Na obra Elementos de retórica literária (1967), Heinrich Lausberg diz-nos que
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a ironia, como tropo de pensamento é, em primeiro lugar, a ironia da palavra continuada como ironia do pensamento, e consiste, desta maneira, na substituição do pensamento em causa, por um outro pensamento, que está ligado ao pensamento em causa por uma relação de contrários e que, portanto, corresponde ao pensamento do adversário. (Lausberg 1967: 251).
Neste sentido, estamos perante um processo que consiste na atribuição aos signos de significados opostos aos que têm na lógica consensual, ou seja, dizer o contrário do que as palavras em si mesmo significam. A ironia, por vezes, é resultado de outras figuras de retórica como o eufemismo, a hipérbole, o zeugma ou o sarcasmo. Podemos, através da ironia gracejar, zombar, escarnecer de pessoas ou situações.
A ironia pode surgir tanto no discurso oral, enriquecida pelo olhar, pelo tom de voz, o gesto, como no escrito, mormente literário, sendo neste descodificada com recurso ao contexto em que se insere.
Estratégia retórica de origem remota, a ironia também está presente na literatura africana pós-colonial. Isabel Moutinho chega a afirmar que “ a literatura pós-colonial é (…) predominantemente irónica.” (Moutinho Internet 2001: 10).
Como fomos verificando, Mia Couto, na sua produção contista, privilegia a ironia. Esta estratégia não só acompanha alguns momentos em que assistimos à irrupção do fantástico como permite que sejam abordadas (de forma irónica) as questões relacionadas com as grandes temáticas miacoutianas: a leitura da ancestralidade, a afirmação da moçambicanidade e a procura da universalidade.
O recurso à ironia é recorrente em Mia Couto. Vejamos alguns exemplos patentes nos contos que analisámos.
Voltamos ao conto «O menino no sapatinho» (Couto 2001: 13-16). A linguagem hiperbólica funde-se com a linguagem irónica de modo a serem ressalvados os aspectos ligados à vida difícil dos mais desfavorecidos:
De tão miserenta, a mãe se alegrou com o destamanho do rebento – assim pediria apenas os menores alimentos. Em casa, na quentura da palmilha, o miúdo aprendia o lugar do pobre: nos embaixos do mundo. Junto ao chão, tão rés e rasteiro que, em morrendo, dispensaria quase o ser enterrado. (Couto 2001: 13-14).
Citemos ainda outra passagem ilustrativa do tom irónico, presente neste conto: “Ela (a mãe) sabia que os anjos da guarda estão a preços que os pobres nem ousam.” (Couto 2001: 15). Este conto procura colocar a nu a vida miserável do povo moçambicano, resultante de uma multiplicidade de factores: as longas décadas de opressão por parte do povo colonizador, as feridas ainda abertas de uma situação de
guerra que despoletou após a independência, as desastrosas políticas dos governos pós- coloniais, as catástrofes naturais (seca, cheias). Pensamos, inclusive, que o menino pode representar o próprio país: um país pequeno em termos de projecção internacional, sem voz activa (“Na realidade, não falava: assobiava feita uma ave.” [Couto 2001: 13]), país pobre e habituado a essa pobreza. O pai não se preocupa com o destino do seu filho, logo não se preocupa com o seu próprio país: “O melhor era desfazerem-se do vindouro (…) - Vou é desfazer. (Couto 2001: 15). 169 Resta a esperança da mãe no poder divino, capaz de salvar o seu menino, o seu marido, o seu lar, enfim, a sua nação: “Pediu a Deus que fosse dado ao seu menino o tamanho que lhe era devido. Só isso, mais nada. Talvez, depois, um adequado berço. Ou quem sabe, um calçado novo para o seu homem.” (Couto 2001: 16).
Destacamos também a presença de linguagem irónica na «estória» «Amor à última vista» (Couto 2001: 75-80). Trata-se da história de Dona Faulhinha e do seu recém-falecido marido. Ainda com o marido no leito da morte, Dona Faulhinha pediu a Deus que fosse ela a morrer em vez do marido. Mas eis que o falecido volta à vida com o sentido de interferir na vontade da esposa.170 Atentemos como Faulhinha justifica o seu pedido de morte: “Que não daria nenhum trabalho. Os anjos não necessitariam de cumprir horas extra. Morreria com tanta modéstia que nem daria conta que se havia retirado da vida. (…) Nem morrer aquilo seria: o nenhum verbo.” (Couto 2001: 76-77). Mais adiante, destacamos outra passagem: “Casara para ser duas, acabara sendo nenhuma. Asa esquecida, sua alma já esquecera o perfume do voo.” (Couto 2001: 78- 79). Verificamos como a mulher moçambicana é uma vítima privilegiada das contradições e injustiças da sociedade pós-colonial. Neste conto, como em muitos outros contos de Mia Couto, a mulher aparece-nos dividida entre a tradição e a modernidade (“Está armada em branca?! Pois lhe pergunto. Você está a falar para
qual Deus? Os nossos antigos ou esse de agora? [Couto 2001: 78]),171 entre a
submissão e os primeiros laivos de rebeldia (“Sempre fora mulher de sombra, no quieto
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O facto de os mortos interferirem nos assuntos dos vivos é verificável em vários autores.
