Como é usual em Espanha, em Cheles, a Semana Santa é cele- brada através de uma série de eventos levados a cabo durante vá- rios dias, na circunstância, entre 28 de março e 12 de abril de 1998. Realizadas ora na igreja paroquial – a igreja de Nossa Senhora da Conceição, inicialmente edificada no século XVI(Torrado 1999,
98) –, ora na ermida de Santo Cristo da Paz, entre as respetivas funções contam-se uma septena noturna em honra de Virgem das Dores, uma bênção de ramos, a celebração comunitária da Peni- tência, missas solenes e várias representações litúrgicas, concreta- mente a Ceia de Cristo, a Paixão de Cristo, o Diálogo entre Anjo e Pilatos, a Leitura das Sete Palavras e a Descensão. Há também lugar à realização de várias procissões, a primeira das quais após o término da septena em honra da Virgem das Dores e a derradeira no domingo de Páscoa.16Igualmente constante dos festejos é a ce-
16Entre estas duas procissões – a última das quais é assinalada por tiros de ca-
çadeira dados (por homens) a partir dos balcões ou terraços de habitações –, en- contram-se outras, realizadas no seguinte alinhamento: no Domingo de Ramos, a procissão faz-se com a imagem do Jesus na burra; na terça-feira seguinte, com a imagem de Jesus orando numa horta; na quarta-feira, com a imagem de Jesus amarrado à coluna; na quinta-feira, ao fim da tarde, realiza-se a procissão do Santo Encontro com as imagens da Virgem das Dores e de Jesus Nazareno, e, à meia- -noite, com Santo Cristo da Paz; na sexta-feira, ao fim da tarde, efetua-se o Enterro do Senhor com a urna e todas as imagens veneradas, e, à meia-noite, a do Silêncio com a Virgem das Dores; no domingo de Páscoa, por volta do meio-dia, a da Res- surreição com as imagens de Jesus Ressuscitado e Virgem do Rosário.
lebração, por volta da meia-noite do dia anterior ao domingo de Páscoa, da Vigília Pascal.17
A despeito de uma relativa similitude formal, as mencionadas procissões e imagens religiosas são diferentemente investidas pela população em estudo. Antes de mais, as procissões que mais acom- panhantes têm são a de Santo Cristo da Paz e a do Enterro do Se- nhor. Para além de se desenrolarem num percurso maior, apenas igualado pela procissão do Silêncio, estas são as únicas procissões em que participam as autoridades civis locais. Entre os fatores de diferenciação incluem-se ainda o tamanho dos andores e o nú- mero dos seus transportadores.18A par destes, outros indicadores
comprovam o grau superlativo de Santo Cristo da Paz na devoção local. Para além de ser a única santidade com «casa própria», como dizem os informantes, é a única imagem, inclusive no Enterro do Senhor, que sai em procissão sem ser da igreja paroquial. O facto
17Em 1998, esta cerimónia teve início na igreja paroquial pelas 23h30 e atingiu
o ponto culminante à meia-noite – momento em que se comemora a Ressurrei- ção de Cristo. As centenas de residentes que enchiam a igreja contribuíram, então, para uma situação ensurdecedora sentida durante alguns minutos. Os sinos da torre da igreja começaram a repicar e os membros do coro começaram a tocar guitarra e pandeireta, e a cantar Aleluia, enquanto os fiéis bateram efusivamente as palmas e fizeram soar chocalhos; entretanto, algumas pessoas no exterior do edifício deram tiros de caçadeira para o ar. Imediatamente a seguir, a maior parte dos presentes saiu da igreja, ficando apenas algumas dezenas a assistir à missa.
18Os andores (sandas) com as imagens de Jesus de Nazaré e da Virgem das
Dores são transportadas por oito costaleros, as de Jesus na burra e Jesus orando numa horta por seis, o sepulcro com o corpo de Cristo e a imagem da Virgem do Rosário por seis, as de Jesus amarrado à coluna e de Jesus Ressuscitado por quatro, e, finalmente, a de Santo Cristo da Paz por 16. O andor com a Virgem do Rosário é o único a ser transportado por mulheres. Os costaleros desempenham a sua tarefa no cumprimento de uma promessa ou por devoção. Já os transpor- tadores dos pendões que não o de Santo Cristo – levado pelo mordomo em exer- cício – são pessoas, de algum modo, relacionadas com a presidência das respetivas (embora extintas) Irmandades. Só as procissões com as imagens de Santo Cristo da Paz e da Virgem das Dores é que não envolvem a presença do pendão da Ir- mandade do Santíssimo Sacramento do Altar.
de Santo Cristo ocupar o topo da hierarquia da religiosidade local é, aliás, inteiramente assumido pelos habitantes de Cheles, de quem é padroeiro.
A organização dos eventos cabe ao pároco e aos membros da direção da Irmandade de Santo Cristo da Paz, coadjuvados por outras pessoas reunidas numa base de voluntariado e recrutamento informal. O padre preside à totalidade dos ofícios, e trata da ela- boração e divulgação do programa de festas. A direção da Irman- dade ajuda-o na preparação dos atos além das missas e das nove- nas, e encarrega-se da procissão com o Santo titular. O arranjo e a decoração das imagens e dos andores constantes das procissões estão a cargo das respetivas camareras.19E o presidente honorário
da extinta Irmandade do Santíssimo Sacramento do Altar tem um papel ativo em todo o processo, porquanto as celebrações da Pás- coa sejam da sua esfera de competência.20
Em termos avaliativos, particularmente entre os idosos, consi- dera-se que a Semana Santa da atualidade é muito diferente da de antigamente, sobretudo a nível da participação «do povo» – diz-se que, «antes, toda a gente participava» (por exemplo, homem, 65-70 anos). No entanto, em 1998, tivemos ocasião de observar que os festejos mobilizam muitas pessoas da terra (resi- dentes e não residentes), muitas das quais são do sexo masculino. Embora estejamos perante uma manifestação cultural de cariz re- ligioso, a Semana Santa é motivo de divertimento, especialmente à noite, altura em que a povoação é visitada por largas dezenas
19Cada camarera reúne à sua volta algumas voluntárias que a ajudam a levar a
bom porto a sua tarefa, havendo inclusivamente um despique no sentido de con- seguir a composição mais bela.
20Até há cerca 30 anos, a sua direção organizava os festejos e cada membro
encarregava-se da decoração de uma das imagens saídas em procissão, excetuando as das Virgens das Dores e do Rosário, bem como a de Santo Cristo, tarefa das respetivas Irmandades. Extinta sensivelmente em 1967, a Irmandade do Santís- simo Sacramento do Altar era uma das mais antigas de Cheles.
de forasteiros, oriundos das localidades espanholas e portuguesas vizinhas, sobretudo de Alconchel, Villanueva del Fresno e Montes Juntos.