• Aucun résultat trouvé

La notion d’adjoint

Dans le document Le cours de Jean-Yves Chemin (Page 66-73)

A literatura moçambicana insere-se na já referida literatura africana em Língua Portuguesa. De certo que possui traços comuns às restantes congéneres. Porém, neste estudo, interessa-nos, sobretudo, os traços distintivos e peculiares. Para melhor abordarmos essas linhas distintivas, façamos um breve percurso histórico.

Sabemos que em Angola e em Cabo Verde houve obras publicadas em Língua Portuguesa durante o século XIX. Em Moçambique, pelo contrário, “não foi possível certificar-nos (…) se (se) publicaram (…) obras de autores moçambicanos ou de motivação moçambicana.” (Moser e Ferreira 1983: 177).

Todavia, houve uma grande actividade jornalística, sobretudo a partir do último quartel do século XIX, prolongando-se pelas primeiras três décadas do século XX. De facto, é durante este período que encontramos o contributo dos jornalistas Estácio Dias e dos irmãos José e João Albasini que “desempenharam um papel importante na luta

60

contra o obscurantismo político e cultural, não obstante as dificuldades de toda a ordem que houveram de tornear.” (Moser e Ferreira 1983: 177). Inclusive, João Albasini publicou, em 1925, O livro da dor, uma obra que marca a rebeldia deste jornalista.

Na década de 30 (século XX), através dos jornais O Brado Africano e da revista

Miragem, surgiu o primeiro grande vulto da literatura moçambicana: Rui de Noronha.

Manuel Ferreira considera que “com ele se dão os primeiros passos para a criação da literatura moçambicana.” (Moser e Ferreira 1983: 177).

Nas décadas de 40 e 50, após a Segunda Grande Guerra, e durante vinte anos, “a literatura moçambicana alcançará a autonomia e encetará a verdadeira busca da sua identidade, afastando-se de Portugal e rejeitando a influência colonial.” (Faria 2005: 15). Na lírica, surgem os nomes de Noémia de Sousa, Rui Nogar, Rui Knoplfi, Virgílio de Lemos, Orlando Mendes, Rui Guerra, Fonseca Amaral e José Craveirinha. Aliás, este último autor é visto como o pai61 da moçambicanidade.62 Na narrativa, surge o livro de contos de João Dias, Godido e outros contos, datado de 1952.

A partir da década de 60, coincidente com os primeiros anos de guerrilha, a literatura moçambicana apresenta um acentuado desenvolvimento. No ano de 1964, surge a obra mais emblemática da narrativa moçambicana: Nós matámos o cão

tinhoso63 de Luís Bernardo Honwana. No ano seguinte, é publicado o romance

Portagem de Orlando Mendes. Estas duas produções literárias “narram histórias que

documentam a opressão do colonizado, e se situam no contexto da situação de

61

Mia Couto, aquando da morte do seu grande amigo e conterrâneo, atesta que Craveirinha é a figura cimeira do reconhecimento nacional e internacional do conceito de moçambicanidade. “À boa maneira do continente, vozes anónimas de Moçambique encontram em José Craveirinha a figura de um pai, de alguém que nos fez nascer cidadãos de um país nascente.” (Couto 2003: 12). Sublinhado nosso.

62

A consciência de moçambicanidade começou a surgir nos jornais O Africano (1909-1918), O Brado

Africano (1918) e O Itinerário (1919), fundados pelos irmãos José e João Albasini.

O conceito de moçambicanidade, “tenta ressalvar o que é autêntico, a cultura ancestral moçambicana, o culto dos antepassados, a vida tribal e indígena, entre outros aspectos, preponderando as formas de vida originais deste país africano sobre o mundo racional europeu.” (Faria 2005: 16).

Iremos, mais tarde, desenvolver aspectos relativos a esta temática.

63

Segundo Ilídio Rocha, Nós matámos o cão tinhoso é a “primeira autêntica obra de prosa africana de expressão portuguesa escrita em Moçambique e de um ponto de vista africano.” (Rocha 1985: 414). Para Pires Laranjeira, esta obra “finalmente emancipa a narrativa em relação à preponderância da poesia.” (Laranjeira 1995b: 261).

Na opinião de Inocência Mata, Nós matámos o cão tinhoso é um texto de questionação da situação de discriminação racial e de todas as (in)corporações que lhe são inerentes - o funcionamento do mecanismo de poderes, a construção da ruptura como eminência e a procura de entendimento.” (Mata 1992: 83). Porém, José Ferraz Motta expressa-se de uma maneira pouco abonatória em relação a esta colectânea de contos de Luís Bernardo Honwana: “ Infelizmente não é o 1º caso nem será o último em que um texto e um autor têm alcançado a fama sem transpiração abundante e por razões extra-literárias. Honwana e o seu

discriminação racial e económica que então se vivia na colónia portuguesa de Moçambique.” (Leite 2003: 88). Paralelamente, José Craveirinha escreve narrativas curtas no jornal Brado Africano.

