1.3 Observations martiennes
1.3.1 Structures g´ eomorphologiques et ` eres g´ eologiques
Com Getúlio Vargas a ocupação da Amazônia passava a ganhar novo significado para o Estado Nacional. Em discurso pronunciado de Manaus para a nação brasileira em outubro de 1940, quando em visita à região, dizia ele:
O período conturbado que o mundo atravessa exige de todos os brasileiros grandes sacrifícios. [...] Aqui na extremidade setentrional do território pátrio, sentindo essa riqueza potencial imensa, que atrai cobiças e desperta apetites de absorção, cresce a impressão dessa responsabilidade a que não é possível fugir nem iludir.125
O mundo vivia uma crise e, nesse contexto, as riquezas da Amazônia podiam despertar a cobiça internacional. Como se sabe, na ocasião se desenrolava a Segunda Guerra Mundial e, para Vargas, os possíveis desdobramentos que esse acontecimento deixava antever requeriam mudanças no projeto que até então havia orientado as práticas de ocupação de seu espaço físico. “Ao homem moderno, está interdita a contemplação, o esforço sem finalidade. E a nós, povo jovem, impõe-se a enorme responsabilidade de civilizar e povoar milhões de quilômetros quadrados.”126
Para uma vila acanhada, situada na fronteira mais setentrional da Amazônia, essa orientação parecia prenunciar uma nova idealização para Boa Vista, pois “Onde somente a selva existia; onde imperava o primitivismo da vida; as riquezas naturais pedindo o trabalho do homem, rasga-se hoje uma cidade moderna”127. Boa Vista aparecia como expressão do governo central em seu diálogo, preso a um contexto mundial. Uma nova configuração desse espaço entrava em pauta, impondo à cidade a busca de novas representações conduzidas por preocupações de novos gestores, as quais fugiam ao seu contexto tradicional.
Em julho de 1944 desembarcava em Boa Vista o capitão Ene Garcez com sua equipe para implantar e governar o Território Federal do Rio Branco. Ao relembrar esse momento, comentava Garcez que, na ocasião, se instalou na Prelazia, ocupando um prédio dividido com os padres. De acordo com ele, quase foi convidado a instalar o governo naquele prédio –
125 VARGAS, Getúlio. Discurso do rio Amazonas. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, abr.- jun./1942, p.259.
126 Ibidem, p.262.
portanto, em perfeita sintonia com o bispo, autoridade máxima da Igreja Católica local. Entretanto, afirmava que, para que isso ocorresse, houve a interferência dos “coronéis” Adolfo Brasil e Homero Cruz, com os quais Ene Garcez disse ter feito amizade – por sinal, tinha como seu auxiliar um genro deste último –, bem como que as pessoas que recrutava para o quadro administrativo tinham indicação desses coronéis.128
Essas afirmações mostravam que, ao contrário dos beneditinos há três décadas atrás, quando, ao chegarem a Boa Vista, não encontraram ninguém lhes esperando, e até mesmo a casa colocada à sua disposição pelo comendador e comerciante J. G. Araújo havia sido alugada pelo seu procurador em Boa Vista, coronel Bento Brasil, para uma família de um comerciante português, os novos agentes de poder, então recém-chegados, como se pode perceber, foram recebidos de forma bem diferente pelas lideranças políticas locais. Isso parece revelar o grau de expectativa que os novos habitantes causavam na elite política da cidade, em ambos os casos, anunciando interferência no poder, para pior, no primeiro caso, e para melhor, no segundo.
Se na primeira fase a presença dos beneditinos apenas alterava a configuração do poder local, na segunda as forças políticas da cidade, inclusive religiosos, eram obrigadas a dividir o poder com o governo do Território, passando, inclusive, o comando administrativo a este. Todavia, o segundo caso abria expectativa de ganhos nos campos político e econômico, uma vez que a região saía da condição de município isolado de um estado pobre da federação e distante do centro das decisões para a dependência direta do poder central. Dessa forma, a fusão de interesses das diferentes forças políticas existentes em Boa Vista com o novo agente de poder do Território mostrava indivíduos e instituições se unindo num mesmo projeto de governo, em que o poder local se reconfigurava para manter a mesma ordem social.
