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All Values are Pointers to Objects

O fenômeno do poder pode ser analisado dentro de âmbitos e perspectivas específicos, tanto pela psicologia quanto pela sociologia. A psicologia se esmera em estudar o poder a partir do desejo ou ambição de poder que é uma característica bem peculiar de todo ser humano, salvo algumas nuances bem característico. Já a sociologia analisa as relações de poder que se estabelecem no âmbito da sociedade. Minha opção é pela análise sociológica dos diferentes aspectos ou dimensões do poder como fenômeno social.

Conforme Luís Lorenzetti, “o poder é coextensivo ao fenômeno social. Em outras palavras, o poder é qualidade própria das relações humanas”. Desse modo, se afirma que toda relação social tem a dimensão do poder e que o poder é uma realidade relacional, pois todo ato social é um exercício de poder. Neste sentido, devido aos seus diferentes aspectos e dimensões, Lorenzetti diz “como é impróprio identificar o poder, sem mais nem menos e exclusivamente, com o poder político”.172

Apesar de concordar plenamente com Lorenzetti quanto às ênfases que podem ser adotadas na análise do conceito de poder, faço uma opção bem particular, pois como meu objeto de pesquisa tem uma conotação nitidamente política, pois que envolve nessa relação de poder dois grupos bem específicos da sociedade judaica, opto por analisar o poder segundo as categorias sócio-políticas, pois esta é a que “torna visível de modo mais marcante os traços que pertencem a todo poder”173.

Assumo também o ponto de vista de Mario Stoppino, que no famoso Dicionário

de Política organizado por Norberto Bobbio, diz que a palavra poder:

[...] designa a capacidade ou a possibilidade de agir, de produzir efeitos. Tanto pode ser referida a indivíduos e a grupos humanos como a objetos ou a fenômenos naturais [...].

Se o entendermos em sentido especificamente social, ou seja, na sua relação com a vida do homem em sociedade, o Poder torna-se mais preciso, e seu espaço conceitual pode ir desde a capacidade geral de agir, até à capacidade do homem em determinar o comportamento do homem: Poder do homem sobre o homem. O homem é não só o sujeito mas também o objeto do poder social.174

Desse modo, ambos os pontos de vista, tanto de Lorenzetti quanto de Stoppino se reforçam, no sentido de que o viés adotado para o desenvolvimento desta tese, requer necessariamente, a análise sócio-política do poder que um determinado grupo social exerce sobre outro grupo social, no sentido de determinar o seu comportamento pois, como afirma Stoppino “o campo em que o Poder ganha seu papel mais crucial é o da política”175

Conforme alusão já feita anteriormente na introdução quanto à motivação desta tese, ou seja, quanto às reais intenções que estão por trás de alguns dos mais importantes

172

Luís Lorenzetti, “Poder” em Francesco Compagnoni, Giannino Piana, Salvatore Privitera, Dicionário de

Teologia Moral, São Paulo, Editora Paulus, 1997, p.967

173

Idem, ibdem.

174

Mario Stoppino, “Poder”, em Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, “Dicionário de Política”, 11ª Edição, Brasília, Editora UnB, 1998, p.933.

175

textos bíblicos escritos na transição do período persa para o período grego. As duas citações de Lorenzetti, logo abaixo, são muito norteadoras.

O poder, por si mesmo, não tem nem terá fins bem precisos; terá os que lhe venham da consciência. ‘O poder espera ser dirigido’ (R. Guardini). A questão ética do poder consiste, pois, essencialmente na questão da finalidade do poder. Os fins, os objetivos, as metas (que podem ser tão variados quanto os projetos humanos são o objeto e o término do problema da avaliação do poder.176

Estreitamente ligada ao objetivo ou fim está a questão dos meios que precisam ser assumidos: a perversão dos meios implica degeneração do fim. As perspectivas ou os horizontes do poder – não só o político – dificilmente parecem conciliáveis com as razões da ética; o poder tende à eficácia e, por isso, adota a astúcia, a coação e a própria força.177

