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Espaces de Banach

Dans le document Le cours de Jean-Yves Chemin (Page 34-38)

Desde os primórdios que o fantástico surge na literatura como veículo ideológico favorável à reacção contra o avanço do racionalismo, reflectindo “uma mundividência necessariamente dualista” (Furtado 1980: 137) que procura, de certa forma, “suspender ou anular, no destinatário do enunciado, qualquer decisão favorável a uma solução monista da ambiguidade, fugindo por isso a qualquer orientação que a propicie.” (Furtado 1980: 137-138). Daí que o fantástico, além de proporcionar a discussão de aspectos essenciais à condição do homem como ser humano, procure subverter muitos dos princípios relacionados com as ideologias dos sistemas sociais.35 Não é de

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Yves Barel, em Le paradoxe et le system: essai sur le fantastique social, considera que sistema e não- sistema fazem parte da mesma ordem, sendo, assim, conceitos paradoxais: “Le nón-systéme fait partie du système. Un système est et n’est pas un système; il est et n’est pas systématique. Il reste peut-être «systémique», mais à condition de bien voir la innovation complète effectuée par l’idée de système: un système qui se connaît et se vit aussi comme un non-système, est un phénomène paradoxal.” (Barel 1989: 18-19).

A noção de sistema está assim ligada ao conceito de ordem social de que nos fala Charles Elkins. Barel remete-nos, também, para a relação entre sistema e ordem social: “Un système (…) est un ordre social: il doit simplifier, orienter, déterminer le foisonnement de la vie social, et il n’y parvient jamais jusqu’au bout. Là est le cœur de son paradoxe: dans l’insécable combinaison qu’il représente d’ordre et de

estranhar, por isso, que “certas obras surpreendem por vezes pelas virtualidades polémicas que revelam e, até, pelo alcance de problemas que são susceptíveis de equacionar.” (Furtado 1980: 138).

E a equação do real surge através da subversão, eclodindo assim uma literatura subversiva, “tanto en le orden de lo artístico cuanto en el do social (…) cuya función era cuestionar los sistemas dominantes” (Arán 1999: 108), ou seja, “fazer a acusação de uma sociedade com a qual não se está de acordo.” (Gonçalves 2004: 421). Esta característica do fantástico - a subversão - permite redimensionar e inverter o real, quebrando limites e convenções. Nesta linha de pensamento podemos afirmar que, no fantástico moderno, assiste-se à “acentuação do carácter subversivo, da sua capacidade de transgressão de fronteiras, da sua índole irredutível de formas fixas.” (Simões: no preloa). O fantástico moderno é assim uma forma que

adopta el fantasy dentro de la cultura secular producida por el capitalismo, es una lectura subversiva. Existe al costado de lo «real», a ambos lados del axis cultural dominante, como una presencia enmudecida, otro imaginario silenciado: estructural y semánticamente, lo fantástico se dirige a la disolución de un orden que se experimenta como opresivo e insuficiente. (Arán 1999: 107).36

Uma excelente crítica literária da área do fantástico, Rosemary Jackson, desenvolveu a ideia de que o fantástico é um modo literário subversivo. Colocando-se numa posição teórica diferente da de Todorov, que privilegiava o estudo do fantástico assente na hesitação do leitor (como já vimos anteriormente), a autora defende que o fantástico “exists in the hinterland between real and imaginary.” (Jackson 1981: 35). Defende ainda que a relação que o fantástico tem com “the unsaid and the unseen (…) that which has been silenced, made invisible, covered over and made absent tenders it particulary well-suited as a mode for representations of sociopolitical subversion. (Jackson 1981: 35).

Na mesma linha de pensamento, temos a contribuição inovadora da obra de Lucie Armitt, Theorising the fantastic (1996). A autora recusa a ideia todoroviana do fantástico definido como género. O fantástico, deste modo, deve ser olhado, como afirma Maria João Simões,

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A autora citou Jackson, Rosemary (1986) Fantasy, literatura y subversión. Buenos Aires: Catálogo Editorial. Lembramos que o original, datado de 1981, London: Methuen, intitula-se Fantasy: The

como uma forma de escrever que abre espaços subversivos dentro da fantasia em vez de a levar para um «gueto que a encaixotasse dentro de géneros.» Neste processo, o fantástico «mantém propriedades subversivas importantes sem capitular uma classificação.» Embora (Lucie Armitt) reconheça o género como uma «etiqueta conveniente» relativa a uma «configuração de propriedades literárias», na sua opinião, o facto de este conceito funcionar como uma categoria inclusiva («que contém») faz com que ele não seja aplicável ao fantástico, pois o sentido de fantástico revolve-se no mundo do que está «para além de»37 (…) Este quebrar dos limites e das convenções caracterizador do fantástico coloca «uma perigosa ameaça às noções de conformidade e fixidez. Na verdade, os textos fantásticos, indefinidamente abertos e não-contidos dentro de fronteiras, tornam-se «uma apelativa forma para a exploração da marginalidade sócio-cultural e da ex- centridade. (Simões: no preloa).38

Associado ao conceito de subversão surge-nos o conceito de transgressão39 de que nos falava, de certa forma, Todorov, quando enunciou a definição de fantástico puro. Armitt defende que estes dois conceitos - transgressão e fantástico - “share the same location (a median line, a non-space between two spaces and a similar trajectory (a brief pattern of transition, crossing).” (Armitt 1996: 33-34). Será curioso verificarmos como a autora descreve a posição do leitor:

The reader of a fantastic narrative is projected into a precarious positionality which must inevitably challenge the readers’ sense of gratification in reassuring forms and force her to confront the ease with which apparently established limits of all kinds may be transgressed. The very fact that the concerns of transgression lie with the liminal position and the threshold which is forced, implies in itself that our response to the free play of transgression may often be tentative, equivocal and perhaps even fearful. (…) In reading the fantastic, we pay a price, swapping our comfortable and familiar resolutions for a narrative identification which is «open», dissatisfied, endlessly desiring. (Armitt 1996: 35-36).

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Vale a pena referir o excerto do texto original em inglês: “beyond the galaxy, beyond the known, beyond the accepted, beyond belief.” (Armitt 1996: 4).

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Aspas da autora.

Maria João Simões cita e traduz passagens de Armitt, Lucie (1996) Theorizing the fantastic. London and New York: Arnold-Hodder Headline Group.

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Julgamos ser interessante a definição de transgressão apontada por Michel Foucault: “Transgression is an action which involves the limit, that narrow zone of a line where it displays the flash of its passage (…) and incessantly crosses and recrosses a line which closes up behind it in a wave of extremely short duration, and thus it is made to return once again more right to the horizon of the uncrossable.” (Foucault 1977: 33-34). Também Lucie Armitt cita este autor em Theorizing the fantastic: 33-34.

Em conclusão, acreditamos que o fantástico é, essencialmente, um modo privilegiado para se executar a subversão dos valores políticos, sociais e morais, transgredindo a realidade consensual. Acreditamos que seja, também por isso, que os escritores pós-colonialistas da América Latina e de África optaram pelo modo fantástico. De facto, “they made a subversive choice to represent the world in a consciously non-western way; in effect, they use the fantastic to question the notion of a single real.” (McLain Internet 2001: 139-140).

O facto de esses autores dos dois continentes optarem pela escrita de contos prende-se, entre outros (já abordados anteriormente e que serão reiterados no sub-tópico seguinte), com o facto de o conto ser um género privilegiado para a escrita subversiva e transgressora.

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