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3. Gouvernance de Distrisoft
Intitulado “Brincando de parecer”, o segundo capítulo, de 1909 a 1930, inicia com o nascimento de Maria Meissen de Mattos, filha de Thalia e Rodolpho. O espaço configura-se ainda o mesmo, e a família hierárquica organiza-se da mesma forma, uma vez que Maria é criada pelos avós Anna e Hans Meissen.
Tendo vindo ao mundo prematuramente, “Maria nasceu miúda, frágil e chorava dia e noite como se tivesse consciência da perda sofrida”. (LAUS, 1999, p.79). A neta dos Meissen foi, em uma cerimônia muito simples, com batizado antecipado e os avós por padrinhos, consagrada à Senhora dos Navegantes: “Era domingo e era de manhã. A partir dos sinos da Ave-Maria, o bebê deixou de chorar”. (LAUS, 1999, p. 80). No caso de Maria, diferentemente de sua mãe Thalia, ser consagrada à Santa “não importava em nenhum compromisso religioso. Ela era apenas uma ‘privilegiada’ – no dizer do pároco – que tinha a Santa como sua protetora. Uma proteção celeste além da terrena do importante Hans Meissen”. (LAUS, 1999, p. 85).
Pelo fato de seu pai Rodolpho ter de partir, e com seu consentimento, Maria acaba por ser criada pelos avós Anna e Hans Meissen que, abalados com a morte da filha e por terem “em mãos um bebê prematuro, mirrado e órfão”, criam a neta sem a disciplina aplicada aos primeiros filhos e amainada por Ingrid, a irmã caçula de Thalia. Quando pequena:
Do amor e da dedicação desabrochou a neta, quase tão forte e bonita quanto a mãe. E ia crescendo em meio aos lindos causos contados sobre Thalia. Sendo o assunto preferido de Tonica, Maria conheceu cada detalhe desde a primeira procissão [...]. O mais emocionante, para Maria, era o causo do coração. Agora era dela, guardado cuidadosamente no cofrinho alemão junto ao coraçãozinho de ouro e outras jóias que Papi Rodolpho dera à Mutti Thalia. (LAUS, 1999, p. 82, grifo da autora). Logo, Maria é apresentada antiteticamente: do nascimento, frágil a uma criança forte, pelo amor e dedicação dispensados pelos avós, além de ser rodeada pelas lembranças da mãe Thalia. A família e o ambiente privado são, precisamente, os laços protetores e constritivos.
Aos seis anos e meio de idade, em 1916, Maria começa a frequentar o Grupo Escolar Cruz e Sousa, recém-inaugurado, já que Anna não mais tinha energia para “controlar a neta tão diferente da mãe na sua indisciplina” (LAUS, 1999, p. 84) e a menina passa a ter acesso ao ambiente público. E das festinhas de aniversário das colegas é que surge a brincadeira que principia o despertar da neta dos Meissen pelo desejo de interpretar – “E se não coube a Maria nascer em um barco, só uma coisa a encantava mais do que estar dentro de um: Brincar-de- Parecer”. (LAUS, 1999, p. 85).
Já em 1920, ocorre a conjunção que sela o destino da neta dos Meissen: o Brincar-de- Parecer, na festa de aniversário de sua melhor amiga, Nina, e o encontro de Maria, aos dez anos de idade, com Belarmino (“o homem do barco”), que viera parar em Tijucas e acabara por ali se estabelecendo, vindo a residir em uma embarcação abandonada que lhe fora cedida. “A guria, que era muito mais ‘capeta’ do que lhe dissera o avô” (LAUS, 1999, p. 94), acaba por conseguir que o homem do barco lhe revele seu tão bem guardado segredo, em seus assíduos encontros no barco: Belarmino, “ainda guri, meteu o pé no mundo atrás de um circo que viu em Itajahy numa das idas de negócio de farinha do pai. O palhaço o fez rir tanto que decidiu: havia de ser palhaço. E onde se aprende isso senão no circo?” (LAUS, 1999, p. 95).
