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Bilan ´energ´etique

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Predominantemente Extensivo

A cidade ocidental moderna costuma ser entendida, desde Marx e por seus intérpretes e estudiosos marxistas, como o local da produção e reprodução do capital e, como tal, produto histórico da sociedade, tendo em conta amplos processos sociais que abarcariam desde os modos de vida, o consumo, até a organização espacial. A urbanização, desse ponto de vista, é um processo que acompanha a generalização da forma-mercadoria e do trabalho assalariado no capitalismo, sendo assim entendida como um fenômeno próprio à época moderna. Assim, a urbanização tende a ser entendida como fenômeno concomitante à industrialização, tal qual o processo original, iniciado em meados do século XVIII, na Inglaterra, e seguido pela França e Alemanha.

Como efeito das transformações econômicas, sobretudo em relação à organização do trabalho, houve um impacto severo na composição populacional e na sua distribuição pelo território. A introdução de novas técnicas de trabalho ocasionou o incremento da produção e a aceleração da circulação e acelerando, com isso, também o desenvolvimento através da extensão do trabalho assalariado aos mercados. Por outro lado, o empobrecimento rural causado pelo parcelamento das terras ou simples expulsão dos antigos servos, provocou um êxodo rural sem precedentes até então, com a migração forçada da mão de obra para as cidades. Os servos, em busca de sobrevivência, devem se assalariar nas cidades. Convertidos em operários assalariados são submetidos às novas relações de trabalho, e às novas

condições de reprodução a baixíssimos níveis de subsistência, próprias ao primeiro estágio de desenvolvimento do capitalismo – estágio de acumulação predominantemente extensiva (Deák, 1989).

O desenvolvimento da técnica que culmina com as invenções do século XVIII, como o tear manual, depois o tear hidráulico seguido pelo tear a vapor, permite a concentração de trabalho e trabalhadores nas grandes oficinas, o que vivia a se tornar o embrião das fábricas de tecido. Ainda assim, a dependência da água fixava a produção em áreas próximas aos cursos de rios e riachos. Somente o carvão possibilitou a libertação da produção em relação aos cursos d’água, ao passo que a siderurgia, empurrou a indústria para fora dos limites das florestas, em direção às regiões de mineração.

A concentração de população no entorno das minas e fábricas provocou o nascimento de novas cidades e o incremento daquelas já existentes. No entanto, foram a produção e a circulação de mercadorias os inputs necessários para o desenvolvimento da infraestrutura logística e consequente integração territorial. As redes de transportes, particularmente o desenvolvimento da técnica ferroviária, leva as estradas de ferro para boa parte dos Estados Nacionais então organizados em torno da produção de mercadorias.

Assim, tanto o crescimento demográfico quanto a melhora dos sistemas de circulação acompanharam o processo de industrialização assim como o processo acelerado de urbanização. Juntos, mudaram a distribuição dos habitantes, o peso e importância de cada aglomeração e a própria organização das cidades. Como se conheceu através das clássicas descrições da cidade industrial em Engels, Marx, Zola, etc, junto com o processo de crescimento físico e da produção verificou-se as terríveis condições de vida da população operária, graças à falta de infraestrutura adequada, insuficiência habitacional, falta de higiene, inexistência de cuidados de saúde, entre outras carências que começaram a se manifestar em grande escala.

As populações que afluíam aos centros industriais em busca de trabalho ocupavam os espaços vacantes nas vizinhanças já assentadas ou em áreas novas periféricas provocando a multiplicação de bairros no entorno dos assentamentos já consolidados. No entanto, as concentrações de trabalhadores se localizavam, em geral e preferencialmente, próximas à produção, como modo de otimizar o trabalho em relação ao tempo de deslocamento gasto. Charles Dickens, em seu famoso

romance Oliver Twist, descreve os bairros industriais de Londres do século XIX, principalmente Jacob’s Island e Saint Saviors Dock London18, como um corpo de uso

misto, compacto, carente de higiene e sem condições mínimas de salubridade, como podemos observar na FIGURA 3.1. Ali, indivíduos solitários, famílias, crianças, idosos e doentes dividem locais pequenos, apertados, húmidos, sujos e contaminados. Trabalho e moradia ocupam o mesmo espaço. A alta densidade, o uso compartilhado e a falta de infraestrutura dificultam o escoamento dos dejetos e a dispersão dos resíduos. Vetores de doenças, animais domésticos, humanos e máquinas convivem com o lixo e água contaminada por esgoto a céu aberto.