Após a independência de Moçambique, surge uma nova vaga de autores associados à revista Charrua, fundada em 1984 por nomes como Ungulani Ba Ka Khosa64 e Hélder Muteia. Esta revista “permitiu o desenvolvimento de novas práticas de escrita, não só no campo da narrativa, como também da poesia.” (Leite 1993: 89).

Esta geração65 (sob a influência de Craveirinha), privilegiando o género contista, procurava “eliminar a diferença cultural existente entre o mundo citadino, o mundo moderno (…) e o mundo das sociedades tradicionais periféricas.” (Santos 1996: 24). Embora não estivesse ligado, directamente, à fundação da revista Charrua, é sob a influência (e partilha) ideológica desta geração que nos surge a produção literária de Mia Couto: “o autor de Terra sonâmbula pertence a esta (…) geração de intelectuais que lutaram pela independência, paz e desenvolvimento da nação.” (Faria 2005: 17).

Mia Couto é, neste momento, tendo em conta a sua obra, o autor que faz ecoar as tradições e os sons moçambicanos além-fronteiras, revelando a nascença de uma verdadeira literatura de Moçambique.66 Uma literatura assente no recurso “a novas vias

64

Ungulani Ba Ka Khosa é um nome cimeiro na actual produção literária moçambicana. Com a obra

Ualalapi, Khosa ganhou o Grande Prémio da Ficção Narrativa de Moçambique, em 1990. Sobre esta obra

escreve Pires Laranjeira: “Ualalapi (1987) (…) (é um) romance étnico e histórico, (em que) a história transforma-se, por vezes, em história fantástica ou mágica, à maneira do realismo mágico sul-americano, em que o tom é tanto quotidiano, popular e regional, quanto transcendente, fantástico e maravilhoso.” (Laranjeira 1995b: 326).

65

Nelson Saúte, no Prefácio de As mãos dos pretos: antologia do conto moçambicano, fala-nos desta geração de autores:

A experiência da geração que se revelaria, nos anos 80, à sombra tutelar do projecto Charrua, (…) traria à literatura moçambicana não só uma multívoca pluralidade de posturas estilísticas e de linguagens na ficção como haveria de contribuir com a diversidade, o arrojo e a experiência que estão na base de alguma da melhor literatura nascente, entre nós. Uma hesitação permanente entre a tradição e a modernidade, (…) irá balizar a acção criativa destes contistas e romancistas que, em plena década de 90, confirmam-se, paulatinamente, perante o crivo dos leitores e da crítica. (Saúte 2000: 14).

66

Mia Couto, em entrevista ao Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) não considera que exista uma literatura moçambicana, mas somente uma literatura de Moçambique:

A minha ideia de literatura é dinâmica. Não basta que haja uma pessoa escrevendo, é preciso que haja pessoas lendo, discutindo, vivendo esta literatura em bibliotecas, casa de leituras, que se estude, que se critique esta literatura: isto é quase ausente em Moçambique, que é um país muito jovem, (…) e portanto tem uma literatura que é feita de casos, não falo de mim, mas cada autor é uma espécie de universo literário formando aquilo que seriam as bases de um edifício ainda a ser, que é a literatura moçambicana. (Couto: 1998).

estéticas, (…) recuperando sobretudo a capacidade imagética, metafórica e simbólica da palavra” (Laranjeira: 2001: 81) e efectuando uma abordagem de temáticas sociais de um modo “alegórico e irónico,67 através do conto de casos quotidianos, fantásticos e simbólicos.” (Laranjeira 2001: 81). Deste modo, Mia Couto

afastando-se do controlo do Estado e da Frelimo,68 (…) abre novos horizontes e encabeça a inovação literária, através do hibridismo e da recriação que confere à linguagem, e das perturbações e debates constantes nos seus textos (…). É com ele que surge a livre criatividade da palavra e a observação crítica da realidade moçambicana, é com ele que as diversas raças e diversas culturas ganham relevo (…), é com a obra dele que termina o período da pós-independência e é com ele que o mundo inteiro começa a compreender o valor e a identidade do povo africano. (Faria 2005: 18).

O autor vai, assim, herdar a herança da tradição oral e elege o conto como género privilegiado para a enunciação das suas temáticas e do seu estilo.

Dans le document Le cours de Jean-Yves Chemin (Page 66-73)