“No que diz respeito à religião, a crítica da religião, no essencial, terminou, e a crítica da religião é condição preliminar de toda crítica” karl Marx
O Judaísmo a princípio dá a entender que foi um projeto querido, organizado e conduzido em todas as suas diferentes fases por uma divindade. Um projeto que vingou que deu certo, apesar de ter passado por inúmeras crises ao longo dos séculos, finalmente teve êxito. Um projeto que desde Adão e Eva, passando pelos patriarcas, pelas 12 tribos, pela monarquia, pelo exílio e pela restauração no período do 2º templo, tudo parece que já estava pré-determinado no desígnio divino. Mas, é de se perguntar:
O que deu certo?
Para quem deu certo?
Quem arcou com as consequências?
Toda a nação israelita, que no contexto do período do segundo templo se resumia à província de Judá, lucrou com o êxito desse projeto? Algum grupo social teve algum tipo de prejuízo com a implantação desse projeto? Enfim, que conclusão pode-se tirar baseado nas desastrosas consequências socioeconômicas, particularmente, em relação à população campesina?
O judaísmo tradicionalmente é tido como a religião do livro, pelo fato de ter seus fundamentos alicerçados em alguns escritos, principalmente daqueles que se originaram no período do segundo templo. Foi no contexto desse período que livros como Ezequiel 40 – 48, Esdras e Neemias, 1 e 2 Crônicas e Pentateuco foram editados. Mas, muito mais do que pura teologia, especulações sobre Deus e seus desígnios, neles temos a oportunidade de identificar nitidamente seu caráter ideológico, o que nos levará a concluir de maneira significativa de que tipo foram as relações de poder que se estabeleceram entre o campesinato judaíta e a classe sacerdotal jerusolimitana.
Para Richard A. Horsley, citado por Blenkinsopp, o “judaísmo” não se caracterizou por ser uma forma essencialmente religiosa da vida, mas constituiu-se numa faceta de uma entidade político-étnica, uma forma que se caracterizou num estado agressivo e expansivo alegando legitimidade religiosa, mantendo e ampliando
seu poder por meios militares, incluindo a utilização de mercenários estrangeiros.303 Nesse sentido, no fundo da questão, não estão problemas teológicos, mas questões identitárias, uma terrível disputa pelo controle do templo, pois as facções religiosas em disputa sabiam da importância que era ter esse poder nas mãos. Portanto, o judaísmo no fundo, é muito mais uma crença política do que uma crença religiosa.
Por exemplo, os livros de Esdras e Neemias, atualmente, são considerados muito mais como emblemáticos de posições ideológicas do que como objeto de interesse biográfico. São inúmeros os debates inconclusivos sobre a formação do livro, a confiabilidade histórica das memórias e dos documentos citados, os tipos de narrativas que eles contêm.304
Passo a desenvolver nos próximos tópicos alguns temas que julgo pertinentes ao se tratar da questão das relações de poder dentro do contexto do segundo templo, – mais especificamente do judaísmo – temas que, aliás, ainda hoje são assuntos que tem provocado intenso debate entre os estudiosos.
Segundo Roger Chartier, as obras de Michel Foucault, Michel de Certeau e Louis Marin propõe uma questão fundamental:
[...] como pensar as relações que mantêm as produções discursivas e as práticas sociais? *...+ Para eles “a ordem do discurso, segundo a expressão de Foucault, é dotada de eficácia: ela instaura divisões e dominações, é o instrumento da violência simbólica e, por sua força elocutória, pode fazer advir o que designa”.305
De fato, as produções discursivas que fundamentam o judaísmo, como poderão ser verificadas, resultaram em práticas sociais onde a característica principal foi a instalação de uma profunda divisão social. Os escritos que fundamentam essas relações de poder foram tão eficaz que instauraram divisões e dominações, tornando- se um verdadeiro instrumento da violência simbólica.
303
Richard A. Horsley, Scribes, Visionaries, and the politics of Second Temple Judea, London, Westminster John Knox Press, 2007, p.188.
