1.3 Observations martiennes
1.3.2 Caract´ erisation min´ eralogique par les observations orbitales et in situ
1.3.2.4 D´ etection d’oxydes et d’(oxy)hydroxydes de fer
Como se pode perceber, até aqui este capítulo girou em torno dos esforços empreendidos pelos membros das famílias dos considerados “pioneiros” na região do rio Branco com o objetivo de dar consistência à identidade do roraimense e, por conseguinte, do boa-vistense. O presente tópico evidencia ameaças a essa identidade, pois, para além dessas memórias, revela o que lhe escapava, levando em conta que:
Toda identidade tem, à sua "margem", um excesso, algo mais. A unidade, a homogeneidade interna, que o termo "identidade" assume como fundacional não é uma forma natural, mas uma forma construída de fechamento: toda identidade tem a necessidade daquilo que lhe "falta" - mesmo que esse outro que lhe falta seja um outro silenciado e inarticulado.149
É, portanto, na condição de “algo mais” na constituição da identidade dos “pioneiros” na região do rio Branco que se pensa nos povos indígenas de Roraima, que começaram a se organizar politicamente a partir da década de 1970. Nesse entendimento, esses grupos são vistos como parte e excesso, aquilo que escapa, algo silenciado nas memórias trabalhadas anteriormente.
149 HALL, Stuart. Quem precisa de identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2007, p.110.
Nesse contexto, as lideranças indígenas recorriam às suas memórias na produção de uma identidade própria, que ganhou consistência nas últimas décadas do século XX150, em um esforço para obter visibilidade enquanto grupo e vigor para fazer frente à sociedade local. Tratava-se de um momento em que ganhava força o processo migratório em direção a Roraima, aumentando substancialmente a população do Território e, com isso, intensificando as relações entre indígenas e não indígenas e, por conseguinte, os conflitos entre esses povos.
Tendo, de um lado, uma situação diversa diante dos avanços da sociedade local sobre seus territórios e, de outro, um passado cultural rico, recheado de mitos e práticas tradicionais, os indígenas de Roraima passaram a se organizar politicamente, retomando como principal ponto de apoio para a produção da uma imagem do índio as histórias de seus antepassados. Recorria-se em especial aos traços de memória situados em pontos conflitantes ou de contraste com as práticas e costumes da sociedade não indígena.
Com o apoio da Diocese, o Conselho Indígena de Roraima - CIR, instituição com sede em Boa Vista, publicou diversos documentos em que é possível encontrar traços de memórias que remetem à origem, organização social e à visão de mundo desses povos, mais especificamente dos Macuxi, principal grupo indígena local. Produzidos entre a década de 1980 e os primeiros anos de 1990, os relatos contidos nessas fontes estavam presos a um contexto social caracterizado por conflitos entre as comunidades indígenas e a sociedade local, motivados pela descoberta de ouro em Roraima e pelo consequente avanço dos regionais sobre as terras indígenas, como já mencionado.
Na construção de suas representações, os líderes indígenas recorriam ao seu passado, na busca de construir no presente uma identidade forte o suficiente para garantir a sobrevivência dos povos indígenas enquanto grupo étnico específico. Com relação às suas origens, uma cartilha intitulada “Raposa Serra do Sol: os índios no futuro de Roraima”, publicada pelo CIR em 1993, relatava que, conforme a tradição oral, os indígenas Macuxi e Ingaricó descendiam dos irmãos Macunaíma e Aniquê, os filhos do sol. A história começava assim:
150 Nas últimas décadas os historiadores têm se debruçado “sobre a memória de grupos diretamente sensibilizados pela questão do passado e de seu papel na formação e manutenção de uma identidade coletiva: memória do operariado, memória das mulheres, memórias dos judeus”. ROUSSO, Henry. A memória não é mais o que era. In: AMADO, Janaína; FERREIRA, Marieta de Moraes (Orgs.). Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1998, p.96.
Há muito tempo, Macunaíma e Aniquê encontraram a árvore Wazacá, a árvore da vida, onde floresciam todas as plantas atualmente cultivadas pelos índios, juntamente com as diversas espécies frutíferas silvestres que vicejam ainda hoje na região das serras que formam as vertentes da cordilheira Pacaraima e nos campos adjacentes.
Macunaíma, contrariando o irmão mais velho, Aniquê, derrubou a árvore Wazacá para comer os seus frutos, dando origem a atual conformação fisiográfica do mundo: os galhos ao caírem espalharam as diversas espécies vegetais pelas distintas regiões e de seu tronco jorrou uma torrente de água que formou os rios e lagos que vertem desde o Monte Roraima.
