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Chapitre 4. Description de l’échantillon

1.2. Finalité de l’enseignement de la traduction

A presença da acção surrealista em São Paulo remonta ao final da década de 20, altura em que Benjamin Péret (1899-1959) e Elsie Houston viveram na cidade, na avenida S. João, em casa de Paulo Duarte (1899-1984). As relações do primeiro grupo surrealista de Paris com a cidade brasileira têm assim um historial de peso Ŕ o que não sucede por exemplo com Lisboa, onde apenas Nora Mitrani (1921-61) esteve de raspão no início de 1950. O caso paulista é distinto. Um dos criadores do surrealismo e seu activíssimo membro de 1924 a 1959, Péret, viveu na cidade por largo período, colaborou no Diário da

Noite, foi saudado por Oswald de Andrade como Ŗantropñfagoŗ e criou no país um círculo de amigos,

alguns para a vida toda, como Mário Pedrosa. Em Paris acabou por reencontrar, depois de 1932, parte do seu círculo paulista, exilado por causa da ditadura de Getúlio Vargas. Foi o caso de Paulo Duarte, que entreteve em Paris, durante mais duma década, relações com Péret e o restante grupo dos surrealistas. De regresso a São Paulo, depois do fim da guerra e da ditadura, Duarte fundou em 1951 a revista Anhembi, onde Péret, na segunda estada que faz no Brasil, entre Junho de 1955 e Agosto de 1956, dá a lume o seu mais denso escrito brasílico, O Quilombo de Palmares (n.º 55/56, Abril-Maio, 1956), que veio a ter boa fortuna editorial posterior.

Uma cidade que aculturara tanto do surrealismo francês, ao mesmo tempo que o solicitava para novidades tão efervescentes como o regresso ao primitivo do moderno antropofágico, parecia reunir, e de feito reunia, as condições ideais para a fixação dum importante grupo surrealista. O que surpreende é isso não ter sucedido logo no final da década de 20 e ter sido necessário esperar quase 40 anos para ver a sua concretização. O grupo criado na década de 60 demorou a chegar mas em contrapartida deitou raízes duradouras, tornando-se uma das grandes referências do surrealismo internacional até aos dias de hoje. O primeiro responsável pelo sucesso foi Sergio Lima, ainda activo, a quem dedicamos esta brasilina, na esperança de divulgar entre nós a sua obra. Exaramos aqui o nosso reconhecimento a todos os que a nós se juntaram, em especial Alex Januário, que recolheu boa parte dos textos e imagens.

Sergio Claudio de Franceschi Lima, nascido em 1939, contactou pela primeira vez com o surrealismo no I Festival de Cinema de S. Paulo, em 1954, tinha ele 15 anos, ao ver filmes de Buñuel e Dalí. No ano seguinte, na III Bienal de S. Paulo, tomou conhecimento das obras de Alfred Kubin e Maria Martins, esta última muito próxima de André Breton, que assinara o catálogo de várias exposições suas (Nova Iorque e Paris). Na mesma época entrega-se à leitura apaixonada de Ado Kyrou, Le Surréalisme et le Cinéma, de Dalí, Mi Vida Secreta, de André Breton, Nadja, L‟Amour Fou, Les Vases Comuniquants e Anthologie de

l‟Humour Noir, e de publicações surrealistas, como o quarto número da revista Médium, aparecido em

Janeiro de 1955. A seguir, em 1956, lê a notícia da prisão no Rio do poeta surrealista francês Benjamin Péret, que regressara ao Brasil no ano anterior, depois duma primeira visita entre o início de 1929 e o final de 31. Péret foi preso em Abril de 1956, à luz do decreto que o expulsara em 31. Sergio Lima, por coincidência nada despicienda acabara de contactar com a sua poesia na revista Médium, dedicando a partir daí atenção ao poeta francês, que tinha um filho a viver no Brasil, fruto dum antigo casamento com a cantora carioca Elsie Houston. Esta vasta rede teve o seu desfecho no volume inédito, feito com Michel Löwy, Benjamin Péret. O surrealismo no Brasil, onde estuda de forma exaustiva a presença de Péret no Brasil e recolhe a sua vasta colaboração brasileira.

O interesse e a atenção à acção de Péret coincidem com as primeiras experiências de Sergio, escritas e pictóricas, no domínio do automatismo. Terão sido estas tão marcantes que o autor afirmará à folha do Grupo Surrealista de S. Paulo (A Quimera que passa, n.º 10, 2012): A partir daí, a aventura dos

surrealistas confunde-se inteiramente com a minha vida. Viveu em Paris entre 1961 e 1962, onde teve

ocasião de conviver com André Breton, como testemunha a correspondência até hoje inédita e que nestas páginas damos a conhecer. A criação escrita deste período irá dar o livro Amore (1963), escrito entre Julho de 1958 e Dezembro de 1960. Trata-se dum livro de exaltação do AMOR, constituído por duas partes Ŕ uma terceira, Ŗaamadaŗ, formada por 22 plaquetas independentes, inéditas até hoje, ficou, pelo custo, por editar Ŕ com uma apresentação gráfica artesanal, já que o livro, numa edição de mil exemplares da editora Massao Ohno (S. Paulo/Brasil), apresenta texto manuscrito, sem composição de tipos. O livro elege o erotismo como prioridade. Num texto da mesma época, Breton afirmará que o erotismo é a única

arte à medida do homem. Se Eros foi o mais sacrificado na socialização civilizada, então a reconquista

