O realismo mágico / real maravilhoso tornou-se um movimento literário com tendências universais.47 Este facto deve-se, em grande parte, ao reconhecimento internacional de escritores considerados os expoentes do realismo mágico americano como Luís Borges, Garcia Marquez, Alejo Carpentier, Juan Rulfo e Julio Cortázar.
Muitos autores, por todo o mundo, têm vindo a sofrer influências deste movimento, como Salman Rushdie e Günter Grass. Efectivamente, os traços dessa influência “indicate the complexity and inter-relatedness of various off-shoots of magic(al) realism. (Bowers 2004: 19).
Podemos, assim, verificar, tendo em conta a complexidade das chaves estéticas do realismo mágico, a existência de uma afinidade entre a literatura sul-americana e a literatura africana. Por um lado, ambas têm a preocupação de dar valor ao conceito amplo de négritude.48 Por outro lado, trata-se de espaços em situação pós-colonial, onde
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Já em 1969, Ángel Valbuena Briones tinha noção da universalidade do termo: “El realismo mágico no se limita a los pueblos latinoamericanos sino que es una corriente universal, y se puede añadir que inherente al ser humano.” (Briones 1969: 236.)
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A palavra négritude é um neologismo, criado pelo poeta martinicano Aimé Césaire, em 1939, através do poema «Cahier d’un retour au pays natal», publicado pela revista Volontés, nº 10. Para Césaire, a négritude significa a acção e a força pela negação, reiterada sob a forma de anáforas ao longo do poema. A négritude corresponde a uma consciência e valorização da cultura negra.
Sobre o conceito de négritude deve consultar-se a Tese de Doutoramento de José Luís Pires Laranjeira apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1994. Pires Laranjeira diz-nos: “A négritude traduziu e difundiu de modo difuso (…) as ideias doutrinárias pan-africanistas de comunidade de herança e valores do negro, organização dessa herança cultural e sua metamorfose numa produção cultural moderna tendente a apoiar reivindicações de emancipação.” (Laranjeira 1994: 518).
Também José Ferraz Motta se refere ao conceito de négritude:
Ora, a Negritude (…) é uma consciencialização e assunção da dignidade do Negro. Ela recusa tanto a subserviência quanto a assimilação (…) apelando à emancipação dos povos africanos como o primeiro passo a dar para a liquidação do status quo. Simultaneamente a Negritude passou a constituir uma fonte de inspiração para os
“foi e é contida a necessidade de afirmação da diferença, relativamente à cultura deixada pelo colonizador bem como a revalorização dos substratos culturais autóctones.” (Sousa 1998: 461). Por outras palavras, a relação estabelecida entre as literaturas africanas e as literaturas latino-americanas baseia-se no facto de ambas terem a sua origem e desenvolvimento a partir de contextos sociais e culturais relacionados com o universo colonial. Daí “a necessidade de ruptura com o periferismo, ao mesmo tempo que afirma uma identidade própria.” (Sousa 1998: 464).
Assim, a presença do realismo mágico americano nos autores africanos, em geral, e nos autores de/em língua portuguesa,49 em particular, permite desenvolver a ideia defendida por Ana Margarida Fonseca:
a complexa convivência do pensamento racional europeu com o pensamento mitocosmogónico popular e as crenças animistas das culturas pré-coloniais, de que resulta, em última análise, um real fragmentado ou, sob outro ponto de vista, um real sincrético: em vez de um discurso antimimético teremos, um discurso plurimimético, que encontra a sua força na coexistência de modelos do mundo (segundo o modelo ocidental-racionalista) antagónicos. (Fonseca 2002: 184).
poetas e uma arma política para os militantes que a usaram contra o racismo e
colonialismo. (Motta 2004: 53).
Horst Rogmann relaciona o realismo mágico com o conceito de négritude:
El realismo mágico coincide com la negritud en muchos aspectos: el momento histórico y el lugar de su aparición (…), la procedencia extraeuropea de sus portavoces (…), el idioma românico que utilizan, la reivindicación de culturas precoloniales, la revalidación de sociedades agrícolas preindustriales; el énfasis puesto em creencias mágicas, en una cosmovisión no racionalista y en la compenetración con la naturaleza; un racismo antirracista, la presentáción de un mondo diferente del europeo, etc. (Rogmann 1979: 48).
