Para pensarmos em um mundo erigido com base na racionalidade da cooperação é urgente e necessário repensar o que dirige e organiza os processos sociais nas diversas esferas da sociedade (na política, na economia, na educação e na cultura), a começar por uma mudança epistemológica ancorada em fundamentos éticos e políticos.
Esta mudança é e será elaborada por relações sociais intersubjetivas forjadas em torno da constituição dos indivíduos como pessoas imersas e engajadas no, pelo e com o mundo, em um movimento dialético estabelecido pela interdependência recíproca entre os seres humanos e o mundo num determinado espaço – tempo.
Nesse movimento dialético, as pessoas estão sujeitas a despersonalização produzida tanto pela miséria quanto pela abundancia, assim como pela personalização atingida pela consciência e pela ação crítica em favor de uma existência vivida em diálogo com os outros, em que o foco principal é o alcance da dignidade de todos os seres humanos.
Essa existência se dá, no mundo, por intermédio da integração das pessoas com esse mundo e com as outras pessoas, pela assunção da não alienação (criticidade), realizada por intermédio de um engajamento ativo no interior da realidade histórica e social, que se configura pelo entrelaçamento humano, ético, político e espiritual, fundamentado em ações que apontam para a ascensão do personalismo por intermédio do comprometimento e da vivência de valores, como por exemplo, a generosidade e o amor pela humanidade e pelo mundo natural (a comunidade da vida como um todo).
Segundo Mounier (2000, p.46), “sem o amor as pessoas não chegam a tornar-se elas mesmas. Quanto mais os outros me são estranhos, mais sou estranho a mim mesmo. Toda a humanidade é uma imensa conspiração de amor centrada em cada um dos seus membros”.
Por outro lado, também existe a possibilidade de queda para a alienação das pessoas, ao se despersonalizarem em suas existências assumindo valores ligados ao mundo do ter exacerbado, tais como o consumismo, o esbanjamento e o enclausuramento em si mesmo. Sobre essas duas possibilidades (despersonalização ou personalização) de os seres humanos viverem as suas existências no, com e pelo mundo, Andreola (1985) esclarece:
O mundo não pode prescindir do homem e o homem não pode prescindir do mundo. É durante sua existência encarnada que o homem realiza seu movimento de personalização. Mas esta existência representa também uma existência despersonalizada, através das diferentes formas de alienação. Mounier só está em parte de acordo com Marx; o fim da miséria é o fim de uma alienação mas não o fim de toda alienação. Há também alienação da abundância. Não podemos esquecer as críticas de Mounier ao mundo do dinheiro e do espírito burguês e suas reflexões sobre dialética ser-ter. (ANDREOLA, 1985, p.106).
Para que seja possível a efetivação de processos cooperativos na prática social, é indispensável que aconteça uma mutação da alienação, amparada no egocentrismo, para a personalização edificada pela atuação político–pedagógica calcada na disponibilidade da pessoa com os outros e ao mundo, que se caracteriza pelo exercício de uma cultura forjada numa vivência assentada no amor por toda a comunidade da vida, traduzida por um consumo e por uma produção destinada a atender as necessidades básicas de todos os seres humanos,
levando-se em conta a não destruição dos ecossistemas. Isto é, de uma cultura instauradora de uma política e de uma economia fundada na lógica da dádiva.
Neste sentido, na acepção de Mounier (1961) a educação deve suscitar e promover o desabrochar da pessoa, a partir do campo da economia e da cultura nos seguintes termos: A economia não deve ser estruturada à margem da pessoa (a favor da lógica do capital), mas organizada sob os princípios da justiça social garantidores do atendimento às necessidades individuais das pessoas e das necessidades coletivas da comunidade de pessoas.
Já a cultura, deve possibilitar a realização da pessoa em todas as suas dimensões, no sentido de proporcionar a descolonização do imaginário narcísico e consumista com vistas à consignação de uma vida pautada pela abertura ao outro, pela transcendência, pelo não consumismo e pela solidariedade.