304 Joseph Blenkinsopp, Judaism – The first phase: the place of Ezra and Nehemiah in the origins of
Judaism, United Kingdom, Wm. B. Eerdemans Publishing Co., 2009, p.9.
305
Roger Chartier, À beira da falésia: a história entre certezas e inquietudes, Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2002, p.119.
5.1 – Judaísmo: projeto imperial persa.
É muito sugestiva a ideia de que o judaísmo pós-aquemênida, possa ser fruto da todo um trabalho organizado e desenvolvido pelo poder imperial persa, como meio de neutralizar qualquer revolta de caráter político que pudesse inviabilizar seus objetivos na região da província. Para os persas interessava, acima de tudo, a regularidade no pagamento de tributos e que Jerusalém, apesar de não ser estrategicamente a melhor opção, deve ter servido para eventuais paradas de destacamentos militares. Mas, com certeza, as cidades fenícias da costa mediterrânea despertavam um interesse muito maior, pois seu domínio representava uma estável “cabeça de ponte” para suas incursões na região do delta do Nilo.
Partir da hipótese de que as bases do judaísmo tenham sido arquitetadas por experientes estrategistas persas junto aos exilados, particularmente em conjunto com grupo sacerdotal denominado “sadocita” faria do sistema religioso judaico, nada mais nada menos do que, como afirma Althusser, um aparelho ideológico de poder do sistema de dominação do império persa.
Como logo será visto no tópico abaixo, segundo Joseph Blenkinsopp, Ez 40 – 48 teria sido o projeto ideológico resultante da estratégica política persa para a província de Judá. Um projeto com iniciativa dos experientes estrategistas persas em conjunto com a classe sacerdotal sadocita. O projeto não teve o êxito esperado, pelo menos da parte da classe sacerdotal em particular, tanto que os livros de Esdras e Neemias deixam entrever, que são na verdade dois projetos ideológicos distintos que quando foram escritos – possivelmente no início do período de domínio grego – refletem muito mais, uma disputa interna entre grupos rivais pelo domínio do poder político e pelo controle do templo de Jerusalém do que um escrito meramente (auto)biográfico.306
306 Joseph Blenkinsopp, Judaism: the first phase – the place of Ezra and Nehemiah in the origins of
No tocante à questão das relações de poder entre o campesinato judaíta e a classe sacerdotal jerusolimitana, o problema de se aceitar ou não que o judaísmo foi no seu princípio um projeto cuja origem esteve relacionada com o grupo dos exilados é muito relevante, pois para o grupo sacerdotal que deteve o poder político e o controle do templo, ter o império a seu favor foi de extrema importância para justificação e legitimação de suas pretensões. Já o campesinato nada podia fazer contra a força ideológica do projeto e muito menos contra a força das armas do exército persa.
Hans Kippenberg confirma essa hipótese quando diz que:
O Estado judaico, depois do exílio, foi também obra dos dominadores persas, os quais participaram do retorno dos exilados, da reconstrução do templo e da cidade de Jerusalém, da ereção de uma satrapia independente de Samaria e da introdução das leis judaicas sob Esdras. Estes acontecimentos sozinhos não são ainda suficientes para avaliar a tolerância dos dominadores persas. Todos eles tem por base uma meta, que pode ser considerada como a de favorecer um Estado sacerdotal. A “oposição ao carisma político dos heróis recomendou aos povos dominadores, em todo lugar, a hierocracia como meio de acalmar os povos subjugados”, escreve Max Weber, e continua: “Helenismo e judaísmo são, a meu ver, em seus traços mais importantes, produtos de defesa da soberania persa de um lado, e da submissão, do outro”.307
Seguindo a mesma linha de raciocínio, também Joseph Blenkinsopp, acredita que o templo de Jerusalém, depois de sua reconstrução, sete décadas mais tarde, não serviu como um santuário nacional, mas foi utilizado enquanto instrumento de controle social e político do império persa.308 Judá, segundo Blenkinsopp, se encaixava no padrão estado-templo-cidade sob o controle de um oficial persa e administrada por um sacerdócio isento de impostos. Era comum na Ásia Menor, encontrar este tipo de organização, por exemplo, Xanto, na Licia, Comana na Capadócia e Zela em Pontus e, em uma escala muito maior, na Mesopotâmia.309
Outro estudioso que também postula ter sido o judaísmo no seu início, nada além de um mero projeto do poder imperial persa é Peter Frei. Desde 1982 quando
307
Hans G. Kippenberg, Religião e formação de classes na antiga Judéia: estudo socioreligioso sobre a
relação entre tradição e evolução social, São Paulo, Paulinas, 1988,
308 Joseph Blenkinsopp, Judaism – The first phase…, p.6. 309
apresentou um primeiro trabalho sobre o tema até 1994, quando apresenta o mesmo tema sob novas luzes, Peter Frei pode aprofundar mais ainda esta temática.
