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2.4 La Visualisation d’information (VI), support à la navigation

2.4.2 Essence et culture des interfaces

Apesar da função apresentativa dos verbos existenciais, de expressar a existência do argumento do verbo, conforme discutido, o pronome vocêgense realiza em posição de sujeito das construções existenciais com ter, sem, contudo, estabelecer relação temática com o verbo. Isso explica por que a inserção desse pronome não implica, em construções como (75) a seguir, uma leitura com possuidor referencialmente indeterminado: como não é um sujeito semântico de ter, o pronome não recebe qualquer papel temático relacionado à interpretação possessiva atribuído pelo verbo, o que inviabiliza a expressão de posse66.

(75) Cê não tem mais burca na Síria.

66Deve-se ressaltar que, conforme mostrado por Avelar e Callou (2011), é possível que construções existenciais

com vocêgen Se vocêgen

tem muitos castelos na Europa, vocêgen , em que uma oração condicional trazendo vocêgenantecede outra ocorrência do mesmo pronome em um predicado nominal. A única interpretação possível para o pronome, nesse caso, é a de um possuidor referencialmente indeterminado, dado que a oração com ter receberá obrigatoriamente a interpretação possessiva. Essa construção recebe a seguinte leitura: se uma pessoa possui muitos castelos na Europa, essa pessoa deve ser rica. Nesse caso, vocêgené sujeito semântico de ter, pois recebe papel temático do verbo, com

Diante do obstáculo gerado pela presença do pronome você/cê na posição de sujeito e pelo caráter existencial do verbo ter, o licenciamento de um pronome nessa posição sugere que ter não perde o caráter pessoal ao ser empregado com sentido existencial, ou

terposs), conforme discutido em 3.3.3.

Partindo então do entendimento de que construções de terex não são estruturas impessoais, e de que não há qualquer relação temática entre vocêgene o complemento de ter, e descartada as hipóteses de este pronome constituir um expletivo e, ainda, de poder ser interpretado como sujeito indeterminado da locução locativa (cf. Avelar, 2009a), é possível considerar que essas construções com o pronome genérico você na posição de sujeito constituem construções de indeterminação do sujeito , com sentido genérico.

Note-se que uma sentença como (75) equivale a (76): (76) Não se tem mais burca na Síria.

Assim, a relação não temática do pronome vocêgen com o verbo ter em (75) permite considerá-lo um elemento indeterminador à semelhança de se indeterminador em (76). Como não recebe papel temático do verbo, pode-se supor que vocêgennão absorve papel temático de outro constituinte na sentença.

Por não constituir argumento do verbo, o pronome vocêgennão pode surgir em posição argumental, o que pressupõe outra posição na sentença na qual ele possa ser gerado ou da qual ele possa ser movido. Diante da suposição de que vocêgennão absorve papel temático, proponho que este pronome é gerado em INFL, lugar onde é incialmente inserido e posteriormente movido para SpecTP, para satisfação do requerimento EPP, e não na locução locativa, conforme proposto por Avelar (2009b) e Avelar e Callou (2011), mostrado na seção 3.4.1.

A derivação representada a seguir (77) ilustra a situação aqui proposta para a interpretação de vocêgen em uma sentença como (75 Cê não tem mais burca na Síria : o pronome genérico é inserido no interior de INFL, e desse lócus é movido para a posição de sujeito gramatical (SpecTP). Se esta proposta estiver no caminho correto, é possível que o DP vocêgen tenha seus traços de Caso valorados/ checados pela relação de concordância com Infl/T67.

67De acordo com (Avelar, 2009b): I am assuming that a DP in [Spec,PP] can have its Case feature

(77) TP  Cê  INFL ti vP  v  Adv VP (não mais) ter XP  burca PPloc  na Síria

Esta proposta tem respaldo na estrutura de indeterminação da língua portuguesa, que tem o clítico se adjungido a INFL (T + se indeterminado), além de que, em termos minimalistas, Spec-T/Infl é a posição naturalmente destinada ao sujeito gramatical em línguas como o Português (Avelar e Callou, 2011).

Igualmente lança luz sobre esta proposta o argumento de Kato (2000) de que nas construções existenciais em Português é o afixo neutro Ø2que faz o papel de expletivo, o qual adjunge diretamente a ter (V+T) para checar Caso e traços-phi, uma vez que ele não é argumento. Se o pronome vocêgen está ocupando a posição do afixo neutro Ø2 nessas construções, pode-se supor que a posição de imersão é a mesma para ambos pronomes.

Corrobora ainda esta hipótese de vocêgencomo elemento indeterminador a teoria de Kato (1999) do surgimento de pronomes sujeitos fracos no PB para compensar a perda de Agr pronominal, especialmente em relação à redução fonética do pronome você, que de acordo com a autora, criou um clone fraco - cê, o qual eliminou a função de argumento de seu Agr, e agora pode aparecer apenas como um afixo do verbo.