Em Bleak House, Dickens nos dá mais uma mostra do que eram as áreas: “"Jo lives—that is to say, Jo has not yet died— in a ruinous place, known to the like of him by the name of Tom-all-Alone's. It is a black, dilapidated street, avoided by all decent people; where the crazy houses were seized upon, when their decay was far advanced, by some bold vagrants, who, after establishing possession, took to letting them out in lodgings. Now, these tumbling tenements contain, by night, a swarm of misery. As on the ruined human wretch, vermin parasites appear, so these ruined shelters have bred a crowd of foul existence that crawls in and out of gaps in walls and boards; and coils itself to sleep, in maggot number, where the rain drips in; and comes and goes, fetching and carrying fever, and sowing more evil in its every footprint than Lord Coodle, and Sir Thomas Doodle, and the Duke of Foodle, and all the fine gentlement in office, down to Zoodle, shall set right

18 Ambas as áreas, Jacob’s Island e Saint Saviors Dock, até o final do século XIX eram consideradas

degradadas e repulsivas. Foram descritas pelo jornal Morning Chronicle de 1849, como "A capital do cólera" e "A Veneza do esgoto". O escritor Henry Mayhew descreveu a área como uma "ilha de pragas", com "cheiro de cemitério" por conta das valas e esgotos domésticos que correm a céu aberto despejando todo o lixo sobre os veios d’água, além de plantas, carcaças de animais e peixes em decomposição. Descreve ainda a água "vermelhas como sangue" em algumas partes, como resultado do uso de substâncias utilizadas nos curtumes espalhados pela área. Morning Chronicle, setembro 1849

in five hundred years—though born expressly to do it." (Dickens, pág. 18)

Essa cidade teria sido construída ao longo dos anos subsequentes acompanhando os processos de incremento da produção, na qual a estrutura econômica e a estrutura física da cidade teriam sido transformadas paulatinamente ao incorporar os contingentes populacionais que chegavam expulsos das glebas, à procura de melhores condições de vida, ou aqueles ligados à circulação de mercadorias

Figura 3.1 - A Cidade Industrial

Na figura à esquerda: “A Corte do Rei Cholera”. John Leech, 1852 – Ilustração do famoso caricaturista inglês sugere a conexão entre o cólera e os cortiços de Londres. Figura à direita: Fotografia de Folly Ditch, próximo a Mill Street, na Ilha Jacob, circa 1840.

Tabela 3.1 - Urbanização (cidades > 5000 hab.)

Países 1800 1850 1900 1910 Europa 10,9 16,4 30,4 32,8 Início da Ind. 14,8 28 51,1 54,2 Ind. Tardia 8,9 13,4 35,2 40,4 França 12,2 19,5 35,4 38,5 Alemanha 8,9 15 42 48,8 Inglaterra 19,2 39,6 67,4 69,2 Outros Desenv. 5,5 13,9 35,6 41,6 EUA 5,3 5,3 35,9 41,6

Fonte: Fonte: adaptado Bairoch, 1985

Na Europa, entre o início do século XIX e o início do século XX, a industrialização faz triplicar a população residente nas cidades. Embora na mesma

região, a velocidade do processo não foi igual para todos os países Europeus. De 1800 a 1910, enquanto os Estados Nacionais que experimentaram o crescimento industrial na sua fase inicial observaram um aumento da taxa de urbanização de 14,8% para 54,2%, os países de industrialização tardia, no mesmo período tiveram aumento expressivamente menor (Bairoch e Goertz, 1986:284-297).

De qualquer modo, o processo de urbanização, acontece sob a égide da produção industrial e da concentração de população em situação caracterizada pela insalubridade, por sistemas deficientes de esgotamento sanitário e oferta de água potável, bem como pela ausência de coleta de lixo. A cidade fora construída pelo arbítrio individual, com objetivos de curto prazo, sem regulação, controle e buscando- se extrair do aglomerado o máximo de aproveitamento.

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