De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, organizado pela Academia das Ciências de Lisboa, o termo ancestralidade, provém de ancestral + sufixo –i-dade, sendo uma característica “daquilo que é antigo ou que se herda dos antepassados” (Dicionário da Língua Portuguesa 2001: 234-I Volume). Efectivamente, é bastante visível na ficção miacoutiana uma preocupação de recuperar a herança cultural das gerações ancestrais, através de uma leitura adequada e actualizada do saber dos antepassados.
A deliberada opção pela tradição oral, logo pelos valores do repositório oral, leva-nos a afirmar que Mia Couto procura a recuperação da ancestralidade, efectuando uma re-descoberta da cultura moçambicana, assente na reinvenção e recodificação de símbolos tradicionais. Desta forma, assistimos a uma “simbiose entre o antigamente, o presente e o futuro.” (Ornelas 1996: 49).
Concordamos, assim, com José Ornelas quando este afirma que Mia Couto utiliza, nas suas narrativas breves, um
registo discursivo do imaginário do povo de Moçambique, ou seja, o uso das crenças e crendices, dos ritos, da ancestralidade, dos costumes e dos rituais da tribo, dos ritmos da natureza e de todo um universo mágico e fantástico para construir a realidade de um país que ainda se situa entre o mito e a história. (Ornelas 1996: 49- 50).
Este contista moçambicano procura passar-nos a ideia clara de que os valores antigos são para ter em conta. O povo tem a missão de valorizar as suas tradições, as suas crenças e a sua história de modo a alcançar “a harmonia e recuperar a memória colectiva87 africana. Esta memória, sinónimo de cultura tradicional, não assenta somente no período pré-colonial, mas em todo o percurso africano, ao longo dos tempos.”88 (Faria 2005: 59).
O autor acredita que o estado moçambicano só poderá recuperar das feridas deixadas em aberto (num primeiro momento, pela opressão do povo colonizador, e, num momento ulterior e relativamente recente, pela desconcertante política dos governos, aliada a uma dilacerante guerra civil, que caracterizou o período pós-independência) se “souber ouvir a voz da ancestralidade e se se refugiar nos seus valores culturais.” (Faria 2005: 59).
Mia Couto coloca os velhos como protectores da pátria e da humanidade, sendo “capazes de impedir o mal e lançar o futuro, opondo-se às armas que representam o mundo cruel, o mundo em que o homem está subjugado ao poder do dinheiro.” (Faria 2005. 105). O ancião representa a voz das comunidades africanas tradicionais, é o “depositário da memória da tribo e da sabedoria africana.” (Afonso 2004: 375). Por exemplo, o velho sábio Nyambole89 no conto «A lenda da noiva e do forasteiro» (Couto 1990: 129-139) é o interlocutor privilegiado daquele lugar “que ficava para além de todas as viagens.” (Couto 1990: 129). A figura do mais velho representa a sapiência, a experiência de vida e de mundo. Esse saber ancestral e tradicional é contado pelos mais velhos aos mais novos. Lembremo-nos que o velho negro passarinheiro do conto «O embondeiro que sonhava pássaros» (Couto 1990: 61-68) contava a Tiago as lendas e os
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Para Maurice Halbwachs “a memória colectiva (…) é o grupo visto de dentro (…). Ela apresenta ao grupo um quadro de si mesmo que, sem dúvida, se desenrola no tempo, já que se trata do seu passado, mas de tal maneira que ele se reconhece sempre dentro dessas imagens sucessivas.” (Halbwachs 1990: 88).
Rosânia Pereira da Silva considera que “na transmissão dos valores de geração em geração, garante-se a permanência de uma memória colectiva, através da narrativa pelos mais velhos das experiências de grupo.” (Silva 1994: 67).
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Patrick Chabal defende esta ideia:
The word African is used advisedly and in a very specific sense. It does not refer to the so called «traditional» African culture which we construe simplistically as the remnants of a mythical «timeless» pre-colonial, by which we mean pre-modern, past. But it is African in the sense of the new and modern culture which has evolved on the continent through the colonial period into the new world of independence. (Chabal 1996: 83). Aspas do autor.
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Atentemos na voz profética do velho sábio: “-As aldeias vão todas morrer neste mundo, nesse mundo.” (Couto 1990: 136). Itálico do autor.
costumes da sua gente de cor negra. As suas palavras mágicas e lendárias, a propósito da sacralização do embondeiro, tocaram o coração de Tiago, levando-o, num momento final do conto, a encarar a sua própria morte como um sonho. No entanto, em Mia Couto, por vezes, são as crianças que contam as histórias aos velhos como faz Muidinga com Tuahir no romance Terra sonâmbula (1992). Esta inversão de papéis talvez tenha a ver com a “esperança de continuidade da tradição assumida (pelas crianças), ou para mostrar a possibilidade de conciliar o passado, representado pelo mais velho, com o futuro, do qual a criança é uma bela metáfora.” (Oliveira 2003: 110).
