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As entrevistas foram realizadas com 10 crianças de cada turma investigada, (totalizando 20 sujeitos) antes de aplicarmos as sequências didáticas envolvendo os gêneros: debate deliberativo e debate de opinião de fundo controverso. O objetivo foi identificar a situação das crianças com relação às experiências com debate e com decisões. Perguntamo-nos sobre quais as experiências que essas crianças já tiveram dentro e fora da escola com debates e decisões, como a escola incide sobre essa experiência e qual a consciência que as crianças têm sobre as aprendizagens necessárias para tal participação.

Os quadros 06 e 07 apresentam a sistematização das respostas das crianças, sendo que o 06 apresenta a sistematização das questões relativas à decisão e o 07 apresenta a sistematização das questões relativas a debate.

QUADRO 06 - SISTEMATIZAÇÃO DAS RESPOSTAS DAS CRIANÇAS. TURMAS 01 e 02 20 CRIANÇAS/QUESTÕES SOBRE DECISÂO

PERGUNTAS SOBRE DECISÃO EVIDÊNCIA NUMÉRICA RESPOSTAS/OBSERVAÇÕES Você participa de alguma decisão da escola ou da sua comunidade? 05 responderam NÃO 14 responderam SIM 01 respondeu SIM, mas não lembrava do ocorrido.

Antes da resposta final (SIM/NÃO) 08 indicaram não saber o que é uma decisão

04 fizeram silêncio e eu expliquei

imediatamente 08 responderam indicando que sabiam

Dos 14 SIM  Em casa (04)

 Em casa e na escola (1)  Na escola (01)

 No futebol e na igreja (1)

 Decisões de caráter pessoal (07)

Você acha que tem condições de participar dessas decisões? Porque? 16 responderam SIM 01 respondeu NÂO 02 não foi perguntado 01 respondeu: Sim, mas tem criança muito perturbadora*

OBS:*Entendemos esta resposta como uma restrição por isso não enquadramos em SIM O que você precisaria aprender para participar das decisões da escola e da comunidade? 04 não responderam  Se comportar  Esperar

 O que é errado e o que é certo (2)  Tudo da decisão, como é as coisas  O que vai acontecer

 A notícia*  A ordem  As perguntas  As regras

 Das coisas, dos assuntos do bairro e da escola

 Saber que ela é boa. Que é legal. Se é divertido

 Saber qual é a coisa que vai escolher  Da verdade

 Ser obediente  Saber a resposta

OBS: *Ela se refere a notícia sobre o acontecimento que vai ser decidido

QUADRO 07- SISTEMATIZAÇÃO DAS RESPOSTAS DAS CRIANÇAS TURMAS 01 E 02 20 CRIANÇAS/QUESTÕES SOBRE DEBATE

PERGUNTAS EVIDÊNCIA NUMÉRICA RESPOSTAS/OBSERVAÇÕES Você sabe o que é um debate? se sabe explique. 10 responderam SIM 10 responderam NÃO Explicações:

 Um debate é quando uma pessoa fala aí a outra escuta, aí depois aquela pessoa que tava falando vai escutar o que a outra pessoa vai falar tipo vai fazendo as perguntas aí a pessoas bate quando souber.

 A pessoas discute o que uma fala, fica discutindo e depois a outra fala e discute também. Como o presidente, ele tem que debater pra o que ele vai fazer no país.  Debate é tipo conversar sobre alguma

coisa assim, alguém falando com outro. Tipo Dilma e Aécio conversando

 Na minha sala a gente ficou falando assim sobre o dever

 Sobre os planetas

 Uma pessoa falando com a outra debatendo as coisas

 Um protesto, tipo isso

 Um debate contra sei lá o lixo  É, quando vai decidir uma coisa

 Duas pessoas fica debatendo pra ver se vai ganhar ou perder

Você já participou de um debate? Onde e sobre o que? 11 responderam NÂO 09 responderam SIM Dos 09 SIM  Na escola e em casa (01)  Na sala sobre a tarefa (02)  Na escola sobre os planetas (01)  Não lembra(01)