Das histórias contadas pelo ex-palhaço, a do seu grande amor Ednéia, foi para a neta dos Meissen motivo de encantamento e de projeção:
- Tu precisavas ter conhecido ednéia, era linda como uma deusa. Também era muito inventadeira, sempre botando coisa nova no espetáculo. Sabes o que é espetáculo? - É assim como Brincar-de-Parecer, não é? – respondeu Maria com ares de sabichona.
adoidado. Eles iam ao circo mais pra ver a pantomima. O drama de encerramento – explicou Belarmino – e Ednéia era a grande estrela – e ensinou. – estrela é a mais bonita. Isto é, a principal.
[...]
[...] Maria esperou. Ela mesma entregou-se a idealizar as feições, as roupas, os gestos de Ednéia. E vaidosa, ajeitando os cabelos:
- O senhor acha que eu poderia trabalhar no circo?
- Acho que não – Belarmino afagou Maria e mudou o tom. Quer dizer, não é que te falte talento, mas é uma vida muito custosa e tu estás acostumada noutro mundo. – Fez um gesto de silêncio. [...] (LAUS, 1999, p. 95-96).
A história de Edinéia desencadeia em Maria o desejo de ser tão “inventadeira” quanto o palhaço lhe disse que ela o fora. Na ocasião do aniversário da colega Nair, época em que “nos seus onze/doze anos, todas queriam ser diferentes e ultrapassarem a antecessora. Isso enchia de expectativa e vibração a plateia, às vezes compensada com alguns momentos de verdadeiro riso” (LAUS, 1999, p. 97). Anunciado o Brincar-de-Parecer, que por motivo de chuva foi feito no quarto de hóspedes da anfitriã, estava sendo realizado em ordem alfabética, o que deixava Maria ansiosa por ser espectadora “e aquele entra-e-sai de colegas embaralhava suas idéias e o atordoamento atrapalhava o planejar de sua encenação. Chegada a hora, tudo já tinha sido dito e feito” (LAUS, 1999, p. 97). Demorando-se no camarim improvisado, a plateia impacienta-se reagindo com assobios e bate-pés:
Maria, finalmente, “Pareceu”: nuazinha – em pelo -, fazendo-se de bailarina. Um pequeno chale (sic) a cobria ou não, de acordo com a sua improvisada coreografia ao som de seu próprio cantar.
Na plateia, todos estatelados.
Elenco e espectadores saíram quarto afora cheios de escândalo.
Anna tratou de retirá-la da festa em virtude do reboliço que se fez e a repreendeu severamente.
- Que gente entojada, Mutti, eu só queria ser inventadeira como a Ednéia. Isso faz algum mal? (LAUS, 1999, p. 97).
Depois do ocorrido, a brincadeira fora proibida nas festas de aniversário, sendo Maria apontada como péssimo exemplo, mas não deixavam de convidá-la pela importância do avô.
O processo de construção da identidade de Maria é desencadeado pelas brincadeiras nas casas das colegas – o Brincar-de-Parecer -, e a figura de Edinéia também vem a desempenhar um papel valioso neste processo, uma vez que a neta dos Meissen projeta na atriz circense seu ideal de vida.
O ano de 1921 é marcado pelo surgimento do Circo Tijucas, o qual virá a cumprir, também, um papel importante na constituição da identidade de Maria e na integração de sua personalidade. Idealizado por Hans quando Maria revela aos avós que seu “grande e único sonho era trabalhar num circo” (LAUS, 1999, p. 100), serviu de pretexto para agradar, ainda
mais, a neta. Como na granja havia um velho paiol sem uso, este seria reformado e transformado em circo, devendo estar pronto para festejar os doze anos de Maria. A estreia, no primeiro espetáculo, uma minicomédia traduzida por Anna, contou com a participação de todos os membros da granja e Belarmino, exceto Maria. Com o sucesso da apresentação, seguiram-se outras, todos os sábados – única apresentação semanal.
A partir de então, quando passa a integrar o elenco, em cada apresentação, a neta dos Meissen revela-se ainda mais voluntariosa:
O problema pior foi de Anna: inserir novo personagem à peça – Maria não admitiu um Brincar-de-Parecer sem sua participação. Afinal, além de Estrela, era a mais bonita e a dona do circo. Em sua habitual indisciplina revelou-se péssima profissional desrespeitando as marcações da avó. Foi uma tremenda rouba-cenas. Muito espevitada, queixava-se Anninha, logo fabricava um primeiro plano para si própria. [...] No mais, em cada apresentação algo ou muitos algos eram modificados: tinha que ser “inventadeira” como Ednéia. Por sorte – pensava Anna – não se despiu. Mas para Maria, agora Estrela e dona de circo, isso era perfeitamente dispensável. (LAUS, 1999, p. 102-103, grifo da autora).
