• Aucun résultat trouvé

Les espaces littoraux et leurs représentations

Section 4 : Domanialité Article 43

II. 2.2.1 « La terre vue du ciel »

III.1.1 Développement durable, son sens ?

3.2. Considerações em torno da autoria

Michel Foucault, na palestra intitulada O que é um autor?, proferida no ano de 1969, problematiza a questão da autoria. A resposta à indagação “importa quem fala?” será o ponto de partida para a discussão apresentada a seguir. Como entender o apagamento do autor proposto por Foucault em proveito das formas próprias do discurso? Quando se fala no nome do autor, o que, exatamente, esse nome evoca?

No dizer de Foucault, o nome do autor não é um nome próprio como os outros, já que funciona exercendo certo papel em relação ao discurso e caracterizando um certo modo de ser deste (FOUCAULT, [1969] 2006, s/p). Esse nome aponta para além da mera referencialidade de que se reveste o nome próprio, comum a todos os indivíduos.

Dizer que determinado texto foi escrito por tal pessoa permite que se estabeleça uma relação de filiação e de responsividade quanto ao que se escreveu. E o nome próprio, além de dar a visão de conjunto ao texto produzido, faz referência ao status desse discurso no interior de uma sociedade e de uma cultura. Mas não se deve esquecer que o nome próprio acaba voltando ao indivíduo real e exterior que produziu o discurso.

O autor, visto aqui como o criador de sua obra, seria aquele que fabrica um produto que leva a sua assinatura, também mercadoria, passível de proteção legal sempre que violado o direito de propriedade sobre o texto.

E diante de um texto literário, são inevitáveis os questionamentos: quem o escreveu, em que data, em que circunstâncias ou a partir de que projeto. O sentido que será dado ao texto e o valor a ele conferido dependerão do modo como essas questões são respondidas.

Mas o que seria, então, o autor? Na conceituação de Foucault, o autor é visto como “um certo foco de expressão que, sob formas mais ou menos acabadas, manifesta-se da mesma maneira, e com o mesmo valor, em obras, rascunhos, cartas, fragmentos” ([1969] 2006, s/p). O autor seria, assim, o princípio de uma certa unidade da escrita.

Deste modo, a biografia do autor, a localização de sua perspectiva individual, a análise de sua situação social ou de sua posição de classe, a revelação de seu projeto fundamental, tudo isso contribui para identificar a figura autoral.

No ensaio, Foucault conclui pelo apagamento do autor em proveito das formas próprias ao discurso, ao passo que esse desaparecimento permitiria descobrir a “função

69

autor” presente nos textos literários, à qual alude o autor francês. O autor passaria a ter sua existência vista agora enquanto função, ao agrupar textos sob o mesmo nome e ao permitir o ordenamento de discursos. E mesmo essa função é tida como algo variável, porque se manifesta de formas diferentes quando, por exemplo, um autor escreve seu texto e é desta forma referenciado ou quando é visto discutindo sua obra e refletindo sobre ela (FOUCAULT, [1969] 2006, s/p).

Roland Barthes, em seu ensaio A morte do autor, já em 1968 acenava para a morte do autor e sua sobrevivência apenas no texto, com a seguinte conclusão: “para devolver à escrita o seu devir, é preciso inverter o mito: o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor” (BARTHES, 1987, s/p).

Seguindo as lições de Paula Sibilia, tem-se que os gêneros autobiográficos, aqui incluída a obra Favela toma conta (2008), objeto de análise no presente capítulo35,

integram um conjunto específico de relatos, nos quais a função autor opera de modo singular, pois a assinatura do texto é feita pela mesma pessoa que narra e protagoniza a história (SIBILIA, 2016, p. 196). Ou, pelo menos, o leitor é levado a acreditar nessa identidade tríplice, ao aceitar o pacto de leitura proposto pelo autor em narrativas desse tipo.

Diana Klinger (2012) propõe uma releitura da “função autor” nas obras literárias contemporâneas, trabalhando com a hipótese de que o retorno do autor seria, talvez, uma forma de questionamento do recalque modernista do sujeito, contrapondo-se à tão falada negação da subjetividade.

Na atualidade, temos autores que se mostram, que escancaram suas próprias vidas, que se exibem ao vivo no momento mesmo da escrita, tensionando os limites entre ficção e realidade: diante desse cenário, como reduzir o autor exclusivamente a uma função dentro do texto?

Em relação aos autores oriundos das periferias do Brasil, como é o caso de Alessandro Buzo, vemos que o ato de escrever livros faz parte de um projeto maior, no qual a literatura é mais uma faceta da vida do indivíduo, vida que se volta de forma integral para a visibilidade das condições sociais de locais de moradia afastados dos grandes centros urbanos e busca por melhoria dessas mesmas condições.

35 O livro Favela toma conta (2008) traz já na capa uma fotografia do autor, Alessandro Buzo, além da

catalogação na fonte como biografia. Seu primeiro capítulo, intitulado Minha formação, aliado às mais de setenta fotografias autorais constantes do livro, não deixam dúvidas de que estamos diante de uma narrativa autobiográfica, na qual a vida do autor Alessandro Buzo é descortinada e trazida à cena.

70

Os autores marginais periféricos se mostram enquanto escritores, empunhando com bastante orgulho o qualificativo “escritor” e vão além: dão entrevistas em rádios e programas de TV; estão nas escolas fazendo palestras para alunos de ensino fundamental e médio, a fim de mostrar que a literatura também pode ser um espaço de inclusão, que não deve se limitar ao estudo dos autores canonizados; estão nos bares participando de saraus e declamando poemas; estão se unindo para produzir livros e baratear os custos de produção em pequenas e médias editoras e, depois, estão nas ruas vendendo livros de mão em mão; estão, enfim, em busca de espaço (além de também se fazerem presentes nesses espaços). Escritores que tem como projeto fazer uma literatura que represente personagens invisibilizados pela literatura canônica. Como reduzir tudo isso tão somente a uma função dentro do texto?