Acrescenta ainda Rogmann:
El fértil hallazgo de los escritores del realismo mágico consiste en haberse apoderado para fines literarios de la imaginación popular: un pensamiento prelógico, precientífico y su producto, los mitos. Lo mismo vale, tal vez en mayor grado, para los autores de la «negritude», cuyo contacto con los estratos populares (…) ha sido más estrecho.”(Rogmann 1979: 48-49).
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Os autores africanos em língua portuguesa revelam a influência de autores sul-americanos como Vargas Llosa e Garcia Marquéz.
José Eduardo Agualusa, escritor angolano, em entrevista à Revista Trafika, afirma: “Perhaps this is because their universe, like the one in which I move, is a heterogeneous place: African and European, urban and rural, universal and particular, hospitable to unreal phenomena and deviations from the norm.” (Agualusa 1995: 48).
Também Ungulani Ba Ka Khosa, autor moçambicano, se refere à proximidade dos seus escritos da literatura da América Latina:
Acho que a realidade africana, quer em termos de situação política, quer em termos de realidade cultural, quer até da maneira como eles (os autores sul-americanos) buscam a própria realidade. (…) Há um parentesco. Há da parte deles muito uma tentativa de descer a uma realidade cultural cultural, a uma realidade mitológica.” (Ungulani Ba Ka Khosa, citado por Chabal 1994: 312).
Dentro desta linha de pensamento, e remetendo-nos mais directamente para o autor que estudamos, podemos afirmar que a escrita de Mia Couto sofre influências directas do realismo mágico americano. Aliás, esta posição é assumida, unanimemente, pelos críticos do autor,50 uma vez que a literatura miacoutiana, entre outros diversificados aspectos, “expressa a consciência da realidade populacional, através do uso do Maravilhoso. Descreve o quotidiano do povo envolto em misticismo, tradições, emoções, lutas, esperanças e simbolismos.” (Faria 2005: 30). Deste modo, é intuito máximo do autor criar uma literatura que tem como meta o encaminhamento do país (Moçambique) rumo à identidade sem esquecer de, paralelamente, “reinvestir a memória da tradição oral de um estatuto literário.” (Leite 2003: 58). E, de facto, é exactamente esse eixo de pensamento que consagra o realismo mágico. Diz-nos Jacques Aléxis:
artists made use of the Marvellous in a dynamic sense before they realized that they were creating a Marvellous Realism. (…) Creating realism meant that the artists were setting about speaking the same language as their people. (…) the treasure of tales and legends, all the musical, choreography and plastic symbolism, (…) are there to help the nation its problems and in accomplishing the tasks which lie before it. (Aléxis 1995: 197)
Indubitavelmente, a escrita africana lusófona revela uma grande intimidade com os conceitos do realismo mágico/real maravilhoso. De facto, o realismo mágico parece ter encontrado no continente africano uma força particular pelo facto de se radicar em países em que o mito faz parte da existência quotidiana. Assim, este movimento estético revela uma relação necessária de contiguidade ou de correspondência entre o real e o imaginário.
Ao terminar, podemos acrescentar que, em termos particulares, os autores africanos em Língua Portuguesa dão ao conceito de realismo mágico novas
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José Ferraz Motta relaciona Mia Couto com o realismo mágico, também, por vezes, denominado realismo fantástico ou até realismo animista:
O realismo fantástico de Mia Couto também se faz sentir entre os novos da década de 80, sobretudo o grupo da Charrua, revista cujo 1º número vai para a rua no princípio daquele decénio. (…) Semelhante tomada de rumo na encruzilhada literária (…) pode ser o resultado duma importação da América do Sul como o apelo dum passado exuberante de mitos e superstições. (Motta 2004: 142).
Maria Fernanda Afonso enquadra a escrita de Mia Couto na corrente do realismo mágico: “O realismo mágico pode ser concebido na escrita de Mia Couto como uma tensão subtil, mas constante, entre o abandono ao mundo, tal como ele se encontra em face do escritor, e uma clara vontade construtiva em relação a ele.” (Afonso 2004: 367).
perspectivas. A propósito do actual panorama das literaturas africanas lusófonas, Alberto Carvalho afirma que:
a narrativa tende a expor a sua «regência» e imaginação poética de escrita representativa-alegórica da História, enformada pelo «realismo cosmogónico» que resulta da legítima (con)fusão das lógicas do facto empírico das muitas vivas crenças das tradições orais, em acontecimentos sucessivos e paradoxais, (…) ou pelo dialogismo que cruza as falas populares (..) com a enunciação (…) na crónica transfiguradora da realidade comum. (Carvalho 1997: 480).51