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Statut d’artiste et classe sociale d’appartenance

le poids des institutions dans la construction de la vocation

B. Statut d’artiste et classe sociale d’appartenance

Sabe-se, por outra parte, que a penetração no mercado musical português da parte dos músicos cabo-verdianos que, eventualmente, pudesse minorar os problemas advenientes da fragilidade estrutural do próprio mercado musical cabo-verdiano, não resulta fácil para muitos, embora fosse desejável incentivar tal prática, hoje reduzida a casos pontuais e localizados. Neste sentido, está-se perante um campo musical cabo-verdiano na AML marcado pela presença de uma relação centro-periferia e caracterizado basicamente por assimetrias e desigualdades acentuadas, que vão desgastando o próprio campo. Na prática, poder-se-á afirmar que o campo musical subdivide-se em grupos de músicos, cujas condições de trabalho estão mais ou menos asseguradas, em função dos perfis dos próprios actores e da natureza da sua inserção no respectivo espaço. Assim, em termos de funcionalidade do campo,

há um grupo de músicos que tem um mercado mais ou menos garantido, controlado, e há aqueles vão tentando entrar neste mercado, que não é fácil. Também, se fosse fácil, eu acho que toda a gente conseguia, qualquer pessoa que tocasse já estaria no mercado e, realmente, o mercado estaria saturado. Há dificuldades para entrar, há colegas que criam dificuldades para entrar. [Cantor/guitarrista/compositor/produtor musical, 38 anos, profissional a tempo inteiro, Carnaxide]

Aliás, alguns jovens músicos cabo-verdianos entrevistados acusam os chamados veteranos de lhes dificultar a penetração no espaço musical em Portugal, sentindo-se, por isso, preteridos. Os motivos evocados pela outra parte são múltiplos:

O problema é que nós os músicos antigos já temos nome na “praça”, todas as pessoas já confiam em nós e aqueles que chegam agora têm que ganhar o seu nome. Eu não gosto do rap, nem gosto da fusão zouk, que tem a ver com Antilhas. Esta malta jovem tem estado a tocar música angolana, o kizomba, o zouk, que é mais fácil. Aqueles jovens que nasceram cá têm a mania de rap, embora alguns toquem o funaná e estejam ligados ao batuque. Mas, também. é verdade que há jovens que já começaram a tocar música cabo-verdiana. Há malta nova que não quer aprender. Eu também aprendi com o Paulino Vieira, toquei com ele durante doze anos e não é brincadeira tocar com o Paulino. Punha-nos o cérebro a sair. Há, também, músicos cabo-verdianos que não são aproveitados, pois o seu mau feitio não os ajuda e daí o receio em serem chamados. [Baterista, 47 anos, profissional a tempo inteiro, Monte Abraão]

Confirma-se, pois, a existência de relações assimétricas e de desigualdade no seio do campo musical cabo-verdiano na AML, dividido entre, por um lado, os músicos ditos estabelecidos ou “veteranos”, que dominam o campo musical, do ponto de vista do mercado de trabalho e do prestígio (capital simbólico) e, por outro, os recém-chegados, ou “novos”, que chegam com promessas, vários projectos, sonhos e ilusões.

[…] a mim me foram prometidos mundos e fundos quando comecei na música, toda a gente tem esses problemas, certamente. Mas, também, ao longo do tempo, há que saber lidar com essas coisas, não ficando à espera que os outros façam algo que tens que fazer, tens que ir à luta […]. Chegou uma altura em que não era preciso ficar à espera de ninguém para fazer o que quer que fosse, avancei, fui tentando fazer as minhas coisas. Porque há sempre ilusão, quando chegas, dos tais estabelecidos que garantem que as coisas vão correr bem. Sempre funcionou assim. Sempre houve barreiras nessas relações

entre os instalados e os jovens que vão chegando, não só ao nível de cabo-verdianos, mas também noutros meios musicais onde já estive. Sei que existem em todos os meios essas barreiras […], o caloiro tem que sofrer para entrar no mundo, mas acho que é um processo natural das coisas. Agora, as pessoas têm que lutar, não podem ficar sentadas à espera que este ou aquele vá ajudar a fazer. Há muito pouca actividade musical cabo- verdiana em Portugal a sério, ou seja, muito pouco trabalho, perante um número muito superior de músicos cabo-verdianos e isto condiciona imenso. Há muita gente que quer fazer coisas e não as pode fazer. Se és músico profissional tens que trabalhar para viver e, se não tens meios de sobrevivência, terás que deixar a música e tratar de outra coisa. [Cantor/guitarrista/compositor/produtor musical, 38 anos, profissional a tempo inteiro, Carnaxide]

Perante a carência de trabalho, na área musical, os jovens músicos, em primeiro lugar, vivem algumas dificuldades, poio o mercado de trabalho é precário e vulnerável, não há espectáculos musicais em número suficiente e resulta particularmente difícil a sua penetração no campo musical, porquanto os mais velhos receiam que o seu espaço seja apropriados pela geração mais jovem, o que não deixa de constituir um absurdo para alguns. Com efeito,

é difícil penetrar nesses círculos, porque [os músicos que os integram] são fechados, eles é que os dominam e têm esquemas montados Sempre acompanhei artistas, mas nunca me deram oportunidade para acompanhar música tradicional. A geração dos mais velhos está muito ligada à música tradicional e não gosta de fusões. Os mais novos tocam zouk e os mais velhos esquecem-se de que antigamente tocavam músicas estrangeiras, tais como a kumbia ou o samba, por exemplo. Os músicos cabo-verdianos em Portugal não são unidos, pois cada um de nós tem interesses próprios. É difícil penetrar nesses espaços musicais, pois os músicos mais velhos já têm o seu ambiente formado, conseguem espectáculos e saídas e não dão aos mais novos a possibilidade de mostrar o seu valor. Entrar nesse espaço musical é complicado. É uma situação um pouco constrangedora, pois são as mesmas pessoas que tocam sempre com esses grupos […]. Gostaria que os