Para o rompimento com a lógica que norteia o pragmatismo vigente nos cursos de Biblioteconomia e para a materialização do discurso em atitudes profissionais fundadas na democracia, ainda resta um longo e tortuoso caminho.
O ambiente de geração da informação e conhecimento supõe a necessidade de profissionais devidamente competentes para atuar proficuamente nesse ambiente. Não apenas processando, organizando e disseminando a informação, mas, sobretudo estimulando o seu uso, elaborando programas e projetos de espaços e práticas de leitura e extensão do conhecimento para os diversos ambientes sociais; uma formação que contribua para a geração de profissionais conscientes da importância da informação para a consolidação da democracia.
É possível que os dados apresentados em relação aos cursos de Biblioteconomia da Região Nordeste não escapem à realidade nacional. A pesquisa evidenciou que a formação do bibliotecário ainda é insuficientemente voltada para capacitar profissionais para interagir com os paradigmas da Inclusão Social na dimensão que a Região demonstra necessitar, dada a sua situação política, econômica, cultural e, consequentemente, social.
Dados trazidos nesse estudo revelaram uma situação regional, visivelmente desfavorável em relação às demais regiões do País. Tal realidade implica numa grande responsabilidade e na necessidade de esforços multiplicados no sentido de buscar a superação das desigualdades sociais. Não haverá superação das desigualdades sociais sem que as profissões sempre achem que o seu campo é tão específico que o exime de refletir e agir para transformar a realidade. No caso dos profissionais da informação, o paradigma da Inclusão Social é um desafio evidente, uma vez que somente uma sociedade com plenos direitos de acesso à informação poderá ascender a estágios de superação do subdesenvolvimento e da pobreza em todas as suas dimensões.
Há um sistema maior que sacraliza e controla o conhecimento como forma de defesa do interesse de manutenção da ordem imperialista, que impõe à sociedade a desigualdade como recurso de status e de poder. O estado capitalista inflige a necessidade de que a informação, enquanto ferramenta capaz de revolucionar a ordem estabelecida seja um produto e um recurso a serviço da ideologia dominante.
Para subverter a ordem capitalista de monopólio da informação para o benefício de classes privilegiadas, é necessário o empenho para que sejam desenvolvidas alternativas que objetivem garantir o direito indiscriminado à informação e a seus consequentes benefícios, visto que essa (a informação) é um patrimônio que, em tese, pertence a todos; exige dos atuais
e futuros profissionais uma atitude política; uma atitude que reflita um desprendimento solidário e ético, bem como abertura para o novo, o diferente.
Ainda, no que concerne à Biblioteconomia, para que as mudanças dos paradigmas sociais aconteçam no ritmo possível, é fundamental que os futuros bibliotecários sejam conscientizados e estimulados a ocupar os diversos espaços de ação e intervenção na sociedade; que, além de compreenderem esses paradigmas, desenvolvam competências e habilidades de forma a manter uma relação profissional produtiva e eficaz, tendo em vista o desenvolvimento de projetos alternativos que levem em conta a diversidade humana e sócio- cultural presentes nos múltiplos ambientes da sociedade. Exige um sonho individual e coletivo de ver emergir da margem da sociedade sujeitos que no futuro, não mais fadados a permanecer na condição de meros espectadores do desenvolvimento, possam também vir a ser protagonistas na sociedade pensando, criando e, sobretudo, dando significado à informação e potencializando-a no exercício da construção do conhecimento e na defesa dos valores da igualdade, da justiça, da liberdade e da fraternidade. Tais valores éticos podem ser estimulados por um currículo que reflita e ouse, fazendo jus à autonomia que lhes é parcialmente conferida, para elaborar propostas e, enfrentando os desafios do sistema, concretizar um ensino a partir de pilares que consolidem a democracia. Faz-se necessário que as vaidades pessoais sejam suplantadas por atitudes corajosas e construtivas, de modo que através dos cursos de Biblioteconomia do Nordeste possam emergir profissionais que sejam também atores socialmente competentes e comprometidos em contribuir para um futuro mais promissor para a sociedade nordestina.
Considerando a incógnita que é a existência da Biblioteconomia para a majoritária fatia da sociedade, outra vantagem possível de comprometer os cursos em estimular os futuros profissionais a compreender e se inserir concretamente no universo da Inclusão Social, pode ser a projeção profissional. Através de uma prática que trata a informação numa relação mais próxima às diversas comunidades, o bibliotecário poderá abrir frentes de reconhecimento profissional perante a população. Em geral, os indivíduos, inclusive aqueles que já podem ser considerados incluídos, desconhecem a existência da profissão; quando muito, influenciados pelo baixo nível cultural e pela ausência de tradição de leitura no País, estereotipam a figura do bibliotecário, sem levar em conta a relevância desse profissional para o desenvolvimento da sociedade. Parte da responsabilidade acerca da invisibilidade ou da visão deturpada que a sociedade muitas vezes detém acerca do profissional bibliotecário cabe à própria formação, quando negligencia em seus currículos o caráter de envolvimento humanista e de transformação social implícito na profissão.
Acredita-se ainda que a inserção da temática da Inclusão Social no currículo pode contribuir para que os cursos consigam melhor preparar os futuros bibliotecários, capacitando-os para compreender a necessidade de atendimento de demandas específicas de indivíduos e grupos situados à margem dos ambientes instituídos para o acesso à informação. Outra questão que justificaria a inserção de temáticas relacionadas à Inclusão Social nos cursos de Biblioteconomia é a possibilidade da absorção de novas demandas estudantis que, no futuro, possam exercer a profissão bibliotecária, juntando-se àqueles poucos que, transpondo os desafios da deficiência e dos preconceitos, hoje estão atuando na área e prestando relevantes serviços à sociedade.
A inserção da temática da Inclusão Social pode revelar a capacidade de democratização da Biblioteconomia, significando um elo de diálogo entre os serviços de informação e os usuários que, dada as diferenças e especificidades, não encontram condições favoráveis para frequentar e utilizar de forma otimizada os ambientes que concentram a informação.
A pesquisa que aqui é finalizada não se esgota. Ainda que não tenha alcançado o nível formal de uma brilhante pesquisa científica, e tem-se consciência disso, quiçá desperte o interesse de alguns outros pesquisadores em desenvolver novos e excelentes trabalhos que dêem conta das lacunas aqui deixadas. Que os currículos dos cursos de Biblioteconomia na perspectiva da Inclusão Social possam continuar sendo objeto de estudo e que gerem resultados positivos para a Ciência da Informação. Essa temática pode suscitar desde estudos sobre o acesso físico, material e intelectual à informação de pessoas detentoras de necessidades especiais, tema que não figura na formação obrigatória em nenhum dos cursos estudados, até àqueles voltados para a questão da Ação Cultural, que igualmente não é retratada no currículo obrigatório de nenhum dos nove cursos de Biblioteconomia da Região Nordeste. Que esses temas não figure nos currículos como temas marginais, como ocorre atualmente em alguns cursos, mas como temáticas centrais da formação. Assim, que os cursos de Biblioteconomia possam estimular a ampliação do interesse de seus futuros profissionais por estudos que envolvam a diversidade cultural, a etnia, o gênero, o índio, a terceira idade, a ética (que somente aparece no currículo obrigatório da UFPB), dentre tantos outros.
Espera-se ter contribuído para levantar algumas reflexões e questionamentos acerca do assunto investigado, considerando que a Inclusão Social é um tema atual que necessita da formação de perfil e competência profissional da classe bibliotecária para o ajustamento e multiplicação das iniciativas profissionais dessa demanda específica, amplamente evidenciada na sociedade contemporânea.
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