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2.3 Le cadre théorique

2.3.4 La conception délibérative et argumentative du processus de design

O personalismo é um dos traços mais presentes nos estudos sobre a formação da cultura brasileira, tendo sido bastante bem abordado por Holanda (1995), Ribeiro (1995), DaMatta (1990) e Barbosa (2001), bem como por aqueles que procuraram identificar a presença de nossos traços característicos nas organizações.

Para Holanda (1995), o personalismo é característica que precede o descobrimento do Brasil, sendo traço marcante e distintivo dos povos ibéricos. Para o autor, estes povos desenvolveram uma verdadeira cultura da personalidade, que enaltece o valor da pessoa, a autonomia, a independência, o esforço, a virtude.

Tal valorização da iniciativa individual teria solapado iniciativas mais sólidas, nestes povos, de associações solidárias, gerando uma certa frouxidão das estruturas. Isto não significa a ausência de vínculos, mas que estes seriam estabelecidos de pessoa a pessoa, afetivamente, sendo de importância secundária os aspectos materiais ou objetivos comuns (ou discordantes) que poderiam gerar a união (ou o confronto) (HOLANDA, 1995, p. 32-33, 60-61).

Holanda (1995, p.133, 137) afirma que o traço mais distintivo dos ibéricos seria uma incapacidade de fazer prevalecer qualquer forma de ordenação impessoal sobre as relações de caráter mais comunal, como as baseadas no parentesco, na vizinhança e na amizade, havendo repulsa em relação às formas de racionalização e despersonalização.

Nota-se como estas características encontram expressão na configuração socioeconômica do Brasil da cana-de-açúcar. A autonomia dos engenhos controlados pelo senhor das terras e sua família e a submissão do poder central aos poderes locais parecem perfeitamente coerentes com as características apontadas por Holanda. Dentro do engenho, um é o que manda. Ali o senhor é independente e absoluto. Há pouca necessidade ou interesse em estabelecer laços externos, mesmo que de solidariedade. Só vão se estabelecer em caso de ameaça de força exterior respeitada e temida (HOLANDA, 1995, p. 32).

Os laços dar-se-ão internamente. São os laços afetivos reservados à família, vista de forma ampliada, contemplando alguns trabalhadores livres agregados ao

engenho e, eventualmente, escravos, principalmente os serviçais da Casa Grande. Freyre (1996) ressalta exemplos de afetividade do senhor com a escravaria. Cabe a Prado Jr. (1994) a ressalva de que a poucos escravos da casa cabia a atenção e afeto. Ribeiro (1995) aponta para o predomínio da violência. Não há razão para não pensar que afeto, violência e descaso pudessem ser atitudes concomitantes do senhor em relação a seus escravos.

A concentração de poderes e autonomia dos engenhos traz consigo enorme dependência. Quando a lei e o sustento estão na mão de uma pessoa, a relação é fator condicionante da vida. A lealdade e uma preferência a relações próximas e afetivas tornam-se fatores existenciais.

As marcas do engenho foram capazes de romper o tempo e o espaço, sendo encontradas em abundância ao longo da história brasileira. A lealdade aos superiores cruza os espaços rurais dos brasis sertanejo, caipira e gaúcho (RIBEIRO, 1995). Se as fazendas de café e as primeiras indústrias são cada vez menos mundos autônomos, não deixam de conter situação de dependência à pessoa do patrão, ainda que sob regime assalariado. Iniciativas, mesmo de ordem comercial, contrariando o preceito de que os laços de afetividade e lealdade de estilo familiar que unem chefes, descendentes e agregados devem estar sempre acima de quaisquer outros interesses e idéias, tendiam a fracassar, como bem coloca Holanda (1995, p.79) referindo-se a Mauá.

A progressiva transição para o mundo urbano não altera o quadro de personalismo e dependência. O estado se fortalece, mas a força se consolida na pessoa dos governantes e nas relações reais ou fictícias destes com as diferentes instâncias da sociedade. As facções políticas se estruturam em torno mais de laços pessoais do que de concepções políticas ou ideais.

A sociedade urbana é tão desigual e vertical quanto a rural. As pessoas das camadas menos favorecidas da cidade, muitos recém-egressos do mundo rural, vão, de certa forma, procurar repetir a fórmula de apoiar-se em possíveis relações com pessoas mais bem posicionadas. A necessidade de amparo faz com que se busque estar próximo da classe mais alta e prestar-lhe homenagem e lealdade (RIBEIRO,

1995). Acorre-se aos políticos em busca de favores. É de longa data que se faz necessário tornar-se compadre ou eleitor (BARBOSA, 2001). Freyre (2003, p. 250) chega a dizer que nossa sociedade é marcada por um complexo de proteção.

Interessante notar que aos políticos é vantajoso o oferecimento de favores, na medida em que, através da rede de favorecimento e clientela, se legitima um certo direito natural ao mando e é possível se passar por pai dos pobres (CHAUÍ, 2000). Se migrarmos por um segundo do mundo político para o organizacional, é sabido que as redes de favorecimento, lealdade e apoio também são importantes fontes de poder (MORGAN, 1996), sendo, portanto, mais que esperado que sejam largamente utilizadas no caso das organizações brasileiras.