Assim, as lideranças políticas já existentes permaneciam na esfera do poder e, salvo a inclusão de alguns indivíduos nesse grupo por parte do governo do Território e algumas alterações impostas pela forma de funcionar da nova instituição administrativa, o poder seguia concentrado nas mãos das mesmas pessoas, uma vez que os coronéis e chefes políticos locais eram apenas forçados a conciliar suas autoridades com o representante da Presidência da República, agora presente na figura do Governador do Território. Dessa maneira, nas relações de poder, a implantação do Território Federal do Rio Branco pouco significou para as
128 FREITAS, Aimberê. A história política e administrativa de Roraima de 1943 a 1985. Manaus: Umberto Calderaro, 1993, p.37.
camadas populares, à exceção da expansão da máquina administrativa, que passou a requisitar um número maior de funcionários.
Entretanto, com a implantação do Território e, posteriormente, com o período militar a partir da década de 1960, “O caráter local pecuário, que se formou no século 19 e primeiras décadas do século atual, é subjugado pelo rolo compressor do poder central (burocracia urbana e poder das repartições federais)”. E, “Como uma cidade que recebe migrantes de todo o país, [...] Boa Vista apresenta um caráter nacional, onde dificilmente se pode identificar um perfil regional dominante”129. Com isso,
A “cidade velha” e lusitana dos tempos da pecuária exclusiva e dos primeiros esforços de mineração, remanesceu no declive do terraço ribeirinho, mirando o rio Branco, enquanto o estado federal tratou de construir uma nova cidade na superfície quase perfeitamente plana e monótona, de campos, com horizontes sem fim, em cuja direção iam as vias radiais, e dando as costas aos detalhes caprichosos dos níveis dos terraços ribeirinhos, das sinuosidades das margens do rio, e do verde da floresta ciliar do rio Branco.130 (ver Figuras 4 e 5)
Para esse autor, a primazia de Boa Vista na região do rio Branco se devia ao “[...] seu papel de símbolo da vontade do poder central no extremo do país” e, assim, a cidade entrou em novo processo de urbanização. A partir de então, passava a ganhar ares modernos, distanciando-se das práticas regionais e do rio, retirando a cidade de Manaus da posição de espelho. A população de Boa Vista agora se voltava para o Rio de Janeiro, tomando a então capital do país como modelo.
As figuras a seguir levam a pensar nas memórias da cidade de Boa Vista como divididas em dois períodos distintos: de um lado, as memórias da antiga vila interiorana, dos criadores de gado bovino, vinculada ao estado do Amazonas e, portanto, sem função de sede de decisões políticas; e de outro, as memórias da cidade moderna que começava a se formar a partir da criação do Território, soterrando, posteriormente, com uma invasão de migrantes e novas atividades, o antigo vilarejo, em um movimento promovido diretamente pelo Governo Federal.
129 BARROS, Nilson Cortez Crocia de. Roraima: paisagens e tempo na Amazônia setentrional. Recife: Universitária, 1995, p.149.
Figura 4 - Planta da Vila de Boa Vista do Rio Branco – 1924.131
Figura 5 - Maquete do Plano Urbanístico de Boa Vista (Traçado Urbano / Radial concêntrico) – 1944.132
As grandes mudanças só se efetivaram após a implantação do regime militar, quando Roraima adquiriu importância geopolítica em razão da complicada situação política no Caribe e das reformas administrativas no Governo Federal.133 Mais uma vez a cidade aparecia como
131 VERAS, Antonio Tolrino de Resende. A produção do espaço urbano de Boa Vista - Roraima. Tese (Doutorado em Geografia Humana), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009, p.57.
