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Making Some Objects (Hunk D)

A formação de professores de línguas no Brasil continua apresentando diversos traços de desvio de uma conduta necessária à boa formação de seus egressos – professores de LE e de língua materna.

De acordo com o que foi apresentado nas seções anteriores, uma “tradição” no en- sino e na formação de professores de línguas se mostra reticente a mudanças: as leis, quando são criadas, não saem do papel. Tal fato evidencia o descaso com o ensino de línguas em nosso país; e, deve ser considerado preocupante, haja vista que, conforme já era constatado por Carneiro Leão (1935) e Chagas (1967), os países que se consolidavam como os melhores sistemas de ensino do mundo davam destaque e incentivo ao ensino de diversas línguas estrangeiras.

Recentemente, com o Parecer CNE/CES nº 492/2001, houve a adoção de um cur- rículo completamente aberto, sem descritores para as competências mínimas neces- sárias à formação de um profissional condizente com a realidade das salas de aula das escolas brasileiras e, desse modo, a formação de professores foi levada a um descaso ainda maior.

Para dar conta da realidade das salas de aula das escolas brasileiras, no que concer- ne à complexidade e dinamicidade dos processos de ensino e aprendizagem, uma nova proposta se mostra iminente, pois a formação de professores atualmente não condiz com essa realidade.

Conforme postula Almeida Filho (1993), o professor de LE durante o seu exercício profissional pode desenvolver cinco competências: 1) competência implícita, formada pelas crenças e/ou experiências decorrentes dos processos de ensino e aprendizagem aos quais foi submetido durante toda a sua vida; 2) competência teórica, que envolve todo o conhecimento adquirido durante a sua formação inicial e continuada, além da- quele oriundo dos processos de reflexão; 3) competência aplicada, que capacita o pro- fessor a proporcionar na prática tudo aquilo que ele conhece na teoria; 4) competência profissional, que subsidia o profissional nas tomadas de decisões durante os processos, além de guiar o professor nos processos de reflexão; e 5) competência linguístico-co- municativa, que capacita o professor a criar ambientes para a utilização da língua-alvo em sala de aula.

Deste modo, para uma formação completa, o professor deve passar por um proces- so formativo que envolva as cinco esferas: tradição de ensino, teoria formal, ética, his- tória do ensino de línguas e política para o ensino de línguas. Essas esferas se entrecru- zam na dinamicidade dos processos envolvidos no ambiente de trabalho do professor, ou seja, a sala de aula, formando um sistema complexo, constituindo os pilares sobre os quais os professores edificam suas competências, e que serão descritas a seguir.

A tradição de ensino diz respeito a aspectos culturais que caracterizam, distinta- mente, cada região. Esses traços especiais – aspectos históricos, traços do caráter regio- nal e/ou nacional, cultura de aprender e ensinar línguas – que integram a peculiaridade

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de cada região são fortemente influenciados pelas características de seus habitantes e alicerçados em costumes de antepassados, bem como pelas práticas pedagógicas e mo- delos de ensino e aprendizagem de línguas praticados em determinada região.

Essa tradição pode igualmente influenciar as crenças, especialmente no que con- cerne ao grau de adesão do indivíduo a cada uma delas ou a seus aglomerados de cren- ças (SILVA, 2005); e, deste modo, interfere na formação da competência implícita do professor, influenciando posteriormente no desenvolvimento das suas competências aplicada e profissional.

A esfera teórica compreende, em primeiro momento, as teorias implícitas – experi- ências anteriores, crenças e intuições – que os alunos-professores trazem consigo para dentro dos cursos de formação e, em outro momento, o conhecimento teórico formal, proveniente da explicitação e estudo das crenças culminando em teorias formais às quais se é submetido durante o curso de formação. Segundo Almeida Filho (1993), é por meio da teoria e da reflexão na prática que o professor desenvolve sua competência profissional e aprimora sua competência aplicada.

A teoria relevante tem o poder potencial de metabolizar as crenças já instaladas previamente e, dependendo do grau de adesão de tal crença, de ressignificá-la. Teoria relevante, segundo Almeida Filho (2011), é tudo aquilo que diz respeito aos processos de aprendizagem e ensino de línguas (AELin), ou seja, as teorias da nossa área de atua- ção dentro da Linguística Aplicada (LA).

A esfera ética diz respeito a uma visão interna e pessoal do que é certo nas atitudes do professor, dentro e fora da sala de aula, influenciando diretamente as tomadas de decisões. A ética ilumina a consciência humana, sustenta e dirige as ações do homem, norteia a conduta individual e social. É um produto histórico-cultural e, como tal, de- fine o que é virtude, o que é bom ou mal, certo ou errado, permitido ou proibido, para cada cultura e sociedade. É por meio da ética, por exemplo, que o professor decide qual a roupa que vai usar durante as suas aulas ou qual a postura que vai tomar em relação a algum aspecto do contexto em que atua.

A ética existe como uma referência para os seres humanos em sociedade, de modo tal que o corpo social possa se tornar cada vez mais humano. Segundo Gomes de Matos (2011), a ética diz respeito à “dimensão da responsabilidade sócio-comunitária das es- colas”, e acrescento: dos professores e de outros envolvidos no mesmo processo. Segun- do Sterba (1998 apud CELANI, 2005, p. 102), “ética é o estudo filosófico da moralidade.” A esfera histórica ajuda a (des)/(re)construir a sua identidade profissional por meio dos acontecimentos que envolvem ou envolveram a sua profissão ao longo do tempo. É por meio da história que o professor explica a sua profissão, pois segundo Gimenez (2004, p. 175),

a profissão de professor não se inicia quando licenciados ocupam pela primeira vez a sala de aula, sentando-se na cadeira de professor. Esse aprendizado, que começa desde que as crianças tomam contato com os papéis na sala de aula e se prolonga pelos cursos de formação, marca de modo significativo o modo como os alunos se transformam em professores.

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Desse modo, além da experiência do professor enquanto aluno, da pré-escola à gra- duação, todos os momentos sociopolíticos vividos por tal profissional, ao longo de sua história, refletem na formação da identidade dos professores egressos dos cursos de Letras em todo o país.

Finalmente, a esfera das políticas de ensino de línguas ajuda a compor o seu fazer, pois é por meio das políticas que o Governo Central e dos estados estabelecem o que se vai ensinar em determinado período e de que maneira se vai ensinar. Therrien (2002) postula que, entre os aspectos fundantes do trabalho docente, destaca-se a prática po- lítica, a qual visa à formação para a cidadania. Nesse quadro, é importante ressaltar que nem sempre o professor tem a consciência da dimensão política de sua profissão, chegando à rejeição da ideia de que há um ato político, na maioria das vezes, implícito, dentro de sua prática pedagógica.