Igualmente interessante é perceber que quanto mais presentes as situações de favor, clientela, tutela e compadrio, mais se naturaliza a divisão social de classes (CHAUÍ, 2000), ao passo que se minimiza o potencial transformador advindo das situações de conflito. Nos desagrada o conflito, seja pelo nosso ideal de harmonia, moderação, ordem e consenso, seja porque desconfiamos de que a distância de poder predefine seus resultados (RIBEIRO, 1995). Com efeito, Holanda e Chauí nos lembram que nosso aparelhamento político, via de regra controlado pelas elites, sempre cuidou de abafar nossas expressões menos harmônicas. Damos então “um boi para não entrar numa briga”, achamos maneiras mais indiretas de lidar com o conflito, e sempre que possível, preferimos deixar a solução dos problemas a quem de autoridade, numa postura muitas vezes de passividade e pouca iniciativa (BARROS; SPYER PRATES, 1996).

Holanda (1995) sintetiza, ao passo que os colore ainda mais, os traços apontados acima na figura do homem cordial, característica do brasileiro. Longe de significar boas maneiras, a expressão traria associados consigo adjetivos como hospitalidade, generosidade e amabilidade, ou seja, virtudes de grande fundo emotivo com influência dos padrões de convívio do meio rural e patriarcal. Teríamos assim postura diametralmente oposta daquelas baseadas no ritualismo e na polidez, valorizando a proximidade, a franqueza e a expansão para com o outro (HOLANDA, 1995, p.146-147).

O homem cordial teria dificuldade de adotar reverência distante em relação a superiores. O problema estaria mais na distância do que na reverência, admissível se puder adquirir uma forma mais íntima e familiar. Procura-se atenuar, tolerar e até certo ponto compensar a distância de poder através de alguma proximidade afetiva. Na busca de intimidade e familiarização das relações, emprega-se o carinhoso e algo infantil sufixo “inho” com abundância, além de, nos tratamentos, serem usados quase que exclusivamente os primeiros nomes, por mais formais que sejam as situações.

As organizações brasileiras atuais também parecem expressar de maneira abundante os traços indicados neste item. O personalismo é apontado como ponto de forte influência nas organizações nos trabalhos teóricos de Borges de Freitas (1997) e Aidar et al. (1995). Vergara, Moraes e Palmeira (1997) relatam a preponderância da pessoalidade na tomada de decisão em um barracão de escola de samba, Costa (1997) observa que a lealdade faz parte de um código de conduta de torcida organizada, enquanto pessoalmente notei, em estudo anterior sobre aspectos culturais presentes num Sistema Municipal de Saúde (MOREIRA, 2001), que o atendimento com proximidade e afetividade é fortemente valorizado pela população. As relações cordiais são ponto de destaque da reportagem de Cohen (2000).

Barros e Spyer Prates (1996) colocam o personalismo, a lealdade, o evitar conflito e a postura de espectador como algumas das características componentes do modelo de Sistema de Ação Cultural Brasileiro desenvolvido por eles. Apresentam, ainda, dados empíricos que mostram nossa maior aversão a conflitos nas organizações, em comparação a outros países.

A pesquisa de Hofstede (1991) também corrobora a presença dos traços aqui discutidos. A dimensão de análise que mais se refere a eles é do coletivismo X individualismo. As sociedades mais coletivistas seriam aquelas que mostram o poder do grupo, prevalecendo sempre o poder grupal sobre o do indivíduo. Nestas sociedades as pessoas nascem em grupos fortes e coesos que deverão protegê-las de maneira continuada por toda a vida, em troca de lealdade. No contato social, a harmonia deve ser sempre procurada e os confrontos diretos evitados. Nesta

dimensão, onde a pontuação é tanto mais baixa quanto mais coletivista é o país, e as maiores pontuações são dadas aos países individualistas, o Brasil recebe 38 pontos, sendo que a média é de 50 pontos. Nota-se a inclinação ao coletivismo, mas é interessante notar que o Brasil não está entre os extremamente coletivistas, casos, por exemplo, de Guatemala, Equador, Panamá, Colômbia e Venezuela, com índices próximos de 10.

A outra dimensão que se relaciona aos aspectos culturais aqui abordados é a de aversão à incerteza. Nesta dimensão, sociedades com alto índice vêem a incerteza como ameaça, o diferente como perigoso, procuram suprimir idéias desviantes, apresentam significativa motivação por segurança e pertença. Como seria esperado, o Brasil possui alta pontuação nesta dimensão, 76 pontos, contra uma média de 56.

Interessante análise de Barbosa (2001) revela que a história de nosso sistema meritocrático mostra tensão com relações pessoais e antigüidade. Entre nós, a igualdade é direito e deve ser fato. Desigualdades são interpretadas como oriundas exclusivamente de condições sociais. Exime-se a responsabilidade do indivíduo por um melhor ou pior desempenho, atribuindo-a a todo o corpo social. Assim, a prática de avaliação meritocrática é vista como autoritária e os mais bem avaliados como apadrinhados ou “puxa-sacos”. Por sua vez, a pesquisa da autora mostra que os chefes não gostam de avaliar e tendem a dar notas boas a todos para evitar insatisfações.