Naquele tempo em que as pedras eram moles, Macunaíma e Aniquê, em suas inúmeras peripécias por este mundo, moldaram as rochas, as cachoeiras, enfim os acidentes geográficos que caracterizam o território tradicional dos Macuxi e Ingaricó.151
A citação, como se pode observar, remete à origem da própria paisagem geográfica: vegetação, campos, serras, plantas cultivadas, rios, lagos, rochas, cachoeiras e, enfim, todos os acidentes geográficos – planícies, vales e montanhas – que caracterizavam o território tradicional dos Macuxi e Ingaricó. Não se tratava de um lugar comum, mas do lugar desses povos. Portanto, esse território já surgia com seus habitantes, que eram os próprios sujeitos produtores e divulgadores dessas narrativas.
Nesse sentido, a paisagem era cultura antes de ser natureza, pois consistia numa construção da imaginação projetada sobre mata, água e rocha. De forma que, a partir de uma determinada ideia de paisagem, um mito, uma visão se formava num lugar concreto, misturando categorias e tornando-as metáforas mais reais que suas referências, pois passavam a ser de fato parte do cenário.152
Mas a história não se encerrava apenas na produção dos aspectos físicos do lugar, uma vez que,
Desde aqueles tempos remotos, os filhos do Sol153 partiram do mundo dos humanos, deixando como legado aos seus descendentes, além da conformação física do mundo, um conjunto de conhecimentos
151 CIR - Conselho Indígena de Roraima. Raposa Serra do Sol: os índios no futuro de Roraima. Boa Vista: Conselho Indígena de Roraima, 1993, p.09.
152 SCHAMA, Simon. No reino do bisão Lituano. In: SCHAMA, Simon. Paisagem e memória. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p.70.
153 De acordo com essa publicação, a expressão “filhos do Sol” se refere a Macunaíma e Aniquê, pois na tradição oral dos Macuxi e Ingaricó esses personagens mitológicos são filhos desse astro.
envolvendo o domínio do fogo, padrões de comportamento, valores morais.154
Dessa forma, a construção não dizia respeito apenas à conformação física do lugar, mas a todo um mundo de valores e de conhecimentos que envolviam o uso de técnicas necessárias à sobrevivência nesse espaço e padrões de comportamento, que implicavam a própria maneira de estar no mundo.
Entretanto, nem tudo eram flores, haja vista que “Deixaram como herança também as pragas que assolam os vegetais, que atormentam os homens, as entidades que lhes infligem infortúnios”. Logo, se tratava de um mundo de desafios, demandando criatividade para sobreviver às suas adversidades. Entretanto, para isso, contavam com outra parte do legado, “um precioso saber relativo aos procedimentos de cura com que as pessoas preservam a sua integridade”.155 Ou seja, se por um lado havia desafios, havia também os recursos necessários e formas de se relacionar com os contratempos.
Em um material de cunho didático organizado por professores indígenas a partir de histórias contadas pelos velhos da comunidade do Maturuca, região de serras no nordeste de Roraima, um dos volumes se referia à história de “Makunaimî” ou Macunaíma, principal personagem da mitologia Macuxi. Folheando as páginas dessa cartilha se encontram algumas das histórias desse personagem, delineando sua trajetória de vida e narrando vários episódios ao longo de sua existência.156 Ao observar suas ações familiares, se percebe que vivia em constante deslocamento pelo território dos Macuxi, no nordeste do Estado, pois no decorrer das narrativas são encontradas frases como: “A mãe o deu luz lá no pé da Serra do Marari. E lá ele se criou”; “A mãe se mudou daquele lugar para a Pedra Pintada”; “Depois de ter pensado se mudou para a beira do Cotingo”; “Eles chegaram a beira do Mau”; “Ele se mudou da Cachoeira do Mau para o Igarapé do Flexa e a laje do flexa”; “Ele falou e se mudou de novo para o Cotingo”; “Depois tornou a voltar para a beira do rio Tacutu. E se mudou de novo para o rio Cotingo”. Como se pode notar, tratava-se de uma vida nômade com práticas cotidianas da vida tradicional dos povos indígenas da região, pois estava sempre fazendo casa,
154 CIR - Conselho Indígena de Roraima. Raposa Serra do Sol: os índios no futuro de Roraima. Boa Vista: Conselho Indígena de Roraima, 1993, p.09.
155 Ibidem.
156 CIDR - Centro de Informação da Diocese de Roraima. Makuxi Panton - Histórias Makuxi. nº. 2. Boa Vista: CINTER - Conselho Indígena do Território de Roraima; CIDR - Centro de Informação da Diocese de Roraima, dezembro de 1988.
tampão, barragem, jiqui e canoa, além de constituir família, ficando explícito ainda que pescava e plantava mandioca.
