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Introduction du chapitre II :

3.3 Approche pour la formulation d’une théorie comptable :

Neste item, discutiremos um pouco do contexto social e político do período de criação dos jornais analisados, identificando alguns fatos que marcaram a história dos periódicos e da imprensa paraense.

No ano em que A Província do Pará foi criada, em 1876, iniciou-se um momento marcado pela forte ação política de Antonio José Lemos e Lauro Sodré. Sobre essas personagens, Nazaré Sarges (2002, p. 17) afirma que a história de ambos pode ser vista nas páginas de A Província, partidária de Lemos, e da Folha do Norte, ligada a Sodré.

Ricardo Borges resume:

No decurso de oitenta anos de República, a política do Pará, tem as suas causas e efeitos decorrentes da ação de Lauro Sodré e Antônio Lemos: ambos vindos dos últimos anos da Monarquia, quando jovens, e ingressaram na política, Lemos antecedendo Lauro; aquele maranhense, escrivão da Armada; Lauro, paraense, aluno da Escola Militar do Exército. Os dois, pobres e com ânimos de vencer; Lemos, de âmbito estadual; Lauro, nacional; Lauro tornar-se-ia ídolo dos paraenses, Lemos o transformador da Belém cidade-aldeia grande na mais formosa das capitais do País. Lemos oligarca paraense; Lauro projeção nacional (...) os partidos passariam a denominar-se Laurista e Lemista, de ódios pessoais irreconciliáveis, e Lemos tornar-se-ia responsável e, afinal, vítima desses excessos partidários, enquanto Lauro ídolo do nativismo paraense e atento à sua projeção nacional. E, assim, viveram e morreram (BORGES, 1986, p. 204).

Antonio Lemos foi intendente municipal de Belém pela primeira vez em 1897 e permaneceu em cargos de liderança por 14 anos de alguma forma, estando ligado a ações que possibilitaram a chamada Belle Époque na capital paraense (SARGES, 2002, p. 23). Sua trajetória política se mistura com sua vida jornalística, que foi iniciada no jornal bimensal O

Pelicano (1872-1874) e se consolidou em A Província do Pará (SARGES, 2002, p. 46). Lemos era membro do Partido Liberal e partidário da Monarquia, enquanto que Lauro Sodré fazia parte do Partido Republicano Federal e também exerceu cargos de poder e prestígio, como o de governador (SARGES, 2002).

A história da cidade é também um pouco a história de seu interventor [Antonio Lemos], seja no traçado urbano ou no poder constituído. Assim, Belém tornou-se, a partir da administração lemista, um canteiro de obras que deveria ser atrelado aos parâmetros estéticos de países europeus, o que em parte se tornava possível graças ao aquecimento da economia produzido pela exportação do látex. Durante décadas, a cidade foi orgulhosamente chamada de a “Paris Tropical”, ou então a “Francesinha do Norte”, refletindo a construção de um imaginário que as elites tentavam imprimir através da moda, de comportamentos, hábitos e sobretudo pela nova feição que assumia a cidade na administração lemista (SARGES, 2002, p. 115).

Em 1876, havia cinco jornais de publicação diária em Belém, além de outros semanais e bissemanais, que insuflavam polêmicas entre si (ROCQUE, 1976, p. 13). Próximo à virada do século, por volta da criação da Folha do Norte, já se vivia o período áureo de apogeu econômico do ciclo da borracha na região Amazônica e Belém contava, em 1896, com 91.993 habitantes (ESTADO DO PARÁ, 1902, p. 13).

Em 1898, Lauro Sodré foi eleito senador federal e fundou o Partido Republicano Federal no Pará, no qual lutou por toda a sua vida (BORGES, 1986, p. 209), apesar de ter

permanecido grande parte do tempo atuando diretamente na capital do país. Por sua vez, Lemos se consagrou como grande político da região, trazendo saneamento e eletricidade para Belém e incentivando a economia na capital paraense.

