III Réaliser le possible : éléments pour une politique des déplacements
III. A.2.c.' Des axes tout sauf secondaires pour la circulation cycliste
A leitura que temos promovida acerca de certos aspectos da relação entretida pelas filosofias de Deleuze e de Bergson consiste num experimento de pensamento. Se considerarmos que a noção de problema constitui um modo de funcionamento da máquina de pensar, então cada filosofia apareceria como uma espécie de maquinaria com um modo de funcionamento singular e o filósofo como um engenheiro. Assim como se fala em engenharia genética ou engenharia de palavras (João Cabral de Melo Neto e a "máquina de comover" de Le Corbusier), a filosofia também constitui uma engenharia e seu esforço consiste em fazer conceitos mobilizando o conjunto da máquina de pensar em função de problemas bastante precisos. Cremos ter esboçado dois problemas a partir de Deleuze e de Bergson (não que não hajam outros, muito pelo contrário!): o principial em Bergson e o prático em Deleuze, de que resultam respectivamente a performance especulativa e a performance instauradora da máquina de pensar.
Contudo, é preciso observar rapidamente que, de um ponto de vista deleuziano, a máquina de pensar deve ser compreendida exatamente para além de toda partilha entre natureza e cultura, natural e artificial, ou seja, essa máquina se deixa compreender como parte de uma natureza infinitamente maquínica 369. O filósofo-engenheiro não é senão um construtor/manipulador da máquina de pensar e esta deve ser definida doravante como sintetizador, do mesmo modo que a "máquina de sons" de Varèse: o eterno retorno de Nietzsche como máquina-cósmica é, para Deleuze, um exemplo370. As máquinas não tem outra função a não ser a de capturar as forças do Cosmo afim de lhes dar uma certa consistência, sonora, conceitual, visual, material, etc.: tornar pensáveis, visíveis, audíveis as
369 Nós extraímos essa concepção diretamente das primeiras páginas de O Anti-Édipo e ela se acorda perfeitamente ao problema da instauração filosófica. O pensamento, assim como os organismos vivos, a terra, as constelações, não cessa de se instaurar. A máquina de pensar faz plenamente parte do "real" enquanto "unidade do produzir e do produto". " (...) desaparece também a distinção homem/natureza: a essência humana da natureza e a essência natural do homem identificam-se na natureza como produção ou indústria, isto é, afinal, na vida genérica do homem. A indústria deixa assim de ser entendida numa relação extrínseca de utilidade para o ser na sua identidade fundamental com a natureza como produção do homem e pelo homem Não o homem como rei da criação, mas aquele que é tocado pela vida profunda de todas as formas e gêneros, o encarregado das estrelas e até dos animais" (DELEUZE & GUATTARI, 1972, p. 10).
370 Mas nós pensamos também na máquina de imagem de Werner Herzog, notoriamente a seu "Grizzly Man" (2005) e ao seu "A grota dos sonhos perdidos" (2010), pois efetivamente a câmera-olho diante do olho do urso e diante das pinturas do paleolítico, para além de todo questionamento narcísico ou anti-narcísico, para além a angustiante ou alegre aventura de se ver a si mesmo do ponto de vista do outro, instala-nos num ponto de vista cósmico pelo qual nós contemplamos a massacrante indiferença da natureza e nós mesmos nela inseridos, de tal maneira que nos é necessário apreender as forças do Cosmo. Assim, as imagens finais dos crocodilos albinos, no estranho e tão belo adendo de "A grota", mutantes nascidos na biosfera tropical criada pela água quente excedente utilizada para resfriar os reatores nucleares de uma Usina distante 32km da Grota de Chauvet, esses crocodilos não nos oferecem uma imagem de nós mesmos onde nós não nos reconhecemos, mas ao contrário a imagem de um cosmo onde nós estamos de alguma maneira instaurando alguma coisa, ainda que sejam pinturas sobre uma parede ou imagens com uma câmera cuja comunicação permanece bastante incerta, um "reflexo imaginário": "provavelmente", diz Herzog. É também o imperativo de fogo que nos coage a criar.
forças que não o são. Não é outro o problema da instauração, conforme a terceira síntese do tempo, como o mostra Deleuze, com Guattari 371.
O problema não é mais o de um começo, tampouco o de uma fundação- fundamento. Ele se tornou um problema de consistência ou de consolidação: como consolidar um material, torná-lo consistente, para que ele possa captar essas forças não sonoras, não visíveis, não pensáveis? (...) Saímos, portanto, dos agenciamentos para entrar na idade da Máquina, imensa mecanosfera, plano de cosmicização das forças a serem captadas". E, em seguida: "O sintetizador, com sua operação de consistência, tomou o lugar do fundamento no julgamento sintético a priori: a síntese aqui é do molecular e do cósmico, do material e da força, não mais da forma e da matéria, do
Grund e do território. A filosofia, não mais como juízo sintético, mas como sintetizador de pensamentos 372.
Ao sintetizar, por assim dizer, uma natureza filosófica, ao instaurar um plano, a máquina de pensar envolve um conjunto de determinações em função do problema que ela mobiliza. Elas podem ser geográficas, biológicas, sociológicas, técnicas, cósmicas, etc.. Como não podemos nos dar a tarefa de restituir tais determinações ou elementos disparatados tais como eles são consolidados nas obras de Deleuze e de Bergson, propomos nesta última parte aprofundar nosso experimento e suas linhas de diferenciação a partir de certos aspectos de sua determinação política. Isso nos conduzirá ao problema da diplomacia bergsoniana e da geofilosofia política deleuziana. Ao mesmo tempo, se se trata aqui de uma experimentação, escusado é dizer que ela se situa diante de questões ditas contemporâneas, em relação às quais teremos a ocasião de nos manifestar, sem nos aprofundarmos mais do que se poderia no que é apenas o pequeno esboço de uma crítica ao nosso tempo de restaurações, de exaustões e de fadigas, mas também de re-instaurações.
371 Nós não poderemos, nos limites desta pesquisa, elaborar um comentário em torno do conceito de "ritornelo", em Guattari, que é fundamental para a compreensão dessa noção de sintetizador e contribui para estender a noção de terceiro tempo.
372 DELEUZE & GUATTARI, 1980, p. 423-424. Os autores lembram a ambigüidade que envolve toda operação de consolidação de materiais disparates: pode-se acabar no "vago", no "confuso", no "ruído". A "sobriedade" deve caracterizar o ato instaurador, o "ato de consistência, de captura ou de extração que trabalhará sobre um material não sumário, mas prodigiosamente simplificado, criativamente limitado, selecionado" (Ibidem, p. 426). Contudo, pensamos que, diante dos desafios contemporâneos, o gesto de sobriedade, necessário, não pode limitar uma necessária complexificação dos materiais. Por isso a passagem da figura do "artesão" àquela do engenheiro, como propomos aqui. Deleuze e Guattari sabem disso perfeitamente e não fizeram outra coisa com os Mil Platôs, verdadeira livro de engenharia instauradora e filosófica, que atravessa os estratos da mecanosfera e sintetiza uma "geologia da moral", exibindo a própria produção do processo de pensar em sua relação com elementos e instaurações que o ultrapassam.