Segundo Peter Frei, esse fenômeno só ocorreu como estratégia do império Aquemênida. Por definição, foi um processo pelo qual as normas estabelecidas pela autoridade central foram inteiramente assumidas pelas autoridades locais. Desse modo, as normas centrais assumidas localmente eram sempre hierarquicamente superiores e obrigatórias para todos. Frei designa essa normatização do poder imperial central como sendo uma “autorização imperial”.310
Para Peter Frei, foi Esdras que recebeu do governo persa a “autorização imperial” para introduzir um livro de leis de caráter religioso conforme Esd 7,26-27. Frei se questiona no sentido de tentar esclarecer se a “lei de Deus” seria idêntica à “lei do rei”? Para ele o artigo “e” expressa a identidade das duas leis ou estaríamos lidando com duas leis formalmente distintas? Apesar, do fundo histórico da missão de Esdras ser um tanto controverso, o que toca à questão do regime imposto pelo império Aquemênida, para Frei é o que verdadeiramente importa. Em verdade, foi uma verdadeira intervenção na estrutura da comunidade que estava subordinada à “autorização imperial”.311
Quanto à missão de Neemias, que Frei considera de caráter nitidamente político e organizacional, portanto, bem diferente com relação à “suposta” missão de Esdras. Um detalhe que Frei chama a atenção é quanto às insistentes referências que o texto faz como sendo “norma do rei”.312 Nesse sentido, Esdras para Frei teve uma participação muito mais decisiva com relação a Neemias, pois foi aquele que introduziu na província de Judá a “lei de Deus e a lei do rei”.
E antes de tecer sua conclusão com relação à suposta “autorização imperial”, ele leva em conta diferentes referências antigas, tais como: a chamada “carta de
310
Peter Frei, “Persian imperial authorization” em James Watts (editor), Persia and Torah: the theory of
imperial authorization of the Pentateuch, Society of Biblical Literature, Atlanta, 2001, p.7
311 Peter Frei, “Persian imperial authorization…, p.11-12. 312
Idem, p.13-14. Para mim pessoalmente é de se questionar se um rei do porte do imperador persa iria se preocupar com tantas minúcias da vida social de pequena província quase que perdida na imensidão do império. Ao que tudo leva a crer, deve ter sido um recurso literário utilizado pelo redator para conferir autoridade ao livro, isto é, legitimar as normas ali prescritas.
páscoa de Elefantina”, a aprovação do “regulamento do purim” no livro de Ester, A disputa de fronteira entre Mileto e Myus, a inscrição trilíngue de Letoon, o oficial egípcio Udjahorresne, os regulamentos de Dario para a seleção de sacerdotes, a obrigação legal dos jônios por Aetaphernes, a inscrição de Sardis, o documento do oeste da Ásia Menor, especialmente Cária. Na verdade, Frei faz todo um esforço de mapeamento de possíveis elementos que ajudam a corroborar a ideia de uma “autorização imperial” como algo passível de ter existido de fato.