132 Ibidem, p.95.
133 SANTOS, Nelvio Paulo Dutra. Políticas públicas, economia e poder: o Estado de Roraima entre 1970 e 2000. Tese (Doutorado em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido - PDTU), Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará, Belém, 2004.
expressão do Governo central em seu diálogo com o contexto político mundial. No que diz respeito à influência dos militares para o desenvolvimento da cidade:
Na região de Roraima, é a partir dessa época, 1964/65, que tudo começou a acontecer de modo decidido e permanente. Só após 1964 Roraima conseguiu a implantação das rodovias Manaus-Boa Vista- Marco Bv-8 e Boa Vista-Bonfim-Fronteira com a Guiana, que quebrou o isolamento sazonal provocado pelo rio Branco. Desse período é também a modernização da Cidade de Boa Vista, com o asfaltamento de todas as ruas centrais, a Companhia Telefônica, a água potável para 90% da população, a luz elétrica regular nas residências, a modernização da estrutura organizacional do Território e a instalação de unidades militares maiores do Exército e da Aeronáutica.134
A exemplo de Freitas, os memorialistas locais davam visibilidade às ações desenvolvidas pelos governos do Território e, com isso, o período militar, ao contrário do que ocorreu na maioria das capitais brasileiras, ganhava significado marcante para a sociedade boa-vistense, permitindo, em boa medida, a incorporação das realizações desses agentes à história dos “pioneiros” na região.
Para Souza, a presença do Governo central em Roraima era um anseio antigo do seu povo, pois: “Desde longo tempo já se havia reclamado maiores atenções do Governo Federal para as distantes paragens amazônicas, em face das rudimentares condições de vida que vinha experimentando o Homem, em região tão importante, dada a sua situação geográfica de zona fronteiriça.”135 Escrevia ele em 1979:
Hoje, felizmente, começamos a experimentar as vantagens de um Roraima integrado na senda do desenvolvimento sócio-econômico e cultural. Boa Vista, cidade das construções de pontes sobre rios caudalosos, cidade das ruas asfaltadas, cidade urbanizada em forma de leque, a maior do hemisfério Norte do Brasil, já conhecida como a Capital da integração.136
134 FREITAS, Aimberê. A história política e administrativa de Roraima de 1943 a 1985. Manaus: Umberto Calderaro, 1993, p.16-17.
135 SOUZA, Antônio Ferreira de. Roraima: fatos e lendas. Boa Vista: Gov. do T. F. de Roraima, 1979, p.44. 136 Ibidem, p.46.
E, pontuando as melhorias na condição de vida na cidade, lembrava a educação, ressaltando o seu “ensino moderno”, “com professores capacitados”. Nos transportes, citava um “aeroporto internacional moderno, dentre os melhores do Brasil”, e a ligação via terrestre internacional com a Venezuela e República da Guyana, além da ligação com Manaus. E seguia com sua lista de construções modernas que embelezavam a adolescente cidade:
Edifícios como o da Delegacia da Receita Federal, do Palácio da Justiça, do Banco do Brasil, da EMBRATEL, dos Hotéis: Tropical e Praia Palace, o Palácio da Cultura, a Catedral Cristo Redentor, o Estádio Canarinho, conjuntos residenciais de elevado padrão para civis e militares vêm transformando os lavrados da capital roraimense em cidade moderna, que diz do vertiginoso progresso no desenvolvimento de Roraima e dá um toque de beleza à cidade menina-moça do Brasil-Norte.137
Na sua avaliação, Boa Vista tinha passado a dispor de todos “os requisitos necessários para o conforto de seus habitantes [...]: serviço de água, esgotos, hospitais, escolas – tudo dentro de um planejamento que prevê inclusive, o crescimento da cidade, nos próximos 10 anos”138. Entretanto, em relação à rede de esgoto, por exemplo, na década de 1980 se limitava à área central da cidade.
Para Magalhães, a criação dos territórios foi a salvação dessas regiões, uma vez que indagava: “Que seriam essas imensas áreas se não tivessem sido transformadas em Territórios Federais?”139 E, sobre as mudanças ocorridas na cidade, recitava nos versos do poema “Ode à Boa Vista”, de sua autoria:
Tu eras antigamente Bem humilde, bem singela. Tu não tinhas avenidas Cada rua era viela