E é também à luz de mais um texto, ou melhor, de um texto que resume a ideia bem precisa que utilizarei nesta tese e que servirá de norte em todo o seu desenvolvimento:

A partir destas observações, vamos tentar propor um conceito de poder: designaremos por poder a capacidade de uma classe social de realizar os seus

interesses objetivos específicos.178

Conforme Nicos Poulantzas afirma, este conceito de poder está relacionado diretamente ao campo das práticas de classe e das relações entre as práticas de classe, ou seja, ao campo da luta de classe. Sendo assim, pode-se asseverar que o quadro de referência se torna a luta de classe de uma sociedade dividida em classes sociais.

Nesse sentido, Poulantzas ainda é mais explícito quando afirma que se por poder entendemos a capacidade que uma determinada classe social possui de conquistar seus interesses específicos, pode-se claramente concluir que:

[...] O poder de uma classe significa de início seu lugar objetivo nas relações econômicas, políticas e ideológicas, lugar que recobre as práticas das classes em luta, ou seja as relações desiguais de dominação/subordinação das classes estabelecidas na divisão social do trabalho, e que consiste desde então em relações de poder.179

176 Luís Lorenzetti, “Poder”..., p.971. 177

Idem, p.971.

178

Nicos Poulantzas, Poder político e classes sociais, São Paulo, Livraria Martins Fontes Editora LTDA., 1977, p.100.

179

Portanto, é possível de se fazer uma análise do judaísmo ainda incipiente pelo viés das relações de poder. A configuração do novo regime político que se foi estabelecendo lentamente na província de Judá demonstra que estamos diante de um processo de transição: do regime tribal, isto é, de grupos humanos – clãs – que que não estavam divididos em classes sociais para um regime do tipo estatal, ou seja, nitidamente dividido em classes.

Como ficará evidenciado, a classe sacerdotal jerusolimitana desenvolveu um projeto bem arquitetado e se foi com a ajuda dos persas existem muitas controvérsias. Eles, num primeiro momento e segundo um desígnio bem preciso, para enfrentar as dificuldades de assentamento nas terras já ocupadas pelos campesinos, criaram sucessivas listas genealógicas com a finalidade de justificar a tomada de posse destas mesmas terras nas quais estavam estabelecidos os campesinos que ainda cultivavam um modo de vida todo peculiar ligado às tradições tribais, isto é, às sociedades primitivas, pois eram seus autênticos descendentes, para num segundo momento se estabelecerem no controle da sociedade mediante uma legitimação de caráter nitidamente religioso, por isso, conforme interpretação de Bourdieu, um projeto nitidamente ideológico.

Assim se justifica todo um trabalho de fundamentação e equacionamento do tipo das relações de poder que se estabeleceram entre o campesinato judaíta e a classe sacerdotal jerusolimitana.

Pensar a questão das relações de poder é perguntar por sua origem, pela sua natureza, por sua estrutura, por sua destinação ou intencionalidade, por seu fundamento e por sua legitimidade.180

Partindo desta visão mais específica de poder, que é aquele que atua num âmbito sócio-político, pode-se afirmar que o que estará como uma motivação de fundo é a questão do interesse, tomado em sentido subjetivo, isto é, como estado de consciência de quem exerce o poder. Para que exista poder, como veremos, é necessário que o comportamento de um determinado grupo – classe sacerdotal – funde o comportamento do outro grupo em questão, isto é, das sociedades tribais. Portanto, pode-se dizer que o comportamento embasado teoricamente pela classe sacerdotal, condicionou o comportamento do campesinato, isto é, tornou-se a sua causa.

Nesse sentido, Mario Stoppino assinala que “antes de tudo, quando referida às relações de poder social, a noção de causa não implica numa perspectiva de determinismo mecanicista. As relações entre comportamentos são relações prováveis, não relações ‘necessárias’”.181

180

Norberto Bobbio, Teoria geral da política: a filosofia política e as lições dos clássicos, 11ª Edição, Rio de Janeiro, Editora Campus, 2000, p...

