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en quoi elles touchent au ministère de guérison

D E QUELLE SORTE DE FOI AVONS - NOUS BESOIN ?

5. Ma foi est en Dieu — et non pas en ma foi

A semiologia linguística da primeira metade do século XX é fascinada pela moda e pelos fenómenos do vestuário, porque vê nele mecanismos de oposição interior entre traços, de variações obrigatórias e ao mesmo tempo imotivadas, uma sistematização que lembra muito o funciona- mento da língua baseado na noção de signo.7 (Calefato, 2002).

Dentro desta linha de pensamento também é possível destacar um binó- mio que parece ser interessante: entre moda e traje. Os dois conceitos evidenciam, de uma maneira geral, uma distinção nítida que tem em conta o tempo e o lugar. De facto, se um dos principais efeitos da moda sobre o indivíduo é a rapidez com que o gosto muda, o traje é exatamente o opos- to, sendo este representado pela lentidão e pela inércia da sua presença. O lugar também é um elemento fundamental de distinção, pois, enquanto a moda prefere desenvolver-se nas cidades, o traje está radicado na periferia, preferivelmente dentro de comunidades fechadas onde as regras refletem usos e costumes populares: ambos são ‘imóveis’ e com tendência a ficar assim o maior tempo possível.

7. La semiologia linguistica della prima metà del Novecento è affascinata dalla moda e dai fenomeni di costume, proprio perché vi vede all’opera meccanismi di opposizione interna tra tratti, di variazioni obbligatorie e al tempo stesso immotivate, una sistematicità, insomma, che rammenta molto il funzio- namento della lingua concepito sulla base della nozione di segno.

Segundo uma análise geral sobre a importância da Semiótica na conceção moderna de moda e vestuário, se o antropólogo italiano Glauco Sanga (1986) se demora sobre o conceito mais específico de traje, que será analisado mais adiante, foi graças aos estudos antecedentes de Saussure. Apesar de se tra- tarem de breves referências, em Cours de Linguistique Générale (2009), texto de 1967, Saussure afirma especificamente que a moda, ao contrário da lin- guagem, não é um sistema completamente arbitrário, dado que a obsessão com a roupa que a moda implica é limitada pelas condições ditadas pelo corpo humano. O mecanismo da imitação, porém, relaciona os dois fenóme- nos, o da moda e o das mudanças fonéticas da linguagem, apesar da origem permanecer obscura em ambos os casos. Este é o ponto de partida da in- vestigação de Alison Lurie, iniciada em 1982. Em A Linguagem da Roupa8 (2007), de facto, pode ler-se:

Na avaliação de uma peça de roupa hão-de examinar-se as proprieda- des físicas da pessoa que a veste, tomando em consideração a altura, a massa corporal, a postura, a raça, a etnia, os traços e as expressões da cara. O mesmo conjunto poderá aparecer diferente se, a vesti-lo, estiver uma pessoa que consideramos atraente ou, pelo contrário, desagradá- vel.9 (2007: 41).

O texto de Lurie, juntamente com Le Systeme de la Mode de Roland Barthes, de 1967, e Fashion as Communication (2002) de Malcolm Barnard, de 1996 (2002), ainda hoje são considerados três dos principais títulos que eviden- ciam o fenómeno da moda dentro da teoria dos signos.

A partir das lições de Saussure, de onde todos os estruturalistas não- -peirceanos partem, por cada signo verbal distingue-se canonicamente a parte sensível e presente, chamada significante, da parte ausente, chamada significado. Os investigadores de moda da corrente semiótica, interpretan- do a moda como um signo, irão tratá-la como uma linguagem, aplicando 8. Il linguaggio dei vestiti.

9. Nel valutare un abito si prenderanno in esame gli attributi fisici della persona che lo indossa, con- siderando l’altezza, la stazza, la postura, la razza o l’etnia, i tratti e l’espressione del volto. Lo stesso completo apparirá diverso se ad indossarlo è una persona che consideriamo attraente o, al contrario, sgradevole.

ao fenómeno termos e conceitos da linguística estrutural de Saussure, tais como significante, significado e significação. A hipótese inicial seria, então, que a moda, enquanto signo, tem o seu aspeto essencial ao remeter para outra coisa, ao ser um signo de uma coisa diferente do que aparenta. Mas, apesar do fascínio do discurso semiótico aplicado à moda na exposição des- ta metodologia, o objetivo será assinalar algumas faltas que fazem parte do discurso desta análise.