Mas chegando aqui o progresso Te tornaste altiva e bela140
137 SOUZA, Antônio Ferreira de. Roraima: fatos e lendas. Boa Vista: Gov. do T. F. de Roraima, 1979. 138 Ibidem, p.06.
139 MAGALHÃES, Dorval de. Roraima: informações históricas. Rio de Janeiro, 1997, p.62. 140 Ibidem, p.159.
Como é notório, para seus memorialistas, a criação do Território Federal de Roraima, assim como a ocupação do poder pelos militares em 1964, colocou a cidade de Boa Vista em uma fase de desenvolvimento urbano sem precedente em sua história. Retirando os exageros por força de expressão dos memorialistas, a partir da década de 1960 as alterações na cidade ganharam relevo e força, com novos prédios, ruas, praças e práticas sociais tomadas enquanto fatores modernos, símbolos da vontade do governo central em integrar a região ao país. Vontade que, em nível local, se expressava e se revelava diretamente na pessoa do Governo do Território, realçando, para além desse personagem, as elites política e econômica, incluindo os pecuaristas da região, assim como militares.
Nesse quadro, a cidade inteira se transformava em monumento, em uma ausência/presença do Governo Federal141, e, de forma emblemática, os principais prédios da cidade foram se concentrando em torno de uma grande praça circular que veio a se tornar o centro da cidade (ver Figuras 4 e 5), dando visibilidade ao novo poder e destacando-se, mais recentemente, com a construção de uma antena da empresa Telefônica, atuando como orientação visual.
As “medidas de impacto” produzidas por uma política de integração da Amazônia ao contexto nacional levada a efeito pelos militares abrangeram toda extensão do Território Federal de Roraima, se materializando, além da cidade, na construção de pontes, estradas e assentamentos rurais que envolveram toda a sua população. Entre as estradas, a conclusão das obras da BR 174, que em 1977 passava a ligar Manaus a Boa Vista e Boa Vista a Santa Elena do Uairén, na Venezuela, se tornou prioridade entre os investimentos.
No que se refere a Boa Vista, a cidade passou por transformações que mudariam a própria geografia do poder. As mudanças que haviam começado na década de 1940, com o planejamento feito por Darci Aleixo Deregusson, engenheiro formado pela Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil, hoje UFRJ, no primeiro governo do Território, ganharam intensidade no período militar e a Praça do Centro Cívico alcançou expressão, uma vez que:
141 A representação nesse sentido pode ser vista nos trabalhos de Chartier e Pesavento. CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: DIFEL, 1990. PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & história cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
[...] o novo traçado da cidade previu um importante deslocamento do centro do poder para um ponto pouco mais distante da orla. Antes representado pelo Prédio da Intendência e localizado à margem do rio, esse centro seria abrigado ainda em paralelo ao rio Branco, em terreno destinado a compor uma praça central em que se alocariam os três poderes.142
Dessa forma, os órgãos do poder, ao se concentrarem em um novo espaço da cidade, tornaram-se seu centro, transformando-se em referência local:
Todas as mais importantes avenidas de acesso aos bairros começam nela e, com isso, se pode partir dali diretamente para as zonas oeste, norte e sul da capital (a leste está o rio). Em termos de sentido do tráfego, essas avenidas possuem mão dupla e transitando por elas tanto se sai como se chega ao Centro Cívico [...].143
Centro que, a partir de então, passou a ser constituído em forma de um grande círculo, tendo ao centro o Palácio do Governo e no seu entorno:
[...] em sentido horário, [...] Hotel Aipana Palace (antigo Boa Vista), Catedral Cristo Redentor, Palácio da Justiça, Fórum Sobral Pinto, Banco do Brasil, Secretaria Estadual da Educação, Secretaria da Fazenda Federal, Tribunal de Justiça, Assembleia Legislativa, Correios, novo Palácio da Cultura e sede do Banco da Amazônia, instalou-se em ampla e plana área onde durante muito tempo o que existiu foi um areal.144
Surgidas a partir do final da década de 1960, as construções que deram contorno à Praça foram apresentadas enquanto obras modernas. No seu conjunto realçavam o clima de “Brasil Grande” dos governos militares e se mostravam como sinal inequívoco da chegada do progresso.
142 MARTINS, Elisangela. Memória do Regime Militar em Roraima. Dissertação (Mestrado em História), Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2010, p.86.