O circo teve duração dos doze aos quinze anos de Maria, e sofreu diversas modifiações: “o picadeiro de chão batido ganhou tablado, mais conforto nas arquibancadas, pintura nova, camarins adequados. Acabaram por transformá-lo em um pequeno Teatro de Arena”. Assim como o circo, a partir dos quinze anos, Maria também foi se transformando, pois, sabendo-se “Estrela-Maior”, “foi deixando a indisciplina dar lugar ao bem-fazer os papéis que lhe cabiam” (LAUS, 1999, p. 109), sempre amparada por Hans Meissen. Quando é inaugurado, em 1925, o Cine Theatro, momento em que Hollywood toma conta de Tijucas nas telas do cinema, acaba por desmoronar o mundo circense que Maria levava tão a sério: “aquela visão de sonho tão distante, sem a menor possibilidade de alcance, apagou o CIRCO TIJUCAS. Aos poucos foi sendo trocado pelas tardes domingueiras no Cine Theatro. E até Ednéia sumiu...” (LAUS, 1999, p. 110).
E o sonho distante, não no tempo, mas no espaço, será o desencadeador dos conflitos vindouros no clã Meissen. Maria verá com a chegada de um circo de fora a possibilidade de concretização de seu sonho: aos vinte anos de Maria, em 1929, chega a Tijucas o Circo Brasil. A neta dos Meissen, “remexendo a alma, procurando saídas após a descoberta de Hollywood e sua inacessibilidade” (LAUS, 1999, p. 111), e lembrando-se de Belarmino que partira a pedido de Ednéia, vai ao circo com o intuito de reencontrá-lo e ter contato com os artistas circenses, contudo, especialmente, queria “uma Ednéia real”. Sem esperar pela estreia, Maria, juntamente com sua amiga Nina,
carreta, Raul informou: não, nenhum Belarmino nem Ednéia. Lamentou decepcioná- las, examinou as duas atentamente, depois falaram de circo, enquanto as acompanhou até metade do caminho de volta à casa. (LAUS, 1999, p. 111).
Neste exato momento, Maria concebe o plano de ir embora com o circo, tendo Raul como “desculpa”, o que confessa à amiga Nina, vendo esta uma oportunidade de realizar seu sonho de ser atriz. Raul Camargo, vinte e cinco anos, futuro esposo de Maria, por sua vez, também demonstra interesse pela neta de Hans. Seu interesse, contrariamente ao de Maria, dizia respeito a ligar-se a uma família rica, como forma de escapar à vida de circo que tanto detestava:
Nele tinha nascido, nele tinha perdido a mãe tísica de desconforto e cansaço. Só ao pai agradava aquele ciganear infindável. Raul não o abandonava, por acomodação e insegurança. Nada aprendera a fazer. Atender à bilheteria, administrar o dinheiro, conhecer cidades e nelas tentar, entre moças ricas, o escape possível. Cidades do interior, pequenas e pobres como o próprio circo, não lhe trouxeram vitória dos planos.
[...]
À porta do circo, um trabalhado local deu-lhe todas as informações: “É Maria, neta do homem mais rico e importante da cidade.” (LAUS, 1999, 112).
A ambos, vislumbra-se uma oportunidade de fuga das vidas que levavam. Assim, iniciam um namoro às escondidas. Não demora muito para que Hans e Anna desconfiem e, em uma manobra para afastar os dois, resolvem viajar com Maria para a chácara de sua tia Rosa, dando como pretexto uma suposta doença. Maria, buscando socorro em Nina, pede à amiga que avise Raul sobre a viagem, momento em que também confessa o motivo pelo qual insiste em investir no namoro: “- Isso é só um caminho, boba! Sozinha o Papi nunca me deixaria sair daqui... Depois – completou ironicamente -, com Raul e meu dinheiro, iremos para o rio e, lá, muito podemos fazer.” (LAUS, 1999, p. 116).
