A visão de inclusão como mudança cultura124 foi uma categoria que emergiu do campo e tornou-se bastante recorrente, demonstrando a importância dessa mudança que perpassa pelo âmbito social, educacional, até se tornar inerente a forma de agir das pessoas. E essa cultura deve iniciar pelos poderes políticos, que ditam as regras do jogo, mas não se dispõem a participar e transformar, pela atitude, a realidade legalmente constituída, como apareceu em um relato bastante crítico de D3
“E, realmente, a inclusão no Brasil pra mim é uma piada. É uma atitude que os
governantes, sobretudo os últimos, os últimos 20 anos, sei lá! Gostam muito de
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Cultura poderia ser entendida como um conjunto de conhecimentos, valores, crenças e significados, que caracterizam determinados grupos sociais em determinadas épocas, e que propicia a sua inter-relação ou integração social e, com isso, o seu desenvolvimento cognitivo, educativo, econômico e artístico (ou socioeducativo) (CANEDO, 2009). Cultura inclusiva pode ser considerada, então, neste trabalho, como um conjunto de conhecimentos, valores, crenças e significados relacionados socialmente à pessoal com deficiência, que possam favorecer a sua ampla participação social (historicamente negada) e o seu pleno desenvolvimento socioeducativo (antes tolhido).
cifras, números, estatística, assinam todas as Convenções internacionais, mas o próprio governo não cumpre.” (SIC D3)
Se não cumpre, talvez seja porque não acredita naquilo que determina, ou porque não entende que para uma legislação se concretizar não basta as leis e os decretos, que determinam o que deve ser feito, é necessário chegar ao nível das ações. É preciso que se torne cultura, faça parte do entendimento e da forma de viver da sociedade e da politica como um todo.
“Inclusão deve ser visto como um tipo específico de mudança cultural, que tem que acontecer na sociedade, porque senão você não tem uma sociedade pra todos. Só que para você ter uma sociedade pra todos de fato, ela precisa de várias mudanças culturais. [...] Essa tentativa de tentar entender um mundo diferente, uma outra cultura, isso que foi.. que me fez abrir a cabeça, e não pensar que eles são deficientes, ou uma coisa assim, o problema do doentinho.”
(SIC D4)
A dificuldade de mudar a representação social leva a sustentar o estereótipo de ver a pessoa com deficiência visual ou auditiva, como sem eficiência, doente. A concepção que se tem uma deficiência também vai afetar a inteligência, a memória, e todo o resto do aparato cognitivo estará comprometido (NUERNBERG, 2009). Até os trabalhos publicados, que discorrem sobre “inclusão”, trazem esse peso de uma representação social impregnada pela visão de ‘deficiência’, ou não se adequam à legislação vigente para o desenvolvimento do seu conteúdo. Por exemplo, ainda não utilizam as nomenclaturas adequadas, mesmo em publicações recentes, com nesse caso: “as TIC podem constituir um recurso fundamental para possibilitar a comunicação dos portadores de necessidades especiais através da manipulação de ferramentas” (COSTAS, 2011, p. 114). Apesar da publicação ser de 2011, após a alteração da designação, ainda traz o termo ‘portadores’, que se repetirá no texto. Essa dificuldade de mudança não ocorre apenas no discurso, faz parte também das ações, uma vez que os arquétipos históricos ainda não foram ressignificados.
Evidencia-se mesmo que
Há uma mentalidade dominante no modo de ver essas pessoas, focada em receios e pensamentos de piedade. O surdo, neste contexto, é visto como uma pessoa de capacidades menores perante os outros, porém, hoje é sabida a falta de veracidade dessa afirmativa. (MORAES; ROCHA; SILVA, 2013, p. 35)
Neste sentido, para aceitar que a incapacidade não condiz de maneira efetiva com a realidade dos fatos é preciso que as devidas mudanças, mesmo que de maneira paulatina, possam ocorrer, e a principal dela é a mudança cultural. Essa mudança de perspectiva, de
aceitar e conviver com a diferença, é fundamental, uma vez que a sociedade sempre se desenvolveu a partir da uma ‘cultura da normalidade’ que, “em geral, é um campo fértil para proliferação do preconceito e da discriminação social, necessários ao modelo social vigente que exclui por meio da marginalização e/ou da segregação todos aqueles que não se encaixam nos padrões estabelecidos socialmente.” (SANTOS, 2013, p. 90). Com isso, é preciso uma transformação profunda, que permita conviver com as diferenças e com outros padrões quer sejam físicos, sensoriais ou comportamentais.