Concluindo Frei argumenta que o império Aquemênida pode ser considerado o primeiro império supra nacional de esfera cultural do Mediterrâneo, que merece esse nome, não somente em função das suas dimensões, mas porque ele manifesta um modo todo peculiar e imperial de pensar. Frei está consciente de que não é possível verificar o grau de lealdade em todas as partes não iranianas do império onde foram implantados tal projeto.313
Na avaliação de James Watts, Peter Frei afirma que os persas autorizaram uma legislação local em várias partes do império. Tal “autorização imperial” teria criado um arranjo federativo pelo qual as comunidades locais ganharam um grau legal de autonomia permanecendo ao mesmo tempo sob o domínio do poder imperial. Assim, para Peter Frei, a lei de Esdras (Esd 7) seria presumivelmente o livro do Pentateuco. Uma ação típica dos persas, só do império persa.314
Mas, não são todos os estudiosos que estão de acordo com Peter Frei. Participando de um simpósio no ano de 2000, em Nashville diversos estudiosos da área foram convidados a fazerem uma avaliação da teoria da “autorização imperial” persa e sua aplicação ao livro do Pentateuco.315
Joseph Blenkinsopp concluiu de forma bem equilibrada, afirmando que “autorização imperial” tendo o livro do Pentateuco como objeto central da polêmica, permanece como uma possibilidade, embora não tão forte como Peter Frei teria afirmado. Blenkinsopp argumenta que a iniciativa para se consolidar o aparato jurídico
313
Peter Frei, “Persian imperial authorization…, p.39-40.
314
James Watts (editor), Persia and Torah: the authorization of imperial authorization of the Pentateuch, Atlanta, Society of Biblical Literature, 2001, p.1.
315
do judaísmo pode muito bem ter sido dada pelas autoridades persas, mas afirmar que o livro do Pentateuco foi de fato editado, mediante uma ideologia totalmente criada pelo poder persa não tem nenhuma evidência.316
Lisbeth Fried argumentou que a comissão chefiada por Esdras que fora enviada por Artaxerxes foi limitada à nomeação de juízes persas na província de Judá. Eles teriam agido de acordo com a lei persa, e não segundo as leis presentes no Pentateuco ou outras tradições jurídicas judaicas. Embora, Lisbeth Fried acredite que os governantes locais, citando o exemplo de Neemias, podem muito bem ter emitido alguns decretos, baseados em sua autoridade, com base nas tradições jurídicas da província de Judá.317
Lester L. Grabbe partilhando da opinião de que o Pentateuco teria surgido em sua forma atual no final do período persa, questiona, no entanto, a historicidade das tradições de Esdras, portanto, de qualquer “autorização imperial”.318
Gary Knoppers observa que na literatura dos períodos persa e helenístico a distinção entre lei real e sagrada é aplicada a uma grande variedade de configurações e não apenas para as leis imperiais ou do templo. Ele sugere que os líderes locais, sob os persas desfrutavam de muito mais autonomia do que a teoria de Peter Frei admite.319
Donald Redford examina as referências à lei e os usos do direito nos textos egípcios citados por Frei e, mais nitidamente, a preocupação dos egípcios nos dois séculos antes da conquista persa. Redford concluiu que o interesse de Dario na coleta
316
Joseph Blenkinsopp, “Was the Pentateuch the civic and religious constitution of the Jewish ethnos in the Persian period” em James Watts (editor), Persia and Torah: the authorization of imperial
authorization of the Pentateuch, Atlanta, Society of Biblical Literature, 2001, p.41-62.
317
Lizbeth S. Fried, “’You shall appoint judges’: Ezra’s mission and the rescript of Artaxerxes” em James Watts (editor), Persia and Torah: the authorization of imperial authorization of the Pentateuch, Atlanta, Society of Biblical Literature, 2001, p.63-89.
318
Lester L. Grabbe, “The Law of Moses in the Ezra tradition: more virtual than real?” em James Watts (editor), Persia and Torah: the authorization of imperial authorization of the Pentateuch, Atlanta, Society of Biblical Literature, 2001, p. 91-113.
