dos signos exibidos na roupa, a pureza do estar presente.”27 (Calefato, 1986: 18). A fun-

ção estética, segundo Calefato, faz da moda uma escritura do corpo, pois, encenando-se a si própria, torna paradoxal o seu estatuto de função.

26. Em português traduzir-se como lei do contacto ou lei do contágio.

27. Sembrano essere tutte messe in discussione, all’origine, dalla funzione estetica, la piú immotivata, la piú superficiale, e peró quella che rivela l’autoreferenzialitá dei segni esibiti nell’abito, il loro puro essere presenti.

O que se torna relevante para esta investigação é a conclusão de Bogatyrëv: para a compreensão da função social do vestuário estes signos devem ser lidos como se aprende a ler e a entender uma língua diferente. “O etnógrafo que usa o método funcional fornece material rico ao sociólogo que investiga o vestuário moderno de cidade. Por outro lado, é preciso, obviamente, ter em conta os resultados obtidos pela sociologia e utilizá-los.”28 (1986: 114).