A literatura africana em Língua Portuguesa54 é, nos dias de hoje, motivo de admiração e até de culto por parte de uma boa franja de leitores, nomeadamente europeus e brasileiros. Igualmente, assiste-se ao crescimento do número de estudiosos sobre este campo da literatura.
Ao contrário do que à partida poderíamos pensar, a literatura africana em Língua Portuguesa é perpassada por um longo trajecto de génese e desenvolvimento. Consta-se que os primeiros escritos literários em português em África remontem ao século XVI: “são de índole política, geográfica ou, no melhor dos casos, etnológica” (Moser e Ferreira 1983: 51). São sobretudo relatórios que padres jesuítas enviaram de Angola para a metrópole. No século XVII, temos referências que nos remetem para dois poetas brasileiros, Gregório de Matos e Tomás Gonzaga. Consta-se que compuseram poemas enquanto degredados em África.
Unanimemente, os críticos consideram que a obra Espontaneidades da minha
alma, às senhoras africanas de José da Silva Maia Ferreira, publicada em Angola, em
1849, marca o verdadeiro nascimento da literatura africana em Língua Portuguesa. Este poeta angolano aborda, pela primeira vez, “as terras e as gentes africanas.” (Laranjeira: 1995a: 19).
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Esta terminologia é a mais usada pelos críticos actuais, destacando-se Pires Laranjeira. Porém, outros autores, em diversificados momentos, utilizaram outras terminologias. Amândio César utilizou a denominação “Literatura ultramarina” nas suas obras Parágrafos de literatura ultramarina (1964) e
Novos parágrafos de literatura ultramarina (1971).
Em 1975, Russel Hamilton na sua publicação Voices from an empire (a history of afro-portuguese
literature), traduzida para Literatura africana, literatura necessária, defendeu o termo Literaturas da África lusófona.
Em 1980, o crítico Alfredo Margarido preferiu utilizar o termo Literaturas das nações africanas de
Língua Oficial Portuguesa. Pires Laranjeira, ao longo dos seus estudos e publicações, adoptou várias
terminologias: “Literaturas da África lusófona”, “Literatura neo-africana em português”, ou, mais recentemente, “Literaturas africanas em/de Língua Portuguesa.” Este último termo foi adoptado pela maior parte dos críticos, quer africanos como Lourenço do Rosário, Fátima Mendonça, Inocência Mata ou Fernanda Cavacas, quer portugueses como o já referido Pires Laranjeira e Ana Mafalda Leite.
Mas foi só a partir da realização da Conferência de Berlim55 (1884-85) e da Implantação da República (1910) que assistimos ao definitivo arranque de uma literatura em português, embora em modos ainda insípidos. A conjugação destes dois eventos permitiu, por um lado, “o reconhecimento de cidadania para os naturais das colónias e, em consequência, a possibilidade (no plano teórico e legal) do acesso à instrução e à escrita ” (Portugal 1999: 49); por outro lado, verificou-se o fim abrupto da
imprensa livre do último quartel oitocentista e deu-se o “endurecimento do sistema
colonial, com legislação favorável à censura e repressão das actividades intelectuais nativistas.” (Laranjeira 1995a: 21).
Até aos anos 30 do século XX, apesar do estado português ter encorajado, com prémios e publicações, o aparecimento e desenvolvimento de uma literatura colonial, o panorama literário pautava-se pelo intuito de “satisfazer o desejo de exotismo e aventura do leitor europeu.” (Laranjeira 1995a: 21). Era assim uma literatura “de alienação literária” (Laranjeira 1995a: 22), artificial, cultivando as formas das civilizações clássicas, e que contribuía, em larga escala, para o adiamento do despertar de uma consciência literária de raiz nacionalista. Neste contexto, raramente “emergiam (…) escritores verdadeiramente identificados com a terra e o povo africanos.” (Laranjeira 1995a: 22).
É sobretudo a partir dos anos 40, sob a influência da geração da Claridade,56 em Cabo Verde, que nasce a nova literatura africana em Língua Portuguesa. Este grupo de intelectuais apartidários ousou contrariar toda a tradição escolástica e clássica da literatura produzida em Cabo Verde e em toda a África lusófona.
A partir da década de 50, os escritores africanos em Língua Portuguesa começam a publicar as suas obras de forma sistemática, constituindo um corpus textual
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A divisão arbitrária de África teve o seu marco com a Conferência de Berlim iniciada em 1884 e terminando no ano seguinte. Nela participaram quinze países, catorze da Europa (incluindo a Turquia), mais os Estados Unidos. Os Estados Unidos não possuíam colónias em África, mas era uma potência em ascensão. A Turquia, nesta época, ainda era o centro do extenso Império Otomano. Foram tratados diversos assuntos, mas o principal objectivo foi o de regulamentar a expansão das potências coloniais, em África, a partir dos pontos que ocupavam no litoral. A Grã-Bretanha e a França foram as que obtiveram mais territórios, seguidas de Portugal, Bélgica e Espanha. Alguns territórios mais reduzidos foram ocupados pela Alemanha e pela Itália, que também tinha entrado na corrida colonial (informação baseada no endereço na Internet: http://www. tamandare.g12.br/Aulafrica/conferencia%20de%berlim.htm).