319
Gary Knoppers, “An achaemenid imperial authorization of Torah in Yehud?” em James Watts (editor),
Persia and Torah: the authorization of imperial authorization of the Pentateuch, Atlanta, Society of
de leis egípcias estava em continuidade com as práticas anteriores e serviu apenas para informar os persas das tradições existentes.320
A partir das avaliações citadas acima de cada um dos estudiosos que participaram de simpósio em Nashville no ano de 2000, James Watts conclui, com relação ao tema da “autorização imperial” que tomados em conjunto, estes artigos sugerem que a evidência disponível não suporta a comparação da política persa feita por Peter Frei das legislações modernas que regem as relações entre um governo local e um governo nacional. Os exemplos da influência persa sobre as leis locais parecem muito diversificada e esporádica para ser produto de uma sistemática política do império persa. No entanto, a evidência existente mostra que existiu algum envolvimento persa em assuntos jurídicos. Desse modo, pode ter havido um envolvimento dos persas na designação do Pentateuco quanto a ter sido considerado como a lei oficial da comunidade do templo de Jerusalém. Isto não quer dizer que os persas possam ter interferido em seu conteúdo, mas que apenas deram um caráter oficial a um documento elaborado pela comunidade do templo.321
Blenkinsopp faz uma investigação quanto ao aspecto ideológico presente nos livros de Esdras e Neemias. Ele argumenta que a ideologia ali presente foi incubada no período da diáspora babilônica, durante um século e meio, que foi o tempo que separou as primeiras deportações até a época de Esdras e Neemias. Esta ideologia estaria ligada com “lei do templo” de Ez 40 – 48. As principais prescrições deste programa visionário tem a ver com a exclusão de estrangeiros no culto e, portanto, da comunidade. Faz uma distinção entre sacerdotes do altar (Sadocitas) e sacerdotes do templo (levitas); estando os levitas num nível inferior aos sadocitas, com uma função muito diminuída e “teocratizada”, do governante secular; e repartição de terra. Blenkinsopp sugere que este grupo foi influenciado ou talvez fosse até membro da escola de Ezequiel na diáspora babilônica, grupo que poderia ser identificado em Esd 9 -
320 Donald Redford, “The so-called ‘codification’ of Egyptian law under Darius I” em James Watts
(editor), Persia and Torah: the authorization of imperial authorization of the Pentateuch, Atlanta, Society of Biblical Literature, 2001, p. 135-159.
321 James Watts (editor), Persia and Torah: the authorization of imperial authorization of the Pentateuch,
10 como “aqueles que tremem diante da palavra do Deus de Israel”, cuja missão era lançar a base para uma nova política teocrática na província de Judá.322
Mas, não se pode deixar de fazer menção das famosas tábuas do tesouro de Persépolis e das tabuas da fortificação de Persépolis. Elas são um contributo importante ao estudo dessa temática, pois iluminam o conhecimento dos tempos pérsico, ou mais especialmente, da esfera administrativa e da área econômica. Uma das características mais interessantes segundo H.G.M. Willianson (1991), citado por Grabbe, são as inscrições sobre pagamentos de rações e suporte para vários sacerdotes e atendentes do culto. Nesse sentido, chega-se à conclusão de que era política geral do império persa apoiar a religião, os templos e como essa peculiaridade impactava toda a extensão do império.323
Segundo Amélie Kuhrt (1983) o alegado incentivo a cultos e religião sob os persas é frequentemente exagerado na literatura moderna. Isto acontece em parte devido à propaganda que os reis persas faziam deles mesmos. Na prática os persas continuaram o que já era política geral nos impérios do Oriente Próximo: declarar sua piedade pessoal em suas inscrições, de como eles foram diligentes em obedecer a seu deus ou deuses, sempre seguindo sua vontade. Tolerar cultos locais desde que não ameaçassem a ordem política. Caso contrário, puniam e destruíam sem a menor piedade os cultos que fossem considerados subversivos (conforme M.A. Dandamaev e Lukonin: 1989).324
Concluindo este tópico, acredito que no tocante às relações de poder entre o campesinato judaíta e a classe sacerdotal jerusolimitana se houve ou não uma “autorização imperial” para aplicação de uma suposta “lei do Deus de Esdras e do rei” (Esdras 7) que Peter Frei sugeriu como sendo o livro do Pentateuco na sua forma final,