No ponto 3.2 deste estudo, aquando da análise das particularidades da literatura moçambicana, foi aflorada a questão da moçambicanidade. Verificámos que esta ideia germinou com os irmãos José e João Albasini, propagou-se através dos jornais O
Africano (1909-1918), O Brado Africano (1918) e O itinerário (1919). Mais tarde, foi
profundamente defendida por José Craveirinha93 e, a partir da independência do Estado de Moçambique, força motriz das escritas das gerações mais novas de escritores. Inserido nesta geração actuante e embebida de um espírito verdadeiramente moçambicano, surge-nos Mia Couto. Deste modo, não é de estranhar que a afirmação da moçambicanidade seja um dos vectores por nós identificados como caracterizador da sua produção contista.
Assim, é fácil entender que o conceito de moçambicanidade é, sobretudo, um conceito literário. Diz-nos Patrick Chabal que “a realidade da moçambicanidade não é deduzida a partir das afirmações de intenções feitas (…) por alguns escritores,94 mas pela influência que alguns textos tiveram no desenrolar subsequente da literatura.” (Chabal 1994: 54). Também Gilberto Matusse aborda a questão da moçambicanidade à luz das premissas literárias:
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Maria Fernanda Afonso refere-se a Craveirinha: “O que Craveirinha procura é a criação de uma escrita arrebatada pelo élan rítmico e pelas crenças ancestrais, representando o laço original que o une à terra africana, construindo uma identidade distinta da que lhe foi atribuída pelo discurso colonial.” (Afonso 2004: 178).
Também Patrick Chabal efectua uma alusão a José Craveirinha: “Discutir o trabalho de Craveirinha em pormenor é tocar nos mais importantes tipos e temas que identificam da melhor maneira o que é a literatura da moçambicanidade. (…) À questão sobre o que é a moçambicanidade não há melhor resposta do que ler Craveirinha.” (Chabal 1994: 58).
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Enunciamos alguns escritores que “contribuíram mais significativamente para a construção da moçambicanidade (…): Noémia de Sousa, José Craveirinha, Orlando Mendes, Rui Nogar, Malangatana (como pintor), Jorge Viegas, Sebastião Alba, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Heliodoro Baptista e Albino Magaia.” (Chabal 1994: 54). Sublinhado nosso.
com efeito, é possível descobrir nas obras de diversos autores (…) o recurso a determinadas estratégias textuais, quer do âmbito linguístico-estilístico, quer do âmbito temático e ainda no âmbito ideológico, cuja função é construir um certo mundo fictício de um modo capaz de também manifestar uma atitude de afirmação de uma identidade literária moçambicana. (…) Podemos (…) dizer que estas estratégias produzem um «efeito de moçambicanidade», que a recepção, em especial na sua componente crítica - que as teoriza - , e a reiteração irão consagrar como fundamentos da moçambicanidade literária. (Matusse 1998: 73).95
A moçambicanidade surge, num primeiro momento, com a tomada de consciência de cada autor da necessidade da diferença, da alteridade em relação aos modelos da metrópole, ou seja, a inevitabilidade da “ruptura com o estado de submissão àqueles modelos e a consequente procura dos caminhos para afirmar essa diferença.” (Matusse 1998: 74). Paralelamente, o escritor toma consciência de que, durante os anos de colonização e submissão aos modelos europeus, foram-se perdendo, obviamente, valores ligados à africanidade.96 Estes valores, durante o período colonial, usufruíram de um estatuto de menoridade. Consequentemente, a primeira tarefa dos defensores da moçambicanidade foi a procura da “superação (…) do estatuto de menoridade (…) (e a) exaltação da diferença (…) relativamente à portugalidade.” (Matusse 1998: 74).
Neste contexto, podemos afirmar que o processo de afastamento/ruptura pode ser caracterizado por duas vertentes de actuação. Por um lado, os autores moçambicanos fomentaram “a subversão, (…), a deformação (…) (e a) dessacralização dos símbolos da cultura de referência.” (Matusse 1998: 75). Por outro lado, assistimos a um processo de procura de modelos da tradição oral africana, incorporando toda a vertente axiológica deste imaginário tradicional. Poderíamos ainda falar de uma terceira vertente que complementaria as anteriores: a influência dos modelos literários sul-americanos. Ao optar pelos paradigmas ideológicos e literários vigentes na América Latina, o autor africano foge à tutela do modelo europeu e, ao mesmo tempo, filia a sua escrita “num vasto movimento de emancipação das culturas dominadas pela hegemonia dos cânones europeus.” (Matusse 1998: 76). Contudo, não podemos esquecer que existe, em termos
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Aspas do autor.
