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Le suicide par précipitation : conclusion de la quatrième source

Le traitement des sources primaires

2.4. Quatrième source, Ovide, Quinzième Héroïde, Le saut de Leucade comme motif rituel de la souffrance amoureuse

2.4.4. Le suicide par précipitation : conclusion de la quatrième source

Nesse contexto modernista, Bandeira foi considerado o são João Batista do modernismo. Receptivo a tudo o que era novo, não se filiou a nenhuma escola, moda ou estilo, e era tido como exemplo de inovação técnica e dono de uma escrita apurada. Aproveitando-se das revolucionárias técnicas vanguardistas, adquiriu uma pluralidade artística marcada pelo desdobramento de muitos recursos, combinados sempre de modo original e coerente. Ao adotar essa liberdade artística, passou a elaborar obras de múltiplas formas poéticas, encontradas principalmente em Libertinagem.

Bandeira descaracteriza o mundo real/comum para, em seguida, recaracterizá-lo poeticamente. Sua poesia desafia qualquer tipo de classificação por ser uma poesia de transgressão. O exame crítico desses pontos tem por objetivo pôr em evidência certos aspectos da produção poética de Manuel Bandeira e, conseqüentemente, de Libertinagem, ao longo das décadas.

Em 1942, o escritor Mário de Andrade proferiu no Rio de Janeiro a importante conferência sobre o movimento modernista. Para ele, a tendência de Bandeira para o coloquial e o prosaico advém de um exercício de libertação pessoal, responsável pelo caráter “tipográfico” dos poemas:

Raro na doçura franca de movimento. Ritmo todo de ângulos, incisivo, em versos espetados, entradas bruscas, sentimentos em lascas, gestos quebrados, nenhuma ondulação. A famosa cadência oratória da frase desapareceu. Nesse sentido, Manuel Bandeira é o poeta mais civilizado do Brasil: não só pelo abandono total do efeito gostoso, como por ser o mais [...] tipográfico de quantos, bons,possuímos. [Mário de Andrade,1972, p. 29]

Nos poemas de Libertinagem, sublinha Mário de Andrade, estão suas qualidades inovadoras: “Por mais pessoais que sejam assuntos e detalhes, mais o poeta se despersonaliza, mais é toda a gente e menos é caracteristicamente ritmado” (1972, p. 30). O modernismo brasileiro, segundo ele, caracteriza-se pelo sentido da experiência coletiva, a confiança no presente, a coragem intelectual, a ousadia da experimentação, o próprio apego à realidade prosaica e cotidiana, e a preocupação social.

Em Libertinagem, o poeta aventurou por experiências múltiplas, e, com coragem intelectual, experimentou um novo ritmo, diferente dos caminhos até

então batidos, numa pesquisa de linguagem para transmitir sua interpretação pessoal do mundo, por meio de um vocabulário, imagens e torneios que se amoldassem às necessidades de uma expressão voltada para o cotidiano da vida social. Essa obra traz marcas da hibridização do gênero lírico na modernidade, transgredindo as leis da poética tradicional e as leis temáticas, o que registra o amadurecimento do poeta para as tendências modernistas.

A formação do projeto poético de Bandeira dá-se pela constante busca de uma poesia livre, cheia de ritmos e melodias. Ao dominar os mecanismos de criação, alcança a liberdade, a graça, a leveza, o descompromisso, e busca o seu próprio caminho. Anuncia-se como poeta que não se resigna à rotina literária e faz da descoberta do cotidiano uma aventura possível.

Para Ribeiro Couto (1980, p. 49-50), em poemas de Libertinagem o cotidiano presente “às vezes é comovente, às vezes é ridículo”, como em “Pneumotórax”, em que recupera a “humanidade irônica de tísico”.

Mário de Andrade explica que essas características, percebidas em

Libertinagem, tiveram importância renovadora no contexto da década de 1930.

O livro revela que o bom versificador moderno não é aquele que somente tem “a licença de não metrificar [...] imaginando que ninguém carece de ter ritmo mais e basta ajuntar frases fantasiosamente enfileiradas pra fazer verso livre” (Mário de Andrade,1972, p. 27).

Para Mário, Libertinagem é uma obra de “cristalização”, não da poesia, mas da psicologia de Bandeira. Livro mais “indivíduo”, dentre os publicados pelo poeta. Com ele, o poeta atingiu seus ideais estéticos, o que deixou bem claro no poema “Poética”:

Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Libertinagem, segundo o crítico, apresenta poemas com total sonoridade,

materialização própria do som: “Manuel Bandeira é dentre os poetas vivos nossos o que prescinde mais do som” (Mário de Andrade, 1967, p. 238).