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A primeira leitura crítica em língua portuguesa ao livro de 1963 Ŕ a revista surrealista francesa La

Brèche assinalou-o em 1965 Ŕ surgiu em Portugal, pela mão de Ernesto Sampaio (1935-2001), num

número do Jornal de Letras e Artes (ano VII, n.º 258, Dezembro de 1967, p. 21), organizado por Mário Cesariny e quase todo dedicado à I Mostra Surrealista de S. Paulo, também designada XIII Exposição Internacional do Surrealismo. Citamos passo: Saudemos em Sergio Lima um desses efémeros portadores

de leis negras, impetuosas e sem justificação, capazes de recusar tudo Ŕ sentimentos, valores, ilusões, esperanças Ŕ por aquilo a que Artaud chamava o “éter de um novo espaço”. Saudemos nele um desses

homens-radar que não aceitam a brusca coagulação do mundo, que nunca perdem a fé na sua

possibilidade exorbitante, que nunca (apesar do nevoeiro que dificulta a navegação ao largo) deixam de corresponder ao convite da aventura nem renunciam à devassa dum espaço aberto embora irrevelado.

Ao mesmo tempo que edita Amore, Sergio Lima faz a primeira tentativa, com dois outros jovens poetas, Claudio Willer e Roberto Piva, para criar um grupo surrealista em São Paulo. Pierre Rivas, estudioso do surrealismo, diz que este primeiro núcleo estava ligado ao grupo venezuelano, de Caracas, El techo de la

ballena, (Dictionnnaire Général du Surréalisme et de ses environs, 1984, p. 64). Dois anos depois, com a

ligação de Sergio Lima e Paulo Antonio de Paranaguá surgiram as condições para enraizar uma acção colectiva surrealista estável, que conduzirá à mostra surrealista de São Paulo de 1967, à publicação do seu catálogo-revista A Phala e a uma estreita ligação com os surrealistas franceses, argentinos [é o argentino Aldo Pellegrini (1903-1973) que põe Sergio Lima em contacto com Mário Cesariny] e portugueses, que desde aí e até hoje conhecerá sempre desenvolvimentos novos. O grupo tem no presente um historial de meio século, com fases distintas, participações diversas e renovadas ao longo dos anos e até extensões laterais e afins.

O autor de Amore foi o principal responsável da mostra surrealista de S. Paulo de 1967, com larga colaboração internacional. A mostra acabou por representar para os surrealistas portugueses envolvidos (Cesariny, António Maria Lisboa, António José Forte, Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, João Rodrigues e Mário Henrique Leiria) o primeiro momento de internacionalização. Nunca até aí haviam participado em qualquer evento internacional. O Grupo Surrealista da cidade do Anhembi tornou-se assim merecedor da mais leal gratidão dos surrealistas portugueses. A mostra publicou um catálogo, A Phala, que se tornou o primeiro número duma publicação surrealista, ainda viva com dois números recentes, um publicado em Janeiro de 2013 e outro (dois volumes) em Abril de 2015. As relações de Sergio Lima com Portugal não esmoreceram, nem mesmo depois da morte em 2006 de Mário Cesariny, com quem se carteou ao longo de quase 30 anos e que foi o seu mais próximo contacto entre nós. Em época recente encontramos o seu rasto, primeiro, no Centro de Estudos do Surrealismo, que lhe organizou na fundação Cupertino de Miranda uma exposição plástica em 2007, depois junto de Miguel de Carvalho, que lhe editou em 2009 uma obra de adolescência, Cantos à Mulher Nocturna, e dele recolheu colaboração no primeiro número da sua revista Debout sur l‟Oeuf (Coimbra, 2010).

Sergio Lima é nosso pelo negro da sua visão. Em nenhum poeta da língua o nigro é tão negro e tantas vezes negro. Em Amore a deusa é negra, as núpcias são negras, os céus são negros, a rainha é negra, a lua é negra, o homem é negro, a mulher é negra, o amante é negro, o sol é negro, o mundo é negro. Amore é um livro escrito num eclipse Ŕ a tinta negra. Em nenhum outro poeta a obsessão do negro é tão viva. O magnetismo do negro desenvolve-se nos seus textos teóricos: o romantismo é negro, o cinema é negro, o humor é negro, o romance é negro, o surrealismo é negro. Sergio Lima é ele um poeta do negro, um poeta da matéria-prima e do essencial, um poeta do primitivo e da fonte pré-original, um poeta negro. A força do erótico, que nele tem primazia absoluta, é a força do negro que se topa no ŘRetorno ao Selvagemř. O homem/mulher de desejo que habita Amore é o mesmo que habita a floresta Ŕ e a floresta é negra para ser floresta. Diz ele: retorno pelo primitivismo é a volta ao selvagem da imagem. Visão admirável, que alarga ao primitivismo do olhar selvagem, no quadro do automatismo, o mais original e primitivo dos processos vitais, o lado mais exaltante do modernismo brasileiro, onde se iniciou, pela reivindicação da antropofagia cultural e pela valorização do quilombo, a superação da antropomorfia europeia. [A.C.F.]

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