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5.2 Structure 3D estim´ ee ` a partir de la vitesse

5.2.1 Structure conditionnelle du deuxi` eme quadrant

Fonte: Própria (2015)

os homens irão se reunir na kuxex (casa cerimonial/homens) para praticar os rituais direcionados a um ou vários povos espíritos.

Num sábado pela manhã, eu realizava as últimas entrevistas sobre parentesco com o grupo doméstico de Delcida, uma das senhoras mais idosas e sábias da aldeia. Já havia criado uma rotina de conversas e conseguia circular plenamente por toda a comunidade. Costumeiramente, prestava favores em expedição de retirada de umbaúba, afinal, era um dos poucos na aldeia que sabia dirigir. Com o tempo estes favores se tornaram rotineiros, cada grupo doméstico marcava comigo durante um dia na semana. No dia anterior, havia sido o grupo de Delcida; no próximo sábado, seria o grupo de Renata.

Sentados no chão sobre a sombra de uma mangueira, os bisnetos de Delcida brincavam ao nosso redor, e a conversa fluía bem-humorada. Ela me mostrava como retirar a fibra de umbaúba para confeccionar bolsas e colares, ao mesmo tempo em que cantava uma canção que falava sobre o artesanato feminino. Pacientemente, sua filha Marinete me servia café e ajudava com a tradução dos termos que não conseguia entender. Era um daqueles momentos que se assemelhavam a uma visita na casa da avó. Supreendentemente, depois de ouvir vários assobios de longe, uma criança me procurou, dizendo que deveria ir a kuxex (casa dos homens). Sem saber o que estava acontecendo, o acompanhei e ao chegar encontrei o pajé Mamei, Isael e Gilberto conversando; eles notaram a minha presença, mas continuaram a falar entre si.

Achei estranho, era próximo de meio dia e não costumavam realizar nenhuma atividade nesse horário. Discursos inflamados surgiam a todo momento, de todos os lados. Não havia entonação de nenhum canto. O clima festivo e brincalhão que marcava todos os rituais havia mudado. Não sabia o que estava acontecendo, ainda não compreendia a língua para saber do que se tratava. Sem perceber, a kuxex se encheu como eu nunca havia visto. Jenipapo e urucum apareceram em grande quantidade, todos se pintavam e adaptavam suas vestimentas, tal como um preludio de um grande ritual.

Arcos e flechas começaram a tomar conta do espaço, os mais velhos concentrando suas expertises no acabamento, fixando as pontas das flechas e ajustando os arcos. Os mais novos, meio que sem rumo, tentavam ajudar de alguma forma. Pensei que seria uma grande expedição de caça, mas logo percebi pelo ânimo das pessoas que era pouco provável. Achei que poderiam estar preparando alguma filmagem e teriam pouco tempo, por isso a concentração e a seriedade.

uma guerra, iriam na fazenda vizinha vingar a agressão sofrida pela família de Renata que, ao passar próximo da estrada, fora surpreendida por bombas caseiras jogadas por um fazendeiro hostil ao grupo. Pelo preparo rápido, pelo engajamento das pessoas e pela quantidade de homens mobilizados, percebi que ocasiões como aquelas eram comuns. Essa não era a primeira vez que ocorria, e com certeza não seria a última.

Na minha mente, baseado na literatura que li sobre os Maxakali, a recusa de relação com os não indígenas, que os figurava como descendentes diretos de seres malignos, me colocava em uma situação delicada; só pensava que iria acontecer comigo, afinal, eu era um não indígena no meio de dezenas de indígenas mobilizados por vingança. Sendo antropólogo que trabalha no MPF, me associavam à justiça e à lei não indígena, o que me garantia um respeito/prestígio passageiro, mas não sabia avaliar se era suficiente para sobreviver a mais um dia de campo. Tinha esperança de que ao ser hospedado pela família de Isael, gozaria do respeito que um familiar possuía.

Ansiosos, perguntaram o que eu achava daquela situação e eu, com toda sinceridade, não sabia o que responder. Poderia falar que a justiça iria cuidar de punir o fazendeiro não indígena e que eles correriam um risco desnecessário, já que era conhecido que o fazendeiro andava armado; no entanto, sabia que a morosidade/arquivamento e mesmo a possiblidade do não encaminhamento de uma denúncia contra o fazendeiro seriam os resultados prováveis. Me limitei a responder que só estava lá como um visitante, e iria respeitar a decisão deles. A única coisa que pensava era correr para o orelhão e me despedir da minha esposa grávida, além de colocar um bom tênis e me aprontar para correr!

Depois de um tempo pude relaxar, finalmente haviam definido a minha posição: eu deveria levar minha máquina fotográfica e registrar tudo à distância. No fim do dia, para o meu alívio, um dos guerreiros mais ativos do grupo doméstico dominante dissuadiu o grupo a avançar. Argumentou que era melhor deixar com a polícia, sabiam que o fazendeiro estava armado e que já havia denúncia de outros casos. Ressentidos, combinaram que não iriam se vingar, mas essa seria a última vez. Saíram da kuxex já tarde da noite, e ainda sem conseguir digerir tudo que havia acontecido, fui dormir14.

O que concluí a partir de experiências como essas é que entre os Maxakali

ninguém representa ninguém e o valor de cada homem é mensurado tanto pela sua capacidade de compor alianças quanto por seu potencial de agressividade.

A situação relatada sintetiza o objeto dessa tese, ou seja, debato a sensibilidade jurídica (GEERTZ, 1998) e os dispositivos de conflitos entre os Maxakali na sua relação direta com a guerra e parentesco, avaliando a interferência da materialidade e da subjetividade de objetos como pano de fundo da relação com o universo não indígena.