Nessas histórias Macunaíma estava mais para um homem mortal do que para um herói sobrenatural, uma vez que apresentava um perfil de vida seminômade, vivendo em maloca – casa coletiva circular que assistia mais de uma família, característica desses povos. Seus gestos, suas ações, seu estilo de vida, tudo revelava uma trajetória de vida emblemática daquele povo. As narrativas mostram uma relação familiar dos indígenas com o meio ambiente, tão íntima que os convertia em um único conjunto: sujeitos e espaço físico. Assim, não existia uma relação fria entre o homem e a terra; não podia ser uma relação de propriedade, mas tratava-se do território do Vovô Macunaíma, onde este viveu, constituiu família, caçou, pescou, construiu habitações e, enfim, morreu legando o mesmo aos seus descendentes e, portanto, legítimos herdeiros.
Nessa relação com o meio, os acidentes geográficos eram conhecidos por nomes próprios, atribuídos a cada um pelo herói mitológico, revelando sua topografia e legitimando para os indígenas a herança dos seus antepassados:
Quando saiu de sua casa, deu nome ao lugar, chamado de Pedra
Pintada. [...] Deu nome à casa velha lá no Cotingo onde morou.
Depois deu nome do lugar da casa velha do animal dele, chamando o lugar de casa velha da Raposa. [...] O vovô Makunaima deu este nome desde aquele tempo.
Depois o levaram para o Boqueirão da Serra e desde aquele tempo seu nome é Boqueirão da Raposa.
Desde aquele tempo, até hoje ficou o nome de Cachoeira do Maú. Deu nome de Cachoeira da Barragem, Cachoeira da Panela e
Cachoeira do Jiqui.
E quando saiu onde morou deu ao Igarapé o nome de Igarapé do
Balde. [...]
E desde tempo em que vovô Makunaima deu nome, ficaram estes nomes dos igarapés.157
Esses relatos demarcavam o território desses povos, onde acidentes geográficos ganhavam nomes próprios e espaços físicos se transformavam em cultura, revelando e orientando um estilo de vida particular, em que o tempo ganhava calendário próprio, cujos
157 CIDR - Centro de Informação da Diocese de Roraima. Makuxi Panton - Histórias Makuxi. nº. 2. Boa Vista: CINTER - Conselho Indígena do Território de Roraima; CIDR - Centro de Informação da Diocese de Roraima, dezembro de 1988, p.14, 18, 20, 24 e 38.
períodos do ano eram representados pelo tempo da chuva, tempo da caça, tempo da pesca, tempo de plantar...158 Percebe-se que se tratava de um mundo acabado, ficando aos seus habitantes apenas a tarefa de utilizar não só o espaço físico, mas também um conjunto de normas e valores morais. Subentende-se que a própria organização social era um fato dado, já inserido em seu conjunto cultural, que apresentava todos os recursos de que necessitavam para viver.
No conjunto, essas histórias caracterizavam uma cosmologia própria que envolvia a maneira de ver, compreender, sentir e representar o mundo dos antigos indígenas. Logo, não se tratava de um aglomerado de indivíduos vivendo em um espaço do globo terrestre de forma aleatória, mas de um grupo que tinha uma origem particular e sua própria visão de mundo.
Mesmo escritas no tempo presente, essas narrativas tiveram origem num vasto conjunto de conhecimentos indígenas que remontavam às suas tradições orais. Ainda que levando em conta o grau de flexibilidade da oralidade, enquanto veículo de transmissão das tradições, pode-se imaginar que essas histórias vinham sendo contadas há várias gerações, talvez há séculos. Dessa maneira, os relatos não só constituíam um suplemento aos enunciados pedestres e às retóricas caminhatórias, mas, na realidade, organizavam as caminhadas, faziam a viagem antes ou enquanto os pés a executavam.159
Se os “pioneiros” se colocavam como herdeiros do espaço físico da região do rio Branco, se considerando continuadores do projeto de colonização portuguesa, por sua vez, as memórias indígenas trabalhavam a própria formação do espaço físico. Isso dava aos dois esboços de “ordem de lugar” na região bases de origem inteiramente distintas uma da outra.
Entende-se que, para as lideranças indígenas de Roraima das últimas décadas do século XX, essas narrativas tinham a finalidade política de legitimar territórios tradicionalmente ocupados por seus povos, pois, conforme os relatos, trata-se do território de seus antepassados, de seus ancestrais, possuidor de uma história própria que os legalizava enquanto sujeitos e legítimos ocupantes. Isso justificava e permitia o embate travado a partir da década de 1970, em que os indígenas vêm garantindo essa ocupação, forçando a saída de
158 CIDR - Centro de Informação da Diocese de Roraima. Makuxi Panton - Histórias Makuxi. nº. 3. Boa Vista: CINTER - Conselho Indígena do Território de Roraima; CIDR - Centro de Informação da Diocese de Roraima, dezembro de 1989.
159 CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1 - Artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 1994, p.200.
fazendeiros e posseiros e revitalizando traços de sua cultura que se encontravam em fase de extinção, juntamente com esses povos.