3.2 Analyse statistique
3.2.4 Coh´ erence et corr´ elations en deux points
Considera-se que a oportunidade em participar nas atividades realizadas no âmbito da quarta edição do projeto Nós Propomos! Cidadania, Sustentabilidade e Inovação na Educação Geográfica, que decorreu no ano letivo de 2014/15, não podia ser ignorada como parte fundamental da formação inicial. A par das atividades de escola e da intervenção pedagógica realizada, soma-se a experiência desta participação, que promoveu uma aprendizagem que contribuiu para um futuro profissional mais competente e flexível, capaz de ter em consideração as necessidades dos alunos e dos contextos onde estes desenvolvem as atividades (Perret-Clermont & Perret, 2006). O desenvolvimento pessoal e profissional do professor passa, em cenários educativos pautados por uma lógica investigativa, pelo envolvimento e (re)interpretação que se faz do currículo (Stenhouse, 1991). Este autor refere ainda que esta posição, na construção da profissionalidade, pode contribuir para níveis de autonomia que se afastam de uma atitude conformada de um comum técnico, e que se aproxima de um profissional capaz de se adaptar às características e desafios das situações singulares. Considerações que são possíveis de observar no preâmbulo do atual Decreto-Lei n.º 43/2007 de 22 de fevereiro (AR, 2007), que define as condições necessárias à obtenção de habilitação profissional para a docência num determinado domínio.
O projeto Nós Propomos dirige-se aos alunos de Geografia (escolas públicas ou privadas) e pretende mobilizar os públicos escolares para a identificação de propostas de intervenção na sua localidade, almejando um desenvolvimento sustentável. Este propósito corporiza a promoção de uma cidadania territorial e reponde ao apelo de participação das populações locais nas decisões sobre o território circundante, contactando diretamente com os instrumentos de planeamento territorial, bem como à necessidade de práticas escolares comprometidas com a Educação em e para a Cidadania. É importante sublinhar este último aspeto no que respeita à oferta curricular nacional, na medida em que configura uma dinamização do Estudo de Caso, elemento obrigatório no currículo nacional. Neste sentido, identifica-se uma aproximação à teoria crítica de currículo, pois o referido projeto tem subjacente um nível de compromisso maior, com uma manifesta componente de cidadania, que procura envolver os múltiplos agentes educativos. Trata-se de uma tarefa que reclama o envolvimento pessoal, social e político, que não pode deixar de se refletir ao nível
da intervenção explícita e intencional da Escola neste assunto (Reis, 1997). Assim, o entendimento de cidadania abrange a prática da responsabilidade moral e cívica no contexto das comunidades nas quais se participa. Porém, a Escola, espaço da pluriculturalidade, da interculturalidade e da formação para formas de cidadania mais abertas e plurais, manifesta ainda algumas reservas a relações novas e, naturalmente, portadoras de muitas dinâmicas culturais (CNE, 2000). A execução deste projeto aposta na colaboração de diversas instituições (municípios e empresas), promovendo um enriquecedor estabelecimento de parcerias, sobretudo no estreitamento das relações entra a Escola e a Universidade.
Relativamente ao desenvolvimento deste projeto na Escola Secundária da Baixa da Banheira, pretendia-se: (1) identificar diversos problemas urbanísticos naquela área; e (2) encontrar propostas que os solucionassem. Os participantes foram alunos de uma turma do 11.º ano de escolaridade (N=11) e dois professores/investigadores: titular da turma e o candidato a Professor. Os instrumentos de recolha de dados utilizados foram: (1) a observação (registada por escrito e através de fotografias); (2) questionários; (3) entrevistas; (4) conversas informais; e (5) recolha documental. Os procedimentos de tratamento e análise de dados recorreram a uma análise de conteúdo de índole narrativa (Cladinin & Connelly, 2000), que permitiu traçar a história deste trabalho.
A visita de campo inicial, com recurso a um guião expressamente concebido para este efeito, permitiu identificar diversos problemas urbanos da comunidade onde os alunos vivem. Posteriormente, em grupo e autonomamente, em horários extraescolares, os alunos fotografaram locais que ilustravam esses problemas e elaboraram pequenas descrições. Estes materiais foram utilizados durante a planificação da última aula assegurada pelo candidato a Professor. Cada grupo selecionou três problemas, e as fotografias que os ilustravam, para os discutirem posteriormente em aula. Deste processo resultou a seguinte organização, por temas a abordar: infraestruturas (edificado degradado); ausência de infraestruturas infantis; fraca cobertura de transportes; e poluição (atmosférica e solos). Por vezes, diferentes grupos selecionaram o mesmo problema para discussão.
Além disso, por consenso, os grupos tinham de decidir qual destes problemas seriam selecionadas e para os quais iam conceber propostas. A escolha recaiu na ausência de infraestruturas infantis e, como tal, foi para este problema urbano que eles propuseram uma proposta de solução, que foi alvo de apresentação no Seminário
Nacional, que teve lugar na Reitoria da Universidade de Lisboa, no dia 4 de maio de 2015. Esta apresentação pública foi muito importante quer para os alunos quer para o candidato a Professor. Para eles, porque perceberam que avaliadores externos do projeto lhes concederam um prémio, algo que não conseguiam imaginar que fossem capazes de obter com um trabalho realizado por eles, com muita autonomia e, em muitos momentos, em horários extracurriculares. Para o candidato a Professor porque lhe mostrou, de forma inequívoca, que o empenho dos professores tem impactes nítidos nos desempenhos dos alunos e que muito do que se pode conseguir, em termos de promoção do sucesso escolar e da equidade de oportunidades educativas, passa pela mudança das práticas e por os alunos realizarem trabalhos que tenham significado para eles e para as comunidades onde eles vivem.