 Na escola mas não lembra(02)  Sobre Deus perto de casa (01)  Em casa não lembra (1) O que você acha importante saber quando vamos participar de um debate? 02 respostas descontextualizadas 04 não responderam 04 não foi feita a pergunta

02 Inaudível 08 responderam

 Falar

 Precisa saber as perguntas que ele fazia pra pessoa. Se ele fizer uma pergunta pra mim e eu não souber responder aí vou ficar calada

 As coisas (como é o recreio)

 O assunto, o que é pra fazer, senão só vai escutar

 De tudo o que vai acontecer lá  De tudo, reunir as pessoas

 As regras e tudo o que vai perguntar  Explicar, pensar antes de falar

Um dos resultados que mais chama a atenção na sistematização das respostas é que 08 das 20 crianças entrevistadas declaram que não sabem o que é decisão e 04 silenciaram. Quando são esclarecidas sobre o que seria, elas muitas vezes indicam decisões de cunho pessoal. Vejamos dois fragmentos das entrevistas de Coralina da turma 2 e Chicão da turma 01:12

FRAGMENTO DE ENTREVISTA - 01

FRAGMENTO DE ENTREVISTA - 02

Vemos que nos dois fragmentos, as crianças citam decisões pessoais, mesmo no momento em que o exemplo apresentado trata de decisão coletiva. Portanto percebemos que a palavra decisão além de não estar no vocabulário corrente das crianças, pouco é referida como decisão coletiva e sobretudo na

12 Todos os nomes das crianças nas análises das entrevistas e sequências foram substituídos por

codinomes referenciando personalidades da historia ou das artes.

Pesquisadora: Ô Coralina, tu já participou de alguma decisão, ou da escola, ou da comunidade onde tu mora, tu mora onde?

Coralina: Joana Bezerra

Pesquisadora: Joana Bezerra? Ou então na tua casa, tu já participou de alguma decisão?

Coralina: Já

Pesquisadora: Qual?

Coralina: Entreguei minha vida a Jesus

Pesquisadora: Entregou sua vida a Jesus, que mais? Coralina: Aceitei a ir, a cantar com os professores da creche

Pesquisadora: Ô Chicão tu já participou de alguma decisão da escola ou de outro lugar, na tua casa, na igreja, tu já participou de alguma decisão?

Chicão: Já da igreja

Pesquisadora: Qual foi a decisão? Chicão: A decisão foi é...(silêncio)

Pesquisadora: Tu sabe o que é decisão? (silêncio)

Pesquisadora: O que é decidir alguma coisa? Chicão: É quando... toma quando.. sei não

Pesquisadora: Decisão é quando a gente escolhe alguma coisa. Tem duas coisas ou mais e eu escolho por uma. Por exemplo a gente pode decidir aqui hoje se na hora do recreio de amanhã a gente vai brincar de futebol ou de vôlei, isso é decidir. Entendeu o que é decidir?

Chicão: Entendi

Pesquisadora: E aí já participou de alguma decisão?

Chicão:Já, uma vez já decidi se ia pro passeio da igreja ou não. Pesquisadora: Quem decidiu se ia pro passeio ou não?

escola. Com relação a debate vemos que as crianças esboçam várias concepções inclusive algumas que envolvem o diálogo apontando para a possibilidade de já terem participado de tal prática social. Porém a metade nega tanto a compreensão sobre o que é debate, quanto a participação nessa prática social. Acreditamos que as crianças em vários momentos na sala de aula participaram de algum tipo de debate mesmo as que declararam não terem participado. É possível que os debates tenham ocorrido, mas como não foram trabalhados como objeto de aprendizagem, o nome debate não se consolidou na memória das crianças.

