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A- L’action « protectrice » du Rapporteur spécial sur les exécutions extrajudiciaires, sommaires ou arbitraires

1- L’efficacité relative des visites pays

Se a poesia não fosse um jogo não seria poesia. (Aragão, 1981:103)

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Referem-se a desenhos (pessoas, animais, objetos, etc.) feitos nas tampas com que se tapam as panelas ou caçarolas das cozinhas.

74 Na prática sona as palavras, tal como as conhecemos, ganham uma fisionomia diferente: a poesia sob a forma de desenhos geométricos. Uma forma de poesia que não se preocupa exclusivamente com a dimensão estética, mas que é uma atividade cultural e social relevante, com a poesia a intervir na vida prática das comunidades. O curioso é constatarmos que os executantes dos desenhos na areia encontram na poesia não apenas um meio para expressar os mitos, histórias, contos, mas também uma forma de coesão social. É uma comunidade que encontra a sua expressão na poesia, sob a forma de jogos, provérbios, desenhos ou máscaras e que a assume como uma marca identitária.

É dessa forma que se dá uma espécie de transmutação de ideias habitualmente transmitidas pelo suporte verbal para suportes não verbais, formas distintas de expressar e vivenciar a poesia. De acordo com Huizinga: “Na cultura arcaica, a linguagem do poeta continua a ser o modo de expressão mais eficaz, com uma função mais abrangente e vital do que a satisfação das aspirações literárias. Transpõe o ritual para palavras, é o árbitro das relações sociais, o veículo da sabedoria, da justiça e da moralidade. E tudo isto se faz sem prejuízo do seu carácter de jogo, pois o lugar próprio da cultura arcaica é o círculo do jogo.” (J. Huizinga, 2003:155). Também Ana Hatherly alarga o ludismo poético de acordo com a atividade criadora: “O poeta define-se pela actividade criadora, a qual se define a si própria como um acto lúdico. Toda a criação é um jogo cuja utilidade nem sempre é imediatamente apreensível.” (Hatherly, 1981:137).

A poesia, para o povo Tshokwe, é “representada por aquilo que se denomina por «gêneros simples». São eles: segmentos reapuds (versículos) representados por enigmas, adivinhas (jogos de espírito) provérbios, orações, divisas, etc.” (G. Ngal, apud Kandjimbo, 2003:247). A poesia é representada não apenas pelos seus traços estéticos, que de facto não é o aspeto mais valorizado, mas antes pela sua ação comunitária e social, por ser um espaço de realização do homem, por ser um instrumento de recuperação dos sinais da ancestralidade, um pretexto para a comunhão do viver espiritual coletivo, em suma, é um produto da liberdade criadora do povo:

Os Cokwe cultivam uma singular arte ornamental, que imperceptivelmente se transforma em jogo. Frequentemente vêem-se, nas paredes das casas mas também na areia lisa da aldeia, padrões-de- fita-entrançada particulares, que trepam por pontos de cor vermelha, ou por buracos imprimidos na areia, respectivamente. (H. Baumann apud Gerdes 2012:23)

75 O grafismo sona não só estabelece essa identidade cultural, como estabelece uma espécie de repto lúdico, desafiando, a participação e criatividade dos utentes da comunidade. Reflete um universo poético em que há lugar para o jogo, para a dança, para a magia, para o contacto com a natureza, ou seja, a poesia não só está ligada à vida como é a própria vida. Nesta ordem de ideias, a poesia está mais comprometida com o exercício existencial do homem do que com a preocupação de organizar esteticamente os artefactos que compõem o mundo. Não existe uma diferenciação entre a vida e a linguagem poética, tornando difícil a demarcação da fronteira que separa a vida e a poesia. Tudo é poetizável. A poesia e a arte consistem em construir vivências:

[...] os Quiocos passam horas ilustrando suas conversas com desenhos no chão, relacionados com lendas, animais, adivinhas, símbolos e jogos. Constituem esses motivos divertimento e passatempo favorito, além de ser uma curiosa forma de comunicar com a comunidade relembrando feitos e tempos passados[...]. (Fontinha, 1983:37)

Os desenhos sona, para além de constituírem um veio cultural de representação plástica, podem ainda representar seres humanos, objetos do dia-a-dia, animais ou jogos. Nesses termos, o pendor narrativo do grafismo sona confere a cada desenho uma dimensão comunicacional. Cada figura aparece, portanto, dotada de uma certa exclusividade formal ao nível da expressividade gráfica, assumindo conteúdos semânticos inerentes aos valores coletivos da comunidade e à mundivivência individual de cada membro, confirmando a noção que Johan Huizinga nos propõe para a origem da poesia:

[A poesia] tem a sua origem no terreno de jogo da mente, num mundo próprio para ela criado pelo espírito. Aí as coisas têm uma fisionomia diferente da que têm e estão ligadas por outros laços que não os da lógica e da casualidade da vida normal. [...] Para perceber a poesia temos de ser capazes de nos vestirmos de uma alma de criança, como se fosse um manto mágico, e de trocar a sabedoria do homem pela do menino. (Huizinga, 2003:141)

A poesia não é só aquilo que se escreve, mas também aquilo que se desenha, pinta ou se joga. É uma atitude lúdica. Não é só o que é visualmente compreensível, mas também o que emerge dos espaços de silêncio, os espaços da não-comunicação que

76 nos impelem a exercitar a imaginação. O facto de não percebermos o que ali está, “empurra-nos” a inventar a realidade, a nomear, a criar existência ao que inexiste.

Sendo a mensagem transmitida por meio de pontos de ligação aparentemente inarticulados transmite a ideia de que não existe uma mensagem subjacente em cada desenho e que estes são apenas traços desconcertantes, signos deformados, gatafunhos sem forma, sem vocação e sem capacidade para comunicar. No entanto, os desenhos sona apontam para uma prática significante que ainda é o reflexo da ancestralidade da poesia e do conhecimento do homem natural, livre de convenções, livre das amarras das categorizações, um ser ainda em descoberta.

Deste modo, devemos entender os desenhos sona não como mero grafismo truncado em si mesmo, mas como desenhos narrativos, o que equivale a reconhecer a poesia figurativa que emana destes desenhos, cuja descodificação não deve ser feita segundo uma leitura literária, mas de acordo com uma leitura que compreenda os hábitos e os costumes, os rituais e mitos e os mais diversos elementos que participam na construção da identidade cultural da comunidade. Trata-se de uma leitura capaz de conduzir o olhar não para a literariedade, mas para a desenhalidade dos signos visuais narrativos. O que se pretende representar funde-se e confunde-se com o objeto representado segundo um mecanismo que sintetiza diversas possibilidades de sentido num só símbolo.

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