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Section 2: Harmonisation et environnement comptable international

1. Structuration et organisation de l’IASF :

Embora nosso enfoque neste trabalho seja a discussão sobre religião, ilusão e ciência em O Futuro de Uma Ilusão de Freud, nossa leitura é filosófica. Por isso, ao longo de nossa pesquisa, as interfaces entre religião, ciência e filosofia na obra de Freud se destacam. E para a compreensão da relação entre estes três campos do pensamento se faz necessário um estudo do contexto histórico da criação da psicanálise, escrita e publicação de O Futuro de Uma Ilusão, que é marcado pela sobreposição da ciência sobre a filosofia – com relação ao valor das análises do psiquismo –.

Muito embora a filosofia esteja em “desvantagem” com relação a ciência, no interesse de Freud, vimos que ele muito se interessou pela filosofia durante os anos em que frequentou a faculdade de medicina, onde assistiu aos seminários de Franz Brentano.

Admitindo que a filosofia era seu objetivo originário, como chega a escrever em uma carta de janeiro de 1897 a Fliess, Freud acreditava que se aproximaria mais da filosofia quando passasse da medicina para a psicologia. Em uma carta a Martha, Freud confessa que a filosofia é seu plano para o futuro.

Apesar do evidente interesse do jovem Freud pela filosofia, o seu desejo de que a psicanálise fosse reconhecida como ciência, aliado ao fato de que no meio científico a filosofia perdia valor, faz com que o autor de O Futuro de Uma Ilusão passasse a apresentar sempre – publicamente – o interesse de manter-se e manter sua psicanálise afastados da filosofia. No entanto, é possível ler ressonâncias do pensamento filosófico não apenas nos textos da metapsicologia, mas também em outros textos, como por exemplo o que estudamos aqui.

Em Esboço de Psicanálise (1938/1996), escrito de dez anos depois da publicação de O Futuro de Uma Ilusão, Freud define sua ciência psicanalítica:

Em nossa ciência, tal como nas outras, o problema é o mesmo: por trás dos atributos (qualidades) do objeto de exame que se apresenta diretamente à nossa percepção, temos de descobrir algo que é mais independente da capacidade receptiva particular de nossos órgãos sensoriais e que se aproxima mais do que se poderia supor ser o estado real das coisas. Não temos esperança de poder atingir esse estado em si mesmo, visto ser evidente que tudo que de novo inferimos deve, não obstante, ser traduzido de volta para a linguagem de nossas percepções, da qual nos é simplesmente impossível libertar-nos. Mas aqui reside a verdadeira natureza e limitação de nossa ciência (p.210).

A ciência psicanalítica, sempre em processo de construção, não pretende, segundo o seu fundador, oferecer respostas que devem ser tomadas como verdades definitivas. Neste ponto reside a primeira diferença entre a ciência criada por Freud e as ciências empíricas do seu tempo, das quais deveria derivar a identidade epistêmica da psicanálise. A análise do objeto da ciência psicanalítica não pode se dar somente pelos métodos usados pelas ciências naturais, há neste objeto de estudo algo que transcende a “capacidade receptiva particular de nossos órgãos sensoriais”.

Ainda que Freud quisesse identificar a psicanálise às ciências empíricas e afastá-la da filosofia, há sempre a necessidade de utilizar, na prática psicanalítica, construções especulativas e muitas destas erigem a partir da leitura filosófica do fundador desta ciência. Por isso, para que a epistemologia da ciência psicanalítica se utilize da linguagem da ciência é necessário que ela a transgrida.

É necessário afastar a psicanálise da filosofia, pois esta última utiliza a especulação como método e substitui a observação e pesquisa minuciosa sobre os fenômenos pela intuição. Este problema metodológico deve-se ao contexto histórico em que Freud formula sua ciência. Na tentativa de resolvê-lo, Freud destina um espaço em sua obra para as formulações psicanalíticas de cunho especulativo, a metapsicologia.

Assim, é impossível enquadrar a psicanálise somente no registro da ciência ou da filosofia. De acordo com seu fundador, em As Resistência à Psicanálise (1925):

Sucede, então, que a psicanálise nada deriva, senão desvantagens, de sua posição intermediária entre a medicina e a filosofia. Os médicos a vêem como um sistema especulativo e recusam-se a acreditar que, como toda outra existência natural, ela se fundamenta numa paciente e incansável elaboração de fatos oriundos do mundo da percepção; os filósofos, medindo-a pelo padrão de seus próprios sistemas artificialmente construídos julgam que ela provém de premissas impossíveis e censuram-na porque seus conceitos mais gerais (que só agora estão em processo de evolução) carecem de clareza e precisão. ( p.243)

É, no entanto, possível, como já afirmamos anteriormente, ler textos freudianos que se encontram fora da sua metapsicologia como se lê textos filosóficos, como fizemos em O Futuro de Uma Ilusão, analisando o encadeamento dos conceitos inscritos no discurso filosófico.

Além da evidente influência do iluminismo e do contexto histórico sobre o pensamento de Freud, é devido a sua necessidade de afastar a psicanálise da filosofia que Freud construirá seu discurso cientificista e, entendendo a religião como inimiga da ciência, formulará a sua crítica em O Futuro de Uma Ilusão.

Assim, o Deus do monoteísmo dá lugar, em O Futuro de Uma Ilusão, ao deus logos, levando o homem a superar a ilusão da religião e se aproximar do conhecimento da realidade. Este novo deus, que não é uma projeção do homem, como era o Deus da religião, segundo a leitura de Freud e de Feuerbach, significa a certeza de resposta aos maiores anseios dos homens e de extinção das ilusões que aprisionaram o homem até então.

Apesar de Freud ter declarado depois da publicação de sua obra que O Futuro de Uma Ilusão é seu pior livro, terminamos nossas considerações

defendendo-a, como fez Pfister no final de seu A Ilusão de Um Futuro, afirmando que o deus logos freudiano, ainda que também se fundamente em uma ilusão, é escrito com o objetivo de combater o sofrimento humano, a partir da ciência.

Diante disto, é necessário dizer que uma possível leitura filosófica de O Futuro de Uma Ilusão não se esgota nestas páginas ou no modo como procedemos na presente pesquisa. Nosso objetivo era, ao longo dos três capítulos, apresentar de que maneira é escrito o discurso cientificista freudiano em sua relação com a ideia de religião entendida como ilusão. Não pretendíamos abarcar as noções psicanalíticas presentes nesta obra, mas compreender a “genealogia” do discurso freudiano, buscando efetuar uma espécie de restauração histórica, de análise da origem dos conceitos que sustentam seu argumento e percorrer – ainda que brevemente – a teia que o envolve e o liga a outros argumentos importantes para a história da filosofia.

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