A par da crença no poder da geração dos mais velhos (geração dos avós), assiste- se à esperança de que a geração dos mais novos (geração dos netos) consiga recuperar os valores tradicionais. Não podemos deixar de evidenciar que é o neto de Bartolominha e de Bastante que passou a tomar conta do farol, após a morte, ou melhor, transformação em pelicano da avó Bartolominha. Ou seja, neste conto, «Bartolominha e o pelicano» (Couto 2001: 21-24) verificamos uma passagem de testemunho entre gerações (avós e netos): “Desde essa noite sou eu o faroleiro da ilha do avô Bastante. E aceno quando passam as grandes aves.” (Couto 2001: 24). O autor revela um certo optimismo em relação ao carácter regenerador e actuante das novas gerações. Presume o autor que esta geração mais nova será capaz de reconstruir o país recuperando os valores defendidos pelas gerações mais antigas: honra, dedicação, fidelidade, justiça. De salientar que esses valores foram perdidos logo após a independência, uma vez que se instalou um clima de corrupção, de desrespeito de valores, de destruição de instituições. Contudo, esta nova geração, embora deva recuperar os princípios axiológicos das gerações ancestrais, não poderá ter uma atitude demasiado passiva, como muitas vezes se verificava. Não podemos esquecer que o avô Bastante viveu “impassível e sem se queixumar!” (Couto 2001: 21). Deverá ser, assim, uma geração defensora dos valores ancestrais mas, ao mesmo tempo, capaz de levar o país a uma mudança efectiva. Em síntese, neste conto podemos dizer que, em termos simbólicos, o farol representa Moçambique (há uma luz de esperança para a recuperação e regeneração do país), o avô Bastante e a avó Bartolominha representam as forças ancestrais e o neto faroleiro representa o carácter regenerador das gerações mais novas. Ao tomar conta do farol (país), as gerações vindouras têm uma tarefa árdua e multifacetada. Em primeiro, recuperar as tradições e valores das gerações ancestrais; segundo, destruir os contra- valores da sociedade moçambicana pós-independência; terceiro, implementar uma nova
ordem, saída desse processo complexo de recuperação do saber ancestral, o que leva à destruição das práticas de corrupção do poder instituído.
O recurso ao provérbio90 é uma das técnicas privilegiadas pelo autor para recuperar o saber ancestral e para, paralelamente, integrar os princípios da oratura na escrita narrativa. Deste modo, Mia Couto dá privilégio aos sábios ancestrais, captando com a sua voz os espaços, os símbolos e os ritos antigos. A linguagem proverbial pulula na produção contista de Mia Couto.91 Por um lado, este facto evidencia, como já referimos, a evocação da sabedoria ancestral africana. Por outro lado, o autor opta pela subversão das ideias ou da moralidade presente no adágio, denunciando uma vontade reflectida de construir um mundo às avessas, transgressor das regras. Ao transgredir procura chocar o leitor, despertar-lhe a atenção e fazer com que este tenha um poder de intervenção social. Vejamos alguns exemplos onde é visível que Mia Couto transgride o sentido do provérbio original: “Para meio entendedor duas palavras não bastam (Couto 1994: 91); “Felizmente, no actual mundo, não há fontes indignas de crédito. (Couto 1994: 97); “Mais vale é nenhum pássaro na mão.” (Couto 1994: 184). Outros exemplos poderíamos encontrar ao longo da extensa obra contista do autor. De qualquer forma, quer sejam provérbios directamente decalcados da tradição oral, quer sejam
transformados pelo autor ou até, inclusive, inventados pelo autor,92 o uso da técnica proverbial parece ser
uma das formas ideais para preencher o papel de iniciador, que assume o escritor africano, à maneira do contador de histórias, e ao mesmo tempo serve-lhe para caracterizar a mundividência dos mais-velhos, em especial do mundo rural. Tem a utilidade também de ser uma forma de controle narrativo, por um lado, reiterativo da
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Para Pinto Bull, o provérbio é uma “fórmula nitidamente concisa com estilo geralmente metafórico, pelo qual a sabedoria popular expressa a sua experiência de vida.” (Pinto Bull citado por Santos 1996: 47).
Maria Teresa Damásio dos Santos refere ainda que os provérbios “são a expressão da filosofia popular, um resumo das atitudes do homem perante um código de procedimento, reflectindo uma atitude existencial.” (Santos 1996: 47).
Segundo Pedro Jone Tangal, os provérbios, “nos espaços culturais africanos (…) são de uso corrente, reforçando um argumento, resolvendo um litígio, sancionando instituições, apoiando uma advertência ou uma admoestação.” (Tangal 2003: 17).
Maria Fernanda Afonso reconhece que “os provérbios fazem parte da vida africana e são utilizados em todas as situações. O papel importante que desempenham tem, naturalmente, eco na literatura africana.” (Afonso 2004: 435).
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Eis alguns exemplos de provérbios: “Não corras atrás das galinhas com o sal na mão.” (Couto 1990: 74); Choras pela chuva, agora choras pelo matope.” (Couto 2001: 104).
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Entre outros, destacamos este provérbio, inventado por Mia Couto em Terra Sonâmbula (1992) (embora fora da produção contista do autor) com o intuito de caracterizar a guerra: “A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder.” (Couto 1992: 17).
história narrada, mote da sua abertura, ou de posteriores desenvolvimentos do enredo.
O provérbio é ainda um género económico que permite reflectir e meditar sobre a maneira como as personagens se enquadram culturalmente. (Leite 2003: 54).
Para concluir este sub-ponto, temos de referir que a preocupação de Mia Couto em recuperar a ancestralidade está intimamente ligada ao seu projecto de afirmação da moçambicanidade. É este aspecto que iremos tratar no momento seguinte deste estudo.