“Então, a inclusão, para mim, é um tipo de mudança cultural, e das mais complexas que tem, porque é uma mudança cultural que você vai ter que pensar no outro de uma forma, vai ter que pensar no outro de outra perspectiva.” (SIC
D4)
Realmente, é muito mais fácil pensar em tudo e sobre todos a partir da ótica pessoal, dos conceitos pré-concebidos, visto que mudar de perspectiva tira a pessoa da zona de conforto, do espaço e visão pré-moldada, instigando a pisar em novo território. Mas, apesar do desconforto inicial, ao se permitir interagir, é possível construir concepções a partir do coletivo e das suas demandas. Entretanto, como discorre Elias (1994), vive-se em uma sociedade de indivíduos, cada um em busca de sua individualização, do seu espaço, dos seus desejos, ainda que vivendo em sociedade, e isso é construído a partir da carga histórica que cada um traz. Assim, sem conviver, sem se relacionar com o diferente, não se constrói mecanismos de interrelação, de conhecimento mútuo. Algo comum com relação à pessoa com deficiência, uma vez que ela não fazia parte da sociedade, do mundo do trabalho, do âmbito educacional (ARANHA, 2003; SANTOS, 2013). No entanto, é possível vislumbrar uma mudança cultural, uma vez que as novas gerações não terão esses obstáculos férreos separatistas, talvez apenas alguns resquícios do ainda institucionalizado preconceito, que permanecerão latentes, mas que não impedirão uma convivência interativa, harmoniosa, educadora e gratificante. D1 reiterou essa visão
“Então, a gente pode ter um ciclo vicioso, ou um ciclo virtuoso, porque, assim, se a gente não convive, como eu praticamente não convivi crescendo com pessoas com deficiência, você acha que o mundo é cor de rosa, e ai quando a gente tem uma universidade que é exclusionária, ninguém vai conviver, ninguém vai achar problema nenhum. Então, eu acho que vai mudando na medida em que as pessoas
fazem vínculo mesmo.” (SIC D1)
Sem dúvida, as pessoas que hoje estão na universidade, principalmente no caso da comunidade docente, poucas tiveram a oportunidade de se relacionar com pessoas com deficiência – estar com essas pessoas no mais diversos ambientes. Acredita-se que essa
mudança de cultura já pode ser vislumbrada para as próximas gerações, uma vez que a legislação indica que as pessoas com deficiência já devam participar da educação formal desde a infância. O que só ocorre quando esse espaço educacional se adequa à participação de todos, e nem sempre isso acontece de fato, fazendo com que a segregação ainda esteja presente na educação.
“Então, a gente conseguiu avançar, há de se admitir que a gente conseguiu avançar, a partir do momento que esses alunos já estão convivendo com a gente,
e que a gente é quem tem que pensar em estratégias de convivência, de relação. Porém, isso não tem passado de estatísticas, de números, de discursos, na prática
há poucas ações realmente inclusivas.” (SIC D8)
Talvez essas ações não se efetivem pelo fato de não estarem institucionalizadas, não terem sequência, ocorrerem de maneira estanque e mecânica, apenas cumprindo, e superficialmente, as resoluções legais, ou acatando demandas de interesses pessoais
“O problema nosso, nosso daqui, e você pode estender pro Brasil, é que a gente lida muito com questões pontuais, e muito no nível pessoal. Tem alguém sensível e essa pessoa faz uma concessão, faz o favor de atender seu pedido, só que essa pessoa sai, entra outra no lugar, voltamos a estaca zero. Então, a minha ênfase
vem sendo agora, como digo à reitoria: ‘precisamos mudar a cultura’. A universidade, como uma Instituição, precisa assumir o discurso e a bandeira da
acessibilidade e da inclusão, enquanto isso não acontecer, nós vamos tá numa situação muito ruim, muito frustrante, muito aquém das expectativas.” (SIC D3)
Ainda não se consegue pensar a partir de uma visão de tudo para todos, que todos têm os mesmo direitos, que estar na universidade é um mérito e não um favor, que participar da vida em sociedade e exercer a cidadania é uma conquista que não pode ser desconsiderada, e a sociedade e a universidade têm que cumprir seu papel de fomentar e instituir as transformações essenciais, até que isso faça parte, não apenas da lei, mas da maneira de viver e de agir das pessoas.