Quando elaboramos a questão sobre o que seria necessário aprender para participar de um debate ou de uma decisão, nosso objetivo era saber se as crianças apresentavam alguma consciência sobre essas práticas sociais e se estabeleciam relação com as aprendizagens uma vez que defendemos a construção de aprendizagens específicas para tal participação. Percebemos que as crianças apresentam várias hipóteses de aprendizagem que realmente poderiam contribuir com essas práticas. Vejamos por exemplo a resposta de Raquel da turma 1, quando lhe foi perguntado sobre o que aprender para participar de um debate: “Precisa saber as perguntas que ele fazia pra pessoa. Se ele fizer uma pergunta pra mim e eu não souber responder aí vou ficar calada”. O que nos chama a atenção nessa resposta é a possibilidade que a criança coloca de ter que ficar calada (possibilidade essa que ela rejeita), porque não saberia o que responder. Isso remete a um aspecto que procuramos prezar nas elaborações das sequências, que é o fato de oferecermos elementos, informações, pontos de vista externos e diversos, para que as crianças possam participar do debate de forma mais consistente. É verdade que Raquel se refere aí a perguntas, como se houvesse uma resposta certa, mas não podemos negar a importância que existe no fato de ela saber que é preciso ter o que dizer.

Na lista de explicações apresentadas nos quadros 07 e 08 identificamos várias respostas interessantes que nos levariam a construir com as crianças o conceito de debate e decisão na perspectiva que defendemos, mas algumas repostas nos chamam a atenção por permitir a reflexão sobre a negação dessa perspectiva: quando foi perguntado a Kafka da turma 2, o que é um debate e ele respondeu: “Duas pessoas fica debatendo pra ver se vai ganhar ou perder”, e quando foi perguntado o que seria necessário saber para participar de uma decisão,

Chicão, Chico e Saramago (Todos da turma 1) respondem (respectivamente): “a verdade”, “o que é certo e o que é errado”, “ser obediente”.

Na primeira resposta apresentada vemos como Kafka compreende debate como um jogo em que alguém ganha e alguém perde. O debate nesse caso não seria um mecanismo de colocações de pontos de vistas em diálogo. Talvez a resposta tenha sido influenciada pelos debates eleitorais, pois as entrevistas foram realizadas no primeiro semestre de 2015 e tendo havido eleições presidenciais no final de 2014, as crianças ainda estavam imbuídas das disputas da campanha eleitoral. Já as outras respostas citadas, uma entende o conhecimento da verdade como um elemento importante para se participar de uma decisão, contrariando o princípio da opinião, a segunda acredita que existe previamente uma decisão certa, oriunda talvez da orientação da instituição ou de um adulto, e a outra submete a decisão a um processo hierárquico em que alguém deve obedecer. Vejamos por exemplo na íntegra o fragmento em que a Saramago diz que deve ser obediente pra participar:

FRAGMENTO DE ENTREVISTA - 03

É interessante como ele acredita na participação, mas reivindica que as crianças sejam mais obedientes. Uma adesão a um mecanismo de submissão? ou uma clareza de que para participar é necessário respeitar regras? Se apostarmos na segunda hipótese identificamos um potencial para propor, se apostarmos na primeira não poderíamos estranhar, uma vez que as respostas foram produzidas dentro de uma instituição que educa e assume posições hierárquicas nas relações (a escola), onde a palavra obedecer é recorrente. Mas nos dois casos e nas outras respostas citadas encontramos a partir da fala das crianças um potencial para discutir com elas tanto a concepção de debate como a de decisão.

Pesquisadora: As decisões da família, da escola, do bairro, tu acha que as crianças podem participar?

Saramago: Podem mas tem crianças que é muito perturbada, perturbadora Pesquisadora: E essas que perturbam não é pra participar não é?

Saramago: É pra participar

Pesquisadora: E tu acha que as crianças pra participar dessas decisões elas precisam saber alguma coisa?