Pode referendar também esta proposta de equivalência entre as construções com vocêgen + terex e v + se, o exemplo (78) de Franchi et al (1998) o qual, comparado ao (79), mostra o paralelismo sintático e interpretativo entre existenciais com um clítico se, que marca a supressão do argumento externo de ter com indeterminação do sujeito, e existenciais com vocêgen:

(78) Eu acho que qualquer lugar é diferente daqui do Rio, do ponto de vista do clima. Qualquer ponto onde você andar por aí é diferente. Aqui não se tem definição de coisa nenhuma.68

(79) Eu acho que qualquer lugar é diferente daqui do Rio, do ponto de vista do clima. Qualquer ponto onde você andar por aí é diferente. Aqui você não tem definição de coisa nenhuma.69

Com base na explicação de Franchi et al para construções como (78), de que o se é o traço morfológico da supressão de um argumento externo, e considerando que a inserção de vocêgen não altera o sentido existencial do verbo ter, explica-se o paralelismo sintático e interpretativo de se com você em sentenças de terex: esse pronome marca a supressão do argumento externo, atribuindo sentido indeterminado ao .

Semelhantemente, em construções pessoais indeterminadas, o pronome vocêgen, tanto na forma plena como na reduzida (cê), marca a supressão do sujeito, com manutenção de sentido indeterminado, como no exemplo (80) da fala espontânea, intercambiável com (81):

(80) Cê percebe claramente um movimento para enfraquecer a Lava Jato. (81) Percebe-se claramente um movimento para enfraquecer a Lava Jato.

As construções predicativas indeterminadas diferem das existenciais em que naquelas a indeterminação é do sujeito semântico, que é argumento do verbo, enquanto nestas vocêgen constitui sujeito gramatical, o qual não interage semanticamente com o verbo.

Sob a perspectiva de Holmberg (2010), discutida em 2.2, pode-se inferir que o sentido indefinido de vocêgen

torna equivalente ao se indeterminado, ou seja, uma vez que o pronome genérico inclui todo mundo, sua referência é irrestrita, o que significa ausência de traço definido em T.

Outra possível correlação entre o pronome você e o clítico se é que eles compartilham os mesmos traços de localização, uma vez que ambos predicados contêm essencialmente os mesmos constituintes, mas em diferentes ordens, como se pode constatar nos exemplos (78) e (79). Nessa direção, Vitral (1996) compara o comportamento análogo da forma reduzida do pronome você (cê) e o do clítico se, mostrando que ambos podem ser utilizados em contextos

68Exemplo extraído de Franchi et al (1998: Ex. 94 - RJ, p. 168) 69Exemplo criado a partir do (78).

semelhantes, e também aponta como diferenças as posições estruturais ocupadas pelos pronomes: o primeiro sempre acima de negação e o último sempre abaixo dela.

Assim, proponho que o pronome vocêgenexerce a função de elemento indeterminador no PB, concorrendo com o clítico se, e ensejando que predicados existenciais mantenham traços semânticos de verbos apresentacionais. Ou seja, a interpretação para vocêgen como elemento indeterminador não deve ser confundida com a de um possuidor indeterminado em contextos de terex, nos quais há restrições pragmáticas para esta leitura, conforme se constata em exemplos como o (75).Além desse aspecto, explica a não leitura possessiva dessas construções de terex com vocêgenna posição de sujeito gramatical o fato de que como o pronome não é inserido na posição de argumento externo do verbo, o papel temático de possuidor não lhe é atribuído e, consequentemente, a marcação de posse não é instanciada.

A esse respeito, deve-se ressaltar que a possibilidade de ocorrência de ter + se indeterminado no PE em construções possessivas, onde o se é largamente empregado em contraste com o PB, poderia invalidar esta análise, se se considerar que sentenças com ter + vocêgenno PB correspondem a sentenças com ter + se indeterminado em PE. Como no PE ter não é usado com sentido existencial, esse fato poderia levar a considerar os casos de você+ ter também como possessivos e não existenciais.

Para elucidar essa questão, Avelar (2009b) argumenta que o ter + se indeterminado no PE não é utilizado nos mesmos contextos que você + ter o é no PB. Os contextos exemplificados em (82) a seguir, por exemplo, rejeitam o se indeterminado em PE, mas licenciam você no PB.

(82) a. * Tem-se oito planetas no sistema solar. (PE)70

Ter-SE oito planetas no sistema solar. Lit .: Um tem oito planetas no sistema solar. b. Você tem oito planetas no sistema solar. (PB)

Você existe oito planetas no sistema solar. Há oito planetas no sistema solar.

A inaceitabilidade de construções como (81)a. no PE deve-se ao fato de que elas não podem ser interpretadas como possessivas por restrições pragmáticas, que proíbem a inserção de um possuidor indeterminado indicado por se.

Já no PB a realização de você nestes contextos, como em (81)b., é aceitável porque os falantes não interpretam tais sentenças como possessivas, mas como existenciais. A explicação

está em que, como esse pronome funciona como um sujeito gramatical que não interage tematicamente com o verbo, o pronome não recebe qualquer papel temático relacionado à interpretação possessiva atribuído pelo verbo, o que inviabiliza a expressão de posse.

Neste sentido, a não relação possessiva entre o pronome vocêgene o complemento de ter é assumida nesta tese. Esse contraste entre as duas variedades do Português é suficiente para evidenciar que construções como (82)b. no PB são existenciais e não possessivas.