Em Mia Couto, o regresso de um morto já se tinha verificado no romance Terra sonâmbula (1992): um velho colono manifesta-se alguns anos depois da sua morte, quando um antigo empregado se prepara para entrar na casa do colono à procura de bens para roubar. Reafirmando a sua antiga autoridade de patrão face ao empregado, o negro Quintino Massua propõe-lhe realizar negócios fraudulentos, aproveitando a corrupção instalada após a instauração do novo regime posterior à independência.
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subúrbio do seu viver (…) Ela que vivera sempre calada, agora, no extremo momento, se empenhava na mais cuidada oratória. (…) Já lhe escutei demasiado quando você era
vivo. [Couto 2001: 76-78]).172 Em comum, as mulheres moçambicanas partilham a
imensa coragem de sofrer a sua sorte. Procuram ultrapassar todas as provas que contrariam a individualidade que pretendem adquirir, sem, contudo, renegar o seu enraizamento em valores gregários e comunitários. A mulher, em Mia Couto,173 aparece-nos, por um lado, como símbolo de sofrimento (como é caso da viúva deste conto), mas, por outro lado, como reveladora de esperança, geradora da própria vida, com faculdades apaziguadoras de conflitos, capaz de sobreviver num mundo de cariz pessimista.
Destacamos, ainda, um conto pertencente à última colectânea publicada por Mia Couto: «O peixe e o homem» (Couto 2004: 97-100). Este conto traz-nos a história de Jossinaldo que, um dia, descobre que, afinal, não tinha sido Santo António que tinha pregado aos peixes, mas que tinha sido um peixe que pregara aos homens. Daí o exotismo do comportamento de Jossinaldo: regularmente, levava um peixe a passear, no parque, preso por uma trela. O autor aproveita o intertexto, Sermão de Santo António
aos peixes do Padre António Vieira, para, através de uma linguagem alegórica e irónica,
criticar os comportamentos dos homens:
Os homens atribuíam aos peixes as indecorosas ganâncias que eram da exclusiva competência humana. Adjectivavam a peixaria: os mandantes do crime são chamados «tubarões». Os poderosos da independência são «peixe graúdo». Os pobres executantes são o «peixe miúdo». E afinal não há crime é lá dentro das águas, lá é que há a tal de propalada transparência. Pois, quem pregava o sermão, o Santo António aquático era o próprio peixe do lago. Era ele o sermonista.” (Couto 2004: 98).174
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Mia Couto, a par de outros contistas moçambicanos, tem a preocupação de denunciar o sofrimento da mulher moçambicana e de exaltar as suas qualidades. Sobre a questão da mulher no conto moçambicano vejamos o que nos diz Maria Fernanda Afonso:
A condição da mulher na sociedade pós-colonial é uma preocupação grande no conto moçambicano. Ao conceder-lhe um lugar importante, a narrativa mostra que, depois da independência a situação da mulher evoluiu nas cidades. (…) Todavia, é sempre o marido (…) que decide o que ela pode fazer (…). No seio de uma galeria de vítimas sociais, a mulher sofre todas as ofensas. Por muito que ela lute energicamente para salvaguardar a sua dignidade, é dominada, explorada, marginalizada, explorada. (Afonso 2004: 405-406).
Afirma ainda esta autora: “As mulheres, desfiguradas pelo excesso de peso (Modari) ou pela violência do trabalho, marginalizadas, pobres, viúvas, preservando a família, abandonadas pelo marido, proporcionando afecto e bem-estar enchem as páginas dos contos de Mia Couto.” (Afonso 2004: 407).
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É possível verificarmos como Mia Couto não se coíbe de usar deliberadamente um intertexto, 175 mas procura subvertê-lo de forma a melhor defender as suas ideias. De facto, estamos perante uma espécie de jogo de subversão, em que Mia finge aceitar a verdade imposta para, através dela, afrontar o poder instituído e denunciar os aspectos político-sociais com os quais não se identifica. Trata-se, enfim, de um jogo de ironia em que o escritor constrói um discurso, de certa forma diluído nas denominadas entrelinhas do texto.
Assim, a ironia funciona, como defendia Janklevitch, como um instrumento do espírito (crítico) ao serviço da verdade. A ironia serve para subverter posições ideologicamente falsas, fazendo-se a apologia da verdade como forma legítima de modificação da sociedade.
A concluir, poderemos dizer que Mia Couto aproveita a ironia de modo a acentuar a contradição entre a aparência e a realidade. Na escrita miacoutiana, a ironia funciona como arte de persuasão, de modo a estimular no leitor convicções e opiniões que funcionem como motor de acção e mudança social. A ironia actua como um estratagema do espírito ao serviço da verdade.
Mia Couto expressa sobretudo o conflito, a crise como modo de demover, de dissuadir mentalidades e maneiras estáticas de pensar o mundo.
Mia pretende que os seus leitores sejam uma espécie de co-autores e recriadores do texto para, desta forma, serem capazes de ler nesse texto a transgressão dissimulada (pela subtileza da ironia) e, a partir daí, modificarem-se a si próprios, bem como o espaço onde vivem (vila, cidade, país, continente, mundo), pela sua actuação como seres pertencentes a uma comunidade local, regional, e (porque não) universal. Assim, o leitor miacoutiano deve ser um agente transformador da história do seu país e do mundo.