Saramago: (sinal afirmativo)

Pesquisadora: Precisam saber de que? Saramago: Ser obediente, obedecer aos pais

Quanto à disposição das crianças para a participação, observamos que apenas uma, das 20 crianças entrevistadas declara que não tem condições de participar de decisões. Vejamos o fragmento da entrevista de Chico da turma 01, em que ele fala sobre participar e decidir:

FRAGMENTO ENTREVISTA - 04

Chico tem uma proposta para a divisão do tempo escolar que inclusive contraria o que seria comum entre elas (mais estudo e menos recreio), e isso geraria uma polêmica interessante. É possível que essa proposta de Chico tão compatível com a “voz escolar” (manifestando o desejo pelo estudo) seja parte de um processo de interdição de discurso (Foucault: 1996). Ele estaria declarando o que a escola gostaria de ouvir e não necessariamente o seu desejo, mas aqui nos interessa enfatizar a exposição do ponto de vista, a disposição da criança para dizer, participar, se tornar visível e promover os debates polêmicos, que essa colocação com certeza promoveria. É importante enfatizar que as crianças têm propostas, tem anseios de participação que muitas vezes adiamos para os anos finais do Ensino Fundamental, Para o Ensino Médio e em alguns casos, adiamos pra a vida adulta.

Decidimos analisar um fragmento da entrevista de Solano, única criança que respondeu não à pergunta sobre o potencial das crianças para participar de decisões:

Pesquisadora: Tu sabe o que é decidir?

Chico: Eu sei, decidir é, pronto. Decidir se o preço da gasolina vai abaixar ou aumentar?

Pesquisadora: É? E quem é que decide se o preço da gasolina vai baixar ou aumentar?

Chico: O presidente

Pesquisadora: Muito bem então você sabe o que é decidir, e se eu te convidasse pra decidir sobre alguma coisa, você acha que tem condição, você conseguiria participar de um espaço pra decidir sobre qualquer coisa da escola ou fora?

Chico: Sim, aqui eu gostaria de decidir dar mais tempo pra tarefa e menos tempo para o recreio.

FRAGMENTO DE ENTREVISTA - 05

Uma coisa que chama a atenção na formulação da pergunta é a expressão “dar conta”. Essa expressão que não foi utilizada nas demais entrevistas parece ter anunciado a possibilidade contrária, ou seja, parece ter sugerido que a criança poderia não dar conta e Solano preferiu isentar as crianças de tal responsabilidade, respondendo que não e sugerindo na continuidade da resposta que as crianças não conseguiriam assumir a responsabilidade de decidir. Apesar de está inaudível o complemento da resposta, nos parece que ele entende o estudo como a atividade principal das crianças e que assumir a responsabilidade e a competência de decidir seria muito para elas. Mas adiante quando analisarmos os questionários das professoras e dirigente, aprofundaremos essa discussão sobre a responsabilidade de decisões.

Concluindo a análise das entrevistas com as crianças podemos dizer que elas apresentam um potencial para a participação em debates e decisões, já vivenciaram algumas experiências, mas não estão inseridas em tais práticas, sobretudo na escola, de forma regular, planejada e consistente. Uma questão importante que nos chama a atenção ao proceder a análise é que o fato de termos dado voz as crianças para falar de suas experiências nos permitiu refletir sobre o tema e sobre suas perspectivas, expectativas, reforçando nossa tese de que a escola deve ser um espaço de voz, em que as crianças possam além de aprender, se dizer e assim nos dizer sobre elas e sobre o mundo.

Pesquisadora: Então tu já participou mas tu não lembra, e tu acha que tu tem condições de participar dessas decisões, ou do bairro ou da escola, ou na família? Como criança, tua acha que tu tem condições de participar e vai dar conta? Vai conseguir ajudar a decidir?

Solano: Não

Pesquisadora: Porque?

Solano: Porque a pessoa é criança né.

Pesquisadora: Sim, o que tem a pessoa ser criança? Solano: A pessoas quase não vai conseguir nada

Pesquisadora: Não vai conseguir nada? Porque ela não vai conseguir nada? Solano: Uma criança que estudae só...(inaudível)

4.3 Análise dos questionários aplicados com uma professora e gestora da