O ritmo de Bandeira, para Mário (1967, p. 239), encontra-se numa poesia que comove pela “simplicidade de expressões, acolhendo mil símbolos fiéis”, o que pode ser visto no poema “O cacto”: belo, áspero, intratável. Esses adjetivos reportam à “luta permanente entre essa essência ‘intratável’ do indivíduo Manuel Bandeira e o lírico que tem nele”. Em “Poema de Finados” e “Vou-me embora pra Pasárgada”, para o crítico (1967, p. 239), “o poeta se generaliza tanto que volta aos ritmos menos individualistas da metrificação, como já o fizera nas cantigas dos ‘Sinos’ e do ‘Berimbau’, no O ritmo dissoluto”.

Por ser um dos amigos próximo de Bandeira, Mário de Andrade, vinte anos depois da Semana de Arte Moderna, analisou cuidadosamente essa obra, tida como a cartilha dos poetas modernistas. Aí está uma poesia que transgride para renovar, e ao renovar deixa um modelo inovador dentro da literatura brasileira.

Como ninguém, Bandeira encarnou o academismo da poesia modernista, desbastando-lhe os excessos e as provocações, enraizando-a na tradição dos grandes mestres da língua e de outras línguas. Ao provincianismo modernista, contrapôs o universalismo da poesia. Com grande sensibilidade, o poeta recuperou a tradição e renovou a modernidade, avalia o escritor Mário de Andrade.

Em vários poemas, como em “Evocação do Recife”, “Profundamente” e “Poema de Finados”, a angústia da vida cheia de mazelas e o saudosismo da infância estão presentes nas figuras familiares recuperadas pela memória. No conjunto da obra do poeta, todavia, é possível apreender a gênese de sua poesia. O modo de articular o aspecto social com o formal torna-se o ponto decisivo para a interpretação de sua lírica, aspecto essencial da produção poética marcada de “circunstâncias e desabafos”, surgida de um poeta “tão intratavelmente individualista”, como definiu Mário de Andrade.

Uma outra importante crítica literária foi feita em nota introdutória para a obra Estrela da vida inteira, realizada por Gilda de Mello e Souza e Antonio Candido, em comemoração ao octogésimo aniversário de Bandeira. Sem dúvida, um documento importante para avaliar a receptividade da crítica brasileira à obra do poeta. Caracterizam-no como “o grande clássico da nossa poesia contemporânea”, que, como os clássicos,

possui a virtude de descrever diretamente os atos e os fatos sem os tornar prosaicos. O caráter acolhedor do seu verso importa em atrair o leitor para essa despojada comunhão lírica no quotidiano e, depois de adquirida a sua confiança, em arrastá-lo para o mundo das mensagens oníricas [...] [Candido; Souza, 1993, p. 5]

Para os críticos, esse acessório retirado da realidade é despido dos “adornos coloridos e melodiosos” dos primeiros livros, provando, assim, o amadurecimento da poética bandeiriana, que com o tempo superou a característica impressionista existente até então em sua obra, aprendendo “a dissecar o elemento decisivo, para construir uma poesia ‘desentranhada’ que, como o minerador, ‘lava o minério para isolar o metal fino’ ”.

Outras análises aludem à capacidade do poeta de adequar-se às influências modernistas do prosaísmo, do folclore e do nivelamento dos temas. Essas novas maneiras estão explicadas nos poemas de Libertinagem, ao caracterizar “os objetos perdidos na fluidez crepuscular, definir os sentimentos por um contorno nítido e ordenar uns e outros em espaços inventados ou observados com arbítrio muito mais poderoso” (Candido; Souza, 1993, p. 6-7).

Para Souza e Candido (1993, p. 7), essa evolução “permitiu conseqüências aparentemente contraditórias: de um lado, a adesão mais firme ao real, reforçando a naturalidade ameaçada pela deliqüescência pós- simbolista; de outro lado, a criação de contextos insólitos, libérrimos, parecidos com os mundos imaginados, mas rigorosos, da arte moderna”.

Os críticos explicam que, enquanto o cotidiano é tratado de forma sublime, na sua mais simbólica verdade, o mistério é tratado com familiaridade minuciosa e objetiva, que o aproxima da sensibilidade cotidiana, ou seja, “o poeta conquistou a posição-chave que lhe permite compor o espaço poético de maneira a exprimir a realidade do mundo e as suas mais desvairadas projeções”.