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Pires Laranjeira, em Ensaios afro-literários (2001), fala-nos sobre a africanidade:
A consciência da africanidade, como passo importante para o esclarecimento da especificidade autonómica face ao continente europeu, pressupondo um conceito de identidade continentalista, resultou de factores de ordem sócio-política e cultural. Orgulhosa afirmação das qualidades e potencialidades do homem africano perante a negação que delas fazia o europeu, a africanidade radica na contestação ao etnocentrismo e na recusa da dominação colonial. (Laranjeira 2001: 47).
culturais, uma proximidade muito grande entre a América Latina e África, como já referimos anteriormente.
A moçambicanidade reúne, antes de mais, uma série de estratégias de rompimento com a cultura europeia. À clara opção pela recuperação da tradição oral, assente no modelo do provérbio, podemos juntar a subversão simbólica e ideológica, o desregramento linguístico e o aparecimento da narrativa de índole fantástica e insólita. Este último aspecto vai ser motivo de análise atenta no ponto 5 deste estudo.
Numa perspectiva mais actual, a moçambicanidade não está tão ligada à ruptura face aos padrões europeus. Assistimos a uma viragem para o interior do próprio país. Em Mia Couto, este facto é bastante evidente. Ele procura acordar o país que se encontra como que anestesiado face às mudanças que se verificam dentro de uma sociedade complexa e multifacetada. Algumas personagens dos seus contos revelam uma atitude de descrença, refugiando-se, muitas vezes, na bebida. Vejamos alguns exemplos. Acubar Aboobacar em «O abraço da serpente» (Couto 1994: 105-108) entregou-se à bebida tornando-se um “cervejeiro andante” (Couto 1994: 106), um pai ausente para o filho: “Olhando aquela figura, o menino sentiu saudade do pai que ele tinha sido antes da guerra. Como se fora um órfão e aquele que ia achegando fosse um mero padrasto, passageiro e passeante.” (Couto 2004: 106). Outro exemplo, ainda nesta colectânea de contos, é o da personagem Xidakwa em «O bebedor do tempo»: “- Aqui,
neste bar, é que é a minha pátria.” (Couto 1994: 154).97 Podemos, ainda, referir o pai do menino pequenino no conto «O menino no sapatinho» (Couto 2001: 13-16): “O marido descrente de tudo, nem tinha tempo para ser desempregado.” (Couto 2001: 14).
Mia apercebe-se de que a nação moçambicana atravessa um mau momento, uma vez que o povo se mostra descrente no futuro e na classe política, caracterizada por uma corrupção latente e que só pensa no enriquecimento fácil. Deste modo, é necessário que seja modificado este estado da nação. Mia Couto defende que é imprescindível que os tempos mudem, que se ergam novas vozes e que se procure a mudança, mudança que terá, obrigatoriamente, de passar por uma reconstrução e reconfiguração do caminho, assente no conhecimento da memória e da tradição. Desta forma, a afirmação da moçambicanidade só é possível se tivermos em conta a ideia de que “a literatura não só veicula a História como também é instrumento para alteração dessa História.” (Faria 2005: 40). Diz-nos ainda esta autora que “Moçambique precisa, acima de tudo, de
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reinventar a sua História.” (Faria 2005: 40). Estamos perante a ideia de que o país precisa de adquirir uma capacidade de renascimento e regeneração. Esta capacidade só é possível se cada um dos moçambicanos possuir a Vontade. Uma vontade grafada com maiúscula por ser um valor importante para a afirmação do novo conceito de moçambicanidade. Digamos que é uma vontade ainda adormecida: “O que faziam neste universo? Sonhavam, parados, no mesmo que o actual Mamudo.” (Couto 1991: 123).
Esta Vontade deve ser uma força motriz que levará o país rumo ao futuro, tendo, no entanto, a sua base no passado. A literatura de Mia Couto apresenta-nos essa vontade de construir um tempo novo, apresentando “uma literatura de renascença.”98 (Faria 2005: 131). Não podemos, no entanto, deixar de referir que este processo de construção de uma moçambicanidade “assenta na miscigenação cultural e não no confronto.” (Faria 2005: 144). Deste modo, a produção contista de Mia Couto reflecte essa amálgama cultural, esse hibridismo99 entre os valores do passado e do presente, entre a tradição oral e a inovação escrita, entre o mundo do maravilhoso e o mundo da razão, entre o colonialismo e o pós-colonialismo, entre África e o mundo ocidental, entre a guerra e a paz, entre a morte e a vida, entre o rural e o urbano, entre o ancestral e o moderno, entre o particular e o universal.