Com a ajuda da própria Maria, Raul consegue aproximar-se mais de Hans. Em um encontro derradeiro com o futuro sogro, afinal o circo deveria partir, Raul, de forma dissimulada, confessa-se um homem apaixonado e revela que, para ficar ao lado de Maria, faria qualquer sacrifício, inclusive deixar o circo, pois sabia que a Hans e Anna importava não perder a neta e mantê-la por perto. Maria, que até então também escondera da avó os encontros e as pretensões de casamento, também revela seu interesse por Raul, mas não sem surpreender a avó, que a considera dissimulada. Sabendo da farsa da chácara, a neta impõe-se e garante seu direito de escolha.
Empecilhos não mais existiram para o casamento, pois Hans acreditava que Raul realmente amava a neta e que largaria tudo para com ela ficar, e já lhe preparava um posto na Madeireira Santa Izabel. Contudo, ainda pairava a incerteza de Maria corresponder ao amor do futuro genro.
Quando se encontra com a noiva, Raul descobre sua real intenção: “Maria só pensava em participar do elenco do circo e acompanhá-lo por caminhos e caminhos Brasil afora. Tão ocupado em se fazer amar, só agora percebeu seu insucesso. Raul estava confuso: ninguém amava ninguém.” (LAUS, 1999, p. 123). Era preciso, então, “driblar” a noiva. Dessa forma, Maria e avós foram ludibriados pelo noivo: os avós, temerosos que a neta fosse embora e tivesse uma vida errante, foram convencidos por Raul de que nada deveria ser dito sobre a permanência deles em Tijucas; a noiva não deveria falar aos avós que partiria com Raul após o casamento. Maria só não sabia ainda que não partiria com o circo:
E os Meissen, em si, felizes porque Maria ficava. Maria, radiante porque partiria. E nessa encenação viveram dois meses de preparativos e ausência de Raul. Ausência buscada apenas como abrigo, para controlar o equilíbrio noivo-noiva. Pegou suas economias e zarpou para Curitiba. Garantir o enxoval de neto de Hans Meissen e gerente da Madeireira Santa Izabel. (LAUS, 1999, p. 124-125).
O casamento de Maria foi, como um ato de repetição de histórias, e a pedido dela, a remontagem do casamento de Thalia, apenas com personagens mais velhos. Na volta da lua- de-mel, a voz narrativa sugere que algo parece ter mudado em Maria, a qual, em uma conversa com o marido, revela ter pena de deixar os avós e ir embora. Em Raul, consoante a voz narrativa, também despertava emoção nova, agora “apoiado em escora bem fincada, seu coração estava livre e seguro para outros sentimentos.” (LAUS, 1999, p. 126-127).
Com um mês de casados e a um mês do Natal, Maria consulta o marido acerca da necessidade de realmente viajarem, estando a avó Anna doente. Esse fato garante a permanência do casal em Tijucas, de forma que Raul começa a sair com Hans para a madeireira, e Anna, por sua vez, começa a reanimar-se. Os laços constritivos continuam atuando na vida de Maria, ainda com maior intensidade, mesmo que de forma sutil e velada.
Depois de muito tempo, Maria resolve visitar a melhor amiga Nina. Lá a amiga conta- lhe de sua gravidez e da “sensação de paraíso”, de encantamento, o que faz com que Maria desconfie de estar grávida, também. E, no Natal, “todo mundo já sabia da gravidez da neta dos Meissen. Nem tinha viajado por estar ‘encrencada’” (LAUS, 1999, p. 128). A felicidade de Raul é plena, pois não haveria mais porque partirem. A Maria, então, restava permanecer
moreninho agradando à mamãe. A alemoada continuava” (LAUS, 1999, p. 130).
Se para Thalia os “laços de família” propiciaram a realização do sonho, para Maria foram, embora protetores, ainda mais constritivos. Mesmo que o casamento tenha servido de pretexto para uma possível fuga desses laços e para a consumação de seus anseios, ela finda por envolver-se na trama e, em Tijucas, permanece, abdicando de seu sonho em função da nova família que vem a constituir.
Maria, “gênese de um Novo, gênese de uma nova carpintaria do Feminino que desloca o agir do sagrado da procissão para o profano da profissão” (SACHET, 1999, p. 161), será a mola propulsora para que a filha, Theodora, leve a efeito o que ela deixara de realizar.