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A atuação do POC no município se dava através de duas células, que procuravam aprofundar a inserção do partido no movimento operário. A “competição” com outras organizações da esquerda era intensa, pois todas queriam capitanear o movimento, ou, ao menos, tirar dela algum proveito. Exceção feita ao PCB, cuja participação foi diminuta devido à rejeição que passou a sofrer no seio do operariado local desde o golpe de 1964.

A receptividade dos trabalhadores de Osasco às organizações de esquerda permitiu sua inserção no movimento e colaborar com o comando da greve quando da fuga das lideranças sindicais anteriores face à repressão. Por isso, no 2º e 3º dias da greve, o POC assumiu as iniciativas em algumas

fábricas, ocupando o sindicato, orientando os operários, sustentando o fundo de greve, organizando discussões políticas. Contudo, essa participação do partido na greve não foi fruto de um trabalho de longo prazo, mas o resultado de circunstâncias imediatas.

Desde antes da greve, e propósito da atuação do POC na greve de Osasco, Smerzeta afirmaria que

o POC teve uma influência não grande [sic], porque era um partido pequeno, mas tinha quadros, o que era importante; quadros importantes que acabaram influenciando no processo da greve.205

As reuniões com os operários simpatizantes ocorriam fora do ambiente de trabalho, para escapar à vigilância dos capatazes das empresas e dos “dedos-duros”. Os encontros se davam, então, nos locais mais inusitados, como em bares e em campos de futebol de várzea, ou até mesmo na residência dos operários. E, na opinião de Regis Andrade, sem esse trabalho prévio, as greves de 1968 que sacudiram a cidade não teriam ocorrido. Sem querer monopolizar os louros dessa mobilização, Regis Andrade afirmou que, em relação ao POC,

Nós ajudávamos como podíamos: tínhamos lá um mimeógrafo, fazíamos panfletagem de madrugada, pixações, dávamos cursos quando éramos solicitados, curso disso, curso daquilo sobre história do movimento operário, história do marxismo, reuniões de discussão a respeito da situação política etc.206

Quando da eclosão da greve propriamente dita, na divisão das tarefas coube ao POC o fechamento de duas pequenas fábricas locais e a “Fósforos Granada”.

A repressão foi intensa, inclusive com invasão pelas tropas do Exército das fábricas ocupadas pelos trabalhadores. O POC, com o declínio do

205 Idem.

Durante a greve, os estudantes da USP organizaram um fundo de greve, e um comitê de apoio à greve, que foi integrado ao Comitê de Sustentação, liderado pela pastoral operária. Membros do POC estavam presentes nesses comitês.

movimento operário a partir do segundo semestre de 1968, determinou aos militantes que “tínhamos a incumbência de recuperar as bases da greve de 1968”.207 Neste momento o POC percebeu que a grande maioria dos operários

não tinha real dimensão da ditadura e, portanto, da importância de uma greve com as dimensões da que estava ocorrendo em Osasco, naquelas circunstâncias. Conforme Regis Andrade

A repressão intensa que se seguiu à greve levou ao retrocesso do movimento operário local, não dava mais pra trabalhar lá. Nós continuamos o nosso trabalho lá numa escala muito mais restrita, mesmo porque vários tinham sumido dali, foram presos, se desinteressaram, caiu o grau de mobilização da massa.208

Essa nova conjuntura levou a organização a atuar nos bairros operários, focalizando as associações de moradores e também as escolas que ofereciam cursos para adultos. Por essa razão, no segundo semestre de 1968, optou pelo reforço da formação política dos operários, mobilizando militantes do Movimento Estudantil para a realização de cursos básicos. Segundo Otacílio Cecchini, estudante de Filosofia da USP e OPP do partido,

começou no sindicato (o cursinho), e começou a ficar barra pesada, então fomos para o bairro. Era no Jardim Helena Maria, lá em Osasco. Eu fui prá lá e comecei dar aulas de História e, no domingo, mutirão, proselitismo. Esse trabalho tinha a vantagem de poder ser realizado às claras.209

Outra tática que a Secretaria Regional do partido escolheu para mobilizar os trabalhadores foram as “Ações Exemplares”, que consistiam em panfletagens na porta das fábricas com segurança ostensivamente armada. Segundo Smerzeta, o POC em 1969 “tínhamos ligações com a VAR-Palmares (...) que tinha os instrumentos mais pesados (...) e fazíamos as panfletagens, a Ação Exemplar.”210

207 Smerzeta, op. cit. 208 Idem, p. 42.

209 Depoimento ao autor, 19/03/2015. 210 Ídem.

Com esses objetivos, o POC manteve durante os anos 69 a 70 duas células operárias atuando em Osasco e região, a de Presidente Altino e a Bela Vista – Osasco. Mas, as dificuldades da militância de base faziam com que houvesse uma grande rotatividade de militantes. Nas palavras de Stanislaw Szermeta,

Então ai nós, mas já como partido, nos fizemos uma célula em Presidente Altino e uma célula na Bela Vista-Osasco... Isso em 1969. Era pouca gente, em Altino acho que tinha 6 ou 8 pessoas, um negócio assim... E da Bela Vista tinha 5 pessoas. Mas tinha mais, o que rodava em torno tinha mais, os contatos, os assessores.... Uma quantidade razoável.. Não tem um número... Gente que vem nova, gente que sai... 211

Sem maiores sucessos, em 1970, a atuação estava restrita a algum proselitismo juntos aos operários locais, pichações e panfletagem, sem, portanto, maior impacto no movimento operário.212 Ou, nas palavras de Regis

Andrade,

nós já vivíamos sob o AI-5 nesta época, fins de 69, e entre 68 e 78 não acontecia quase nada mais. Aí a repressão era selvagem mesmo, vocês sabem disto e não havia nenhuma condição de retomar o trabalho de organização e mobilização operária tal como tinha sido feito em 67, 68 em Osasco. 213

De positivo em todo esse processo, o POC reconheceu que os comitês de empresa conseguiram driblar a estrutura sindical oficial e organizar a greve, e que o trabalho do Setor Operário deveria ser de longa duração, de formação das consciências. Segundo Estrella Bohadana, militante de célula operária do partido em Volta Redonda ,

Nosso trabalho era pegar as lutas que já estavam se apresentando na época como lutas econômicas nas fábricas, entre os ferroviários e tentarmos um trabalho primeiro de conscientização, de falar sobre a importância da transformação; o que seria um Brasil socialista e o que seria um programa socialista para o Brasil. Chegamos a propor aqui na região um jornal obreiro e lá em Barra do Piraí também. Quer dizer, nosso trabalho aqui era de panfletagem, de divulgação, e um trabalho mais sólido que eu diria até pedagógico, no sentido de mostrar qual era a situação e o que significava um país e o que significava um país com um golpe militar como o

211 Depoimento a Américo de Moura, op. cit. 212 BNM 454, p. 6.

nosso. O que tinha sido a própria história deste país, um país que não tem uma tradição, que está longe de ter uma tradição democrática.214

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