Em 1967, a partir da obra Poesia completa e prosa, Sérgio Buarque de Holanda trata da singularidade poética de Bandeira, que advém da não- obediência a nenhum programa definido e não se prende a nenhum compromisso estético, ainda que atraído pelo movimento modernista. Para Holanda (1967, p. 13), a poesia bandeiriana percorreu um longo caminho até chegar à concretude modernista:

A popularidade atual de sua poesia não se fez, aliás, rapidamente, pois sujeita, embora, a uma técnica extremamente cultivada, ela não visa ao efeito exterior, e muitas vezes se dirige tanto ao sentimento, ao “coração”, como a regiões menos exploradas da alma.

Holanda (1967, p. 14) declara também que o lirismo de Bandeira “não é produto de laboratório, mas vem, como toda verdadeira poesia, de fontes íntimas, exigindo, para realizar-se, condições que não se podem forjar arbitrariamente”.

Sua obra é uma condensação da tradição clássica com a moderna, em busca de novos ritmos e de total liberdade de criação. Para o crítico, essa ambição libertadora de Bandeira “não conhece as fronteiras do ‘bom gosto’ ”. Ao contrário, ela o impulsiona a criar em profusão, associada ao domínio da técnica. Ele não se prende a nenhuma regra, ao contrário, molda-se livremente às tendências da época e, com sua experiência poética, cria de acordo com o momento cultural e histórico.

Manuel Bandeira pertence à geração que se manifesta mais ativamente no modernismo brasileiro. Holanda (1967, p. 16) define bem como é o poeta Bandeira:

Ele é tudo menos um fotógrafo. O mundo visível pode fornecer as imagens que hão de animar sua poesia, mas essas imagens combinam-se, justapõem-se, de modo imprevisto, coordenadas às vezes por uma faculdade íntima cujo mecanismo pode escapar-nos. E escaparia, não raro, ao próprio poeta. Essa faculdade, resistente a qualquer análise meticulosa, ajuda-o a abordar os temas vulgares e até prosaicos, conservando-se, no entanto, inconfundível e só aparentemente imitável.

Em “Não sei dançar”, o poeta resume toda a sua evolução anterior: “Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria”; e por isso declara, em poema posterior (“Poética”): “— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”.

Suas poesias são de profunda evocação, subjetivas e íntimas, como em “Evocação”, “Profundamente”, “Poema de Finados” e “Noite morta”. Holanda acaba por definir a trajetória da poesia bandeiriana como uma insistente luta para transcender-se. A mudança dos elementos do mundo visível para o mundo poético permite um tom intimista, melancólico, dependendo do estado de alma do poeta, o que Sérgio Buarque de Holanda (1976, p. 18) sagazmente apreende:

Essa transfiguração dos acidentes do mundo visível nas imagens da vida íntima e pessoal pode adquirir, não raro, um timbre monótono, e não é para admirar se o poeta chegou quase a desenvolver um verdadeiro sistema de referências simbólicas, cujo sentido se alterna segundo os estados de alma que procura refletir.

Nos poemas, há uma assimilação dos acidentes do mundo exterior, no início, associado ao seu próprio mundo íntimo. Esse esforço decisivo para ultrapassar essa condição inicial termina, com efeito, com uma derrota: “O meu carnaval sem nenhuma alegria!...” A palavra alegria conjuga-se, muitas vezes, ao constante intento de superar a própria situação particular.

Holanda conclui que, dentre todas as propostas do modernismo, as soluções libertárias foram as que lhe pareceram corresponder à sua forma de expressão poética. Liberdade e objetividade tornaram-se termos rigorosamente correlatos. Manuel Bandeira jamais se deixou seduzir pelos hermetismos e estetismos, que constituem formas aristocráticas de reclusão, intoleráveis para quem aspira a vencer, pela poesia, sua própria reclusão e confinamento. É a partir dessa atitude precisa, de quem sabe o que busca, que a crítica apontou Bandeira como aquele que traz consigo uma poesia original e, portanto, um modelo a ser seguido.

Um outro estudioso da poesia bandeiriana é Murilo Marcondes Moura, que recupera a divisão da obra de Bandeira em três grandes momentos: o primeiro, obras de 1917 a 1924, com vínculo neoparnasiano e neosimbolista, já com vínculos receptivos a procedimentos modernistas; o segundo, de 1930 a 1936, obras de “cristalização” modernista; e o terceiro, de 1948 a 1963, fase de certa estabilidade criadora, de completa maturidade. Para o crítico, essa forma de divisão permite visualizar os momentos principais da poesia brasileira do século XX, do chamado pré-modernismo às vanguardas da década de 1950.