“As coisas da inclusão não é um princípio ainda, não está constituindo cultura, porque quando isso acontecer, as pessoas vão, assim, imediatamente, é espontâneo. Ah, eu vou fazer esse prédio, isso aqui, além de atender a lei, porque
existe lei para isso, mas eu sei que existem pessoas com tais e tais diferenças, necessidades, então, eu tenho que incluir isso. Isso tem que ser natural, tem que
ser espontâneo de todas as ações.” (SIC D6)
Não apenas essa espontaneidade deve estar presente em caso de mudança cultural, mas a amplitude de possibilidades também deve se alargar. Em geral, “a ausência da acessibilidade em suas diferentes dimensões revela uma indiferença institucional, pulverizada nas atitudes de parte dos docentes, colegas, gestores e funcionários, incompatíveis ao nascedouro de uma cultura acadêmica inclusiva.” (SANTOS, 2103, p. 264). Muitas vezes a
pessoa é colocada em situação de deficiência, porque o meio não é eficiente, adequado, acessível – seja nos aspectos estruturais, seja nos atitudinais. Estar imbuído de uma cultura inclusiva tira o foco da deficiência e passa a ver o sujeito e seus direitos, que não pode ser rechaçado da vida em comum e da relação com as pessoas. A experiência de D3, advinda de suas vivências, demonstrou que, em caso de mudança
“O foco das pessoas não é na deficiência, o foco é, quer dizer, o raciocínio é: essa pessoa, dita com deficiência, ela é 95%, 99% semelhante a gente, e tem um
elemento como a mobilidade, ou a visão, ou a audição, alguma coisa que é diferente. Então, eles não vêm muito os limites.” (SIC D3)
Mudando a visão dos limites para as potencialidades, e trabalhando pela adequação e universalização dos acessos, pode abrir um leque em potencial de possibilidades e possíveis horizontes antes inimaginados, tanto na educação como na vida em geral, alcançando objetivos considerados intransponíveis. Essa forma expressiva de conceber a mudança cultural esteve presente no relato de D3, ao considerar que é necessário
“...fazer com que essa pessoa tenha uma vida normal. Tenha uma vida! Experimente tudo que qualquer pessoa. Se você tem o desejo de escalar uma
montanha, vamos fazer, vamos pensar em equipamentos, recursos, pessoas especializadas, para fazer com que a pessoa suba a montanha. E não tentar demovê-la da ideia já de antemão, fazer com que ela desista dos sonhos e tal.
(SIC D3)
Para alguns, isso pode parecer absurdo, para muitos, apenas uma entre tantas possibilidades. Trilhar esse caminho pode levar à construção de uma cultura inclusiva que poderia viabilizar, para a pessoa, esta dentro, estar com, estar sendo. Integrado em todos os espaços, relacionando-se com todas as pessoas, sendo o que sempre quis ser, e fazendo o que deseja fazer. Mas quando será que veremos ações neste sentido? Quando a sociedade vai se conscientizar que a pessoa com deficiência tem o direito de sonhar e de realizar seus sonhos? Quando ela vai buscar quebrar as barreiras para a participação de todos os seus indivíduos? Tornar-se eficiente para o desenvolvimento das potencialidades de todos? D3 conclui que no Brasil não vai ser fácil chegar a isso
“Nós estamos ainda muito longe, estamos a caminho, mas um caminho ainda muito longo a ser trilhado.” (SIC D3)
É evidente que esse tipo de visão, de cultura, ainda está longe de ocorrer no âmbito universitário, pois esse ainda pensa em inclusão apenas teoricamente, com pequenas adaptações para questões muito localizadas, que tenham mais visibilidade política do que ser fator de mudança institucional, muito menos para se tornar algo espontâneo e constituído
socialmente. O que ocorre de fato pôde ser percebido na fala de D3, ao se reportar ao desabafo de um docente (no caso D5), em uma reunião
“A gente tá cansado, porque a gente sempre tem um padrão de encontros, seminários, simpósios, fórum, onde você tem uma série de depoimentos tocantes,
das dificuldades, dos problemas e tal, e depois vem, logo em seguida, depoimentos de pequenas conquistas. E a gente sai desses encontros sem nenhuma decisão, daqui há dois, três anos tem outro encontro.” (SIC D3)
E a universidade, que deveria ser o alicerce para as transformações necessárias, não consegue passar para o campo concreto, apenas constrói e fomenta teorias, sem fazer a diferença, mantendo-se impassiva por omissão ou descomprometimento. Mas se esta não assume seu papel institucionalmente, a partir das instâncias hierarquicamente superiores, os docentes o fazem, mobilizando-se como corpo constituído nessa universidade, buscando transformá-la pela base
“E agora a gente vai entrar com companhas mesmo, a gente já está se organizando pra isso, pra instituir uma, vamos dizer, uma política de
acessibilidade, uma cultura de acessibilidade na UnB.” (SIC D5)
Que a articulação não seja apenas uma quimera, mas uma luta concreta e contínua, que possa surtir efeito, e colabore para favorecer a prática docente e inclusão das pessoas com deficiência, em todos os aspectos, até se constituir em uma cultura inclusiva.