Dessa forma, essa educação parte da radicalidade de sujeitos comprometidos com a libertação dos seres humanos, no que se refere à tomada da posição desses indivíduos como sujeitos críticos mediante o diálogo entre ação e reflexão da realidade local - a que esses indivíduos estão imersos - num processo metodológico fundado numa leitura e julgamento compartidos dessa realidade e da realidade nacional e mundial e no fazer colaborativo entre esses indivíduos em prol da transformação social, que emergem localmente e se espalham e se comunicam com outros processos complementares ou da mesma natureza, que ocorrem e estão por emergir em outras regiões do mundo.
Com efeito, esse processo metodológico pressupõe a comunhão entre os seres humanos, que acontece, conforme Berdieaff (1935), no amor como encontro do eu e do tu, isto é, por intermédio da realização da utopia como uma humanização concreta, no sentido cunhado por Bloch, que se configura historicamente pela radicalização crítica do diálogo entre os seres humanos em que cada um deles atua em consonância com o outro, respeitando a opinião deste e - ao respeitar esta opinião – estabelece uma comunicação que não sufoca e não exclui esse outro. Segundo Freire (1967) essa radicalização,
Que implica no enraizamento que o homem faz na opção que fez, é positiva, porque preponderantemente crítica. Porque crítica e amorosa, humilde e comunicativa. O homem radical na sua opção, não nega ao outro o direito de optar. Não pretender impor a sua opção. Dialoga sobre ela. Está convencido de seu acerto, mas respeita no outro o direito também de julgar-se certo. Tenta convencer e converter, e não esmagar o seu componente. Tem o dever, contudo, por uma questão mesma de amor, de reagir à violência dos que lhe pretendem impor o silêncio. (FREIRE, 1967, p.49).
Assim, para a realização dessa utopia, é de fundamental importância que se faça uma leitura crítica da realidade vivida pela humanidade nos dias atuais, em termos de uma reflexão-ação sobre os problemas enfrentados pelas pessoas no cotidiano, os quais - em grande parte – são ocasionados pelo pensamento hegemônico da modernidade eurocêntrica ancorado no paradigma do individualismo metodológico, que há cinco séculos conduz um processo de desenvolvimento que apenas considera como válido os conhecimentos elaborados na realidade social do Norte global.
Esse desenvolvimento desconsidera todas as outras formas de saberes construídos em países localizados no Sul global. Isso faz com que as pessoas do Sul global sejam esmagadas e colonizadas, externamente, pelos países do Norte global e internamente – em alguns países do sul – pelas elites de alguns desses países que reproduzem a colonização imposta proveniente do pensamento dos países hegemônicos do Norte.
Esse paradigma da modernidade desencadeia uma concepção falsa de desenvolvimento ao estabelecer a divisão da humanidade em duas classes de países: aqueles supostamente desenvolvidos (os localizados no Norte global) e os subdesenvolvidos (as nações localizadas no Sul global).
Decorre dai que essa divisão produziu e reproduz até os dias atuais uma Filosofia e uma Ciência, erigidas no Norte global, que elaboram um conhecimento excludente (para a maior parte da humanidade) baseado em preceitos voltados ao utilitarismo e ao interesse, os quais promovem a exploração dessa humanidade e da natureza como se fossem mercadorias.
Isso acarreta que uma parte da humanidade (os ricos) vive à custa da exploração do trabalho de uma maior parcela dessa humanidade (os mais pobres) e da destruição da natureza. Como consequência dessa forma colonial de exploração, há desordens no sistema social pelo aprofundamento da fome e miséria em todo o mundo, assim como pelo agravamento de desequilíbrios ecológicos nos sistemas naturais pela depredação destes. Esse quadro de desordem sócio-ambiental gera gravíssimos problemas, como aponta Garcia Pérez (2011):
Ao longo do século XXI, os habitantes passaremos de ser 6 bilhões para ser 9 bilhões; a distribuição dos recursos no planeta é profundamente desigual: 20 % da população mundial consome 80 % dos recursos; muitos milhões de pessoas não desfrutam das mínimas condições de vida: 5.000 pessoas morrem a cada dia por beber água contaminada, 1.000000 não têm acesso à água potável, 1000000 padecem de fome: o uso de alguns recursos não responde nem as necessidades básica da humanidade nem o que ditaria o senso comum: mais de 50 % dos cereais comercializados no mundo não se destinam à alimentação humana, mas a alimentação de gado e a fabricação de biocombustíveis; 40 % das terras cultiváveis estão já degradadas, 13 milhões de florestas desaparecem a cada ano, 75 % dos recursos pesqueiros estão esgotados ou a ponto de se esgotar, e como consequência do mencionado anteriormente, as espécies da terra estão se extinguindo a um ritmo mil vezes superior ao que seria natural. (GARCIA PÉREZ, 2011, p. 109-110).