A apresentação oral e discussão, durante as sessões dedicadas ao projeto e realizadas em aula, foram muito ricas. Permitiu que os alunos mobilizassem alguns dos conhecimentos apropriados, bem como que apropriassem outros, durante a própria discussão, ou que emergiam dos temas abordados. Até os participantes periféricos, que habitualmente chegavam atrasados, saiam a meio da aula (intervalo entre dois tempos letivos), estavam distraídos ou em conversas paralelas, se mostraram empenhados e interessados no trabalho que estavam a desenvolver. Participaram ativamente nas visitas que fizeram aos locais, na recolha fotográfica, nas descrições, na seleção dos três problemas e na discussão geral, assumindo-se como participantes legítimos. Este foi um dos aspetos muito positivos deste trabalho de projeto colaborativo.
Os questionários, elaborados por todos os grupos, em espaço pedagógico, permitiram confrontar as ideias prévias dos alunos com as opiniões da população local. Tiveram, por isso mesmo, um papel relevante, pois permitiram-lhes compreender alguns aspetos que lhes tinham passado despercebidos até então e isso fê-los sentir melhor as necessidades urbanísticas da comunidade onde vivem. A entrevista, cujo guião foi igualmente preparado previamente pelos grupos, e que foi realizada ao diretor da escola, revelou possíveis apoios para as soluções propostas. Assim, o trabalho de projeto colaborativo teve impactes no sucesso escolar e qualidade de vida da comunidade, contribuindo para a inclusão escolar e social. Além disso, permitiu que estes alunos elaborassem uma diversidade de materiais – roteiros para a recolha fotográfica, questionários, guião de entrevista – que contribuíram decisivamente para a qualidade dos dados recolhidos. Esta experiência de produzir instrumentos adequados à recolha de dados ainda é rara, nas escolas portuguesas. No entanto, ela é
muito relevante, pois prepara os alunos para tarefas que podem vir a desempenhar em profissões futuras e fá-los sentir competentes, melhorando a sua autoestima. Por último, permite-lhes aprender o que é fazer um trabalho de qualidade, pois compreenderam a importância de recorrer a diversos participantes, enquanto informadores privilegiados (eles próprios, os moradores, o diretor da escola, as pessoas que elaboraram os documentos que consultaram), a diversos instrumentos de recolha de dados, para proceder quer à triangulação dos participantes quer à dos instrumentos, confrontando as informações recolhidas com cada um deles e, assim, aumentando a acuidade da informação produzida e a justeza da solução proposta. Estes aspetos, essenciais em investigação, mas também em sondagens, bem como em trabalhos de projeto, são também uma mais-valia para a vida futura, do ponto de vista profissional. São, ainda, essenciais ao exercício de uma cidadania crítica, reflexiva e sustentada, pois, de futuro, têm muito mais capacidade para avaliar a qualidade dos trabalhos que leem.
Foi a primeira vez que a Escola Secundária da Baixa da Banheira participou neste projeto. Segundo a memória descritiva que os alunos elaboraram, e entregaram à comissão de avaliação do projeto, observa-se satisfação nas palavras que referem a oportunidade em propor soluções para a qualidade de vida da localidade, reconhecendo a sua continuação através do esforço coletivo. Sob a perspetiva destes alunos sobre esta experiência, é referido que, após terem percorrido a localidade com a ajuda de um guião da visita de campo, onde se observaram problemas urbanos vários, esta se dividiu, autonomamente, em grupos e voltou a visitar as ruas e os locais mais significativos, por iniciativa própria. Desta vez podiam decidir qual o caminho a percorrer. A partir desta atividade, cada grupo selecionou nove fotografias, ou seja, três para cada um dos três problemas urbanos selecionados por esse mesmo grupo. Também fez uma lista dos diversos problemas que os alunos daquele grupo identificaram, mas que não selecionaram como os três mais importantes, passíveis de registo fotográfico. Os problemas selecionados, anteriormente mencionados, assim como os problemas listados, estiveram presentes aquando de uma posterior visita de estudo a Lisboa, que consistia em conhecer e explorar as características de um outro espaço urbano. Após estas etapas, criou-se uma lista final com todos os problemas urbanos encontrados (Anexo 17) que foi utilizada para a eleição dos problemas a trabalhar no âmbito do projeto.
Os alunos referem que, para elegerem o problema urbano, foi necessário obedecer a uma regra: a seleção ser consensual. Mesmo que a maioria tivesse feito uma escolha, se apenas uma pessoa não estivesse de acordo, isso era suficiente para que esta não fosse considerada. Para esta nova etapa formaram-se quatro grupos e cada um tinha a lista dos problemas urbanos identificados. Elegeram-se, em seguida, dentro de cada grupo, três problemas urbanos em que todos os elementos daquele grupo concordassem. Após esta primeira escolha, formaram-se novos grupos e, de quatro grupos, passaram a ser dois. Ao fundir dois grupos foi necessário escolher entre seis problemas com a mesma condição anterior: a escolha ser consensual. Os grupos chegaram, então, a uma decisão final: um ficou com a criminalidade e segurança no espaço urbano; e o outro com a ausência dos parques infantis no espaço urbano. Porém, por se perceber que não haveria tempo suficiente para trabalhar as duas propostas, foi sugerido que se articulassem os dois problemas urbanos, formando um só grupo. Desta forma, se recuperou a esperança de terminar o projeto através de uma proposta de solução, algo que veio realmente a acontecer.