Para Moura, Libertinagem é a obra de “cristalização”, uma ponte de passagem das três primeiras obras. A proposta modernista contida nos poemas mescla o prosaico com o poético, sendo o verso livre uma das manifestações, como em “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Ainda segundo Moura, o poeta, muitas vezes, delicia-se em criar poesia, não tirando- a de si, dos seus sentimentos, dos seus sonhos, das suas experiências, e sim “desgangarizando-a”. Esse estilo diferente de fazer poesia relaciona-se a um

projeto maior de nosso modernismo, ou seja, o de representar e compreender a realidade brasileira.

Outra importante crítica, da década de 1970, é o ensaio de Haroldo de Campos intitulado “Bandeira, o desconstelizador”. O destaque é para a função desconstelizadora presente na poesia de Bandeira, que atua sob duas formas: a primeira, “como geradora da particular ‘mockery’ do poeta, em poemas de linha coloquial-irônica”; a segunda

como suporte de certa poesia de simplicidade emocional quase tocada pela trivialidade, que no entanto se sustenta admiravelmente em tênues linhas de força graças ao efeito de singularidade obtido pelo poeta com o arranjo novo dessas aparentes banalidades sentimentais. [Haroldo de Campos,1970, p. 104]

Outro crítico imprescindível para entender a atitude humilde do poeta é Davi Arrigucci Jr. No ensaio “O humilde cotidiano de Manuel Bandeira” (1983), editado na obra Enigma e comentário (1987), o crítico ressalta que a compreensão dessa “atitude humilde” é um problema complexo da obra de Bandeira.

O primeiro aspecto abordado nesse ensaio é a reação de estranhamento e de perplexidade diante dos poemas, o que leva a questionamentos diversos devido ao estado de completa confusão em que se encontra o leitor, ao tentar entender sua atitude humilde. Atitude que pode ser explicada pelo desejo que o poeta tem de “despojamento e redução ao essencial”, tanto nos temas como na linguagem. Essa questão poder ser encarada, segundo Arrigucci, pela convivência do poeta com a pobreza. A partir daí, o poeta adquire serenidade, o que o leva a conceber concretamente o poético, convertendo seu modo de ser num modo de ver a vida e de fazer a poesia. Para Arrigucci (1987, p. 10), essa concepção primeira que Bandeira tem do fazer poético origina-se de

[...] uma atividade do espírito, em momentos de súbita iluminação, concretizada em obras feitas de palavras. E trata-se de uma poética centrada num paradoxo: o da busca de uma simplicidade em que brilha oculto o sublime.

Para o crítico, a simplicidade existente na poesia bandeiriana não oculta o sublime, e sim desnuda-se por meio dela. Sua poesia nasce no mais humilde cotidiano. Devido a essa característica, Bandeira recebeu denominações variadas. Davi Arrigucci Jr. trata de uma simplicidade “difícil de entender”;

Casais Monteiro, de uma “pobreza voluntária” do Bandeira maduro; e Álvaro Lins, da “pobreza franciscana”.

A década de 1920, de acordo com Arrigucci (1987, p. 10), foi um período decisivo para a constituição dessa atitude fundamental, fruto de um processo de amadurecimento do poeta, ao longo de sua experiência de vida. Essa postura “se assemelha à prática de um artesanato interior, que se processasse como modelagem da subjetividade em sua relação com o mundo”.

Para Arrigucci, Bandeira abandona a marca da emotividade, encontrada nas primeiras obras, como um ser marcado pelo sofrimento, um ser elevado, sublime, e fixa-se junto ao chão do mais humilde cotidiano. É para o mundo e para a vida que o poeta se entrega, para doar-se plenamente na forma poética, na qual a poesia poderá captar e mostrar seus raros momentos. É nesse movimento que “surge um sujeito evasivo que representa propriamente uma objetivação do eu, uma ruptura das defesas e barreiras para o exterior” (1987, p. 12), deixando o meio circundante penetrar com ousadia no seu eu.

O poeta, declara ainda o crítico, deixa-se envolver pela liberdade da poesia moderna, e passa a dialogar com seres e coisas do mundo, numa linguagem comum, realizando uma dança com o acaso, de verdadeira libertinagem. Para Arrigucci (1987, p. 12), a poesia de Bandeira nasce

no mesmo plano da materialidade do corpo, como uma autêntica “iluminação profana”, um alumbramento. É quando se subverte a banalidade da existência, o lugar-comum se muda num insólito mais real do que o real e se produz o estranhamento do novo [...]