O paradigma da modernidade eurocêntrica produz a destruição da vida como um todo, pela ausência de compaixão e reciprocidade, ou seja, para as nações do Norte global se desenvolverem, é preciso que os outros (as nações do Sul) sejam colonizadas e – ao mesmo tempo - que a natureza seja mercantilizada.
Assim, a modernidade eurocêntrica, desde a invasão e conquista da América até os dias de hoje, é fundamentada na opressão, na violência, na destruição, no desrespeito às culturas de outros povos e na visão antropocêntrica e imediatista baseada na seguinte premissa: os seres humanos podem explorar a natureza para satisfazer as suas vontades sem o cuidado e a responsabilidade com o planeta terra e com o futuro das gerações vindouras.
Em síntese, essa modernidade se impõe por uma epistemologia centrada no eu absoluto - procedente do continente europeu -, que é forjada na opressão violenta caracterizada pela primazia da competitividade, pelo não reconhecimento à diversidade cultural dos povos do Sul global e pelo aniquilamento da natureza. A esse respeito, Bautista (2013) afirma que:
A modernidade aparece como sistema-mundo (mediante a invasão e colonização européia, desde 1492), subordinando o resto do planeta como periferia de um centro de um domínio mundial: Europa ocidental. Desde esse centro se desestrutura todos os outros sistemas civilizatórios de vida e se inaugura, pela primeira vez na história das civilizações, um processo de pauperização a escala mundial, tanto humana como planetária. Trata-se de uma forma de vida que, a partir da conquista e da colonização do novo mundo, marca o início de uma época, que em cinco séculos, produziu os maiores desequilíbrios, não apenas humanos mais também ao meio ambiente. Quer dizer, uma forma de vida para “desenvolver-se” deve destruir constantemente. Para encobrir isto, produz um conhecimento que justifica essa aposta como inevitável e boa (antes, apenas os fortes podiam sobreviver. Agora, somente os competitivos); o que enquanto Ciência e Filosofia formaliza-se um discurso sofisticado da dominação com base na racionalidade: eu vivo se tu não vives, eu sou se tu não és. (BAUTISTA, 2013, p. 12-13).
Essa racionalidade, do paradigma da modernidade hegemônica, estabelece que as ações realizadas pelas pessoas em suas relações com os outros, são ligadas e determinadas pelo não reconhecimento da alteridade e consequentemente pela exclusão de um dos polos dessas relações.
Como decorrência do imperativo dessa racionalidade, há o aprofundamento da violência pela opressão praticada pelos opressores aos oprimidos. Opressão esta que é marcada fortemente pela ideia de que os oprimidos e o meio ambiente são objetos a serem possuídos pelos opressores, como bens materiais, com a finalidade de obtenção de ganhos econômicos. Neste caso, a vida fica reduzida apenas ao aspecto financeiro. Nesta direção, no que tange aos opressores, Freire (2005) diz que:
Nesta ânsia irrefreada de posse, desenvolvem em si a convicção de que lhes é possível transformar tudo a seu poder de compra. Daí a sua concepção estritamente materialista da existência. O dinheiro é a medida de todas as coisas. E o lucro, seu objetivo principal. Por isto é que, para os opressores, o que vale é ter mais e cada vez mais. À custa, inclusive, do ter menos ou nada ter dos oprimidos. Ser, para eles, é ter e ter como classe que tem. (FREIRE, 2005, p.51).
Dessa forma, ao valorar apenas a obtenção de bens materiais ligados à concepção do ter em detrimento da valorização dos bens simbólicos relacionados ao ideário do ser, essa racionalidade destrói os elos entre as pessoas, organizações sociais e nações dirigidas a uma política ancorada numa ética promotora da solidariedade, da compaixão e da reciprocidade.