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Sobre a geração de escritores ligada à revista Claridade afirma Pires Laranjeira:
A geração da Claridade resolveu olhar à sua volta e rebuscar o passado, ao mesmo tempo que recusava a tradição literária portuguesa mais anquilosada, para assumir a lição da modernidade, sobretudo a realista. A busca das raízes antropológicas e culturais, manifestada no gosto pela etnografia e pela filologia do crioulo e ainda a valorização da criatividade popular, com a recuperação (…) dos contos populares. (Laranjeira 1995a: 22).
crescente e significativo, onde proliferam uma grande variedade de géneros e discursos. Paralelamente, assiste-se ao desenvolvimento da crítica literária e do aparecimento “cada vez mais frequente de textos e autores centrados em África.” (Portugal 1999: 50).
Dos anos 60 até à independência das colónias, a literatura reflectiu toda a conturbação desse período histórico. Pires Laranjeira diz-nos que a literatura desse período decorre de três situações:
uma situação de guerrilha com os temas daí recorrentes (Pepetela, Sérgio Vieira, Costa Andrade); uma situação de ghetto, localizada nas cidades e prisões coloniais e na metrópole (…) (Luandino Vieira, Corsino Fortes, João-Maria Vilanova, David Mestre (…); uma situação de diáspora, com textos escritos e publicados (…) em vários países do mundo, em especial em França, (…) na Itália, (…) no Brasil (…) (e) na União Soviética (…); uma situação colonialista, com escritores (e) publicações (…) empenhados em promover a «literatura ultramarina» (…), (que) procuravam provar, no âmbito cultural, que as colónias eram províncias de Portugal. (Laranjeira 1989: 70). 57
A partir da independência, dá-se o surto de uma literatura que tinha como principal missão a exaltação do poder político dos novos estados independentes. É, assim, uma literatura conformista, preocupada em exercer um certo controlo através da alçada estatal e política das organizações de escritores, das editoras e das páginas culturais.
Não tardou, contudo, que os escritores sentissem decepção em relação aos regimes políticos pós-coloniais.58 Neste contexto, surge-nos uma literatura de crítica social e condenação das guerras civis que assolaram os países no período pós- independência. Em Angola, temos o caso de Manuel Rui e Pepetela e, mais
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Itálicos do autor.
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A este propósito, Ana Mafalda Leite considera que
o termo pós-colonialismo pode entender-se como incluindo todas as estratégias discursivas e perfomativas (criativas, críticas e teóricas) que frustram a visão colonial, incluindo, obviamente, a época colonial; o termo é passível de englobar além dos escritos provenientes das ex-colónias da Europa, o conjunto de práticas discursivas, em que predomina a resistência às ideologias colonialistas, implicando um alargamento do corpus das literaturas emergentes, como caso dos textos literários da ex-metrópole, reveladores de sentidos críticos sobre o colonialismo. (Leite 1993: 11).
Actualmente, poderemos considerar que vivemos num período pós-colonial, dado que grande parte dos países que dependiam de uma metrópole conseguiram a independência e iniciaram o caminho que os leva à identificação da sua identidade.
Joana Daniela Vilaça de Faria refere a função dos estudos pós-coloniais: “Debruçam-se sobre a luta dos mais fracos pelos seus direitos, abordando uma nova humanidade, que resulta do final de décadas de imperialismo e submissão. Temáticas como a raça, a nação, o império, a migração, a etnia, o feminismo, a cultura são analisadas e relacionadas, para que toda a população tenha direito à sua voz.” (Faria 2005: 7).
recentemente, José Eduardo Agualusa. Em Moçambique, surgem-nos, entre outros, Ungulani Ba Ka Khosa, Eduardo White e Mia Couto. Este grupo de escritores procura, sobretudo, “narrar e inventar o passado.” (Hamilton: 2000: 543). Esta estratégia estético-ideológica procura, por um lado, efectuar “o desmantelamento das estruturas e instituições herdadas do colonialismo” (Hamilton 2000: 544); por outro lado, procura “contestar os regimes instalados depois da independência política.” (Hamilton 2000: 544). Assistimos, assim, a um processo de abertura de “novos espaços, (…) de novas estruturas transregionais, transnacionais, translinguísticas e, como consequência, transculturais” (Hamilton 2000: 548) e, acrescentemos, universalizantes.