Em um outro estudo, intitulado “Humildade, paixão e morte: a poesia de Manuel Bandeira”, Davi Arrigucci (1990, p. 52-53) revela que a afinidade profunda entre o poeta e o aspecto da realidade só foi possível de materializar- se poeticamente com o advento do modernismo:

[...] esse modo de conceber a literatura não se desprende da direção tomada pela literatura brasileira durante o modernismo. Uma das características fundamentais do período modernista, quando se define, afirma e enriquece extraordinariamente a obra de Bandeira, sobretudo a partir de Libertinagem, na década de 30, é que a vida de relação, tal como se mostrava no dia-a-dia, se

torna matéria literária.

Em 1993, a crítica Yudith Rosenbaum publica um importante estudo intitulado Manuel Bandeira: uma poesia da ausência. O estudo tem como foco

de interesse a ausência como um tópos maior do autor. Para a crítica, a poesia de Bandeira, de modo geral, “tematiza expressivamente uma dificuldade em superar as perdas que marcaram a sensibilidade poética de Manuel Bandeira” (p. 22). Essas perdas, tidas como uma “experimentação particularmente sofrida da vida” (tuberculose precoce, perdas sucessivas de mãe, irmã, pai e irmão), teriam alimentado um “núcleo pulsional e criativo em que o fazer poético” se tornou “uma possibilidade de recompor a integridade perdida”. É do convívio solitário e das experiências vividas que o poeta extrai imagens que acabam por materializar essa “ausência”.

A obra de Bandeira, segundo Rosenbaum, percorre várias vertentes estilísticas: parnasianismo, simbolismo, penumbrismo, as vanguardas européias e o modernismo brasileiro. Mas é na guinada modernista que o poeta se impõe decisivamente, incorporando e superando traços anteriores. Para ela, Bandeira soube “safar-se de todas as camisas-de-força das várias escolas, forjando um caminho próprio inconfundível” (p. 24).

O poeta foi invadido por “ventos renovadores” a partir de Libertinagem, já que os aspectos modernistas são evidentes. A geração modernista teria, segundo Rosenbaum (1993, p. 29), impregnado

o poeta de mais de trinta anos com sua revolta contra a tirania métrica, sua mensagem irônica, coloquial, prosaica, seus exercícios lúdicos e humorísticos, recém-saídos da “libertinagem” das vanguardas européias.

Também a estética maior bandeiriana “sempre esteve marcada por uma postura de combate à rigidez da forma e um constante ‘experimentalismo’ consciencioso das múltiplas possibilidades lingüísticas” (p. 30). São exemplos dessa versatilidade as incursões do poeta pelos caminhos concretistas na década de 1950.

A poética de Bandeira, segundo a autora, mesmo depois da fase heróica do modernismo, não abandonou o compromisso maior entre arte e realidade. Depois da primeira fase modernista, a progressão dessa obra “mostra uma crescente impregnação da experiência na poesia, um voltar-se à realidade cotidiana” (1993, p. 30), na qual a poesia se torna “cada vez cheia de tudo”.1 Há “uma recriação dos traços circundantes de forma a torná-los bandeirianos”,

1

dando-lhes nova vida, nova essência formal no corpo da poesia. Rosenbaum afirma ainda (1993, p. 31) que

o espírito modernista deu o instrumental necessário para Bandeira livrar-se de um encerramento de caráter melancólico, sevindo-se dos elementos mais libertadores para anistiar a si mesmo.

Bandeira sempre foi, para a crítica, um poeta aberto a inovações estéticas, mas “soube preservar — e resgatar quando assim ditasse sua arte — as aprendizagens passadas” (p. 24).

O crítico Otávio Faria (1980, p. 122), no ensaio Estudos sobre Manuel

Bandeira, explica que, em Libertinagem, “tudo fala num mesmo sentido e esse

sentido, uma palavra o sintetiza: libertação. O poeta põe resolutamente de lado o sofrimento, decide ser feliz, livre, inconseqüente”, como afirma em “Vou-me embora pra Pasárgada”, lugar de “reino estranho”, “onde tudo é fácil e a existência, uma aventura ‘inconseqüente’ ”. O eu poético deixa para trás a tristeza, o sofrimento, com suas complicações e parte para um mundo com inúmeras possibilidades de ser feliz.

Sob a perspectiva formal, o crítico Leônidas Câmara (1980, p. 166-67), em A poesia de Manuel Bandeira: seu revestimento ideológico e formal, afirma