Isso se deve ao fato de que essa racionalidade se fundamenta no entendimento dos problemas relacionados à vida pelo viés reducionista do mercado, o qual atribui que as ações humanas individuais e grupais são motivadas estritamente pelo afã do interesse e do egoísmo, com o objetivo da obtenção de vantagens que possibilitem a sustentação da vigência da ideologia engendrada pelo produtivismo e consumismo, quando a vida deixa de ser o princípio organizador das sociedades e, em seu lugar, o dinheiro passa a gerir e a organizar o mundo das sociedades. Em direção convergente Vandana Shiva (1989) citada por Hathaway e Boff (2012) enxerga que:
A última forma de reducionismo é alcançada quando colocamos a natureza sob um entendimento econômico que mede o valor de tudo e da riqueza a partir do dinheiro. A vida não é mais o princípio organizador das atividades econômicas. O problema é que o dinheiro tem uma relação assimétrica para toda a vida e os processos da vida. A exploração, a manipulação e a destruição da vida podem ser uma fonte de dinheiro e lucro, mas estes não podem se tornar uma fonte de vida ou de suporte da vida. Esta assimetria explica o agravamento da crise ecológica em decorrência da diminuição do potencial gerador da vida da Terra; e essa assimetria também explica o aumento do acúmulo de capital e do “desenvolvimento” como um processo de substituição do capital e sustento da vida pelo capital e lucro monetário. (HATHAWAY E BOFF, 2012, p. 95-96)
Essa ideologia promove uma ilusão nas pessoas ao afirmar que o crescimento e o progresso econômico serão alcançados por todas as nações do mundo. Na verdade, o que se verifica é que esse crescimento propagado e conduzido pelas nações hegemônicas traz como consequência à elevação do poderio econômico e também militar dessas nações, através do domínio da maior parte da humanidade e do extermínio do planeta terra. A esse respeito desse poderio, Dupas (2003) escreve que:
Com a derrocada do império, a Rússia detém um produto interno bruto de apenas US$ 330 bilhões e a duras penas gasta 8 % dele com despesas militares. Já os Estados unidos têm um produto interno bruto de US$ 11 trilhões (mais de 30 vezes maior) e pode dar-se ao luxo de gastar atualmente pouco mais de 4 % para um orçamento superior a todo o produto interno bruto russo. E habilita-se à condição de único país que, atualmente pode conduzir com autonomia uma guerra em qualquer parte do mundo. Os Estados unidos sozinho têm 32 % do produto interno bruto mundial. Se juntarmos a ele os demais países centrais – Japão, Alemanha, Reino unido, França e Itália -, temos os seis maiores dos 205 países do mundo concentrando sozinhos 64 % da riqueza e do poder mundiais, com uma renda média percapita de US$ 26 mil anuais. (DUPAS, 2003, p.02).
Esse domínio se constrói pela intervenção de uma Pedagogia de cunho autoritário, que segundo Quijano (2005), introjeta a cultura dos colonizadores do Norte global aos povos do Sul global, através da colonialidade do poder que encobre os saberes e os valores do mundo simbólico pertencente a esses povos, concomitante com a afirmação da cultura capitalística do Norte global como sendo a única credível do ponto de vista científico e filosófico.
Esta cultura baseia-se no ter possessivo, que se insere no modo de viver das pessoas, de maneira vertical, ao fazer com que estas pessoas acreditem na falácia de que a posse dos bens materiais é algo capaz de satisfazer a todas as necessidades humanas. Na verdade, isso não acontece pelo motivo de que os seres humanos se satisfazem não apenas pela dimensão
econômica, mas por outras dimensões ligadas ao modo de ser mais com os outros, como o amor, a amizade e a espiritualidade.
