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Vitesses en fin de pale

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4.4 Comparaison avec les exp´erimentations

4.4.3 Vitesses en fin de pale

Nas primeiras décadas do século XX, o avanço da industrialização acompanhado da extensão da urbanização impõe uma nova dinâmica urbano- industrial ao espaço das cidades alargando-o para além dos limites antes estabelecidos. Nesse novo contexto de formação da metrópole moderna, principalmente nos Estados Unidos da América (Champion, 2001: 143-144), há uma fragmentação do espaço, observado pela formação de áreas exclusivas e semi exclusivas. Observa-se, nesse momento, o deslocamento das classes mais abastadas em direção aos espaços suburbanos em formação e um deslocamento das áreas industriais para nichos ao redor de áreas de circulação, ambos gerando novas centralidades ao estender as infraestruturas para além dos espaços previamente ocupados. Concomitantemente, as centralidades tradicionais começam a perder atratividade e tornam-se predominantemente ocupadas pela população migrante em busca de inserção no novo contexto econômico.

A realidade urbana nos países periféricos não acompanhava esse mesmo movimento. Ali, o aumento da mancha urbana, num contexto de desenvolvimento do capitalismo extensivo (Deák, 1999), toma a forma da ocupação precária da periferia, marcada pela fraca presença do Estado na oferta de infraestrutura básica.

Mesmo na situação de países europeus, como França, Itália e Espanha (Champion, 2001: 147-150), que tiveram seus espaços urbanos reordenados no pós- guerra, produziram-se periferias pobres ainda que, na maioria das vezes,

(...) “organizadas em conjuntos habitacionais inspirados no modelo progressista onde se concentraram populações de imigrantes excluídos do centro da

economia e do espaço do poder, alimentando assim os conflitos que viriam explodir ao final dos anos sessenta e que ainda se agravam nas grandes cidades” (Monte-Mor, 2006: 69).

A consolidação do “urbano” com a sua generalização e desdobramento como espaço da produção é acompanhada pela explosão da cidade, com o crescimento suburbano de classe média em alguns lugares, com a ocupação periférica pobre, em outros e, ainda, com a formação dos espaços periféricos formados por conjuntos habitacionais voltados para as classes mais baixas.

As mudanças estruturais pelas quais passam as economias a partir da década de 1960, a dizer, o esgotamento do estágio intensivo marcado pela crise do capitalismo e pela reação neoliberal, marcam um novo contexto de demandas pelo uso do espaço, principalmente nas democracias mais avançadas da Europa, onde o Estado de Bem-Estar entra em crise. Em uma conjuntura de emergência de novas demandas pelo uso do espaço, pelo alargamento da cidadania, por participação nos processos decisórios e por controle e regulação das relações entre capital e trabalho, as interpretações da questão urbana ganham novos contornos, com impactos diferenciados de acordo com as realidades nacionais. Assim, as chamadas crises de acumulação do fordismo, as crises do petróleo, as crises fiscais, etc, começam a questionar tanto o Estado de Bem-Estar consolidado na Europa, quanto o poder e a capacidade do Estado nas economias em processo de organização e desenvolvimento. Em pouco tempo “a crise” já se manifestava nos espaços urbanizados e a sua solução lançaria os pressupostos do Estado neoliberal tornando o liberalismo a receita para qualquer economia. A formulação “liberdade e justiça social”, baseada fortemente na propaganda anti-intervenção do Estado e na exacerbação do individualismo torna-se o mantra do senso comum repetido à exaustão.

Nesse contexto de crise, a partir de meados do século XX, outra abordagem ganha espaço e reconhecimento, esta, do nosso ponto de vista mais completa ao passo que busca entender a cidade como um processo social produzido pelas contradições originadas das relações entre diversas forças sociais em oposição. O novo enfoque sobre a cidade emerge de explicações referenciadas pela economia política e afirma a cidade como um processo histórico, resultado das

contradições sociais. Ainda que as preocupações propriamente espaciais apareçam de forma fragmentada nas obras de Marx, é clara a sua influência nessa vertente de estudos críticos sobre a cidade que emerge a partir de meados de 1960. Manuel Castells (1983), David Harvey (2002, 2011) e Henry Lefèbvre (1970, 1974 e 1979) figuram ente os principais autores de estudos urbanos de orientação marxista, que emergiram entre as décadas de 1960 e 1980.

Henri Lefèbvre foi o introdutor desse viés interpretativo nos estudos urbanos, no final da década de 1960. Entendendo o espaço como resultado do trabalho social, o autor aborda questões tais como a transformação do rural em urbano, do direito à cidade, da vida cotidiana e da revolução urbana, entre outros temas, sempre apoiados no materialismo histórico Lefebvre (1970). O autor buscou, ainda, entender a manifestação do capitalismo no espaço, processo esse que se daria através das relações de produção. Nesse sentido, a forma do espaço representaria, as relações entre capital e trabalho, principalmente no que diz respeito às relações de poder projetadas nas práticas estabelecidas. O espaço é, então, apresentado como um componente da economia política, constituindo-se como parte da força produtiva na composição da estrutura econômica, o que implica dizer que através dele e das relações que se estabelecem na e para a sua produção se explicaria o próprio sistema capitalista (Lefebvre, 1979: 295). Ou em acordo com o também pontuado por David Harvey (2002 e 2011), a produção do espaço se dá de tal modo a reforçar a organização social e, de modo equivalente, seria responsável pela manutenção do modo de produção capitalista. Nesse sentido, o capitalismo teria conseguido escapar às crises de sobre-acumulação através da produção do espaço. No conjunto das relações sociais o espaço expressaria o seu papel fundamental ao tomar parte da constituição e da reprodução sociais. A organização do espaço atuaria, assim, no controle das contradições do capitalismo em benefício de alguns segmentos sendo, assim, participante do processo de reprodução das relações sociais.

Um outro expoente dessa abordagem, Manuel Castells (1972;1983), no clássico “A Questão Urbana”, traça os fundamentos teóricos do urbanismo marxista que viria a ganhar força posteriormente. Castells aceita as categorias do materialismo histórico, mas, movido pelos movimentos urbanos que se sucederam principalmente na França a partir de fins da década de 1960, enfatiza os papeis dos

movimentos sociais nas transformações que ocorrem na cidade. No contexto europeu de Estado de Bem-Estar social, o autor cria novos conceitos os quais passam a fazer parte do vocabulário das pesquisas urbanas para além dos limites europeus e que, mesmo passado um quarto de século, ainda são questionáveis quando generalizados para realidades socioeconômicas distintas. Assim surgiriam as “sociedades pós-industriais” com suas demandas “pós-materiais”, em um contexto de “consumo coletivo” do espaço, nos quais as demandas por transporte público, habitação social e outras infraestruturas formadoras do sistema urbano seriam articuladas pelas instâncias de uma dada estrutura social, no interior das relações que permitem a reprodução da força de trabalho (Lemos, 2010). A produção do espaço, assim, seria definida na configuração das lutas sociais e redefiniria a análise do urbano deslocando-o da organização econômica para o campo da política, ao inserir a centralidade da intervenção estatal e das lutas sociais Se o urbano é o lugar da reprodução social (Arantes, 2009:108), a cidade é entendida como o espaço da vida cotidiana e do consumo, que é realizado através das políticas de Estado, já que é ele agora o responsável pelo fornecimento dos meios necessários à reprodução social ao organizar o consumo por meio das políticas urbanas. Castells acredita que o conflito mais importante do capitalismo está presente na relação entre o trabalho e o Estado, pois é essa relação que define o nível da reprodução social. O conflito não mais repousa na relação capital e trabalho. Assim, se num primeiro momento, Castells se dedicaria a descrever a proliferação dos movimentos sociais na cidade, num segundo momento o autor se dedicaria a afirmar a centralidade dessas organizações sociais urbanas na configuração da cidade contemporânea, destacando a politização do espaço e a articulação dos grupos a partir da questão da reprodução urbana.

Harvey (1982), por sua vez, propõe uma análise que parte da interação entre o espaço, o urbano e os processos de reprodução das relações sociais e das condições gerais de produção. Para tanto, enfatiza as mudanças estruturais da economia que intensificaram a mobilidade espacial do capital e do trabalho na conformação do espaço. Nessa relação, assume importância além do capital propriamente dito, os movimentos do trabalho em sua luta contra os avanços do capital. Nessa análise, o espaço urbano integra-se à paisagem geográfica do capital enquanto parte necessária de um espaço social contraditório que, a um só tempo,

estimula e atrapalha o desenvolvimento e reprodução das relações que nele se estabelecem, em um movimento de construção e destruição dos espaços.

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