143 Ibidem. 144 Ibidem, p.87.
Figura 6 - Evolução do espaço urbano de Boa Vista – décadas de 1920 a 1980 (IBGE, 1981).145
Para dar expressão a essa nova estrutura física da cidade e apropriá-la aos anseios dos novos gestores, as principais comemorações foram deslocadas do Largo da Matriz, junto ao rio Branco, para a Praça do Centro Cívico, como a sinalizar o novo lugar dos donos do poder em Boa Vista, agora fomentado pelos órgãos públicos, o que lhe dava um caráter cívico e oficial, em detrimento das celebrações de cunho religioso financiadas por fazendeiros e pela Igreja Católica. Estas perderam expressão diante daquele que tinha como principal fomentador os governos nomeados pelos militares.
Nesse novo cenário, com desfiles de militares e de alunos comemorava-se a “Semana da Pátria” e a “Semana do Território”, eventos que contavam com a presença do governador, do prefeito, do bispo e de comandantes de unidades militares com os seus respectivos acompanhantes. Além disso, se realizavam jogos escolares, torneios esportivos e bailes anualmente no Palácio do Governo em homenagem ao aniversário do Território.146
145 VERAS, Antonio Tolrino de Resende. A produção do espaço urbano de Boa Vista - Roraima. Tese (Doutorado em Geografia Humana), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009, p.160.
146 MARTINS, Elisangela. Memória do Regime Militar em Roraima. Dissertação (Mestrado em História), Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2010, p.158.
Com base no Jornal Boa Vista, informativo de propriedade do Governo e único veículo local de comunicação escrita na década de 1970, observa-se que a participação dos alunos nos desfiles era organizada pela Secretaria de Educação do Território, à qual cabia definir o tema a ser realçado em cada evento. Tais temáticas, procurando expressar o contexto político de cada momento, terminavam ressaltando as ações governamentais ligadas a propagandas que vigoraram durante o Milagre Econômico. Entre os assuntos enfatizados estavam aspectos do desenvolvimento local e nacional, como a construção da BR 174, a construção de uma “Usina do Lixo”, as campanhas de educação para o trânsito, a abertura de estradas, a construção de hidroelétricas, a evolução dos meios de comunicação.
Quanto ao número de pessoas envolvidas nessas manifestações, em 1976, o Jornal Boa Vista de 18 de setembro registrava que cinco mil haviam assistido ao desfile de 13 de setembro e que a Secretaria de Educação havia mobilizado cerca de mil alunos das unidades escolares. Já em 1978 o mesmo veículo, na edição do dia 22 de setembro, falava que quase seis mil pessoas tinham desfilado no 7 de setembro, e a edição de 6 de outubro acrescentava que outras oito mil “disputavam palmo a palmo os lugares em volta da pista de desfiles”147.
Verifica-se que, se a organização das festas religiosas dos tempos mais distantes propiciava encontro dos moradores da redondeza na Vila, favorecendo a sociabilidade que alimentava a identidade dos moradores da Vila de Boa Vista, bem como legitimava e fortalecia o poder nas mãos dos fazendeiros e líderes políticos, os desfiles e comemorações da década de 1970 proporcionavam a exibição alegórica das dimensões do próprio poder então já legalizado e fortemente instituído na cidade. Esses eventos, por um lado, ressaltavam as ações do governo, dando visibilidade à imagem de seus líderes, e, por outro, ao proporcionar o envolvimento da comunidade na organização ou mesmo como espectadores dos eventos, davam ao governo um aparente caráter democrático de participação civil e aceitação pela sociedade local.
Como já enfatizado, a partir da implantação do Território, a administração da região, enquanto vontade do governo federal, tinha sua base de legalidade distante de Boa Vista. As comemorações apenas lhe davam mais visibilidade e, possivelmente, mais adesões. As forças políticas locais tinham duas opções: ou se alinhavam ou se mantinham afastadas do governo. Neste último caso, ocupando no máximo a posição de uma pálida oposição.
147 MARTINS, Elisangela. Memória do Regime Militar em Roraima. Dissertação (Mestrado em História), Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2010, p.161-162.
Entretanto, entre o Governo do Território e a elite local se manteve uma relação de reciprocidade. De um lado, as forças políticas locais se aproveitando da plataforma de um