Desse modo, a posse é algo transitório e não passa de uma fantasia criada e transmitida pela cultura do ter coisificadora e promotora da apatia do humano, isto é, essa cultura produz uma insensibilidade perante os problemas da vida A esse respeito, Fromm (1976) escreve que:
No modo ter, não há relação viva entre mim e o que tenho. A coisa e eu convertemo- nos em coisas, e eu a tenho porque tenho o poder de fazê-la minha. Mas há também uma relação inversa: ela tem a mim, porque meu sentido de identidade, isto é, de lucidez, repousa em meu possuí-la (e tantas coisas quanto possível). O modo ter de existência não se estabelece por um processo vivo e criativo entre o sujeito e o objeto; ele transforma em coisas tanto o sujeito e o objeto. A relação é de inércia e de não de vida. (FROMM, 1976, p.88)
Com consequência do predomínio desse modo ter, que funda a globalização neoliberal na atualidade, as relações entre as pessoas, empresas, nações e continentes se estabelecem numa premissa de um desenvolvimento estruturado apenas na acumulação de bens materiais e na busca do lucro.
Essa busca pelo lucro, forjado na competitividade, faz com que as pessoas, as empresas, os estados e os países disputem espaço e poder de forma violenta ao aniquilar o outro em seus objetivos e aspirações. Isso faz com que se estabeleçam relações engendradas no “império da morte”, nas escalas local, nacional e global, pela ausência do cuidado e da cooperação com o outro. O que impera, nesse caso, é o poder beligerante dos mais fortes em detrimento dos mais fracos.
Esse poder acarreta a destituição das sociabilidades comunitárias motivadas e implementadas pela compaixão, pela amizade e pela reciprocidade, as quais fundam um modo de vida centrado no princípio da cooperação em torno da formação de redes no, pelo e com o mundo estruturadas em ações de doação, compartilhamento e redistribuição.
A destituição dessas sociabilidades na sociedade faz com que aconteça o aumento e o agravamento de atitudes eivadas de egoísmo, como o individualismo e a competitividade, que conduzem ao desaparecimento da política como uma atividade voltada para o interesse de uma cidadania sustentada pelo fortalecimento de processos de libertação na vida.
Neste sentido, esses egoísmos acabam instaurando um modo de vida contrário à humanização calcada em ações dirigidas para a emergência de uma ética apoiada no diálogo intercultural em torno da busca da equidade de direitos agregada às diferenças entre os
participantes das relações sociais, já que há uma exclusão dos outros que pensam e age diferente do pensamento dominante: pessoas, movimentos e organizações sociais contrárias à lógica hegemônica do pensamento único neoliberal baseado no imperativo da monocultura do saber e do poder.
Esse imperativo se imiscui em quase todas as instituições do mundo globalizado, gerando uma cultura voltada para o predomínio do apoderamento dos que detém o poder (os opressores) sobre os que são destituídos de poder (os oprimidos), bem como sobre o planeta Terra.
Assim, essas instituições, em grande parte, acabam transmitindo e instituindo – através da propaganda e publicidade dos grandes meios de comunicação de massa - valores adstritos a uma perspectiva voltada para a celebração do eu, fundada na exclusão do outro, que se alastra em todos os lugares do planeta, constituída por valores alheios a uma cultura da comunhão geradora de relações humanas mútuas de amor e respeito ao outro. A respeito dessa perspectiva, Milton Santos (2008) esclarece:
Ao nosso ver, a causa essencial da perversidade sistêmica é a instituição , por lei geral da vida social, da competitividade como regra absoluta, uma competitividade que escorre sobre todo o edifício social. O outro seja ele empresa, instituição ou indivíduo, aparece como um obstáculo à realização dos fins de cada um e deve ser removido, por isso sendo considerado coisa. Decorrem daí a celebração dos egoísmos, o alastramento dos narcisismos, a banalização da guerra de todos contra todos, com a utilização de qualquer que seja o meio para obter o fim colimado, isto é, competir e, se possível vencer. (MILTON SANTOS, 2008, p.06).
Desse modo, a competitividade instaura uma opressão desenfreada em todas as esferas da sociedade (na economia, no social, na cultura, na política e na educação) ao estabelecer o culto e a prevalência do individualismo no cotidiano da vida como regra em detrimento de ações engendradas na ajuda e na coexistência entre os grupos sociais, instituições, países e continentes.
Com efeito, o individualismo apenas admite a junção de instituições para competir com a finalidade da obtenção de benefícios em dinheiro e consequentemente da retenção desse dinheiro. Sobre esse fenômeno, Guerrieri (2004) diz que: