Adentrar no universo dos grupos escolares foi visto pelos entrevistados com prazer. O
aspecto físico tão precário das escolas não foi mencionado nenhuma vez por aqueles que a
freqüentaram, muito embora tenha sido realçado pelos pais. A descrição do ambiente escolar
foi feita de forma precisa: o número de salas, os professores, os colegas de sala, o material, o
fardamento. A incorporação dos rituais que compunha a escola cearense perpassa todos os
relatos. Os “cânticos” de entrada, de merenda, de saída, a reza no início de todos os dias de
Embora a escola fosse carente, em vários aspectos a mudança de ambiente de estudo
proporcionou a abertura de mundo novo aos alunos, em que os rituais, já descritos acima,
tinham significação própria.
Depois de vários anos funcionando de acordo com a descrição dada, as Escolas
Reunidas ganham novo prédio, mais amplo, e também uma nova denominação – Escolas
Reunidas Avelino Magalhães.
Tinham 5 salas: a entrada, aquela sala que era a diretoria e a galeria. Tinham duas salas para o outro lado e uma casa onde morava uma pessoa que tomava de conta a escola. Não tinha cantina. Era a cozinha da casa e o galpão onde era o nosso recreio. Não tinha murada, era aberta, funcionava só de manhã e de tarde. Na época, era com quadro-verde, aquelas carteiras de 2 sentarem, em dupla, como era um grupo já, e depois de Escolas Reunidas passou a grupo escolar Avelino Magalhães, antes de eu sair de lá. (Dona Antônia).
A obediência fazia parte da escola, há quem a denomine de “escola do silêncio”. A
metodologia empregada pelas professoras para alguns inspirava medo.
A gente copiava do quadro as tarefas, a professora explicava, o aluno só ouvia sem perguntas, não era só dona Maura era toda professora daquela época, o aluno não perguntava: “Ei, professora venha cá”, não. Alguma dúvida era tirada todas de uma vez. (Dona Antônia).
O modelo rígido de educação esteve sempre presente nos primeiros anos de
emancipação, quando não eram admitidas perguntas a não ser com permissão. Nas reuniões
de pais e mestres, não havia ainda a preocupação com a aprendizagem dos alunos. Fica claro
nas falas das pessoas entrevistadas, que o comportamento era o assunto central conversado nas
poucas reuniões que havia. Dado que a comunidade era pequena, freqüentemente os pais
interpelavam as educadoras quando as encontrava para saberem do comportamento dos filhos.
Ela dizia: se tiver alguma dúvida pergunte agora porque eu vou tirar a dúvida agora e os outros prestem atenção para aproveitar que a sua dúvida pode ser esclarecida. Mas já existia prova mesmo. A gente estudava em casa, decorando o conteúdo. Pouca interpretação de texto, tinha que ler o texto. Do texto só aproveitava um ditado, sempre muito difícil, as palavras mais difíceis eram as palavras ditas para a gente escrever e tinha que decorar a gramática. O conteúdo era só mais gramática. A gramática de acordo com série que a gente estava estudando. Geografia também, tudo tinha que decorar. A aula começa de 7 às 11 horas. (Dona Antônia).
O rigoroso processo de ensino do final dos anos 1950 deixou marcas capazes de se
manterem muito vivas na lembrança da palmatória e do argumento. Cada “bolo” recebido
ainda provocam atualmente severas linhas de expressão ao rosto. A reprodução do método de
ensino, quando as alunas chegaram às salas de aula na condição de professoras, é
categoricamente afirmado pelas entrevistadas. Nada mudara, segundo elas. As semelhanças
eram enormes. No entanto, sem perceberem, em seus relatos as diferenças surgem. As
educadoras negavam na prática cotidiana o rigoroso método de ensino que as alfabetizou. O
argumento, a palmatória, o “tomar” da lição ao pé da mesa do professor, a autoridade
inabalável lentamente sofrem um processo de mudança, facilmente identificável nas falas dos
atores sociais desta história.
A orientação escolar dada em casa pelos pais era uma projeção da escola, o método
de aprendizagem, designado por muitos como “decoreba”, estava presente nos momentos de
estudo.
Dia de prova eu levantava 6 horas. Mãe chamava eu e Dedé pra estudar e colocava um na porta da garagem e o outro na outra decorando a prova. Antes de sair ela pegava o livro e a gente tinha que dizer até as vírgulas. Minha mãe ajudava na educação, ela cobrava do jeito que era cobrado na escola. (Dona Antônia).
Com a ampliação da escola Avelino Magalhães - que antes era Escolas Reunidas
Avelino Magalhães – houve o aumento na demanda por educação que, segundo Dona
Raimunda Gadelha Chaves teve 2 motivos.
Com a construção da sede própria do Avelino Magalhães em 1951 aumentou a demanda por 2 motivos. Em 1950, houve uma enchente. Os habitantes da zona rural sentiram a necessidade de ter algum cômodo, um a casinha na cidade. Com isso Tabuleiro cresceu muito em prédio e população. Como as pessoas da zona rural já tinham casas na vila, elas acharam mais fácil colocar os filhos para estudarem aqui, e posteriormente passaram a morar na sede, da década de 50. Por esse 2 motivos, a escola Avelino Magalhães com uma sede grande com um número de professores bem acessível e a vantagem das pessoas já poderem ficar em suas próprias casas para darem assistência aos seus filhos. A divulgação também, porque as pessoas já começaram, a saber, alguma coisa pelo rádio.
Os motivos expostos por Dona Raimunda Gadelha Chaves para o aumento da
demanda não foi confirmado por outros entrevistados, Dona Zelaide confirma que após a
emancipação a prefeitura empregou várias pessoas e que algumas vieram morar na sede do
município.