Em junho de 1911, Lemos renunciou à Intendência de Belém por se encontrar em estado debilitado de saúde e idade avançada, embarcando para a Europa e, posteriormente, indo residir no Rio de Janeiro. Já no fim da administração do Velho Lemos,10 há relatos de que a sua atuação no governo era arbitrária e despótica (SARGES, 2002). A sua saída da cidade foi acompanhada pelos oposicionistas, que, vaiando-o, tiveram que ser contidos por forças policiais. Em 1912, o ex-intendente voltou a Belém e encontrou a cidade em meio a violentos choques políticos entre aqueles que se mantinham alinhados a sua postura – liderados por seu sobrinho Arthur Lemos – e a oposição (ROCQUE, 1976, p. 110-113). De acordo com Seixas (2011b), esse embate era visível nas páginas da Folha do Norte e do Estado do Pará, que apoiavam Lauro Sodré, enquanto A Província era alvo de críticas, juntamente com o Velho Lemos.

No mesmo período, Sodré chegou a Belém para conciliar as disputas relacionadas às eleições para intendente de Belém, que apontavam resultados divergentes e poderiam gerar uma intervenção do governo federal (ROCQUE, 1976, p. 114-119). É nesse momento que Sodré sofre um suposto atentado (SARGES, 2002, p. 15).

Há divergências sobre a veracidade do atentado. Carlos Rocque (1976, p. 119) concorda com a versão de que o ataque foi uma “armação”, afirmando que as forças antilemistas “planejaram (...) uma simulação de atentado à vida daquele líder. E graças à execução desse plano incendiaram A PROVÍNCIA e arrastaram, pelas ruas, Antonio Lemos, promovendo a maior humilhação já feita nesta terra a um homem público”. Em entrevista a Carlos Rocque (1981), o político Ricardo Borges também concorda com a versão da simulação do atentado, enquanto que Abelardo Condurú – político paraense laurista – afirma que o atentado realmente ocorreu.

Seixas (2011b) relata que A Província divulgou primeiro e com antecedência o plano de simulação do atentado contra Lauro Sodré, que tinha como objetivo atingir Lemos e seu jornal. Nos editoriais de A Província, o plano era dos lauristas. Em seguida, a Folha publicou textos afirmando que o plano existia e era dos lemistas.

Após o atentado – tendo sido ele simulado ou não – o prédio d’A Província foi incendiado, assim como a casa de Lemos. O ex-intendente foi arrastado (de pijama) pela

10 Título pelo qual o ex-intendente ainda é referenciado hoje e que enfatiza o carinho do povo e resgata uma

cidade até chegar à casa do então intendente de Belém, Virgílio de Mendonça, onde se encontrou com alguns dos seus antigos correligionários (SARGES, 2002, p. 15-16). Lauro Sodré foi chamado e o protegeu da população até sua saída da cidade (BORGES, 1986; ROCQUE, 1976; SARGES, 2002). Lemos saiu de Belém, tendo perdido espaço para o seu adversário político, que agora gozava de prestígio em escala nacional. Lemos morreu pouco tempo depois, em 1913, no Rio de Janeiro (SARGES, 2002, p. 19).11

Os políticos envolvidos na expulsão de Lemos prepararam uma conciliação, diante da ameaça de intervenção federal, e Enéas Martins (fundador da Folha do Norte) se tornou interventor (ROCQUE, 1976, p. 149). Sodré foi eleito novamente senador em 1912 e, depois, entre 1921 e 1930, ano do fechamento do Legislativo por Getúlio Vargas. Sem a presença de Lemos, Sodré ganhou ainda mais espaço na política paraense, contando com o apoio da Folha

do Norte (BORGES, 1986, p. 211).

Durante a Revolução de 1930, A Província não estava em circulação devido a questões financeiras e foi o Estado do Pará que trabalhou mais diretamente na cobertura do movimento. Com a ascensão de Getúlio Vargas à Presidência do Brasil, o Estado do Pará passou a ser o órgão oficial dos revolucionários, representados, no Pará, pelo governador Joaquim de Magalhães Cardoso Barata (BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARÁ, 1985, p. 241).

Em 1946, após o segundo período como governador do estado, Magalhães Barata participou da criação de O Liberal. O jornal iniciou sua história com cunho fortemente político e apoiando as ações de Barata, como veremos nos próximos itens (BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARÁ, 1985, p. 271-273).

A partir dessa breve contextualização, destacaremos agora um pouco da história de cada um dos jornais analisados nesta dissertação.

11 Em 1973, os restos mortais de Antonio Lemos retornaram à Belém com pompas de chefe de Estado e foram