181

Nesse sentido, veremos que o comportamento da classe sacerdotal se apoia num poder social, embasado – justificado e legitimado – juridicamente nas escrituras que com o passar do tempo alcançaram o status de livros canônicos, cujo fim, se mostra na capacidade de determinação intencional do comportamento do campesinato. Para que isso se efetue, a classe sacerdotal teve que contar com uma série de recursos como instrumentos viabilizadores de seu poder: o principal foi a elaboração de uma corpus de “escritura” apresentada como sendo de caráter divino, visando nitidamente a sua apresentação, legitimação, prestígio, popularidade, riqueza e relações com outros grupos de prestígio, tal como a aristocracia, que detinha o poder econômico. Como veremos, não faltou habilidade à classe sacerdotal para levar á frente seu projeto de dominação, mas para isso, pode contar também com o apoio e respaldo do império persa.

Nesse sentido, o poder da classe sacerdotal foi se estabilizando e principalmente, se

institucionalizando. Segundo Mario Stoppino:

Os modos específicos pelos quais os recursos podem ser usados para exercer o Poder, ou seja, os modos de exercício do Poder, são múltiplos: da persuasão à manipulação, da ameaça de uma punição à promessa de uma recompensa. Alguns autores preferem falar de Poder só quando a determinação do comportamento alheio se funda sobre a coação. [...] Para além dos termos empregados, o que importa é formular uma noção clara de determinação intencional ou interessada sobre a conduta alheia e identificar dentro, dentro deste genus, a species particularmente importante de determinação do comportamento alheio fundado sobre a coerção (coação). A coerção pode ser definida como um alto grau de constrangimento (ou ameaça de privações) [...] No conceito de coerção pode incluir-se também um alto grau de aliciamento (promessa de vantagens).182

De fato, todos esses modos de exercício do poder poderão ser constatados nas relações que se estabeleceram entre o campesinato judaíta e a classe sacerdotal jerusolimitana: “da persuasão à manipulação, da ameaça de uma punição à promessa de uma recompensa”. No documento sacerdotal (P) ou mais especificamente no livro do Levítico, que tem como redatores, escribas membros do grupo sacerdotal jerusolimitano, todas essas características poderão ser constatadas. Como poderá ser verificada a coerção pode ser definida como o conceito que melhor define o tipo de relação que se estabeleceu entre esses dois grupos.

No fundo da questão, com relação às motivações, estratégias e ações da classe sacerdotal de um lado, bem como também, da aceitação e submissão passiva do campesinato do outro, está a outra questão da função que a religião desempenhou

182

dentro desse contexto relacional quanto à função desempenhada pela religião como instrumento de dominação. No próximo tópico será abordada a relação da religião com o poder, como isso se processou no imaginário das sociedades primitivas ou tribais. É esse também o objetivo desta tese: traçar uma trajetória do religioso à luz, principalmente, dos escritos de Marcel Gauchet, tomando por base como objeto de pesquisa, o estudo de um caso particular no contexto do judaísmo ainda incipiente que se transfigurou na conflitualidade das relações de poder entre o campesinato judaíta e a classe sacerdotal jerusolimitana.

3.1 – Conclusão

O objetivo desses capítulos iniciais foi desenvolver o conceito de religião, política e relações de poder que servirão de fundamentação ao desenvolvimento do tema desta tese: análise histórico-crítica das relações de poder entre o campesinato judaíta e os sacerdotes do templo de Jerusalém.

Ontem como hoje, religião e política ainda fazem parte da pauta de muitas agendas, não somente eclesiais, mas também de políticos, que procuram por todos os modos e meios alcançarem seus objetivos mesmo que à custa de muito fisiologismo.

O poder ainda é algo que encanta líderes de ambas realidades, tanto religiosa quanto política e é nesse sentido que procurarei dar sequência a este estudo, demonstrando que no Judaísmo tem-se a possibilidade de identificar essa união de poderes numa mesma instituição.