Chapitre I Définitions et champ d’application
Article 1 Définitions et interprétation
II. Autres dispositions relatives aux définitions
Nossa pesquisa passa obrigatoriamente por uma análise do discurso produzido pelo “jornalismo de serviço” nas reportagens, vídeos institucionais e falas de jornalistas e executivos da emissora Globo. Contudo, não existe uma análise do discurso, há diversos enfoques nos estudos de textos, produzidos “a partir de diferentes tradições teóricas e diversos tratamentos em diferentes disciplinas”, um número que chega a 57 variedades de métodos de análise do discurso (GILL, 2010, p.244). Contudo, essas disciplinas partilham a negação de que a linguagem, seja neutra, uma espécie de espelho do mundo. Gill (2010, p.245) considera que as principais características dessa perspectiva são: (1) postura crítica com respeito ao conhecimento dado, aceito sem discussão e ceticismo em relação à visão de que nossas observações possam desvelar a realidade tal como ela é, (2) reconhecem que nossas compreensões acerca do mundo são determinadas histórica e culturalmente, (3) convicção de que o conhecimento é socialmente construído e (4) o compromisso de explorar as formas como os conhecimentos estão ligados à ações/práticas.
Como todo método, precisamos escolher a variedade de discurso que melhor dá conta de nosso problema e referencial teórico. Uma de nossas hipóteses é que o jornalismo de serviço apresenta a característica de se apropriar da fala dos participantes das matérias para restituí-la na voz da emissora comprometida com a “responsabilidade social”. A partir dessa operação linguística, a Globo fortalece uma estratégia mais ampla de conquista de setores de audiência que começaram a adentrar no mercado de consumo nos últimos anos ao mesmo tempo em que aparece com representante dessas camadas, despolitizando determinadas bandeiras ao se deter em problemas focalizados sem se aprofundar em suas raízes e nas estruturas que causam o desrespeito a direitos dessas populações. A Globo, dessa forma, simula uma esfera pública em que há uma suposta igualdade entre os falantes, mas retira a fala dos grupos que participam dos quadros do “jornalismo de serviço”. Nesse contexto, os conceitos de ideologia e hegemonia, que serão discutidos mais adiante, são centrais para termos uma compreensão mais ampla de como opera o “jornalismo de serviço”.
Por afinidade teórica, resolvemos fazer uso da vertente denominada Análise Crítica do Discurso como arcabouço para essa etapa de pesquisa. Essa linha de estudos discursivos, segundo Van Dijk (2008, p.1), está interessada na análise crítica da reprodução discursiva do abuso do poder e da reprodução da desigualdade social, e utiliza conceitos centrais das ciências sociais como ideologia e hegemonia que são caros ao nosso marco teórico. Dentro dessa corrente, Fairclough (2001, p.89) propõe o estudo do discurso em um quadro tridimensional, como texto, prática discursiva e prática social, articulando a mudança discursiva com a mudança social e cultural. Ainda que autores como Van Dijk coloquem os meios de comunicação como uma instância quase que obrigatoriamente alinhada com o status quo, consideramos que existem possibilidades de que estes possam servir à emancipação e que os receptores possam decodificar as mensagens em chaves de significado distintas daquelas propostas pelos meios de comunicação.
A mudança no discurso jornalístico, em nossa opinião está ligada a mudanças no contexto social e econômico que estão exigindo uma mudança discursiva nos produtos televisivos oferecidos pela Rede Globo, que estaria tentando reestruturar as relações de poder que mantém com as audiências e outros poderes. Pois como lembra Fairclough (2001, p.121), “as práticas discursivas são investidas ideologicamente à medida que incorporem significações que contribuem para manter ou reestruturar relações de poder”. Outra questão é o motivo que leva a Globo a dar acesso a setores da sociedade que antes não eram escutados pelos grandes meios de comunicação de massa, promovendo a participação desses grupos. De acordo com Dijk (2008, p.10), a distribuição do acesso à formação ativa do discurso público é uma forma de distribuição do poder social. Essas mensagens que parecem empoderar os cidadãos, na verdade, não reafirmam o poder de quem dá acesso àquelas pessoas de ocuparem o espaço televisivo?
Dijk (1999), por exemplo, faz um estudo sobre a reprodução das ideologias baseado em um esquema que repousa no triângulo Cognição, Sociedade e Discurso. As ideologias não “seriam apenas conjuntos de crenças socialmente compartilhadas, por grupos. Estas crenças são adquiridas, utilizadas e modificadas em situações sociais, e sobre a base dos interesses sociais dos grupos e as relações sociais dos grupos em estruturas sociais complexas.” (Dijk, 1999, p.175). Para Dijk (1999, p.76), as ideologias além de estarem em disputa teriam no discurso seu principal meio de difusão, teriam uma dimensão institucional e organizacional, assim para este estudioso o papel da política, da educação e dos meios de comunicação deveriam ser alvo de uma análise social. As ideologias se reproduziriam também por atuar na
cognição dos indivíduos, pois ao oferecerem representações sociais de que o como mundo deveria ser, impõem padrões que serão usados como estoques de significados no processamento de informação. Dessa forma, as ideologias partilhadas socialmente podem atuar no aprendizado futuro. Dessa forma, as ideologias são
...sistemas de princípios básicos compartilhados socialmente por grupos. Tais ideologias têm uma série de funções cognitivas e sociais, incluindo a de manter a coesão e solidariedade do grupo, assim como o de proteger (ou adquirir) recursos sociais escassos. Em resumo, socialmente as ideologias se desenvolvem para assegurar que os membros do grupo pensem, creiam e atuem de tal modo que suas ações redundem em seu próprio benefício e no do grupo em geral. Esta função social “coordenadora” serve ao interesse do grupo e suas relações com outros grupos. (DIJK, 1999, p.208)
O conceito de Dijk sobre ideologia nos dá um ponto de partida para pensarmos a luta por hegemonia nas sociedades contemporâneas. Ponto de partida, posto que alguém pode não aderir à ideologia de seu grupo de referência, seja classe, família ou outro qualquer. Entretanto, dentro dessa corrente, Fairclough (2001, p.89) propõe o estudo do discurso em um quadro tridimensional, como texto, prática discursiva e prática social, articulando a mudança discursiva com a mudança social e cultural, um viés mais próximo ao conceito de hegemonia proposto por Gramsci, a construção de uma vontade geral a partir de um novo senso comum. Para Gramsci, a vitória revolucionária não se daria na simples tomada dos meios de produção e do poder estatal, mas da passagem do momento corporativo ao momento ético-político, quando a forma estatal de vida é substituída por uma nova concepção de vida, apoiado em um senso comum renovado, em que a Sociedade Civil e Estado se fundem. (GRAMSCI, 2013, p.100-1). A mudança no discurso jornalístico, em nossa opinião está ligada a mudanças no contexto social e econômico que estão exigindo uma mudança discursiva nos produtos televisivos oferecidos pela Rede Globo, que estaria tentando reestruturar as relações de poder que mantém com as audiências e outros poderes. Pois como lembra Fairclough (2001, p.121), “as práticas discursivas são investidas ideologicamente à medida que incorporem significações que contribuem para manter ou reestruturar relações de poder”. Em nosso estudo procuraremos compreender se o discurso produzido pelo jornalismo de serviço atua na manutenção ou reestruturação das relações de poder. Quais são os dispositivos utilizados no quadro Blitz do NETV usados para perpetuar a hegemonia de determinada abordagem da realidade e as relações de poder através de formas simbólicas? Esse é o nosso objetivo ao utilizar o método e as teorias da Análise Crítica do Discurso.