No modelo estruturalista, a roupa é entendida como um signo e, habitual- mente, um signo não tem valor em si senão no sentido de existir em função de outra coisa. Por exemplo, o xaile preto que cobre o corpo e o rosto tapado por um chapéu, na realidade, indicam uma mulher que faz parte de uma comunidade fechada, como, por exemplo, a da Nazaré. Mas, deste modo, uma mulher assim vestida nunca vestiria roupa concreta, mas signos abs- tratos. De tal maneira, as roupas, que deviam ser o elemento principal numa análise de moda, tornar-se-iam puros fantasmas fora da moda, pois, o papel destes é o de remeter para outra coisa e não ter valor próprio. Remetem, por exemplo, para um período histórico particular, ou para uma situação económica particular, ou ainda, tomando como exemplo uma época. “Nos anos 1920, depois da grande depressão, (...) a expansão das costas com en- chimentos vistosos teria sido um signo do perigo da recessão a enfrentar, demonstrando que convinha armar-se com as ferramentas do futebol ame- ricano.”10 (Lai, 2012).

Allison Lurie aproxima-se muito desta linha de pensamento, transportando- -a para o traje popular, ao afirmar que “hoje, a manifestação da origem nacional e da identidade étnica através da roupa é, de facto, uma questão de orgulho pessoal e, muitas vezes, também uma forma de declaração po- lítica.”11 (2007: 104). O indivíduo que veste roupa não é um “altifalante das

verdades” (Lai, 2012) que o transcendem, mas sim, uma criatura cheia de

10. Negli anni Venti, dopo la grande depressione, (…) l’allargamento delle spalle con imbottiture visto- se, sarebbero stati segni dei pericoli della recessione per affrontare la quale conveniva armarsi anche con gli strumenti del football americano.

11. Oggi l’espressione dell’origine nazionale e dell’identitá etnica attraverso il vestito è piú che altro una questione di orgoglio personale e, talvolta, anche una forma di dichiarazione politica.

timidez e arrogância, de medo e de soberba, sempre virada para os outros com a interrogação inquieta e constante sobre como os outros a veem. É uma criatura de trocas e permutas, não um elemento anónimo da cadeia dos significados, dentro da qual a semiose ilimitada a inseriu. Assim sendo, a semiótica intenta, talvez de forma inconsciente, obscurecer a importância do facto de que, na moda, como também no traje popular, o que está em jogo é um determinado corpo que veste uma peça.

Na análise de Sanga (1986), o traje popular perde progressivamente as fun- ções práticas para chegar a uma abstração simbólica da roupa. Seguindo a linha dos Estruturalistas, onde toda a vestimenta em si é uma linguagem e, como tal, possui um vocabulário e uma gramática próprias, no seu breve ensaio introdutivo, Glauco Sanga avança com a explicação de quais são os pontos em comum entre língua e vestimenta em geral. A aproximação entre vestimenta e língua é frequente: juntamente com a língua, a roupa é o pri- meiro e mais evidente signo da diversidade e da identidade. Como a língua, a roupa é a origem da identificação étnica e social e da auto-identificação no plano psicológico. Como a língua, a roupa, na sua evidência imediata exte- rior, fornece uma primeira discriminação entre nós e os outros nos planos étnico e social. Do lado exterior, a roupa é signo de pertença étnica, sublinha o aspeto interclassista e minimiza as diferenças interiores. Do lado interior, é signo de colocação social, sublinha a coerência entre uma peça e a estra- tificação social, e condena ou impede as confusões (Sanga, 1986: 3). O traje, como a língua, é um signo de etnicidade lançado pelo grupo que teme perder a sua própria identidade. “Quanto mais completo é o traje étnico, tanto mais este é entendido seriamente por quem o veste.”12 (Lurie, 2007: 104).

Se, por um lado, Simmel introduz o conceito de roupa como signo com um outro significado e de como o indivíduo se relaciona com a sociedade, por outro, Saussure acrescenta a importância que a limitação do corpo lhe dá como único elemento não comum entre linguagem e moda.